segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O mito do reflorestamento de eucalipto



Quando estive em Ibiraçu, até por vir de Vitória, tive que passar obrigatoriamente pela fábrica da Aracruz Celulose cercada de quilômetros de "floresta de eucalipto reflorestado" e aquilo me assutou, principalmente pelo mau cheiro ao longo da rodovia.

Nenhuma monocultura substitui uma vegetação nativa, "reflorestamento" de eucalipto são quilômetros de árvores idênticas, como uma linha de produção fabril, onde não há a menor chance de recuperação da biodiversidade original e certamente a fauna local foi devidamente dizimada.

A própria fábrica é um monstro industrial que emite CO2 24hrs por dia - eu passei pela estrada no meio da madrugada e a mesma funcionava a pleno vapor, assim como as motosserras que devastavam as áreas reflorestadas. A cultura do eucalipto, que não é sequer original do teritório brasileiro, é normalmente indicada para vales e regiões com alagadiços, já que a árvore é comumente conhecida por "chupar" a água, sendo muito utilizada nas fazendas de café de MG - região tradicional de vales e cultivos cafeeiros.
Cada pé de eucalipto "bebe" 30 litros de água dos lençóis freáticos por dia. A área reflorestada por eucalipto hoje é o terreno erodido da próxima década.

Terra, água e biodiversidade não são commodities negociáveis, são bens públicos que devem ser preservados, até porque a conta é paga no longo prazo pela população.

E na verdade, a questão é tão complexa quanto profunda e há um filme que retrata a degradação do Sul da Bahia totalmente linkado na postagem Cruzando o deserto verde.

Ainda, em Ibiraçu, o projeto de reflorestamento é realmente levado à sério.





Li a reportagem postada abaixo e fiquei pensando em como o conceito de reflorestamento é equivocado e pior, vendido como sustentável. Leia também:


O perjúrio é um crime perante a lei e àqueles que a personificam como a mola mestra que sustenta a estrutura social e econômica de uma comunidade, contudo os interesses da comunidade pelo perjúrio e pela simpatia à lei agonizam quando o judiciário prefere os argumentos que embotam a vida pública no interior da comunidade.

As liminares concedidas pela justiça, nos últimos anos, em favor do setor produtivo e dos governos, no tocante a legislação e a gestão ambientais, causam retrocessos sociais, políticos, econômicos e ambientais em todos os aspectos da vida pública e da vida privada.

Em recente decisão da justiça federal, negou-se o pedido de liminar impetrado pelo ministério público federal do Maranhão que requeria a suspensão das licenças concedidas pela secretaria de meio ambiente do estado do Maranhão para o desmatamento de mais de quarenta mil hectares no Baixo Parnaíba maranhense e para o subseqüente plantio de eucalipto por parte da Suzano Papel e Celulose.

A razão que levou o Juiz Newton Pereira Santos Neto a negar a liminar foi que “a simples possibilidade de impacto do empreendimento sobre a Bacia do Rio Parnaíba não justifica, a princípio, a alegação de incompetência do órgão ambiental estadual para realização do licenciamento”. Ele complementa as suas razões afirmando que não há prova concreta de que a afetação da bacia do referido rio caracterize-se como impacto regional direto sobre o vizinho estado do Piauí.

As sociedades maranhense e piauiense talvez devam esperar décadas para que se evidencie uma “prova concreta de que a afetação da bacia do referido rio se caracterize como impacto regional direto”. Em relação ao meio ambiente, “uma prova concreta” se obtém a partir da constatação das conseqüências da instalação de um empreendimento para as áreas de abrangências direta e indireta. Não só as conseqüências ambientais como também a conseqüência econômico-social. Tome-se o exemplo da construção da hidrelétrica de Tucuruí para a bacia do rio Tocantins nos anos 80. Infelizmente, mesmo com o exemplo de Tucuruí e das campanhas contra a construção de mais hidrelétricas ao longo da bacia, o governo federal se matem firme no propósito de trancar o rio Tocantins e seus afluentes com novas hidrelétricas.

O juiz Newton Pereira quer “provas concretas” dos impactos do eucalipto para a bacia do rio Parnaíba. Tudo bem para o judiciário que não sabe o que é bacia hidrográfica e o que é impacto regional.

Fonte: Mayron Régis, Assessor do Fórum Carajás e articulista do EcoDebate


Para se informar melhor: o Reporter Brasil levanta outras questões, como posse da terra pelo índios.



Mais informação:
O mito do óleo de palma sustentável
O mito das emissões de carbono neutralizadas
Eucalipto transgênico, o que você precisa saber
Quantos animais podem viver em uma única árvore
Como funciona um programa de compensação ambiental
O programa de reflorestamento da Reserva de Ibiraçu, ES
Biblioteca online básica sobre Permacultura, bioconstrução e agroecologia
Awás lutam contra a destruição dos madeireiros no que restou da Floresta Amazônica do Maranhão

3 comentários:

Mariana MT disse...

Excelente postagem, Carol...
Há tempos estou devendo um post sobre este tema. TRiste como grandes empresas querem convencer as massas que plantando eucaliptos estão salvando o planeta...quando na verdade priorizam apenas seus interesses. Parabéns por trazer o assunto!

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Mariana, pensei fazer uma dobradinha de blogs.
Se vc encontrar mais material sobre o assunto, a gente pode criar uma pauta em comum entre os dois blogs, assim mais gente lê a mesma matéria.
O que acha?

Econosul disse...

MONOCULTURA DE EUCALIPTO NAO CUMPRE FUNÇAO DE SOCIOBIODIVERSIDADE QUE NUIS PROPOCIANA UMA FLORESTA TROPICAL NATIVA.