sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nutriente Multiuso



Além do conhecido papel para a saúde dos ossos, a vitamina D é importante para prevenir diabetes, câncer, hipertensão e infecções; saiba como garantir o aporte correto
Leonardo Wen/Folha Imagem

A empresária Vera Folli, 53, trocou os remédios contra esclerose múltipla por vitamina D e não manifesta nenhum sintoma da doença.

FERNANDA BASSETTE / JULLIANE SILVEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

Não passa uma semana sem que surja uma nova pesquisa associando a falta de vitamina D no organismo a alguma doença. Os problemas vão além da saúde óssea prejudicada -relação já estabelecida, pois o nutriente contribui para a fixação do cálcio nos ossos. Hoje, estudos mostram que a deficiência pode levar a hipertensão, diabetes, infecções e alguns tipos de câncer.
Há até pouco tempo, os especialistas acreditavam que a discussão sobre a falta da vitamina era desnecessária no Brasil, já que um país tropical recebe luz solar suficiente -a maior parte da vitamina D é sintetizada com a ajuda dos raios solares.
No entanto, pesquisas recentes já apontam problemas entre os brasileiros. Um estudo realizado com 603 funcionários do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo) mostrou deficiências da vitamina tanto no fim do inverno quanto no término do verão.
"Ninguém esperava esses resultados para São Paulo. Ainda faltam estudos em outras partes do país, mas talvez seja possível extrapolar os resultados para toda a região que vai de Belo Horizonte ao Sul, principalmente nas grandes cidades", diz Rosa Moysés, nefrologista do Hospital das Clínicas de São Paulo e autora da pesquisa.
Um outro trabalho, feito por pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), com 177 idosos que vivem em instituições e outros 243 idosos que moram em casa. Entre os primeiros, 41% tinham níveis muito baixos de vitamina D e, entre os outros, 30% .
"Os números são assustadores. Mesmo trabalhos com mulheres no Recife encontraram grande deficiência, porque elas também se escondem do sol. É um problema das grandes cidades", afirma a endocrinologista Marise Castro, chefe do Setor de Doenças Osteometabólicas da universidade.
O deficit também existe entre adolescentes. A nutricionista Bárbara Peters, pesquisadora da Unifesp, detectou o problema em uma pesquisa feita com 136 jovens de Indaiatuba (interior de São Paulo) -62% deles apresentavam índice insuficiente de vitamina D.
"Não esperava esse resultado, pois são adolescentes saudáveis que vivem em uma cidade bastante ensolarada."
Trabalhos feitos em animais mostraram que a vitamina D tem um papel inibidor da renina, hormônio que contribui para elevar a pressão arterial.
Um trabalho finlandês divulgado na semana passada no "American Journal of Epidemiology" confirma o alerta. Por 27 anos, foram monitoradas 5.000 pessoas.
Houve relação entre baixos índices da vitamina e maior risco de derrame e de outras doenças cardiovasculares.
"Pessoas com níveis adequados de vitamina D têm menos risco de calcificação das artérias, pois a vitamina possui uma ação anti-inflamatória", afirma Marcelo de Medeiros Pinheiro, reumatologista da Unifesp.
O nutriente também estimula a produção de insulina, melhorando o controle da glicose, e diminui a resistência ao hormônio -o que ocorre em quem tem diabetes tipo 2. Sua falta pode favorecer o desenvolvimento da doença.
Tumores de cólon, de próstata e de mama também já foram associados à deficiência de vitamina D em pesquisas. A explicação pode estar no papel da vitamina no ciclo de proliferação celular -a substância ajuda a equilibrar a divisão das células.
Quem tem deficiência da vitamina é também mais vulnerável a infecções, pois o nutriente atua na produção de proteínas antibacterianas.
"Uma das mais estudadas é a tuberculose. Um estudo em laboratório mostrou o papel da vitamina D na doença", acrescenta Moysés.

