sábado, 30 de janeiro de 2010

Agrotóxicos, orgânicos e trabalho escravo 4




Agrotóxicos O perigo na mão dos trabalhadores

O uso de agrotóxicos em lavouras em todo o país revela um diagnóstico triste e desolador. Trabalhadores sem instrução são expostos ao produto, sem receber treinamento e, raramente, utilizando os equipamentos de proteção individual. O resultado é o aumento de casos de intoxicações a cada ano, bem como a descoberta de casos antigos que acabam sendo rastreados nos postos da Previdência e Centros de Referência em Saúde do Trabalhador.

Foi a partir de um seminário realizado no Cerrado Piauiense que a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e a Federação dos Trabalhadores Rurais do Piauí (Fetag) souberam dos casos de intoxicação por agrotóxicos na região. Isso porque, com as informações do seminário, os trabalhadores rurais puderam identificar, em si próprios ou em trabalhadores conhecidos, os sintomas descritos pelos palestrantes. Assim, os casos de intoxicação começaram a surgir, revelando números que assustam o representante da Fetag, Anfrísio de Moura Neto.

Ele conta que foram relatadas mais de 50 internações em 2005 e 18 mortes associadas, segundo a instituição, ao uso indevido de agrotóxicos desde que o estado começou o plantio da soja, há menos de uma década. "Numa safra coloca-se três a quatro tipos de 'veneno' e os trabalhadores não estão preparados nem informados dos riscos que estão correndo", relata Anfrísio.

A descoberta dos casos motivou a realização de uma audiência pública em Brasília, em novembro do ano passado, para discutir o tema. Uma das deliberações do encontro foi a criação de uma força tarefa que reúne representantes dos trabalhadores (sindicatos, CREA, Contag, Fetag) e do governo (Delegacia Regional do Trabalho, Ibama, Ministério Público). O grupo investiga as causas das intoxicações e busca provas que não precisem de comprovação médica. Eles procuram outras provas porque, segundo Anfrísio, as perícias foram manipuladas e os laudos das mortes dos agricultores não mencionavam a intoxicação. Os trabalhadores tinham sintomas semelhantes: inchaços nas mãos e nos pés, mudanças na pele, tontura, surgimento de alergias e comportamento mais agitado, com perda recente da memória, em alguns casos.

Apesar de não ter sido feito para o nosso clima e precisar ser personalizado, o Equipamento de Proteção Individual (EPI) é a única forma de proteger o trabalhador"

O sindicalista reclama que, mesmo com todos esses sintomas, os casos não são reconhecidos pela Justiça como prova nos processos. "Se pudéssemos contar com a Justiça, seria ótimo, mas dependemos da interpretação das provas, o que nem sempre beneficia o trabalhador". O juiz do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Sebastião de Oliveira, explica que o julgamento não pode ser feito com base, somente, na alegação do trabalhador. "O sintoma por si só não chega a caracterizar uma prova. Pode, em alguns casos, gerar uma presunção. O juiz precisa estar convencido, a partir de provas realizadas por um Perito, Médico do Trabalho, que a doença foi causada pelo agrotóxico e que houve um comportamento negligente do empregador", explicou. "Pode ser ainda que a atividade da empresa tenha um risco acentuado o que gera a responsabilidade independentemente de demonstração de culpa do empregador".

"A Justiça deve respeitar o princípio do contraditório e o direito das partes de se defenderem, mas sobretudo precisa estar convencida que há uma relação entre a doença e o trabalho. Algumas doenças podem se confundir com outras não causadas pela atividade laboral, por isso é necessária a comprovação do nexo causal e a demonstração do prejuízo causado ao trabalhador, que pode ser a invalidez ou mesmo a redução da capacidade laborativa", disse o magistrado. Na sua experiência como juiz do trabalho, Sebastião acredita que os trabalhadores deveriam estar melhor assessorados nos processos de indenização. "Seria muito interessante se os sindicatos oferecessem, em suas estruturas funcionais, a assessoria de médicos especializados que pudessem auxiliar na comprovação do nexo de causalidade entre o trabalho e a doença incapacitante", pondera o magistrado.

No campo e na cidade - Engana-se quem pensa que o problema atinge somente os trabalhadores na lavoura. Os revendedores também sofrem os danos da exposição aos agrotóxicos, é o que revela a pesquisa realizada pela médica Andréa Amoras, na sua dissertação de mestrado em Saúde Coletiva pela Universidade de Brasília. Ela considerou as intoxicações de 350 trabalhadores atendidos na Diretoria de Saúde do Trabalhador do Distrito Federal. Desses, 188 foram expostos a agrotóxicos.

Das várias formas de exposição identificadas (na indústria, no campo e na cidade), chamou atenção o relato vivenciado por um grupo de funcionários de uma distribuidora de produtos agropecuários. Depois de um período de investigação da origem do problema, descobriu-se que eles estavam sofrendo os danos da exposição ao repartir o produto ou ao descarregá-lo do caminhão.

"Os vendedores de agrotóxicos muitas vezes fracionam o produto, têm contato direto com ele e acabam se intoxicando", conta a pesquisadora. Ela comenta o não-uso dos equipamentos de proteção individual (EPI) pela maior parte dos entrevistados. Mesmo aqueles que recebiam do empregador o equipamento se recusavam a utilizá-lo. No caso dos trabalhadores do Governo do Distrito Federal, que receberam os EPI, 80% não usaram por achar que incomoda ou que não é necessário.

Feito sob medida - "Os EPI não foram feitos para nosso clima. É recomendado que se use nas horas menos quentes do dia para evitar o desconforto para o trabalhador. Além disso, deve ser um produto personalizado. Quem usa barba, óculos ou tem um rosto diferente do tamanho da máscara, por exemplo, não deve usar o mesmo equipamento de quem não tem essas características", explica a pesquisadora. "Hoje em dia existem materiais menos quentes, mas ainda assim os equipamentos são inviáveis para o trabalhador. Além disso, os EPI têm um custo muito alto para a grande maioria dos agricultores", diz. A médica sanitarista defende que, mesmo muito incômodos, os equipamentos são a única forma de proteger o trabalhador das contaminações.

