terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Automovelcracia de Eduardo Galeano




Automovelcracia: o carro domina nossa razão e nossa emoção

Por Eduardo Galeano.



Sequestro dos fins pelos meios: o supermercado o compra, o televisor lhe assiste, o automóvel o dirige. Os gigantes que fabricam automóveis e combustíveis, negócios quase tão rentáveis quanto armas e drogas, convenceram-nos de que o motor é o único prolongamento possível do corpo humano. Em nossas cidades, submetidas à ditadura do automóvel, a grande maioria das pessoas não tem outra alternativa a não ser pagar para viajar, como sardinhas em lata, num transporte público destrambelhado e insuficiente.

A sociedade de consumo, oitava maravilha do mundo, décima sinfonia de Beethoven, impõe-nos sua simbologia de poder e sua mitologia de ascensão social. “O carro é seu melhor amigo”, informa um anúncio. A vertigem sobre rodas o fará feliz: “Viva uma paixão!”, oferece outro anúncio. A publicidade o convida para entrar na classe dominante acessando a chavinha mágica que liga o motor: “Imponha-se!”, ordena a voz que dita as ordens do mercado, e também: “Demonstre que você tem personalidade!”. E, se não me falha a memória da infância, se você colocar um tigre no tanque, você será o mais rápido e o mais poderoso de todos, e passará por cima de quem atrapalhar o seu caminho em direção ao sucesso.


A linguagem fabrica a realidade ilusória que a publicidade precisa para vender seus produtos. Mas ocorre que, na realidade real, os instrumentos criados para multiplicar a liberdade contribuem para nos encarcerar. O carro, essa máquina de ganhar tempo, devora o tempo humano. Nascido para nos servir, coloca-nos a seu serviço: ele nos obriga a trabalhar mais e mais horas para poder alimentá-lo, rouba nosso espaço e envenena nosso ar.

Em nome da liberdade de empresa, da liberdade de circulação e da liberdade de consumo, o ar urbano tornou-se irrespirável. O carro não é o único culpado pela agressão cotidiana ao ar no mundo, mas é quem mais diretamente ataca os habitantes das cidades. As ferozes descargas de chumbo que se enfiam no sangue, agredindo os nervos, o fígado e os ossos, têm efeitos devastadores principalmente no hemisfério sul, onde não são obrigatórios os catalizadores nem a gasolina purificada. Conforme denunciam os ecologistas, em Santiago do Chile, cada criança que nasce aspira o equivalente a sete cigarros diários e uma em cada quatro crianças sofre de alguma forma de bronquite.

O que é a ecologia? Um táxi pintado de verde?


Na Cidade do México, os táxis pintados de verde são chamados de táxis ecológicos e chamam-se de parques ecológicos as poucas árvores de cor doentia que sobrevivem ao assédio dos carros. Numa publicação oficial, as autoridades da capital mexicana difundiram alguns conselhos ecológicos que parecem ter sido inspirados pelos mais sombrios profetas do apocalipse.

A Comissão Metropolitana de Prevenção e Controle da Contaminação Ambiental recomenda textualmente aos habitantes da cidade que “permaneçam o menor tempo possível ao ar livre, mantenham fechadas portas e janelas e não pratiquem exercícios das 10 às 16 horas” nos dias muito poluídos, que são quase todos.

Segundo relatam os estudiosos de antiguidades gregas. a cidade nasceu como um lugar de encontro das pessoas. Há espaço para as pessoas nestas imensas garagens? Pouco antes da publicação desses conselhos ecológicos, saí caminhando pelas ruas da Cidade do México. Andei quatro horas entre motores que rugiam. Sobrevivi. Meus amigos me deram boas-vindas emocionados, mas me recomendaram um bom psiquiatra.

Os automóveis matam uma multidão, a cada ano, no mundo inteiro. Em muitos países, as estatísticas são duvidosas, ou inexistentes ou não estão atualizadas. As últimas estimativas globais disponíveis (do Worldwatch Institute, de Washington) indicam que mais de 250 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito em 1985. Nem a guerra do Vietnã matou tanta gente em apenas um ano.

