segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Imagem do dia: 60 pessoas = 60 carros ou 60 bicicletas ou 1 ônibus

As fotos abaixo, feitas na cidade de Munique na Alemanha, mostram 60 pessoas e o espaço ocupado por elas caso cada uma estivesse utilizando um carro. Mostra também o espaço que ocuparia um ônibus com todas estas 60 pessoas dentro, e ainda o espaço ocupado por 60 bicicletas.
Fonte: UNICARONAS






Antes que alguém lembre do slogan da indústria automobilística "apaixonados por carros, como todo brasileiro", leia o excelente artigo de Dennis Russo que nos lembra de outra coisa mais importante do que essa suposta paixão:
"...presta atenção. Isso é propaganda de posto de gasolina!"

Leia o artigo abaixo na íntegra:

Nós não somos dinamarqueses

Em 1962, Copenhague, a capital dinamarquesa, foi tomada por uma polêmica. Estava nos jornais:
“Nós não somos italianos”, dizia uma manchete.
“Usar espaços públicos é contrário à mentalidade escandinava”, explicava outra.

O motivo da polêmica:

Um jovem arquiteto chamado Jan Gehl, que tinha conseguido um emprego na prefeitura meses antes, estava colocando suas manguinhas de fora. Gehl, que tinha 26 anos e era recém casado com uma psicóloga, vivia ouvindo dela a seguinte pergunta: “por que vocês arquitetos não se preocupam com as pessoas?”. Gehl resolveu preocupar-se. E teve uma ideia.

Havia em Copenhague uma rua central, no meio da cidade, cheia de casas imponentes e de comércios importantes. Era uma rua que tinha sido o centro da vida na cidade desde que Copenhague surgiu, no século 11 – a rua viva, onde as pessoas se encontravam, onde conversavam, onde os negócios começavam, os casais se conheciam, as crianças brincavam, a vida pública acontecia. Nos anos 1950, os carros chegaram e aos poucos essa rua foi virando um lugar barulhento, fumacento e perigoso. As pessoas já não iam mais lá. Trechos inteiros tinham sido convertidos em lúgrubes estacionamentos.

Pois bem. Aquele jovem arquiteto tinha um plano: fechar a rua para carros.

Copenhague não aceitou facilmente a novidade. Os comerciantes se revoltaram, alegaram que os clientes não conseguiriam chegar. São dessa época as manchetes de jornal citadas no começo do texto. O que os jornais diziam fazia algum sentido: Copenhague não é no Mediterrâneo. Lá faz frio de congelar – o mês de dezembro inteiro oferece um total de 42 horas de luz solar. Ninguém quer andar de bicicleta, ninguém quer caminhar. Deixe meu carro em paz.

Mas o jovem arquiteto ganhou a disputa. Nascia o Strøget, o calçadão de pedestres no meio da cidade que hoje é a maior atração turística de Copenhague. As pessoas adoraram a rua para pedestres desde que ela foi fundada. Na verdade, o comércio da região acabou lucrando muitíssimo mais, porque a área ganhou vida e gente passou a caminhar por lá a todo momento. É até lotado demais hoje em dia.

O arquiteto Gehl caiu nas graças da cidade e continuou colaborando com a prefeitura. Suas ideias foram se aprimorando. Ele descobriu que o ideal não é segregar pedestres de ciclistas de motoristas: é melhor misturá-los. Alguns de seus projetos mais interessantes são ruas mistas, nas quais os motoristas sentem-se vigiados e dirigem com um cuidado monstro. Outra sacada: que essa história de construir ruas para diminuir o trânsito é balela. Quanto mais rua se constrói, mais trânsito aparece. Quanto mais ciclovia, mais gente abandona o carro.

Em grande medida graças às ideias de Gehl, Copenhague é a grande cidade europeia com menos congestionamentos. 36% dos deslocamentos são feitos de bicicleta, mesmo com o clima horrível de lá, e a população tem baixos índices de obesidade e doença cardíaca.