O EPI tem custo alto, mas é dever do empregador oferecer o equipamento e treinar o trabalhador, conforme determina a Norma Regulamentadora (NR) 31 do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A maioria dos trabalhadores não usa o equipamento e faz contato direto com o agrotóxico pelas mãos, respirando ou até mesmo ingerindo o produto ao manuseá-lo ou borrifá-lo na plantação.

João de Almeida Sampaio Filho, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), entidade que representa os agricultores, sabe do papel do empregador e acredita que é uma questão de tempo para que o setor esteja devidamente adaptado às regras da NR 31. "É um processo de mudança e o agricultor está se preparando. Nós da SRB fazemos um trabalho de conscientização, mas temos dificuldade de convencer o trabalhador a usar o EPI, principalmente aqueles que têm baixa escolaridade", esclarece. O alto custo do produto não é motivo para o EPI não ser usado na lavoura, defende Sampaio. A questão, acredita, é o conhecimento da norma. "Muitos agricultores ainda não a conhecem e a nossa preocupação é que a sua aplicação venha a se tornar um impeditivo ou que vá prejudicar o produtor. Acho que os prazos de adaptação devem ser considerados".

Diagnóstico - Os sintomas neurológicos são os campeões nos efeitos colaterais causados aos trabalhadores expostos a agrotóxicos e entrevistados na pesquisa. Dor de cabeça, tontura e dores nas extremidades corresponderam a 79% das queixas. Já os danos dermatológicos, como prurido, pápulas (caroços) e queimaduras químicas ocupam o segundo lugar na lista, relatados em 31% dos pacientes. Também foram comunicadas alterações nos aparelhos respiratório e cardiovascular e no comportamento psicossocial.

O médico do trabalho e assessor técnico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Afrânio Gomes, reforça outro dado preocupante dessa epidemia silenciosa. "O problema é ainda mais grave se considerarmos que a causa de intoxicação que mais mata é o agrotóxico (mais que medicamentos, animais peçonhentos e ingestão de produtos de limpeza) e que não aparece assim nas notificações, inclusive do INSS. Lá são registrados como morte por hepatite, problemas neurológicos, câncer. O paciente chega no INSS empurrado pela assistência médica, depois de muitos dias de atestado. É raro chegar com diagnóstico estabilizado", esclarece.

Por terem sintomas semelhantes aos de outras doenças, as intoxicações crônicas ( de longo prazo, independente do quanto a pessoa foi exposta) são mais difíceis de serem diagnosticadas e notificadas pelos serviços de saúde. Os dados registrados no Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox) são falhos, reconhece Afrânio, pois há sub-notificação e referem-se somente às intoxicações agudas - pouco tempo, mas com grande exposição ao produto.

"Temos dois tipos de trabalhador: os de pequena propriedade, mais fragilizados socialmente e que não costumam aparecer nas estatísticas; e os de grandes empresas, que têm um pouco mais de assistência. Em ambos os casos, o uso cotidiano do agrotóxico leva à banalização do risco. É comum não fazerem a ligação entre a doença e a atividade profissional", lembra Afrânio. Outro detalhe é que muitos deles moram em locais de difícil acesso ou sem estrutura, o que dificulta a fiscalização e a difusão de informação.

Um pouco a cada dia - A dificuldade dos profissionais de saúde em reconhecer a intoxicação por agrotóxico, e a falta de exames precisos que comprovem a exposição é um dos motivos paraque o problema se prolongue na vida do trabalhador. "A maior parte dos médicos não consegue relacionar a exposição à intoxicação. Com isso, os sintomas se complicam a cada dia, pois a exposição continua e o problema se intensifica até chegar a um quadro mais grave", explicou o assessor da Anvisa. Ele lembra o caso do cantor sertanejo Leandro, que trabalhou durante anos na lavoura de tomate no interior de Goiás e morreu vítima do câncer. "Se considerar o tipo de tumor, a atividade que ele realizava e o tipo de agrotóxico a que ele estava exposto, é claro que Leandro é uma possível vítima da intoxicação por agrotóxico. Mas existem poucos estudos conclusivos nessa área, o que não nos permite afirmar que foi o agrotóxico o responsável pela doença", concluiu Gomes.

Nexo causal - Quando esses casos chegam aos tribunais, a discussão é quanto à comprovação do nexo causal, ou seja, a demonstração de que houve um dano experimentado ou uma ação de omissão por parte do empregador ou do fabricante que resultou na intoxicação ou envenenamento do trabalhador. O representante das indústrias de agrotóxicos, Marçal Zuppi, que é gerente de Educação e Treinamento da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF), garante que o setor faz a sua parte: "O agrotóxico, desde que usado adequadamente, orientado por um engenheiro agrônomo e seguindo as recomendações do rótulo, é um produto seguro". Segundo ele, o agrotóxico só fará mal se não forem seguidas as orientações do rótulo e da bula e os intervalos de aplicação do produto na lavoura.

Ele assegura que o setor tem investido em educação e treinamento. "A indústria está preocupada. A ninguém interessa o mau uso ou a intoxicação de pessoas. Esse não é o nosso objetivo. Queremos que o produto seja aplicado corretamente. Para isso, realizamos em média dois treinamentos por semana para formar multiplicadores por todo o país e firmamos parcerias importantes, como no caso do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar)". Os treinamentos já foram realizados em 20 estados, onde o homem do campo teve treinamento. "Se o agricultor está fazendo errado, é porque ainda não aprendeu", diz Marçal.. (ver quadro para mais informações sobre as atividades de educação e treinamento da ANDEF)
Limites de uso - Há cinco anos, a Anvisa reavalia os registros dos agrotóxicos no país e tornou-se referência na América Latina na área de resíduos de agrotóxicos por construir uma base de dados com cerca de três mil limites máximos de resíduos (LMR) estabelecidos para mais de 350 substâncias de uso agrícola. Esses limites são definidos pela análise de laudos laboratoriais, supervisionados e desenvolvidos nas condições específicas do solo e clima brasileiro. "Nosso trabalho de reavaliação é de rever as especificações e restringir o uso para evitar a intoxicação, tanto dos trabalhadores, quanto da população. Nós reduzimos ou retiramos um determinado agrotóxico de algumas culturas quando percebemos que há quantidade de resíduos acima do padrão", afirma o gerente-geral de toxicologia da Anvisa, Luiz Cláudio Meirelles.