No mundo inteiro, o trânsito é a primeira causa de morte entre os jovens, acima de qualquer doença, droga ou crime. Uma enorme campanha internacional de propaganda, com nuances francamente terroristas, adverte diariamente aos jovens sobre os riscos do sexo em tempos de Aids. Por que não fazer uma campanha semelhante acerca dos perigos do automóvel? A carteira de motorista equivale à licença de porte de armas?

Andar de bicicleta pelas ruas das grandes cidades latino-americanas, que não têm ciclovias, é a forma mais prática de se suicidar. Nos países do sul do planeta, onde as normas existem para serem violadas, há muito menos carros do que nos países do norte, porém matam muito mais.

Porque os latino-americanos que não têm nem terão carro próprio – a imensa maioria não pode nem poderá comprá-lo – continuam condenados a aguardar nas esquinas, sem outro remédio a não ser esperar os escassos ônibus? Por que não abrir, antes que se já tarde, ciclovias protegidas nas avenidas e ruas principais?

Os carros não votam, mas os políticos têm pânico de provocar-lhes o mínimo desgosto. Nenhum governo latino-americano atreveu-se a desafiar o poder motorizado. É verdade que recentemente Cuba se encheu de bicicletas, mas isso não aconteceu durante os trinta e tantos anos de revolução. A bicicleta aparece maciçamente em Cuba quando não há outro remédio, porque não sobra uma gota de petróleo: não como uma alegria desfrutável, mas como uma calamidade inevitável.
Nem sequer as revoluções, às quais ninguém poderia negar o desejo de mudança, propuseram-se a pôr em prática esta singela maneira de diminuir a dependência das onipotentes empresas que dominam o negócio do transporte e do petróleo no mundo. Não existe pior colonialismo do que aquele que nos conquista o coração e nos apaga a razão.




A Automovelcracia II: Liturgia do divino motor

Com o deus de quatro rodas acontece aquilo que costuma acontecer com os deuses: nascem a serviço das pessoas, mágicos conjuros contra o medo e a solidão, e acabam pondo as pessoas a seu serviço. A religião do automóvel, que tem seu vaticano nos Estados Unidos da América, tem o mundo de joelhos a seus pés.

Seis, seis, seis – A imagem do Paraíso: todo norte-americano possui um carro e uma arma de fogo. Os Estados Unidos detém a maior concentração de automóveis e também o mais numeroso arsenal de armas num único país, os dois negócios básicos da economia nacional. Seis, seis, seis: de cada seis dólares gastos pelo cidadão médio, um é consagrado ao automóvel; de cada seis horas de vida, uma é dedicada a viajar de carro ou a trabalhar para pagá-lo; e de cada seis empregos, um está direta ou indiretamente ligado ao automóvel, e outro está direta ou indiretamente ligado à violência e suas indústrias.

Quanto mais gente os automóveis e as armas assassinarem, e quanto mais natureza eles destruírem, mais crescerá o Produto Interno Bruto. Como bem diz o pesquisador alemão Winfried Wolf, em nosso tempo, as forças produtivas transformaram-se em forças destrutivas. Talismãs contra o desamparo ou convites ao crime? A venda de carros é simétrica à venda de armas, e bem se poderia dizer que faz parte dela: os acidentes de trânsito matam e ferem, a cada ano, mais norte-americanos do que todos os norte-americanos mortos e feridos ao longo da Guerra do Vietnã, e a carteira de motorista é o único documento necessário para qualquer um comprar uma metralhadora, e com ela cozinhar à bala toda a vizinhança.

A carteira de motorista não é apenas usada para estes fins; ela também é imprescindível para pagamentos com cheques ou para sacá-los, para fazer um trâmite burocrático ou para assinar um contrato. Nos Estados Unidos, a carteira de motorista serve como documento de identidade. Os automóveis outorgam identidade às pessoas.



