terça-feira, 8 de junho de 2010

Slow Food, vegetarianos, desmatamento e a indústria da soja



O blog não é vegetariano, nunca foi a proposta inicial, apesar das receitas aqui postadas serem em sua esmagadora maioria, incluindo uma Ceia de Natal inteira, da rabanada aos pratos principais, com direito à panetone, entradas , bebidas e sobremesas. E para a Páscoa, ovos e bombons caseiros, feitos do bom e velho chocolate meio amargo, sem açúcar refinado, recheados de nozes, castanhas, geleias caseiras, leia como na Páscoa em paz com o resto do mundo
Se Gastronomia siginifica em grego "as regras do estômago", você não precisa de mais um espaço ensinando o que a massa faz, mas exatamente de muitos que te ofereçam opções "marginais".

Algumas receitas sugerem que pode ser adicionada carne de qualquer tipo, desde que você encontre as mesmas em sua versão orgânica, com rebanhos cujos animais foram criados soltos e livres de hormônios, como no caso da moranga recheada, da salada de grão de bico e até mesmo como fazer carne de sol caseira. Entretanto, a receita do baião de dois, sugere o feitio sem a carne, pois a combinação de arroz com feijão, queijo, aipim e carne de sol, pesa muito no organismo e a adição da carne, não interfere em nada no sabor. Eu me aprofundo melhor nesse equilíbrio na postagem Caldos, a tradição alimentar para muita gente e pouco recurso.

Atualmente, há uma grande histeria acerca do que é saudável, sustentável e seus respectivos porquês. Nessa onda, a população embarca consumindo barrinhas de cereais, sojinha em grãos, iogurtes com lactobacilos milagrosos e o que mais a mídia anunciar, desvirtuando até a apicultura e os cultivos de dendê e pinhão.

A humanidade migrou do campo para as cidades há quase 300 anos, justamente com o advento da Revolução Industrial, que modificou a forma de produção agrária. Com isso, o status passou a estar ao lado de quem desenvolvia algum trabalho intelectual em detrimento do trabalho braçal, "coisa de peão".
Em tese, pelos modelos econômicos, o setor de serviços não sustenta, apesar de corresponder ao maior montante empregador, tornando assim nosso modelo de desenvolvimento insustentável, já que há mais bocas consumindo do que produzindo.

Para acelerar o processo de uma carne que já foi criada com remédios num rebanho em escala industrial, o normal é que sua carne seca, mortadela, parma, copa, salsicha, paio, chouriço e o que mais você imaginar, venham para a sua panela cheios de nitritos, glutamato monossódico, açúcar refinado, corantes, conservantes e uma infinidade de produtos químicos cujo acúmulo no organismo não pode trazer bons resultados a longo prazo.

A carne, que hoje restringe-se a uma embalagem plástica no supermercado, faz parte de um ritual milenar, o de alimentar-se. Antigamente, dizia-se que do boi aproveitava-se até o berro, hoje só encontramos as partes nobres no supermercado, o que leva à conclusão óbvia que o "resto" vai para o lixo, por resto entende-se 90% do animal. Feijoada nos dias atuais, não pode levar rabo e orelha sob risco de ser considerada "feijoada de pobre", quando o propósito inicial da feijoada foi justamente aproveitar todas as partes do boi e alimentar com sabor o maior número de pessoas.

1 kg de carne em seu processo de desenvolvimento consome em média 15mil litros de água e 10mil metros de floresta desmatada.

Até o arroz nosso de cada dia, vira pivô de uma briga que envolve sementes transgênicas desenvolvidas por multinacionais para aumento das exportações, pesticidas proibidos por lei e até um pó mágico, que clareia 1kg do grão em 10 minutos. Imagino do que essa química, desenvolvida por outra corporação, não seja capaz de fazer com uma pia de mármore encardida, é o caso de alguém tentar.

Comer relaciona-se com prazer, fala-se em pecados da carne, que é fraca. O que você escolhe para comer impacta na sua saúde, no planeta todo pelo processo de produção, movimenta uma indústria de milhões que emprega a maior parte da populãção pois gera uma reação em cadeia de empregos indiretos.

Um estrangeiro que emigre e case com alguém da população local, vai gerar filhos mestiços, que provavelmente não vão nem falar a língua de seus pais. Com o tempo, perdemos os bens, a cultura e até os traços de nossos antepassados, mas nunca perdemos as receitas.
Mudamos a forma de pensar, trabalhar e até casar, mas não mudamos a gastronomia herdada - comer deve ser o elo perdido.