As restrições e proibições da agência reguladora não têm impacto se não houver uma construção coletiva de fiscalização dos abusos, sobretudo no campo do Judiciário. "Não adianta só proibir um produto. Se não tiver um aparato jurídico, não adianta nada. É preciso sensibilizar procuradores, que levam o tema à Justiça. Isso exige um trabalho de mobilização com esses setores, que detêm o conhecimento técnico e jurídico", acredita. O balanço das reavaliações mostrou que a maioria dos agrotóxicos atinge o trabalhador e o consumidor. "Sabemos que as condições dos trabalhadores rurais brasileiros são mínimas. Isso tudo leva a uma exposição maior que o recomendado".

E o Mundo, como vai? - Segundo Luiz Cláudio, se avaliarmos a exposição no mundo, veremos como são diferentes os graus, que não são comparáveis de um país para o outro devido a essas diferenças. "Talvez o trabalhador norte-americano se exponha menos que o trabalhador brasileiro, porque não usamos os equipamentos de proteção individual e são diferentes as condições de trabalho".

O balanço das reavaliações da Anvisa mostrou que a maioria dos agrotóxicos atinge o trabalhador e o consumidor."

A questão é analisada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que há muitos anos tem se preocupado com a saúde e segurança dos trabalhadores rurais. Em junho de 2001, a Conferência Internacional do Trabalho, em Genebra, discutiu o tema e traçou a Convenção nº 184 sobre a Segurança e a Saúde na Agricultura, a primeira convenção internacional sobre o assunto. O consultor da OIT, Zuher Handar, avalia que os trabalhadores rurais de países em desenvolvimento são o maior alvo desse tipo de intoxicação. Ele elogia a iniciativa brasileira de tratamento dos casos nos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador, que permitiram a aproximação entre os trabalhadores e os serviços de saúde.

As conquistas no campo da saúde não parecem ter chegado ao campo da defesa dos direitos do trabalhador, segundo Zuher. A ausência de provas materiais como forma de comprovar a intoxicação (uma reclamação dos trabalhadores e de seus representantes) é contestada por Zuher. "O exame toxicológico é importante, mas não o único meio de se chegar a uma conclusão do caso, podendo contribuir para que se confirme uma suspeita ou exposição ao produto. A carência de exames não pode ser um impedimento para que se investigue exaustivamente a causa dos danos à saúde do trabalhador", afirma.

O médico do trabalho Afrânio Gomes, assessor técnico da Anvisa, comenta a necessidade do trabalhador provar, nos tribunais, que realmente está intoxicado: "O triste é que o magistrado acostumou-se a procurar relações de causa e efeito estritas. Mas se buscar na medicina fica fácil comprovar. Não há linearidade. O diagnóstico se faz com uma série de circunstâncias", esclarece.

Desafio para o juiz trabalhista - Essa dificuldade para comprovar a relação entre os problemas de saúde e o uso dos agrotóxicos se transforma em um desafio do magistrado trabalhista, que precisa vencer o obstáculo da prova. O juiz trabalhista Sebastião de Oliveira esclarece que não há como definir a sentença sem demonstrar a relação entre os efeitos da intoxicação e a ação do trabalhador. Ele, que tem livros publicados na área de saúde do trabalhador, explica que a doença do trabalho pode se confundir com doenças que não têm relação com a atividade exercida e é preciso avaliar se houve o nexo causal ou não. "Aponto três questões: constatar a doença, relacioná-la ao exercício do trabalho e provar que o empregador teve culpa de alguma forma: por exemplo, por não ter oferecido o equipamento, não ter treinado o trabalhador, não ter seguido as instruções do produto tóxico. É importante provar para que o juiz profira sua decisão corretamente", diz.

O magistrado acredita que a falta de informação contribui para o maior número de ocorrências nessa área, mas que a NR 31 veio exatamente para criar mecanismos para que o empregador rural saiba quais normas deve observar. "Agora nós temos um parâmetro para os empregadores cumprirem. Na medida que a NR for mais conhecida, vai fazer com que haja mais condenações por descumprimento das normas. Essa condenação tem efeito pedagógico para evitar futuras incidências. Uma vez condenado, geralmente o empregador procura fazer as mudanças para evitar novas indenizações", conta o magistrado.

A nova legislação colabora com o trabalhador ao definir claramente o papel do empregador - um avanço, segundo os especialistas. Para Rinaldo Marinho, do Ministério do Trabalho e Emprego, a nova norma foi uma conquista, mas está longe de resolver o problema. "Dependemos de uma mobilização da sociedade e dos órgãos públicos para enfrentar esse problema. O trabalhador rural é o primeiro a ser atingido, mas o mau uso dos agrotóxicos afeta a todos nós. Nós punimos, quando é preciso, mas isso não é suficiente". As penalidades podem chegar a multas de até R$ 7 mil para quem desrespeitar a legislação.

ANDEF
Com o objetivo de promover a difusão dos conhecimentos técnicos relativos ao uso correto e seguro de produtos fitossanitários, conhecidos popularmente como agrotóxicos, a Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF) criou o Comitê de Educação, Treinamento e Uso Seguro (CETUS), com a participação de representantes de diversos fabricantes, como Monsanto, Du Pont, Basf, Bayer e outros.