Combate
A explicação para as baixas taxas da vitamina no sangue são a pouca exposição ao sol -já que as pessoas passam boa parte do tempo em escritórios- e o baixo consumo de alimentos com o nutriente em quantidade razoável.
Com relação ao sol, ainda existe uma grande polêmica: o uso de filtro solar. Para alguns especialistas, o protetor dificulta a absorção dos raios UVB, responsáveis por atuar na sintetização da vitamina.
Por isso, eles sugerem uma exposição de pernas e braços descobertos por cerca de 15 minutos diários sem filtro.
"O produto certamente diminui a produção da vitamina D. Mas hábitos saudáveis [como exercícios ao ar livre] também podem ajudar a diminuir a hipovitaminose D, pois aumentam a exposição solar, mesmo naqueles que irão usar o protetor", diz Moysés.
No entanto, Marcus Maia, dermatologista e oncologista da Santa Casa de São Paulo, discorda e diz que não existe fotoproteção tão intensa capaz de impedir a síntese da vitamina.
Ele diz que sete minutos de exposição solar, três vezes por semana, são o suficiente. Maia analisou os níveis de vitamina D no sangue de 50 pessoas: 25 com melanoma (tipo mais agressivo de câncer de pele) e que usavam protetor solar diariamente nas doses recomendadas e 25 pessoas que não tinham a doença.
Ele constatou que nenhum paciente tinha níveis insuficientes da vitamina. "Nem quem precisa usa o filtro solar corretamente. Proteção solar absoluta, capaz de bloquear a síntese da vitamina D, é impossível. Por isso, outras possíveis causas do deficit da vitamina teriam de ser estudadas", diz.
O consumo de alimentos que contêm o nutriente é indicado, mas não resolve o problema. Só de 10% a 20% do valor diário recomendado podem ser obtido por meio dos alimentos.
Segundo Marcelo Pinheiro, pesquisa feita com 2.400 pessoas constatou que o brasileiro consome cinco vezes menos vitamina D do que o recomendado internacionalmente -que é de dez a 15 microgramas.
Por esse motivos, especialistas acreditam que seja necessária uma política de fortificação de alimentos e de suplementos da vitamina. No Brasil, o nutriente só é encontrado em versão manipulada.
Roseli Sarni, presidente do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Pediatria, diz que crianças de até 18 meses devem receber suplementação, pois o que ingerem com o leite materno não é suficiente.
Sarni afirma que a suplementação de vitamina independe do fato de a criança tomar sol. Nessa faixa etária, a recomendação semanal é de meia hora se o bebê estiver só de fraldas ou de duas horas se estiver com rosto, mãos e pés expostos ao sol.





Vitamina é usada contra esclerose
DA REPORTAGEM LOCAL

Pacientes com esclerose múltipla têm sido tratados também com vitamina D pelo neurologista Cícero Galli Coimbra, da Unifesp.
Pesquisas mostram que pessoas com esclerose e outras doenças autoimunes têm uma dificuldade genética de sintetizar vitamina D. "Essa produção é o mecanismo que a natureza criou para impedir que o sistema imunológico agrida o próprio organismo", afirma.
Isso quer dizer que esses pacientes têm resistência ao nutriente e precisam de doses elevadas para evitar a agressão do sistema imune. Os melhores resultados são obtidos com doses diárias que variam de 20 mil a 40 mil UIs (unidades internacionais) de vitamina.
O tratamento foi desenvolvido com base em estudos que mostram que as pessoas com as manifestações mais graves da doença são as que apresentam os menores índices de vitamina D no organismo.
"Pode demorar até algumas décadas, mas fatalmente a medicina vai usar a vitamina D como a principal forma de combater doenças autoimunes. O que vai atrasar isso é o preconceito dos médicos com relação à vitamina e a questão é econômica -remédios contra essas doenças são caros e há um grande público consumidor."
A empresária Vera de Melo Folli, 53, ingere 25 mil UI diariamente há quatro anos. "Fiz o tratamento tradicional contra esclerose por dois anos, mas estava piorando e sentia muitos efeitos colaterais. Desde 2005, eu uso somente a vitamina D e nunca mais tive crises. Trabalho 14 horas por dia e tenho uma energia absurda", conta.
Ela monitora os índices de vitamina D por exame de sangue e tem consultas médicas a cada seis meses. (JS)


Alimentos com mais vitamina D
É indicada a ingestão de 10 a 15 microgramas por dia, além da exposição ao sol
Salmão
100 g = 7 microgramas

Sardinha
100 g = 4,5 microgramas

Atum
100 g = 3,5 microgramas

Gema de ovo
1 unidade = 0,9 micrograma

Ostra
100 g = 8 microgramas

Leite integral
1 copo (250 ml) = 0,5 micrograma

Leite de soja fortificado
1 copo (250 ml) = 2,5 microgramas


Fonte: BÁRBARA SANTA ROSA EMO PETERS, nutricionista, e MARCELO PINHEIRO, reumatologista

Sintetizando
A maior parte da vitamina D presente no organismo é produzida com a ajuda do sol

1 - Uma substância chamada 7-dehidrocolesterol está presente na epiderme

2 - Os raios UVB do sol entram em contato com a pele e o calor converte a substância em vitamina D3

3 - A vitamina D3 cai na corrente sanguínea e chega ao fígado

4 - No órgão, se transformaem 25-hidroxivitaminas D

5 - Nos rins, se transformam em vitamina D ativa

6 - Então, participa de processos como fixação de cálcio no osso, absorção de cálcio pelo intestino e funções neuromusculares

Fonte: MARISE CASTRO, endocrinologista

Mais informação: Va pegar uma praia e overfishing

As fotos são minhas, mas a reportagem completa foi presente da Syl

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Segundas sem carne: é preciso comer menos carne para salvar o planeta?