O fato de uma pessoa tomar a decisão consciente de escolher o que vai comer, não a inibirá de nenhum alimento e prazer, nem Nutella caseira, goibadapavê, pudim, maionese, pão de queijo, pizza, vinho ou picanha e linguiça, estará apenas fazendo esse consumo em quantidades menores, com ingredientes selecionados de forma criteriosa. Na Feira de Orgânicos, há inúmeros vinhos, champagnes e cachaças produzidos em cultivos que respeitam o meio ambiente.
Na fazenda de amigos no interior de Minas Gerais, as linguiças e muzzarelas caseiras, ficam penduradas pela cozinha. O queijo fresco (realmente "de Minas") não tem cheiro de tênis usado, é furadinho e desmancha ao cortar, o pão de queijo caseiro e assado na hora, é amarelo escuro, quase em tom de laranja, feito com os ovos caipiras das galinhas do quintal, criadas livremente como na época em que pandemia de resistência bacteriana seria assunto de ficção científica. Dizem eles, que morrem de velhos e dormindo, que levam uma "vida santa" e na "cidade", é tudo muito caro e difícil. Eu acredito piamente nessas pessoas, confio de olhos fechados em suas decisões.

Em "O mundo é o que você come" e
Nação Fast Food - uma rede de corrupção e Food Inc., você nunca mais verá seu jantar da mesma forma essa relação fica muito clara. No primeiro caso, mostrando o cotidiano de uma família que mudou-se para uma fazenda e viveu com extremo conforto do que produzia e comprava dos demais produtores locais. Festas com refeições a base de ingredientes sazonais, incluindo sorvetes para a sobremesa, salsichas feitas em casa e festivais de pizza caseira pontuam o livro. E no caso do filme, como a agroindústria massacra o produtor local e inverte um princípio econômico básico: a demanda determina a oferta, o mercado hipótese alguma deveria ditar o que deve ser consumido.

Como eu tenho muitos amigos veganos, cariocas do asfalto, que fazem da soja e seus derivados industriais a base de sua alimentação, vejo de forma reticente essa opção e sempre me questiono se essas pessoas não estão equivocadas elaborando seus pratos a base de tofu transgênico, creme de leite de soja enlatado e margarina, o que centraliza a produção agrícola em 2 monoculturas latifundiárias e transgênicas: milho e soja.
O meu organismo reage melhor a uma dieta livre de carnes, o que é uma questão estritamente pessoal - mas a boa comida independente da linha que siga, na minha modesta opinião, se parece com o que vemos na feira, você consegue reconhecer os ingredientes e estraga se armazenada por longo período, tem gosto pronunciado e aquece a alma.
Kurt, considerado por quase 50 anos o melhor confeiteiro carioca, recusava-se a comprar creme de leite e chantily industrializados para sua loja, dizia que o bom confeiteiro sabia fazer o seu.

Quando uma corrente que ganha o mundo, como o Slow Food, fala em retorno às origens, não em uma revolução insossa regada à gelatina, bebidas dietéticas (leia hidropirataria e metais pesados) e sanduíches "naturais", mas justamente em valorizar os vegetais esquecidos pelas tentações da cidade grande, os comerciantes locais que vendem a granel e nos fazem economizar dinheiro e embalagens, a farinha moída na hora - integral e saudável, que vira proteína quando digerida e nunca essa forma barata de açúcar refinado, essas pessoas estão nos lembrando do que é real, prazeiroso e valorizando nossas culturas locais.

A receita do bolo da vovó é uma distorção do que um bolo de verdade foi um dia: manteiga fresca, ovos de granja, farinha moída na hora, algumas frutas secas, um pouco de castanhas, um pouco do mel da região para adoçar, canela de verdade para perfumar...

Voltemos todos ao básico, à simplicidade, comer sentados à mesa, do que está na época, não irradiado e feito na hora, em panelas de barro e pedra.




O bom senso ditado pela natureza,
artigo de Carlo Petrini, co-fundador do movimento Slow Food

“Até podem ser estudadas todas as melhores técnicas de descarte de dejetos, mas se cada um de nós não se comprometer a reduzir o volume do que joga no lixo, ou aprender a desperdiçar menos, nunca teremos saída.”

A opinião é de Carlo Petrini, cozinheiro italiano e presidente e fundador do movimento Slow Food, em artigo para o jornal La Repubblica, 03-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O bom senso ditado pela natureza… São necessários novos paradigmas para tornar menos impactante a nossa presença na Terra. Hoje, quase todos se deram conta disso, e não é mais apenas uma exclusividade das “Cassandras” ambientalistas: é uma coisa transversal às inclinações políticas e às ideologias.