Além do planejamento e execução de programas de educação e treinamento, são realizados convênios com entidades públicas e privadas. Entre esses estão os cursos para formação de técnicos e instrutores, em parceria com o SENAR, que visam capacitar os trabalhadores na aplicação com qualidade dos produtos fitossanitários, respeitando princípios de segurança, higiene e proteção do meio ambiente. Os convênios abrangem 20 estados e também envolvem capacitação em áreas específicas como produção de frutas e de batata, além do Programa de Alimentos Seguros do Campo à Mesa - PAS e saúde do trabalhador (especificamente no estado de São Paulo).

Entre 1990 e 2005, o Comitê de Boas Práticas Agrícolas da entidade contabilizou mais de 25 mil técnicos treinados nos programas da ANDEF. Por isso, Marçal Zuppi, da ANDEF, defende que a Associação vem trabalhando para que os erros da história dos defensivos agrícolas não mais se repintam. "Os objetivos da ANDEF têm sido: o uso correto e seguro dos produtos fitossanitários e o aumento da produção brasileira de alimentos", afirma ele.


Serviço gratuito para atender intoxicações por agrotóxicos
Foi lançado em março de 2006 o Disque-Intoxicação: 0800-722-6001. O serviço gratuito permite ao usuário ser atendido por uma das 36 unidades da Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Renaciat), uma rede coordenada pela Anvisa desde o ano passado.
Os 36 Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Ciats) estão espalhados por 19 estados brasileiros e funcionam em hospitais universitários, secretarias estaduais e municipais de saúde e fundações. Quando o usuário utiliza o 0800, a ligação é transferida para o Ciat mais próximo da região de onde a chamada foi originada. Os 36 centros estão preparados para receber ligações de longa distância, 24 horas por dia, sete dias por semana, durante todo o ano.
Gerando respostas rápidas, a equipe da central telefônica esclarece as principais dúvidas da população e auxilia os profissionais de saúde a prestar os primeiros socorros e a prescrever o tratamento terapêutico adequado para cada tipo de substância tóxica. Em alguns casos, o atendimento pode ser presencial. Em breve, o número do 0800 será informado em rótulos e bulas dos produtos regulados pela agência e em avisos indicativos em hospitais, laboratórios e clínicas.

Fonte: SESMT

A foto, do trabalhador usando produtos químicos classificados como perigosos, retrata a realidade da segurança rural em nosso país.

Agrotóxicos, orgânicos e trabalho escravo 3




Agrotóxicos: um caso de Saúde Pública. Entrevista com Tarcísio Pinheiro

Segundo Tarcísio Pinheiro, 75% dos trabalhadores rurais usam agrotóxicos nas propriedades. Para ele, o uso disseminado dessas substâncias vai elevar o índice de doenças crônicas

“Hoje, existem mais de 400 princípios ativos de agrotóxicos utilizados isoladamente e combinados com outras substâncias, o que potencializa o efeito”, assinala Tarcísio Pinheiro, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Essas substâncias químicas, explica o pesquisador, são responsáveis por doenças crônicas e agudas, que nem sempre são diagnosticadas com precisão, o que retarda o atendimento e o combate aos agrotóxicos. “Com relação às doenças crônicas, temos um grande problema, pois é difícil caracterizá-las. É mais fácil identificar os efeitos agudos, uma vez que os trabalhadores conseguem informar de forma mais precisa os sintomas”, aponta.

Pinheiro estuda a saúde de trabalhadores rurais em Minas Gerais e relata que é muito comum a utilização de coquetéis de agrotóxicos variáveis, o que, segundo ele, dificulta “correlacionar essas exposições com alguns efeitos crônicos”. Em casos graves, a intoxicação pode levar à morte. “Temos situações onde o agricultor tem uma exposição maciça, extensa, grave e às vezes fatal, em minutos ou horas.” E enfatiza: “Esses óbitos acontecem devido a alterações neurológicas, cardiovasculares e pulmonares”.

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Pinheiro alerta ainda para um problema grave de intoxicação. “Nos prontos-socorros das grandes cidades brasileiras, nos setores de toxicologia, intoxicações por agrotóxicos são a terceira grande causa de atendimentos, perdendo apenas para medicamentos e picadas por animais peçonhentos”.

Pinheiro concluiu o doutorado em Saúde Coletiva, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com a tese intitulada A vigilância em saúde do trabalhador no Sistema Único de Saúde: A vigilância do conflito e o conflito da vigilância. Atualmente, é professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os principais riscos à exposição de pesticidas?

Tarcísio Pinheiro – Existem riscos para a saúde e para o meio ambiente. Quando pensamos na questão humana, temos uma gama muito ampla de efeitos e impactos agudos e crônicos, que vão aparecer anos após a exposição. Ao mesmo tempo, esses efeitos podem ser localizados – dependendo da forma de exposição –, por exemplo, na pele, nos olhos. Em alguns casos também são sistêmicos, ou seja, se espalham pelo corpo, afetando alguns órgãos. Entretanto, as pessoas reagem de maneiras diferentes. Embora tenhamos um patamar mais generalizado, as reações são individuais e precisam ser observadas.

Com relação às doenças crônicas, temos um grande problema, pois é difícil caracterizá-las. É mais fácil identificar os efeitos agudos, uma vez que os trabalhadores conseguem informar de forma mais precisa os sintomas. Além do mais, é muito comum os trabalhadores rurais utilizarem diversas substâncias, o que chamamos de coquetel de agrotóxicos variáveis. Ao longo dos anos, correlacionar essas exposições com alguns efeitos crônicos se torna uma tarefa extremamente minuciosa, já que os sintomas aparecem anos após a exposição, como o câncer. Essas doenças têm um processo de evolução muito intenso e são de certa forma multideterminados. Isso torna o estabelecimento do nexo causal extremamente difícil, do ponto de vista científico, uma vez que os efeitos não são específicos. Um determinado agrotóxico produz cânceres com diferentes características, ou seja, não há uma especificidade desse tipo de dano.