Dando continuidade à Campanha "Segunda sem carne", trago entrevista, originalmente do Le Monde, publicada no Eco-consciência:

Os diálogos com Fabrice Nicolino estão publicados no Le Monde, 16-10-2009.
A tradução é do Cepat.

ours: De que modo a produção de carne tem consequências sobre a mudança climática?

Fabrice Nicolino: É uma questão complexa, mas dispomos de um documento oficial, institucional, um enorme relatório de 2006 da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), da ONU. De fato, trata-se de uma análise global de todo o ciclo da produção pecuária no mundo. Não somente dos animais, mas a sua alimentação, os meios de transporte utilizados [para levá-los aos frigoríficos]. Esse relatório estima que todo o gado mundial emite 18% de gás de efeito estufa de origem humana, e esse total é superior àquele que diz respeito aos transportes utilizados pelos seres humanos (carros, navios…).

Pharell_Arot: Bom-dia. Sendo um aficionado por carne, eu me pergunto sobre as condições a serem adotadas para conjugar os prazeres alimentares e o desenvolvimento sustentável. Quais são, para você, as precauções que um consumidor médio pode tomar imediatamente?

Fabrice Nicolino: A primeira coisa é lembrar que o consumo de carne na França foi multiplicado aproximadamente por 4 desde a segunda Guerra Mundial. Nós comemos muita carne, por razões econômicas e políticas. Eu realmente não tenho conselho a dar. Minha opinião é que podemos comer muito menos carne, comer uma carne de melhor qualidade. Pessoalmente, eu como carne, mas cada vez menos, e é carne biológica, porque nesta maneira de produzir está proibido o uso em grande quantidade de produtos medicinais e químicos.

Pharrell-Arot: Há consumos de espécies menos perigosas que outras para o planeta? A de porco, por exemplo?

Fabrice Nicolino: O pior transformador de energia é o boi. Quanto menos vegetais um animal consumir, menos o seu consumo é prejudicial para os equilíbrios do planeta. E desse ponto de vista, há uma certa hierarquia que vai do frango ao boi passando pelo suíno. O menos mal é o frango.

Herve_Naturopathe: Há um lobby francês dos frigoríficos/criadores tão importante quanto nos Estados Unidos?

Fabrice Nicolino: Realmente creio que não. Existe um lobby da carne industrial na França, poderoso, mas que não tem nada a ver com a extraordinária importância que a “carne” tomou nos Estados Unidos. Nesse país, há uma história apaixonante por trás do lobby da carne. Um notável livro, La Jungle, publicado em 1906 por Upton Sinclair, descreve o universo dos matadouros de Chicago. É um livro belíssimo.

Nos Estados Unidos, o lobby é realmente muito poderoso; secretários de Estado da Agricultura, especialmente na presidência de Reagan, eram ex-industriais da carne. Sob as Administrações republicanas, mas não apenas, há uma espécie de consanguinidade entre políticos e o lobby da carne.

Voltando ao caso da França, sim, existe um lobby da carne, que é representado pelo Comitê de Informação das Carnes, que tem relações estreitas com a indústria da carne, seguramente, mas também com o aparelho do Estado, o Ministério da Agricultura e o maior sindicato patronal de agricultores, a FNSEA.

Romain: Que alimentos podemos utilizar para substituir a carne vermelha em matéria de contribuição nutricional e de sabor?

Fabrice Nicolino: Não há resposta para esta questão… O sabor da carne vermelha é o sabor da carne vermelha. Eu não saberia dizer o que poderia substituir o seu sabor. No plano nutricional, por mais curioso que possa parecer, um grande número de estudos mostra que os regimes vegetarianos ou os regimes extremamente pouco carnívoros são os melhores para a saúde humana. Eu cito rapidamente um nome, conhecidíssimo nos meios da nutrição: é um norte-americano que se chama Colin Campbell. Ele conseguiu fazer um estudo comparativo da alimentação entre, de um lado, os cantões chineses e, do outro, os condados americanos. Um imenso estudo que durou vinte anos. Ele observa que o regime chinês, amplamente baseado numa dieta de vegetais, é infinitamente melhor para a saúde.

cocoparis: Você acha que é preciso reduzir também o nosso consumo de leite?