Os aliados da democracia – O país conta com a gasolina mais barata do mundo, graças aos presidentes corruptos, aos xeques de óculos escuros e aos reis de opereta que se dedicam a malvender petróleo, a violar direitos humanos e a comprar armas norte-americanas. A Arábia Saudita, por exemplo, que aparece nos primeiros lugares das estatísticas internacionais pela riqueza de seus ricos, pela mortalidade de suas crianças e pelas atrocidades de seus verdugos, é o principal cliente da indústria norte-americana de armas.

Sem a gasolina barata fornecida por estes aliados da democracia, o milagre não seria possível: nos Estados Unidos, qualquer um pode ter um carro e muitos podem trocá-lo freqüentemente. E se o dinheiro não for suficiente para o último modelo, já estão à venda aerosóis que dão aroma de nova àquela velharia comprada três ou quatro anos antes, àquele autossauro.

Dizes que carro tens e eu te direi quem és e quanto vales. Esta civilização que adora carros tem pânico da velhice: o automóvel, promessa de juventude eterna, é o único corpo que pode ser trocado.

A gaiola – A esse outro corpo, o de quatro rodas, é dedicada a maior parte da publicidade na televisão, a maior parte das horas de conversa e a maior parte do espaço das cidades. O automóvel dispõe de restaurantes para se alimentar de gasolina e óleo, e tem a seu serviço farmácias para comprar remédios, hospitais para ser examinado, diagnosticado e curado, dormitórios para dormir e cemitérios para morrer.

Ele promete liberdade às pessoas; por alguma razão as estradas são chamadas de freeways, caminhos livres, e no entanto atua como uma gaiola ambulante. O tempo de trabalho humano foi reduzido em pouco ou nada, e porém ano após ano aumenta o tempo necessário para ir e voltar ao trabalho, devido ao trânsito atolador, que nos obriga a avançar penosamente e às cotoveladas.

Vive-se dentro do automóvel e ele não larga do nosso pé. Drive by shooting sem sair do carro, à toda velocidade, pode-se apertar o gatilho e disparar a esmo, como está em voga nas noites de Los Angeles. Drive thru teller, drive by eating, drive in movies: sem sair do carro pode-se sacar dinheiro do banco, comer hambúrgueres e assistir a um filme. E sem sair do carro pode-se contrair matrimônio, drive in marriage: em Reno, Nevada, um casal passa com o seu automóvel por baixo de arcadas de flores de plástico; numa janelinha aparece a testemunha e na outra o pastor, que os declara marido e mulher, bíblia nas mãos e, na saída, uma funcionária ornamentada de asas e auréola entrega a certidão de casamento e recebe a gorjeta, chamada de love donation.

O automóvel, corpo renovável, tem mais direitos que o corpo humano, condenado à decrepitude. Os Estados Unidos da América empreenderam, nestes últimos anos, a guerra santa contra o demônio do fumo. Nas revistas, a publicidade dos cigarros aparece atravessada por obrigatórias advertências à saúde pública. Os anúncios advertem, por exemplo: “A fumaça do cigarro contém monóxido de carbono”. Mas nenhum anúncio de automóveis adverte que muito mais monóxido de carbono contém a fumaça dos automóveis. As pessoas não podem fumar. Os carros, sim.




Automovelcracia III: O anjo exterminador

Em 1992 houve um plebiscito em Amsterdã. Os habitantes desta cidade holandesa decidiram reduzir à metade o espaço, já bastante limitado, ocupado pelos automóveis. Três anos mais tarde, foi proibido o trânsito de carros particulares em todo o centro da cidade italiana de Florença, proibição essa que incluirá a cidade inteira à medida que se multipliquem os bondes, as linhas de metrô, os calçadões e os ônibus. Além, é claro, das ciclovias: dentro de pouco tempo será possível atravessar toda a cidade sem riscos, pedalando num meio de transporte que custa pouco, não gasta nada, não invade o espaço humano nem envenena o ar.