Toxicidade dos agrotóxicos

Sabemos que, hoje, existem mais de 400 princípios ativos de agrotóxicos utilizados isoladamente e combinados com outras substâncias, o que potencializa o efeito. Além dos princípios ativos, encontramos substâncias chamadas inertes, utilizadas no sentido de alterar as ações e facilitar a absorção. Essas são capazes de provocar danos mais graves. Além disso, os agrotóxicos são classificados do ponto de vista toxicológico numa escala que varia de I a IV, sendo que os de classe toxicológica I são os mais perigosos.

IHU On-Line – Alguns estudos revelam que insetos transmissores de doenças, como malária, leishmaniose e dengue, ficam mais resistentes diante dos agrotóxicos. É possível relacionar os agrotóxicos a casos de epidemias recentes como a da dengue, por exemplo?

Tarcísio Pinheiro – Do ponto de vista de literatura científica, há uma farta evidência de que esse uso de agrotóxicos, ao longo do tempo, foi capaz de gerar um nível enorme de resistência das pragas. Assim, esses insetos tiveram uma capacidade de adaptação e de resistência aos agrotóxicos maior se comparada a outras espécies. Isso gerou um desequilíbrio: algumas pragas foram eliminadas, mas outras apareceram ainda mais resistentes. O que a história tem mostrado é que são usados cada vez mais agrotóxicos, e as pestes estão ainda mais resistentes. Para o trabalhador rural, isso é muito angustiante porque se gasta muito numa intensidade maior e com eficácia menor. Os transgênicos entram no bojo dessa crise, numa certa perda do combate às pragas.

Percebemos que a questão da dengue é complexa do ponto de vista da sua gênese, mas temos observado que os setores da Saúde Pública responsáveis pelo combate, além de causarem problemas aos trabalhadores que aplicam essas substâncias, estão liberando produtos que não tem sido capazes por si só de controlar os vetores. Isso tem feito com que se mude de estratégias do ponto de vista de combate. Há, às vezes, uma substituição de determinados produtos, porque os vetores estão “mais acostumados ou resistentes” àqueles anteriores. É uma luta que tem se travado, difícil e árdua quando se trata do controle. Em Belo Horizonte, controlaram a dengue com dois tipos de pesticidas, mas recentemente a prefeitura precisou mudar o produto utilizado. Isso é uma evidência dessa dificuldade do controle da resistência.

IHU On-Line – A que alterações clínicas, imunológicas e biológicas os trabalhadores expostos aos agrotóxicos estão sujeitos?

Tarcísio Pinheiro – Temos situações onde o agricultor tem uma exposição maciça, extensa, grave e às vezes fatal, em minutos ou horas. Esses óbitos acontecem devido a alterações neurológicas, cardiovasculares e pulmonares. Então, há um mecanismo de concentração nesses órgãos que pode gerar múltipla falência de sistemas, culminando com morte imediata. Por outro lado, existem situações mais leves e banais que por vezes passam desaparecidas, principalmente nas intoxicações leves. Nesses casos, os sintomas são dor de cabeça, transtorno gastrointestinal, um mal-estar geral, ou seja, algum quadro bastante inespecífico que o trabalhador tem dificuldade de perceber, e o profissional de saúde, de fazer uma relação.

O aparelho neurológico psiquiátrico é afetado com frequência e os efeitos são bastante evidentes. Mas alguns efeitos são mais difíceis de serem diagnosticados como alteração reprodutiva, infertilidade, aborto, má formação congênita, quadros asmáticos, alergias. Ou seja, temos uma variabilidade muito grande do ponto de vista da apresentação clínica. Um aspecto que tem chamado muita atenção hoje é o quanto esses produtos afetam o sistema imunológico do ponto de vista negativo. Isso significa abrir uma porta de entrada no nosso organismo para uma série de infecções.

IHU On-Line – Em que sentido a saúde dos trabalhadores rurais está sofrendo alterações nos decorrer dos anos?

Tarcísio Pinheiro – O que nos preocupa, do ponto de vista do trabalho rural, é o uso bastante disseminado de agrotóxicos. Trabalhos apontam uma presença acentuada de agrotóxicos em processos de trabalhos rurais, o que quer dizer que temos, do ponto de vista humano, um grande número de pessoas expostas. Aproximadamente, 20% da população vive no meio rural. Se formos fazer um exercício de projeção imaginando dados que relatam a presença de agrotóxicos nas propriedades rurais, percebemos que esse número chega a 95%, e que, dentre os trabalhadores rurais, 75% usam o agrotóxico, teremos uma população exposta com um nível de grandeza muito grande, ou seja, cerca de 20 milhões de pessoas infectadas.

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos no meio rural, e os produtos usados têm uma toxidade reconhecida, mas não se discutem os impactos humanos e ambientais. Ao mesmo tempo, temos uma dificuldade enorme de controle. Alguns trabalhadores utilizam equipamentos individuais, mas eles são muito desconfortáveis, além de terem um custo econômico elevado, fazendo com que os mais desfavorecidos não consigam adquirir essas medidas de proteção.

IHU On-Line – Os agricultores têm consciência dos riscos desses adubos químicos ou de fato já são reféns deles?

Tarcísio Pinheiro – Ao lidar com os agricultores, os vendedores referem-se a esses produtos químicos como remédios ou venenos. Então, não se trata de falta de consciência. Os trabalhadores sabem dos riscos e os sentem na pele. Talvez não tenham conhecimento de detalhes técnicos e clínicos sofisticados. Entretanto, relatam que querem sair desta situação, não só por uma questão de risco de saúde, mas também pela questão econômica. O custo de um agrotóxico de algumas produções é intenso, chegando a 35% do custeio do produto. Então, o trabalhador, de modo geral, tem consciência dessa situação, e tenta buscar novas saídas, mas esbarra numa série de dificuldades.

IHU On-Line – Partindo da perspectiva da Saúde Coletiva, quais são as propostas para tratar intoxicações por agrotóxicos?