Fabrice Nicolino: É um debate aberto e inclusive no plano científico. O que é certo é que o hiperconsumo de leite, que caminha paralelamente à industrialização da pecuária, é muito nefasto à saúde humana. Passamos de vacas bem alimentadas que produziam, em 1945-1946, em torno de 2.000 litros de leite por ano a vacas que dão 8.000, 10.000, inclusive 12.000 litros por ano.

Está claro que quando se produz estas quantidades de leite, é preciso que esse leite seja consumido na sequência. É preciso que as pessoas o bebam. Há nisso uma lógica de ferro muito constrangedora. Se é produzido, necessita de um mercado, necessita de saída. No campo da saúde, o leite não é um alimento tão bom quanto se acreditava ou se fazia crer durante muito tempo.

Apis88: Atualmente, está claramente demonstrado que os países que se enriquecem veem o consumo de carne por habitante aumentar. Esta constatação pode ser invertida?

Fabrice Nicolino: É uma questão decisiva, uma questão chave. Existe um modelo de consumo de carne, o modelo ocidental, baseado sobre um consumo muito grande de carne. Ora, a produção de carne necessita de quantidades industriais de cereais. E as áreas agrícolas no mundo não podem ser ampliadas ao infinito. Muitos agrônomos de primeira linha se perguntam como se poderá, nos próximos anos, satisfazer este impressionante aumento da demanda de carne nos países chamados emergentes, no topo dos quais está a Índia, mas sobretudo a China, onde 200 milhões ou 300 milhões de chineses reclamam carne, porque pela primeira vez eles têm dinheiro para comprá-la e querem unir-se ao modelo ocidental.

O problema é que as terras agrícolas que permitiriam alimentar esse gado estão em falta, e parece extremamente difícil encontrar novas áreas sobre a Terra assim como está. O que eu quero dizer é que na minha opinião o modelo de consumo de carne praticado entre nós não é de maneira alguma generalizável a todo o planeta. Dito de outra maneira, me parece altamente provável que será preciso rapidamente se colocar a questão central, fundamental, do nosso modelo alimentar. Sem isso, poderemos sem dúvida passar do atual bilhão de esfomeados crônicos para talvez dois bilhões ou três bilhões em 2050.

br: Você acha que os políticos, em sua resposta à crise agrícola atual, vão levar em consideração esse fenômeno?

Fabrice Nicolino: Claramente, não, não, não e não. Vou fazer um paralelo com a situação da França em 1965. O ministro da Agricultura do General de Gaulle chama-se Edgard Pisani. Em 1965, este fez uma turnê triunfal pela Bretanha, e declarou, sob aplausos: a Bretanha deve tornar-se uma fábrica de leite e de carne da França. É muito importante, porque vemos bem que os políticos seguem, evidentemente, objetivos, mas que por definição são objetivos políticos. Ora, nós estamos em vias de falar de questões de outra natureza, que reclamam decisões muito mais refletidas, muito mais pensadas, sobre um prazo muito maior que o tempo dos políticos. Eu acrescentaria que a ecologia, a crise ecológica e tudo o que a ela estiver associado vai impor visões, pontos de vista, decisões para as quais a classe política, de todos os espectros ideológicos, da extrema direita à extrema esquerda, não está preparada.

GrandGousier: De acordo, é preciso deter esta orgia de carne, por todas as razões inventariadas em seu livro. Mas, por onde começar? Na França, quais seriam as primeiras ações a serem tomadas, os primeiros objetivos a serem fixados?

Fabrice Nicolino: Eu não estou aqui para dar lições a quem quer que seja. Mas como pessoa, eu penso que seria bom unir-se à construção de um movimento de consumidores como nunca se viu. Eu penso, na linha do que acabo de dizer sobre a classe política, que apesar do seu interesse e de sua valentia, os movimentos de consumidores que existem na França, por exemplo, a UFC-Que Choisir [União Federal de Consumidores, associação francesa de consumidores] ou 60 milhões de consumidores, exprimem em grande parte preocupações de outro tempo. Eu penso que seria útil e necessário para todos que nasça um movimento de consumidores que integre a crise ecológica, que é fundamentalmente uma crise dos limites físicos. E esse movimento, quando aparecer, provavelmente lançará ações coletivas contra a carne industrial. Para mim, este movimento passará necessariamente por formas de boicote.

