
Não sei se já notaram, mas aqui no Brasil, estamos permanentemente em obras.
Quando viajo para o exterior, noto que raramente vejo uma obra de edificação ou mesmo manutenção. Já por aqui, em qualquer esquina estão sempre quebrando alguma coisa e trabalhando sem nenhum equipamento de segurança, é claro.
Vivemos num país em que prefeito bom é aquele que faz muita obra, inúteis em sua grande maioria, provavelmente superfaturadas e com nosso dinheiro de contribuinte.
Temos uma cultura de obra, quebrar e botar abaixo, usar material de segunda, descartar madeiras de lei em imóveis demolidos e abarrotar caçambas, que fecham as calçadas, com toneladas de entulho - uma cultura de desperdicio, isso sim.
Defendi minha tese de fim de curso em construção civil, num canteiro de obras, sou filha de arquiteto e posso dizer muito honestamente que vivi grande parte da minha vida, vendo meu entorno ser modificado pela ação humana.
Morei em uma casa, projetada pelo meu pai, em que todas as janelas, portas, alisares, rodapés, sancas e o que mais você imaginar (que não fosse a alvenaria das paredes, é claro) haviam sido comprados de demolição - reaproveitamento de casas antigas que foram demolidas. Peças únicas, completamente trabalhadas e em madeira de lei, que virariam entulho, acabando no aterro sanitario, não fosse todo um comercio legal que as reaproveita e emprega milhares de pessoas.
Ainda não havia a discussão da sustentabilidade que há hoje em dia e, na época, a justificativa óbvia dada por meu pai foi "são lindas, em madeira boa que não existe mais e seria caríssimo contratar um marceneiro para mandar fazer tudo igual nos dias de hoje."
Traduzindo: bom, bonito e barato!
Anos depois, morando sozinha, me vi enfrentando outro dilema: ter que comprar móveis para minha primeira casa. Comprar móveis em madeira certificada de reflorestamento era caro, pelo menos dentro do que eu planejava, e comprar móveis novos sem nenhum controle de procedência, me pareceu uma covardia com o que sobrou da Mata Atlantica ou com o que estão fazendo na Amazonia.
A solucão foi comprar móveis em antiquário nas feiras da Pça XV e Lavradio. Lindos, em madeira de lei (inclusive madeiras já extintas, como vinhático) e muito mais em conta do que qualquer similar atual em MDF. São móveis com mais de 50 anos, alguns com mais de 100, nao balançam quando se coloca uma tv em cima. Vão durar toda uma vida e já poluíram e devastaram sua cota.
Para quem não quiser esperar o sábado, dia das feiras, o Shopping dos Antiquários funciona todos os dias.
Para quem não quiser esperar o sábado, dia das feiras, o Shopping dos Antiquários funciona todos os dias.
Quando se pensa em reciclagem, a primeira imagem é a da coleta seletiva.
Recilagem vai muito além, reciclar envolve recusar e reutilizar: recusar tantas coisas à venda e reutilizar as que já existem.
Mesmo que seu móvel novinho e lindo seja de madeira certificada em área reflorestada, para produzí-lo foi gasta muita energia, água e combustível não renovável pelo menos na logística de trasporte.
Será que na sua família não tinha ninguém querendo se livrar de um móvel parecido? E na loja de móveis usados do seu bairro, não tinha nada bonito?
Se você está construindo ou reformando, repense muitas questões, a água pode ser sempre reaproveitada, seja no sanitário, seja na área de serviço.
Regularize seu gato, se for o caso e pense seriamente em captar a água da chuva para alimentar a cisterna principal, a instalação de calhas na própria laje facilita muito o processo.
A aplicação de placas de energia solar, pelo menos para aquecer a água do banho, substitui o aquecedor a gás. Aqui no RJ, já há até cursos ensinando como, leia mais. Assim como a instalação de um biodigestor não é tão complicada e sempre há a possibilidade do uso de ecotintas e uso inteligente de materiais alternativos, como telhas em pet, por exemplo.
Encerro com 2 matérias de hoje, do jornal de maior circulação na minha cidade:
A primeira relata um monumento público, que não servia para nada, sendo posto abaixo após tanta polêmica para construí-lo (numa obra superfaturada muito provavelmente) e a segunda matéria relata a revitalização proporcionada pela iniciativa de uma empresa de tintas de uma área degradada na cidade de SP, o simpático bairro do Bixiga.
A foto é do Palácio Monroe, patrimônio histórico que foi demolido sob protestos da população carioca.
Mais informação:
Reciclagem de edifícios
Manual do Arquiteto descalço
A casa sustentável é mais barata
O mito do reflorestamento de eucalipto
06 parques públicos construídos com material reciclado
02 fábricas antigas que deveriam ter sido tombadas, mas foram postas abaixo
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