E é uma coisa que começa até a se demonstrar vantajosa, já que a frente do interesse econômico – sempre o mais duro a se abater – também está lentamente se deslocando nessa direção. É bom saber que uma parte do mundo científico trabalha para nos recolocar em harmonia com o meio ambiente, estudando soluções de grande empenho, decididamente fora do porte do homem comum. Porém, acredito que é justamente a relação com o homem comum, prescindindo da grandeza e da justeza das invenções, que é o ponto chave.

É com o diálogo entre reinos da ciência e dos saberes tradicionais que se levará a cumprimento um projeto tão ambicioso. Graças à união de uma pesquisa de alto perfil com as boas práticas que podemos cotidianamente colocar em ação criaremos os novos paradigmas. Por exemplo, até podem ser estudadas todas as melhores técnicas de descarte de dejetos, mas se cada um de nós não se comprometer a reduzir o volume do que joga no lixo, ou aprender a desperdiçar menos, nunca teremos saída.

Então, se forem inventados algoritmos formidáveis ou se simplesmente modificarmos nossa própria dieta cotidiana de modo a consumir menos CO2, será preciso, no entanto, que sejamos conscientes de que sempre haverá duas coisas às quais não podemos renunciar: o bom senso e o senso de limite que nos é imposto pela Natureza.

Berkeley, na Califórnia, está se tornando um modelo para os ambientalistas: lá, reúnem-se os melhores achados saídos do Vale do Silício, da indústria tecnológica californiana, com o retorno à terra de tantos jovens que aplicam uma agricultura ecológica, que olha para as práticas do passado para torná-las atuais. Em Theucán, no México, o grupo “Agua para siempre” conseguiu livrar sua própria terra de um processo de desertificação que parecia irreversível, unindo as modernas tecnologias com o saber dos agricultores locais.

Não existem soluções que, sozinhas, podem representar o remédio para todos os males, mas podemos fazer muitíssimo aplicando justamente o bom senso e o sendo do limite, independentemente se formos cientistas especialistas em nanotecnologias, ou nas vestes de simples cidadãos ou agricultores.

Segundo as Nações Unidas, as três principais fontes de emissão de CO2 são, em ordem: as construções, a produção de alimentos, os transportes. São todas coisas muito próximas da nossa vida cotidiana, sobre as quais podemos agir, também singularmente, modificando os nossos comportamentos sem muito sacrifício.

Muitíssimas pessoas no mundo já estão fazendo isso: boas práticas agrícolas, um uso pessoal mais racional dos carros e dos transportes, um consumo alimentar inteligente que limita as distâncias percorridas pelo alimento, uma dieta com menos carne que penaliza a criação intensiva, devoradora de energia, ou “reestruturações” ecológicas das casas antigas. São só diversos pequenos atos, mas de grande importância.

Se a ciência nos der uma mão, ficaremos felizes, e a Terra ganhará com isso, porque – embora cause admiração dizer isto, quando todo o Golfo do México está morrendo, inundado em petróleo – os ecossistemas, quando são ajudados, no fim se recuperam, se regeneram. A Natureza sabe restituir coisas incríveis: se a grande ciência se torna um meio a serviço dessa batalha de civilização, e não o objeto fim em si mesmo do nosso esbanjamento, entregaremos às gerações futuras uma Terra melhor.


Carlo também é autor de outras frases igualmente inteligentes, citadas abaixo e retiradas do Deixa Sair:

“70% da água utilizada no planeta é consumida pelo agronegócio de grande escala.”

“Em amostras de terra na Itália, verificou-se a presença de agrotóxicos que eram comercializados apenas há 120 anos atrás. O problema não é só o veneno que está em nossos corpos, mas principalmente os que estamos colocando nas terras e rios. O que queremos deixar para nossos descendentes.”

“Chegou a hora de cada um assumir sua responsabilidade. O ato de alimentar-se conscientemente é o grande ato político que qualquer ser humano pode fazer, portanto o mais democrático.”

“O Brasil é um país abençoado pela quantidade de terra ociosa e a grande abundância de água, infelizmente o motivo das próximas guerras.”

“A grande saída para humanidade é o comércio local em rede, onde se economiza recursos naturais e se constrói a real cidadania e a solidariedade.”

“Não é possível que tenhamos um desequilíbrio tão grande, onde 1/5 da população morra de fome e mais 1/5 tenha problemas de obesidade, diabetes entre outros causados pela hiperalimentação.”

“O sistema de alimentação é o principal pivô da profunda crise em que vivemos. Os alimentos industrializados que dominam nossa alimentação hoje, têm preço mais baixo e um valor mais baixo ainda, o que compromete toda nossa existência.”




O nome do disco do Pink Floyd, cuja capa é sugestivamente uma vaca, não por um acaso é Athom Heart Mother.



Mais informação:
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