Herve_Naturopathe: Ser “consommacteur” [consumidor comprometido] não seria a resposta? Consumir com reflexão e respeito…

Fabrice Nicolino: Seguramente. Mas a questão é quando e como, porque já tivemos movimentos. Eu lembro do boicote dos hormônios para os terneiros em 1980, movimento lançado pelo UFC-Que Choisir. O consumo da carne de terneiro foi dividida por 6 ou 8, era muito impressionante. E o sistema se adaptou, pois se reforçou. Portanto, a questão é realmente saber como encontrar uma eficácia frente a uma indústria que está unida por fios a todos os poderes estabelecidos, quer sejam administrativos, políticos, industriais, sindicais. É uma questão que eu aplico a mim mesmo: como tornar-se “consumidor comprometido” realmente e não apenas nos propósitos.

hadadada: No futuro, deveremos parar totalmente de consumir carne?

Fabrice Nicolino: Eu não vejo esse ponto no horizonte da minha vida. Em todo o caso, eu descobri, ao escrever o livro, que se pode viver sem comer carne. Eu realmente a ignorei. Eu creio que durante muito tempo fizemos chacota dos vegetarianos e que julgávamos, às vezes contra todas as evidências, que sua saúde era muito ruim. Alguns lobistas de que falo no meu livro lembram, para desqualificar os vegetarianos, que tanto Hitler como Jules Bonnot, o anarquista, foram vegetarianos. O que eu constatei é que se pode viver sem comer carne. Devido aos grandes equilíbrios e para enfrentar os grandes problemas que estão diante de nós, a começar pela fome, me parece vital que mudemos novamente de regime alimentar e que renunciemos a uma boa parte da carne que ingerimos a cada ano. Mas mais carne, eu não creio absolutamente nisso, eu penso que é uma questão antropológica, que leva a muitas outras. Não estou certo de que a humanidade seja realmente destinada a não mais comer carne.

cocoparis: E o que você tem a dizer aos criadores? Mudar de profissão? Tornar-se cerealistas?

Fabrice Nicolino: É uma questão terrível. Eu gosto dos agricultores. É verdade que eu prefiro os agricultores do Sul àqueles saturados de subvenções do Norte, mas o mundo da pecuária é um mundo em que encontrei um monte de gente boa, mesmo na pecuária intensiva. Mas eu quero ser direto: eu penso que a pecuária industrial está condenada. Eu penso que a França, a sociedade francesa, contraiu uma dívida com os criadores, e uma vez que tudo foi organizado em vista da pecuária industrial, seria insuportável dizer repentinamente aos pecuaristas para que mudem de profissão. Eu penso que se deveria imaginar um plano de transição, um pouco sobre o modelo do plano de transição de saída da energia nuclear na Alemanha. Poderíamos imaginar um plano de transição de 15 anos para permitir uma aterrissagem suave, para permitir a um certo número de criadores uma retirada digna, e para incentivar os mais jovens a se lançar numa pecuária mais respeitosa dos animais, dos equilíbrios naturais, e dos seres humanos que estão no final da cadeia.

Scheatt: As transformações necessárias para um modo de vida mais sóbrio são compatíveis com a organização atual da distribuição e da pecuária?

Fabrice Nicolino: Não, porque é preciso compreender que se trata de um sistema extremamente eficaz em seu registro, muito complexo, muito rodado, que exclui, por exemplo, todo direito dos animais a existir. Eu, com o risco de chocar alguns, sou muito sensível à sorte dos seres humanos, eu sou um humanista, mas considero que os animais têm direito à existência. Eu dediquei o meu livro aos animais mortos sem terem vivido. Num passado remoto, durante 8.000 a 9.000 anos, os seres humanos viveram um companheirismo com os animais, que era sem crueldade, sem violência e sem maus-tratos. Os animais davam sua carne, sua pele, sua força de trabalho, mas eles permaneciam seres vivos, sensíveis.

A indústria transformou totalmente os animais, a quem tanto devemos. Eu lembro que sem a existência dos animais domésticos, não teria havido civilização humana. Passamos a uma situação de industrialização em que o animal tornou-se uma coisa, uma mercadoria, um objeto de troca, de material. Eu creio que esta ruptura na história da nossa relação com os animais tira de nós uma parte considerável da nossa humanidade. Eu creio que esta maneira de tratar este “outro” que é o animal abre as portas para um caminho moral.

Mais informação: Farra do boi na Amazônia, O mito da proteína, Pandemia de resistência bacteriana e Overfishing

domingo, 8 de novembro de 2009

Cozinha sem tupperware



Um dos muitos temas presentes é o mal que armazenar comida em plástico faz às pessoas.