Tarcísio Pinheiro – A Saúde Coletiva tem como foco a abordagem de atuar nas causas das doenças. Quando recebemos um caso onde caracterizamos a exposição a agrotóxicos, esse quadro serve como ponto de partida, porque outros trabalhadores estão expostos ou correm o risco de desenvolverem os mesmos sintomas. Isso quer dizer que, além de cuidar do paciente individual, precisamos pensar em medidas do ponto de vista coletivo e de vigilância. Assim, a abordagem é muito mais ampla. A questão dos agrotóxicos não é eminentemente médica, mas diz também respeito aos economistas, sociólogos, engenheiros agrônomos, profissionais da terra, no sentido de buscarmos soluções. Particularmente, penso que, se temos um determinado agente capaz de gerar danos à saúde, precisamos pensar em alternativas de produção sem a utilização desses produtos. Do ponto de vista dos agrotóxicos, mais do que fazer milhares de investimentos para buscar os efeitos e identificarmos os danos, devemos procurar alternativas que significassem o não uso dessas substâncias, ou seja, eliminar o mal pela raiz. A solução definitiva para o problema significa rever a superação do uso do agrotóxico, e acho pouco provável conseguir, com educação e equipamentos de proteção individual, superar esse problema, ainda mais quando pensamos do ponto de vista ambiental. Como vamos preservar os peixes, por exemplo? Vamos prescrever equipamentos de proteção para toda a gama de espécies? Acredito que somos capazes de buscar alternativas. Há uma série de técnicas na agricultura orgânica e na agroecologia para produzir e abastecer mercados, sem riscos. Esse é nosso grande desafio.

IHU On-Line – As doenças e intoxicações causadas pelos agrotóxicos já representam um caso de Saúde Pública no país?

Tarcísio Pinheiro – Sim, apesar de toda a dificuldade que temos do ponto de vista do reconhecimento e da notificação. Os casos de intoxicação por agrotóxicos são tão relevantes que hoje, no país, somos obrigados a notificar o caso de intoxicação por esses produtos químicos. Nos prontos-socorros das grandes cidades brasileiras, nos setores de toxicologia, intoxicações por agrotóxicos são a terceira grande causa de atendimentos, perdendo apenas para medicamentos e picadas por animais peçonhentos. Isso é grave e movimenta aproximadamente 15% do serviço de toxicologia. Então, é uma situação preocupante. Temos uma população exposta de magnitude importante, e isso torna a questão, no meu entender, um grave problema de Saúde Pública que precisa ser tratado. Nos países europeus, o tratamento de intoxicações por agrotóxicos é prioridade do ponto de vista de Saúde Pública. No Brasil, estamos melhorando a notificação e a formação dos profissionais.

Agrotóxicos, orgânicos e trabalho escravo 2

A foto, do trabalhador usando equipamento de segurança apropriado à função, nos leva a uma pergunta óbvia: se o trabalhador que manipula o produto não pode ter contato com o mesmo, por que eu devo ingerir essa química?




Pesquisadores associam lúpus e artrite reumatoide à exposição a inseticidas, por Henrique Cortez (Ecodebate)

Um estudo [Farm History, Insecticide Use and Risk of Autoimmune Rheumatic Disease in the Women's Health Initiative Observational Study] recente mostra que as mulheres que usam inseticidas possuem elevado risco de desenvolvimento de doenças auto-imunes, como artrite reumatoide e lúpus. Os resultados do estudo, ainda não publicado, foram apresentados, em 17 de outubro de 2009, durante a reunião anual do Colégio Americano de Reumatologia, realizada em Filadélfia, PA, EUA.

O estudo, que analisou mais de 75.000 mulheres, mostra que a exposição a inseticidas, pelo menos, seis vezes por ano, eleva em quase duas vezes e meia o risco de desenvolver artrite reumatoide e lúpus em relação às que não foram expostas aos inseticidas. O risco duplica se os inseticidas foram utilizados em casa por 20 anos ou mais.

Contratar um jardineiro ou sociedade comercial para aplicar inseticidas também resultou em uma duplicação do risco, mas apenas se eles foram usados a longo prazo, diz Christine G. Parks, PhD, epidemiologista do National Institute of Environmental Health Sciences em Research Triangle Park, NC, uma das principais pesquisadores que analisaram dados do Women’s Health Initiative (WHI) Observational Study*.

“Nossos novos resultados fornecem suporte para a idéia de que fatores ambientais podem aumentar a susceptibilidade ou desencadear o desenvolvimento de doenças auto-imunes em alguns indivíduos”, disse Parks. Embora o estudo não confirme a relação direta de causa e efeito, a Dra. Parks acrescentou: “Precisamos começar a pensar sobre o que os produtos químicos ou outros fatores relacionados ao uso de inseticidas pode mexplicar estes resultados.”

Das 76.861 mulheres na pós-menopausa, principalmente mulheres brancas, com idades entre 50 a 79, no estudo WHI, 178 delas tinham artrite reumatóide e 27 tinham lúpus. Um adicional de oito mulheres tinham ambos os transtornos.

Como parte do estudo, as mulheres foram consultadas sobre uma série de questões relacionadas à agricultura e uso de inseticidas. “O mais importante, as relações que observamos não foram explicadas por outros fatores que foram considerados, incluindo a história de fazenda, idade, raça, etnia, fatores socioeconômicos, como educação e ocupação, tabagismo e outros fatores de risco para a doença,” Dra. Parks diz.

“Os resultados são bastante consistentes porque eles mostram que quanto maior a exposição, maior o risco”, diz Darcy Majka, MD, professor assistente de medicina da Northwestern University Feinberg School of Medicine, outro pesquisador que analisou os dados da WHI .

Segundo a Dra. Parks, os estudos mostram que cerca de três quartos das famílias dos EUA relatam o uso de inseticidas em casa, nos jardim ou ambos. A exposição doméstica a inseticidas em casa pode ser bastante persistente, não só porque os produtos degradam lentamente como porque sua aplicação tende a ser continuada ao longo do tempo.

