sábado, 18 de abril de 2009

Goura Vrindrávana em Parati, RJ



Há alguns anos, uma amiga geólogoga e vegana me chamou para conhecer uma Ecovila e eu, que sempre tive vontade de ver a Utopia sendo posta em prática, topei e fui com a turma dela passar uns dias em Goura Vrindávana, Parati - R.J.
O lugar claro que é lindo, um vale na Mata Atlântica totalmente preservado, mas o que é mais legal numa Ecovila, independente da filosofia de vida ou religião dos membros, é o resultado viável de uma vida em comum que não agride o meio ambiente.

Uma Ecovila é uma comunidade totalmente auto-gerida, participativa e auto-sustentável, logo onde todos têm voz e as decisões são tomadas em comum acordo e todas as decisões tomadas não podem agredir o meio ambiente. Uma Ecovila antes de tudo deve manter-se por si mesma.

A filosofia de Goura é hinduísta e particularmente não me identifico com Hinduísmo ou Hare Krishna, nem mesmo com a cultura indiana no geral, mas o comprometimento daquelas pessoas inspira um enorme respeito.

Todos, sem exceção, acordam às 4 da manhã e vão para o templo num ritual que envolve canto e dança, depois, passam a manhã cuidando da terra ou da conservação e manutenção do local.
No final da manhã é servida uma refeição que não é nem um café e tampouco um almoço, como o Udon, mas no caso deles é mais variada, muitos tipos de mingau (lembro de um de milho e outro de banana com cebola, ambos bons), pães e bolos integrais, frutas, mel-melado e muita banana passa orgânica produzida por eles.

À tarde, o ritmo de trabalho diminui um pouco e muitos dedicam-se ao trabalho doméstico, limpando as edificações e ajudando na cozinha. No final da tarde, é servida outra refeição, composta de salada da horta ao lado, arroz com feijão, farofa ou cuscuz salgado, pûres de legumes e muitos vegetais cozidos. Os pães, bolos e bananas continuam à mesa, mas não existe uma cultura de sobremesa como nós temos.
A comida é vegetariana, lacto-vegetariana, e boa, bem feita - sempre tinha uma pimentinha em conserva para acompanhar, aqueles temperos indianos diferentes, como curry, açafrão e até manteiga em garrafa (ghee).

Dormem muito cedo e antes de dormir, encontram-se novamente no templo para dançar e cantar, além de participarem de palestras e debates, já que sempre tem alguém de fora visitando.
Se o visitante tiver fome, eles deixam a cozinha aberta e te servem uma sopa com os mesmos pães integrais e caseiros e, num dos dias, fizeram um açaí com 7 ervas medicinais da horta deles. Mas eles não comem mais nada à noite.

Não é uma rotina fácil de se adaptar, eu mesma acordava mais tarde, quase na hora da primeira refeição, e senti muita falta de música e arte. Em todas as casas, vi bibliotecas, mas não ouvi um rádio e me fez mais falta do que imaginei.
As mulheres andam de sari, a caráter, mas ninguém me olhou julgando quando fui à cachoeira de biquini, nem quando entrei no templo sem me prostrar diante das imagens dos deuses hindus.


As coisas que mais chamaram a minha atenção nesses dias em Goura foram ironicamente as mundanas, que envolviam a organização e produção: o sistema de esgoto e tratamento biológico dos degetos humanos antes de ser lançado no rio, a mini-hidrelétrica sustentável construída no topo do morro que não nos deixou sem luz nem um dia, as casas contruídas em madeira reflorestada da própria região, a horta e o pomar orgânicos que alimentam a todos, a criação livre de vacas cujo leite só é retirado após a amamentação dos bezerros, a reciclagem do lixo transformando todos os restos de comida em ração para o gado, que vai morrer de velho, porque todos são rigorosamente vegetarianos.

A própria indústria de banana-passa orgânica e certificada, que é a subsistência deles, também é imperdível pois, além de ser um processo 100% livre de químicos, construíram as edificações em madeira reflorestada e resistiram à tentação de transformar a floresta preservada num bananal, o que também geraria um lucro (e conforto) muito maior.

Trouxe na mala um pote do açafrão em pó plantado e desidratado por eles, passei um ano fazendo risoto de funghi com açafrão aqui no RJ e nunca mais achei outro igual, trouxe também um óleo medicinal por obedecer aos princípios de cura da cultura deles  - um óleo de beleza 100% vegetal (girassol ou semente de uva) com infusão da flor que você escolher.
Eu escolhi lavanda e eles explicaram que deixam a lavanda no óleo dentro de um vaso de barro em estufa de argila com brasa de carvão, por dias, sem ferver para não estragar a prensagem a frio do óleo vegetal. É o melhor removedor de maquiagem que já usei, durou anos, além de ser orgânico, sustentável e totalmente biodegradável.
A banana passa orgânica e certificada também é vendida lá, mas eles distribuem para quase todos os supermercados e lojas de produtos naturais do RJ e SP.

4 comentários:

carol leone disse...

carol,
vc já ouvia falar do sítio são josé?
acho o exemplo mais impressionante de "ecovila brasileira", em todos os sentidos.
dá uma olhada: agroflorestaferreira.blogspot.com

Carol Daemon disse...

Adorei sua dica!
Seja bem vinda Carol, vou tentar fazer uma visita ao local - amei o blog deles.
abs :-)

FaBiNho__X disse...

Olá! parabéns pelo blog! Acompanho sempre quando posso!

Minha namorada sempre me manda seus links..
apesar de eu ser o semi eng. ambiental.. hehe

Tive a honra de ir numa palestra da Santidade que mora lá! Fiquei super afim de fazê-los uma visita!
Fotos belíssimas!

Espero poder conhecer logo logo.

Abração

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Deve ter sido o Prabu Cetucara.
Vc sabia que aquela propriedade foi comprada por um ex-engenheiro da Promon, que largou tudo e foi ser permacultor hare krishna???

Achei sensacional, vc conhece a Ecovila e ainda pode dar uma esticada em Parati e Angra, um senhor passeio num local super acessível e que pode ser feito em menos de 1 semana.

Eu tô fazendo eng. produção e gostando. O que está achando do curso de ambiental?

Abs e apareça mais :-)