Tupperware é muito prático, leve, resistente, empilhável, pode-se até aproveitar as embalagens de sorvete e margarina...

Mas faz mal, libera óleo mineral na comida e quem ingere esse derivado de petróleo somos nós.

Duas moças que, além de inteligentes, têm olhos oceânicos, deixam suas dicas de como fazer essa substituição de forma prática: Rita Lobo e Karin Fromm

Uma outra opção de armazanamento seguro são travessas esmaltadas, ou ágata, que não devem ir ao fogo/forno, mas suportam a temperatura da comida e podem ir da mesa à geladeira. As da foto são da Ewel.



Pat Feldman, igualmente inteligente e com olhos oceânicos, deixa dica ainda melhor: mamadeiras de vidro protegidas externamente por silicone

Cooperilha



Como a Temquemqueira, a Cooperativa de Mulheres do Bairro de Santa Cruz dos Navegantes - Cooperilha (Guarujá, SP) desenvolve uma linha de produtos sustentáveis e de muito bom gosto.

As bolsas, capas de chuvas, pufes, necessaires e pastas são todas desenvolvidas com material reciclado.

O site, bilíngue, vale a visita e os produtos estão à venda no ebay e mercado livre, com links diretos.

Faço deles as minhas palavras:
"O maior trunfo de todo cidadão está no consumo consciente, comprar também é um ato político."

sábado, 7 de novembro de 2009

O Brasil é solar, eólico e de marés




Greenpeace prevê danos ambientais ao programa nuclear brasileiro
Henrique Gomes Batista, O Globo, 01/ 11/ 2009


Se cada vez mais as suas usinas nucleares são apontadas como novas estrelas do meio ambiente, por não poluírem e serem mais seguras, o Greenpeace vê graves problemas em sua cadeia produtiva. Segundo o grupo, a extração do urânio na Bahia é caótica, está contaminando rios da região e causando câncer em trabalhadores locais com total negligência da INB, estatal que explora o minério.
– Fizemos fiscalizações em outubro de 2008 e comprovou-se contaminação de rios da região. Esta semana voltaram ao local e viram que nada foi feito – afirma André Amaral, coordenador da entidade.
Otto Bittencourt Netto, diretor de Recursos Minerais do INB, diz que a denúncia não se sustenta. Para ele, além de a pesquisa do Greenpeace ser feita sem critérios ou registros, ela ainda não tem fundamento:
– A região é rica em urânio e ele naturalmente pode ir para as águas, isso existia antes da usina – disse, ressaltando fazer um forte controle da atividade.

De Caetié para o mundo e o Brasil na contramão


Como já havia sido postado aqui, a cidade de Caetié está se tornando o grande polo nacional de extração de Urânio, na nova busca brasileira por autossuficência energética.

Deixo a íntegra da reportagem do jornal o Globo sobre o assunto.

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De Angra ao Nordeste, a volta das usinas nucleares

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Cidade Fluminense tem R$150 milhões, mas teme favelas. Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco disputam 2 centrais.

Henrique Gomes Batista, O Globo, 01/ 11/ 2009

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Angra dos Reis. A Economia venceu o temor nuclear. De olho nos cifrões gerados com a instalação das centrais de energia, cidades e estados disputam a localização das novas usinas, que serão construídas nos próximos anos, marcando a retomada do programa nuclear brasileiro. Angra 3 está com obras a pleno vapor, o que já aquece a economia local. Além dela, serão construídas duas novas centrais no Nordeste e a disputa entre Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco para receber esses investimentos é intensa.

O governo federal também planeja outras duas centrais na Região Sudeste e sinaliza que até 2030 poderão ser acrescidas mais quatro a oito usinas novas em 21 anos.

O objetivo das cidades e estados é atrair investimentos diretos de R$7 bilhões, cerca de seis mil empregos e uma capacidade de aumentar a riqueza local – e os impostos – na casa de bilhão de reais, que chegam às cidades com cada central. O maior risco da disputa, além da velada “ameaça atômica” que não sai do imaginário popular, é a favelização dessas áreas, como ocorreu com Angra dos Reis nos anos 1970.

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Em Angra, população cresceu 50% em quatro anos

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A própria cidade do litoral sul do estado acredita que aprendeu com os erros do passado e adota medidas preventivas para evitar uma massa migratória, o que poderia anular os ganhos econômicos que já começaram a surgir com a retomada das obras de Angra 3, paradas desde 1986.