“Copenhaguizar” virou um verbo: significa tornar uma cidade mais agradável à maneira de Copenhague. Jan Gehl abriu um escritório de arquitetura cuja filosofia é “primeiro vem a vida, depois vêm os espaços, depois vêm os prédios”. Ele passou a ser contratado por várias cidades australianas interessadas em “copenhaguização”. Seus projetos revolucionaram Sidney, Perth e Melbourne, tornando seus centros mais divertidos, cheios de cafés, arte e vida, reduzindo carros, atraindo gente para fora de casa. De uns tempos para cá, Gehl, que hoje tem 74 anos, passou a ser procurado pela “big league” das cidades: Londres e Nova York o contrataram como consultor para transformar seus espaços urbanos. Ambas têm feito muito desde então.

Enquanto isso, aqui na minha cidade, se alguém fala em melhorar o espaço público, logo ouve:

“Nós não somos dinamarqueses. Usar espaços públicos é contrário à mentalidade brasileira.”
50 anos atrasado.

Outra frase que se ouve muito aqui:
“Brasileiro adora carro.”
Adora nada, meu filho, presta atenção. Isso é propaganda de posto de gasolina!





O chargista André Dahmer, responsável pelos Malvados, já "emplacou" sua bicicleta e você?

Pedalar é coisa séria:

"Uma bicicletada não só por mais mobilidade no meio urbano, mas também criticando a forma como ele nós é imposto e o modo como ele é constituído/construído. Visando somente os interesses corporativos, comerciais ou estatais, sem qualquer intervenção ou questionamento da população. E, além de tudo, um meio feito principalmente para carros, onde a solução para o número absurdo de automóveis é a construção de mais vias, ruas e estradas, aumentando cada vez mais as distâncias e nos tornando dia após dia mais dependentes do transporte motorizado."






Mais informação:
Ciclofaixas x ciclovias
A Automovelcracia de Eduardo Galeano
E se cada família chinesa comprar 1 carro?
Entre rios: o projeto de transporte fluvial de SP

7 comentários:

sil disse...

Oi Carol, bom dia!
Pois é, infelismente existem no nosso Brasil, pessoas que antes de pensarem em ter um teto definitivo pra morar, pensam em ter carros novinhos. Quem entende a mentalidade desse povo?

Bjo!

Carol Flor disse...

Outro problema é que, pelo menos aqui em BH, para usar ônibus tem que esperar muuuito no ponto, pegar lotado, enfrentar trânsito. Bicicleta, tem o risco eminente de morte, pq ninguém te enxerga! Ou seja, com carro ganhamos tempo e para mim isso é muito valioso! Se tivesse um transporte público eficiente, eu usaria com toda certeza, para que me estressar dirigindo?
As montadoras sempre querem é vender mais, não? Então, a solução ainda está bem longe, porque o que conta para esse povo é o dinheiro.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

As 2 estão certas, as pessoas trocam de carro sem economizar para a casa própria e não existe opção de transporte público decente.
Falta trem bala, veículo leve sobre trilhos, ampliação da rede metroviária e ferroviária, etc.

Muda disse...

Nossa, muito bom o texto que você recomendou ("Nós não somos Dinamarqueses")...

Ainda não tenho um carro e me viro bem com o ônibus. Mas realmente é difícil em dias de chuva, na hora do rush e em tardes com um curto prazo de entrega de trabalho...

Aqui no Recife (PE) o metrô tem pontos de parada muito limitados (ele é externo). Eu nunca sequer pisei nele e não conheço ninguém que use. Bicicleta eu acho um ótimo exercício, prático e divertido, mas você só é xingado pelos motoristes e há quem buzine só para te assustar (aconteceu comigo e quase caí da bicicleta). É chato, mas pelo menos posso contar com os ônibus e meus pés.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi bonitinha, só a sua preocupação em tomar um ônibus ja é nota mil.
Sacanear ciclista é o fim, que maldade...

Muda disse...

Hahahahaha!

Eu achei que você tinha digitado errado da última vez que me chamou de "querida"...

Desmanchando confusões:

Eu sou um garoto! O nome do projeto que desenvolvi quando estava no colegial se chama Muda.

Tomaz Alencar, muitíssimo (re?)prazer, Carol!

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Tomaz, que gafe :-}