Enquanto isso, um relatório oficial confirmava que os automóveis ocupam um espaço bem maior do que as pessoas na cidade norte-americana de Los Angeles, mas lá ninguém pensou em cometer o sacrilégio de expulsar os invasores.
A quem pertencem as cidades? – Amsterdã e Florença são exceções à regra universal de usurpação. O mundo foi motorizado velozmente, à medida que as cidades e as distâncias cresceram, e os meios de transporte público abriram caminho para o automóvel particular. O presidente francês Georges Pompidou exaltou esse movimento dizendo que “é a cidade que precisa se adaptar aos automóveis e não o inverso”. Mas suas palavras ganharam um sentido trágico quando foi revelado que as mortes por poluição na cidade de Paris aumentaram brutalmente durante as greves do final do ano passado: a paralisação do metrô multiplicou as viagens de automóvel e esgotou os estoques de máscaras antipoluentes.




Na Alemanha, em 1950, trens, ônibus, metrôs e bondes transportavam três quartos da população; hoje, levam menos de um quinto. A média européia caiu para 25%, o que ainda é muito se comparado aos Estados Unidos, onde o transporte público atinge apenas 4% do total. Henry Ford e Harvey Firestone eram amigos íntimos, e ambos se davam extremamente bem com a família Rockefeller. Essa afeição recíproca desembocou numa aliança de influências que esteve diretamente relacionada com o desmantelamento das linhas de trens e a criação de uma vasta rede de estradas, em todo o território norte-americano. Com o passar dos anos, nos Estados Unidos e no mundo inteiro, tornou-se cada vez mais esmagador o poder dos fabricantes de automóveis e de pneus,e dos industriais do petróleo. Das sessenta maiores empresas do mundo, metade pertence a esta santa aliança ou está de alguma forma ligada à ditadura das quatro rodas.

Dados para um prontuário – Os direitos humanos terminam onde começam os direitos das máquinas. Os automóveis emitem impunemente um coquetel de substâncias assassinas. A intoxicação do ar é espetacularmente visível nas cidades latino-americanas, mas é bem menos notada em algumas cidades do Norte do mundo.A diferença é explicada, em grande parte, pelo uso obrigatório dos catalisadores e da gasolina sem chumbo. No entanto, a quantidade tende a anular a qualidade, e esses progressos tecnológicos vão perdendo seu impacto positivo diante da proliferação vertiginosa do parque automotivo, que se reproduz como se fosse formado por coelhos.

Visíveis ou dissimuladas, reduzidas ou não, as emissões venenosas formam uma extensa lista criminosa. Para dar apenas três exemplos, os técnicos do Greenpeace denunciaram que é dos automóveis que provém mais da metade do total do monóxido de carbono, do óxido de nitrogênio e dos hidrocarbonetos, que tão eficientemente contribuem para a destruição do planeta e da saúde humana. “A saúde não é negociável. Chega de meios-termos”, declarou o responsável pelo setor de transportes de Florença, no início do ano. Mas em quase todo o mundo, parte-se do princípio de que é inevitável que o divino motor, em plena era urbana, seja o eixo da vida humana.

Copiamos o que há de pior – O ruído dos motores não deixa ouvir as vozes que denunciam o artifício de uma civilização que te rouba a liberdade para depois vendê-la, e que te corta as pernas para te obrigar a comprar automóveis e aparelhos de ginástica. Impõe-se no mundo, como único modelo possível de vida, o pesadelo de cidades onde os carros mandam, devoram as zonas verdes e se apoderam do espaço humano. Respiramos o pouco de ar que eles nos deixam; e quem não morre atropelado sofre de gastrite por causa dos engarrafamentos.

As cidades latino-americanas não querem se parecer com Amsterdã ou Florença, e sim com Los Angeles, e estão conseguindo se transformar numa horrorosa caricatura daquela vertigem. Levamos cinco séculos de treinamento para copiar em vez de criar. Já que estamos condenados à copiandite, poderiamos escolher nossos modelos com um pouco mais de cuidado. Anestesiados pela televisão, publicidade e cultura de consumo, engolimos a história/estória da chamada modernização, como se essa brincadeira de mau gosto e humor negro fosse o abracadabra da felicidade.


As duas primeiras charges são do Laerte, as demais de Singer.



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