* O Women’s Health Initiative (WHI) foi um importante programa de 15 anos de pesquisa, instituído para avaliar e identificar as causas de morte mais comuns, a deficiência e má qualidade de vida em mulheres na pós-menopausa, com especial foco nas doenças cardiovasculares, câncer e osteoporose.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Agrotóxicos, orgânicos e trabalho escravo 1

Atualmente, há uma polêmica acerca do que é considerado orgânico, seja na alimentação ou mesmo em cosméticos.

Mas afinal, o que torna um produto orgânico e quais as suas vantagens?

Uma cooperativa-empresa de orgânicos pode empregar pessoas sem carteira assinada? E crianças?
Pode ser oriundo de sementes transgênicas? E irradiado?
Pode viajar mais de 200km consumindo combustível fóssil na logística de transporte?
Pode ser borrifado com pesticida? E a terra, pode levar fertilizante que vai para os lençóis freáticos da região?
Pode devastar uma floresta nativa? E secar as nascentes, no caso de uma fábrica de bebidas certificadas mas que pratica hidropirataria?
E as embalagens, devem ser recicláveis?
Por que há feiras exclusivas, é proibido vender no supermercado convencional?

Como as dúvidas são muitas e o material idem, vou postar diariamente acerca.

Para ler melhor sobre a regulamentação, leia:
Como comprar e reconhecer produtos orgânicos
Carnes orgânicas, o quê e como comer


Hoje, deixo disponível uma entrevista com a médica e pesquisadora Neice Muller Xavier Faria sobre os danos que os agrotóxicos produzem no sistema nervoso central.

Neice Muller Xavier Faria possui graduação em Medicina, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e mestrado e doutorado em Epidemiologia, pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), com a tese Saúde do trabalhador Rural. Atualmente, é docente da Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves, professora convidada dos cursos de pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e no Centro de Ensino Superior Cenecista de Farroupilha.



Os danos dos agrotóxicos no Sistema Nervoso Central.

Agrotóxicos podem aflorar problemas de saúde que permanecem mesmo depois que não se tenha mais ação direta das substâncias químicas, adverte Neice Muller Xavier Faria

“O principal mecanismo de ação dos inseticidas é sobre o sistema nervoso dos insetos e o problema é que este efeito não se restringe à espécie-alvo e pode afetar também os mamíferos”, adverte a médica e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) Neice Muller Xavier Faria. Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, a pesquisadora relata como os agrotóxicos podem atingir o Sistema Nervoso Central dos seres humanos. Quando contaminados por organofosforados – substâncias químicas que contêm carbono e fósforo, utilizados como inseticidas – e carbamatos – princípios ativos de alguns inseticidas comerciais -, as pessoas podem desenvolver neuropatias, ou seja, afecções que acometem os nervos periféricos que se estendem da medula ou do tronco encefálico até as extremidades. Além disso, destaca, essas substâncias também “podem afetar canais de cálcio ou bloquear o ácido gama-amino-butírico (gaba) como pode ocorrer com o fipronil e avermectinas”. Entre os sintomas mais comuns, a médica destaca ainda casos de “intoxicação aguda onde podem ocorrer, entre outros efeitos, fasciculações, tremores, convulsões, tonteiras, cefaléias e, nos casos graves, perda de consciência/coma”.

IHU On-Line – Em que sentido a prática de suicídios em algumas regiões do Rio Grande do Sul está relacionada com os agrotóxicos? Que sintomas essas substâncias causam para levar uma pessoa a cometer suicídio?

Neice Muller Xavier Faria – Em alguns casos, a pessoa ingere agrotóxicos, que neste caso seria o agente causador direto. Sobre a relação entre exposição aos agrotóxicos e a ocorrência de suicídios, conduzi, com outros colegas, um estudo epidemiológico, de delineamento ecológico, que pretendia examinar esta associação. Os coeficientes padronizados de mortalidade por suicídio eram quase três vezes maiores entre trabalhadores da agropecuária/pesca do que em outros grupos como técnicos e administrativos. O estudo tentou identificar exatamente a razão deste aumento na mortalidade por suicídio, principalmente porque o número de trabalhadores rurais é bem maior que o de pescadores. Mas os dados de uso de agrotóxicos (especificamente o receituário agronômico) apresentavam tantos problemas que não foi possível testar esta associação. Por outro lado, num estudo transversal feito entre cerca de 1282 trabalhadores da serra gaúcha (minha dissertação de mestrado), encontramos uma clara associação entre intoxicação por agrotóxicos e a prevalência de transtornos psiquiátricos menores (teste srq-20 ). Além disso, testando isoladamente as questões do srq encontramos associação entre intoxicação por agrotóxicos com 13 dentre os 20 sintomas psiquiátricos avaliados. E, dentre estes, uma clara associação com pensamentos suicidas. Resultados semelhantes foram encontrados por pesquisadores de outros países usando instrumentos diferentes para avaliar depressão/distúrbios psiquiátricos

IHU On-Line – Em que sentido os agrotóxicos também atingem o Sistema Nervoso Central?

Neice Muller Xavier Faria – O principal mecanismo de ação dos inseticidas é sobre o sistema nervoso dos insetos e o problema é que este efeito não se restringe à espécie-alvo e pode afetar também os mamíferos. O mecanismo varia conforme o produto. O mais conhecido é a inibição da acetilcolinesterase (ocorre com os organofosforados e carbamatos ). No caso dos organoforados, pode ocorrer neuropatias de médio e longo prazo. Mas alguns também podem afetar canais de cálcio ou bloquear o ácido gama-aminobutírico (gaba) como pode ocorrer com o fipronil e avermectinas. O efeito neurotóxico mais comum é na intoxicação aguda onde podem ocorrer, entre outros efeitos, fasciculações, tremores, convulsões, tonteiras, cefaléias e, nos casos graves, perda de consciência/coma.

IHU On-Line – Que doenças degenerativas a senhora aponta?