A construção de Angra 3 ainda está nos alicerces, mas a prefeitura de Angra comemora:

Receberá R$150 milhões como contrapartida da Eletronuclear, graças a um acordo fechado no fim de setembro. O dinheiro, que representa um terço do orçamento anual da prefeitura, será recebido em seis parcelas anuais e será destinado a meio ambiente, saúde, educação e saneamento. Mas esse é apenas o primeiro sinal econômico da nova central. Nove mil empregos, aumento do comércio local em 10% e novos negócios deverão vir para a cidade junto com os reatores nucleares.

– Acreditamos que poderemos ter até nove mil funcionários no pico da obra. A população aceita a nova usina com a esperança da empregabilidade – afirma Carlos Alexandre Soares, secretário da Prefeitura de Angra dos Reis.

A cidade, que já soma 160 mil habitantes, tenta, porém, evitar uma nova corrente migratória. Na construção das duas primeiras usinas, Angra, viu sua população crescer 50% em quatro anos. Agora, quer utilizar a mão de obra loca para a construção da nova usina.

Uma das primeiras medidas, segundo a prefeitura é estão a proibição de alojamentos para trabalhadores nos canteiros de obras. A Eletronuclear e a Andrade Gutierrez prometem treinamento de pessoal, mas admitem que os moradores da região só devem ocupar entre 70 e 80% das vagas, justo as de menor qualificação – e salários.

– O sindicato e a prefeitura estão cadastrando os trabalhadores, mas vemos que nas casa das pessoas do Nordeste cada vez aparecem mais novos moradores, que também se apresentam e que as vezes, conseguem emprego antes da gente – afirmou Mariano Balbino da Silveira, capixaba que veio para a cidade na construção de Angra 1 e constituiu família na comunidade do Frade, uma das três áreas da cidade inchadas com a atividade nuclear.

Atualmente 850 funcionários já estão nos canteiros de obras preparatórios do terreno de Angra 3, segundo Donato Borges da Silva Filho, presidenta do Sindicato da Construção Pesada de Angra dos Reis e Paraty. Esse número chegará a 1.500 em janeiro – o início oficial da construção da usina será a 1° de dezembro, em cerimônia que contará com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar disso, ele reclama dos baixos salários: um pedreiro recebe R$870,00 por mês, acima do piso local (R$856,00), mas abaixo do piso carioca (R$1.100,00).

Mas muitos estão alegres, como o angrense Benedito Baneto, que aos 66 anos voltou ao trabalho para construir sua terceira central nuclear. Angra 3 tem um significado especial para Baneto: a nova usina fica no terreno de sua casa na infância, quando vivia da roça naquele trecho costeiro:

– Estou tentando colocar meu filho de 23 anos na obra.

As imobiliárias locais também começam a sentir o aquecimento dos negócios. O corretor Robson Carlos Nepomuceno viu seu número médio de contratos novos de aluguel saltar de 35 a 40 por mês para 70. Ele prevê que, no pico das obras, alguns preços podem quadruplicar. Essiomar Gomes, presidente da Federação de comércio local, estima que o movimento deverá crescer em 10% graças as obras.

– Principalmente nos setores de alimentos e material de construção.



NE terá 20 cidades na briga em 3 meses

Henrique Gomes Batista, O Globo, 01/ 11/ 2009

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Governo pode criar agência reguladora no setor nuclear e permitir empresas privadas

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Depois de Angra, agora é a vez de o Nordeste receber usinas nucleares. Ao contrário do que ocorreu com a instalação de Angra 1 e 2, muitas cidades estão na disputa para as duas novas usinas nucleares que o governo quer instalar na região.

Os quatro estados onde poderão ficar as centrais – Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco – mostram interesse, e algumas prefeituras começam a se movimentar na disputa, ainda velada: a lista das 20 cidades potenciais candidatas deverá ser conhecida em três meses. A grande vencedora será definida no segundo semestre de 2010.

O motivo é econômico. Segundo a Eletronuclear, são cerca de R$7 bilhões em investimento para cada usina. Na etapa da construção, que dura cerca de seis anos, a cidade ganha 1.662 empregos diretos e 1.387 indiretos, além de 2.100 empregos que são gerados em diversos pontos do país.

– A economia na cidade da usina registra um ganho de valor de R$9,9 bilhões durante as obras. Na fase da operação, que pode durar até 80 anos, os benefícios continuam – afirma Drausio Atalla, supervisor da presidência da Eletronuclear para Novas Usinas.

Durante funcionamento de uma central , segundo a Eletronuclear, são gerados na cidade cerca de 1.012 empregos indiretos. Como recebem bons salários, cerca de R$6 mil por mês, os funcionários da usina continuam a movimentar a economia.

– Estas usinas podem mudar o perfil socioeconômico de Alagoas – prevê Luiz Octávio Gomes, secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado.

Segundo ele, Bahia e Pernambuco já são estados “desenvolvidos”. E Sergipe já teria “roubado” de seu estado a sede regional da Petrobras.

– Temos seis áreas boas para a usina, principalmente no litoral sul do estado, região praticamente virgem – disse.

Os governos de Pernambuco e Sergipe não se pronunciaram, apesar de apoiarem a instalação das usinas. O governador da Bahia Jaques Wagner, disse esperar uma decisão técnica:

– Não podemos fazer com que os estados iniciem um enfrentamento – afirmou.

O ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, quer que seja inaugurada uma central por ano no país entre 2030 e 2060. Para isso, será necessário, em sua opinião, permitir que empresas privadas atuem no setor. O governo também prepara um projeto para criar uma agência reguladora do setor nuclear. O texto está em discussão em 11 ministérios em Brasília.

A Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben) é contra a medida. Para seu presidente, Guilherme Camargo, isso poderia fazer com que se perdesse competitividade e “a inteligência nacional” do setor.

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As fotos são de Angra dos Reis, RJ



Bateria atômica: nuclear e segura?


Segue íntegra da reportagem sobre baterias nucleares, postada aqui.
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Baterias nucleares superam as de lítio
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Enquanto os especialistas em energia tentam convencer os políticos - e o público - de que as usinas nucleares são seguras e representam a melhor opção para atender às futuras demandas mundiais de energia, o professor Jae Kwon, da Universidade de Missouri, nos Estados Unidos, é bem mais confiante.
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Kwon está desenvolvendo baterias nucleares, pequenos dispositivos que, segundo o pesquisador, serão menores, mais leves e mais eficientes do que as baterias recarregáveis de lítio.

Densidade nuclear

As baterias não são apenas elementos essenciais para a imensa maioria dos equipamentos eletrônicos atuais. Elas também são vistas como a saída para a viabilização de novas tecnologias de energia limpa, como a energia eólica e a energia solar, armazenando a energia para uso à noite e nos períodos de pouco vento.

É por isto que pesquisadores do mundo todo estão trabalhando para construir novas baterias, menores e com maior capacidade.

Nos equipamentos móveis, as limitações das baterias ficam claras quando elas se tornam maiores e mais pesadas dos que os próprios aparelhos que devem alimentar. É o caso dos sensores projetados para monitorar o meio ambiente e as grandes obras de construção civil, onde a coleta de dados deve ser feita continuamente por vários anos. Nestas situações, a troca constante das baterias é totalmente inviável.

"Para fornecer energia suficiente, nós precisamos de técnicas com maior densidade de energia," diz Kwon. "A bateria de radioisótopos pode oferecer uma densidade de energia seis vezes maior do que as baterias químicas."

Nuclear e segura

O protótipo da bateria nuclear, construído pela equipe do professor Kwon, tem o tamanho de uma moeda. Mas se você não gostaria de andar com uma moeda dessas no bolso, o pesquisador afirma que, embora possam levantar preocupações, as baterias nucleares são seguras.

"As pessoas ouvem a palavra nuclear e pensam em algo muito perigoso," diz ele. "Entretanto, as fontes de energia nucleares já vêm abastecendo com segurança vários dispositivos, como satélites espaciais e submarinos."

Semicondutor líquido

A inovação agora não está apenas na miniaturização desse pequeno gerador nuclear, mas também em seu semicondutor. A bateria nuclear portátil usa um semicondutor líquido, quando o normal das fontes nucleares é utilizar semicondutores sólidos.

"A parte crítica de usar uma bateria radioativa é que, quando você gera a energia, uma parte da radiação pode destruir a rede atômica do semicondutor sólido. Usando um semicondutor líquido, nós acreditamos que poderemos minimizar esse problema," explica Kwon.

Bateria nuclear miniaturizada

A bateria nuclear ainda está em fase de desenvolvimento e, mesmo tendo o tamanho comparável ao de uma bateria de lítio do tipo botão, ela ainda é enorme perto das dimensões que os pesquisadores esperam alcançar.

Quando totalmente desenvolvidas, já próximo da etapa de comercialização, as baterias nucleares poderão ser tão finas quanto um fio de cabelo humano. O Dr. Kwon afirma que ainda serão necessários alguns anos de trabalho e aprimoramento para que esse objetivo seja atingido.