Neice Muller Xavier Faria – Depende do grupo químico e do organismo do trabalhador exposto (outras doenças concomitantes, pré-disposição genética) e do grau de exposição (que inclui vários aspectos das condições de trabalho). Além das neuropatias, podemos encontrar distúrbios respiratórios (asma e doença respiratória crônica inespecífica), gastrointestinais (incluindo hepatopatias) e endócrinos (hipotireoidismo/bócio), além de câncer. Varia conforme o produto envolvido.

IHU On-Line – Como e por quanto tempo essas substâncias costumam agir no corpo humano?

Neice Muller Xavier Faria – Esta resposta não é absoluta. Depende do tipo químico. Os inseticidas organoclorados se fixam na gordura corporal e podem ficar décadas no corpo (bem como no solo). Outros produtos apresentam a meia vida curta como os carbamatos. A questão que se discute hoje é que alguns produtos podem fazer aflorar problemas de saúde que podem permanecer mesmo depois que não tenha mais ação direta dos agrotóxicos. Os problemas psiquiátricos e respiratórios, por exemplo, foram associados à ocorrência de intoxicações no passado.

IHU On-Line – Pesquisas internacionais associam a doença de Parkinson à exposição excessiva de substâncias tóxicas como agrotóxicos. A senhora tem informações sobre isso? Pode nos falar um pouco sobre essa perspectiva?

Neice Muller Xavier Faria – Recentemente, eu estive num congresso internacional de saúde ocupacional, onde assisti uma apresentação de um pesquisador italiano que fez uma revisão de estudos envolvendo neurotoxicidade de agrotóxicos. Ele disse que, embora o tema seja controverso, várias evidências sugerem que existe esta associação. Mencionou especificamente a relação com os organofosforados. Mas tem uma tese brasileira, em São Paulo, que abordou parkinsonismo em relação ao manganês presente em fungicidas ditiocarbamatos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Se essa rua fosse minha...

...eu mandava ladrilhar com o brilho dos teus olhos.

Mas pavimentava e fazia a alvenaria com material reciclado!

Veja as fotos do projeto desenvolvido pela Eco-Tec para moradias populares em Bogotá, até cacos de azulejo foram aproveitados. As garrafas em vidro, que aqui são problema, viraram a solução e as pet, fornecem padrões de estrelas nos muros.
As casas, arredondadas, obedecem aos princípios da Permacultura e suas estruturas em adobe, mais fáceis de construir e obdecendo à construção em arco, tradicionalmente mais resitente.



















segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Casas na árvore

Quando os ambientalistas falam que uma das muitas soluções para o aquecimento global seria o aumento do plantio de árvores, a maioria das pessoas torce o nariz pensando "e a população vai morar aonde, na floresta?"

Exatamente, na floresta. Cercados de verde, mas com banda larga, transporte coletivo movido a energia limpa e toda infra-estrutura em sistema autogestionário e participativo.

Casas na árvore, para todos os bolsos e gostos. Se possível, construídas com materiais reciclados, telhado vivo, composteira, muitas calhas reaproveitando a água das chuvas e janelas-clarabóias imensas para a luz natural entrar.

E na hora de decorar, use ecotintas, instale um biodigestor e pelo menos uma placa de energia solar para aquecer a água do banho, compre móveis de segunda mão e reúse a água da máquina de lavar e dos sanitários.
Ar condicionado nem pensar, afinal a mata é fresca.

Frans Krajcberg sempre viveu como o Tarzan, em sua casa na árvore, aqui mesmo no Brasil.

As fotos abaixo nos deixam pensando se realmente vale a pena pagar cota-extra,  pegar engarrafamento e gastar até 1/3 do que ganhamos em aluguel.






























Versão luxo e com design premiado:


Mais informação:

domingo, 17 de janeiro de 2010

Segundas sem carne

A campanha continua.




A Vila Verde
Mokiti Okada, 1947, livro “Alimentação com energia vital”

(...) “As verduras e os legumes são os alimentos mais ricos em nutrientes. Portanto, levando em conta somente o aspecto nutritivo, apenas os cereais, as verduras e os legumes já seriam suficientes para o homem. Podemos comprová-lo observando os fatos. Os agricultores, os bonzos zen-budistas e outras pessoas que são vegetarianas, gozam de saúde e vida longa, enquanto os habitantes da cidade, que comem seguidamente peixes, aves e carnes vermelhas, adoecem com facilidade e têm vida curta. Haja vista a ocorrência de septicemia em pessoas que adotam uma dieta baseada em carnes. Vou contar um caso que serve de exemplo para o que estamos dizendo.

Anos atrás, fui passear nas termas de Yunishikawa, situadas nas montanhas do Estado de Totigui. A população dessa vila era formada pelo Clã Heike, composto de 90 famílias, num total de mais de 600 pessoas. Todos eram completamente vegetarianos e, embora houvesse peixes saborosos nos límpidos rios da região, eles nem sequer os pescavam. Como, desde os tempos remotos, os antepassados daquelas pessoas não consumiam carne, estas nem sentem vontade de fazê-lo. Ao ser servido somente com vegetais, perguntei se não haveria carne de frango ou ovos, mas me disseram que na vila não havia nem uma coisa nem outra. Isso mostra o quanto seus habitantes eram rigorosos em relação ao vegetarianismo.

Obviamente, não existiam médicos no lugar. Como eu perguntasse o motivo, responderam-me que ali não havia necessidade deles. Na época, o único doente era uma pessoa acometida de apoplexia, e não se contava um só tuberculoso. A questão, portanto, é saber o que nos estará ensinando o fato de uma vila vegetariana e sem médicos ser tão saudável.

Segundo me contaram na casa onde eu estava hospedado, a família Heike, ao ser derrotada numa luta, fugira para a mat e nela se embrenhara cada vez mais, fizando-se num local aonde seus perseguidores não pudessem chegar com facilidade. Na época, eram aproximadamente tinta pessoas. Encontrando-se em dificuldades para alimentar-se. No início, sobreviveram comendo raízes de árvores e frutos. Continuando com uma alimentação extremamente simples, a família não apenas sobreviveu como atingiu, atualmente, a mais completa felicidade, fato que vem a comprovar minha teoria.” (...)