domingo, 24 de abril de 2011

A casa sustentável é mais barata - parte 04 (ecotintas)

Não estranhe, a Revolução Industrial só tem 200 anos e a indústria química nos padrões que conhecemos, menos de 100. Todas as grandes obras da Antiguidade, incluindo os afrescos do Renascimento, foram pintadas com pigmentos naturais.

A fórmula é uma só:
Tintas = liquido com cor + fixador + impermeabilizante.

Exemplos:
1. Terra + cal + óleo
2. Baba de cacto (ou babosa ou cupinzeiro) + terra + água (numa proporção 1 de baba para 15 de água)
3. Seiva de seringueira + água + areias naturalmente coloridas + óleo

Pode-se usar pó xadrez para dar cores, terra, plantas maceradas, etc. Mas cuidado, se houver outra tinta por baixo a coisa pode "não colar".

Pó Xadrez = pigmento que se compra em lojas de materias de construção, atóxico, pode-se usar sem problemas. Tem de várias cores.

Terra = aquela ali mesmo. Cave e vais ver que tens cores distintas e numa enorme variedade. Não use a primeira camada, ela contém muita matéria orgânica o que pode prejudicar a fixação, etc.

Baba de cacto = pegue um pedaço de um cacto, pique em pedaços mais ou menos de uns 10 por 10 cm, ou algo assim. Coloque num balde com água e misture. Dê uma volta, deixe de um dia pra outro, misture de vez em quando. Depois de umas 24h coe e aí está tua calda de baba de cacto.


Receitas caseiras para fazer tintas
1) Guache
Ingredientes: 100 g de pó de pintor; 30 g de glicerina; 60 g de goma arábica.
Modo de fazer: Misturar tudo e passar três vezes por peneira fina. Cozinhar em banho-maria, mexendo sempre. Guardar em vasilha de vidro. Ao usar, dissolver em água para obter melhor rendimento.

2) Anilina
Ingredientes: Pó de pintor a gosto; uma colher de chá de gesso; uma colher de sopa de goma arábica; água suficiente para dissolver.
Modo de fazer: Misture tudo. Quanto mais goma arábica for colocada, mais brilhante ficará a anilina. Colocar em vidros fechados.

3) Outra receita
Ingredientes: Uma folha de papel de seda de cor viva; uma colher de sopa de álcool; uma xícara de café de água.
Modo de fazer: Misturar tudo e deixar em fusão por dois dias. Guardar em vidro fechado.

4) Massa para pintura a dedo
Ingredientes: Uma xícara de polvilho ou trigo; uma xícara e meia de água fria; duas xícaras de água fervente; uma xícara de sabão em pó; uma colher de desinfetante líquido, de preferência Lysoform; uma colher de sopa de glicerina; qualquer corante.
Modo de fazer: Dissolver o polvilho (ou trigo) em água fria, adicionar aos poucos a água fervente, mexendo rapidamente para não encaroçar. Levar ao fogo, mexendo sempre. Quando estiver na consistência de mingau, retirar e deixar esfriar.Adicionar o sabão enquanto o mingau estiver morno, em seguida a glicerina, o desinfetante Lysoform e o corante, se quiser que a massa fique colorida. Conservar em lugar fresco.

A têmpera-ovo
A têmpera é a tinta mais antiga que conhecemos. Os artistas pré-históricos do Período Paleolítico faziam misturas com água e pigmentos naturais, como óxidos minerais, carvão, vegetais, sangue de animais e ossos carbonizados, que costumavam ser misturados na gordura de animais mortos. Na Antiguidade, na Idade Média e no Renascimento italiano, a têmpera-ovo foi muito utilizada pelos artistas na produção de iluminuras medievais e pinturas sobre suportes de madeira.

Na têmpera-ovo, o aglutinante é a gema, que é preparada da seguinte forma: separa-se a gema da clara do ovo, colocando-a em um copo com fungicida e misturando-a bem com uma colher. Ao misturar água, pigmento e esse aglutinante, você vai obter uma tinta mais transparente - como a aquarela. Se quiser uma tinta mais espessa - como o guache -, adicione talco, giz ou carbonato de cálcio.


Como achar pigmentos
A terra é um pigmento mineral que pode nos oferecer vários tons de cores. Existe uma grande variedade de terra: mais fina, mais grossa, com diversas tonalidades. Ao utilizar terra em uma atividade, deve-se observar se ela está soltando muita poeira. Para verificar isso pode-se envolvê-la com um pano para, em seguida, bater nele com um sapato ou martelo. Pode-se também peneirar a terra, deixando-a sem grãos nem sujeira. Quando for utilizar a terra como pigmento, você deve decantá-la. Coloque a terra recolhida em uma vasilha com água e espere um dia: os grãos mais pesados irão para o fundo, enquanto os mais leves ficarão na superfície. Recolha esses grãos por camadas, colocando-os para secar em um prato. Eles servirão como pigmentos para colorir a tinta. Folhas, raízes, flores e cascas são corantes vegetais, que devem ser fervidos em água por cerca de 50 minutos. Deixando-os esfriar, pode-se verificar que o líquido obtido é capaz de manchar uma superfície. Alguns exemplos:
Amarelo ou laranja: casca de cebola, cravo-de-defunto, girassol.
Vermelho: serragem vermelha, jabuticaba, casca de nogueira.
Verde: folhas de cenoura, erva-mate, loureiro.
Preto: carvão
Importante: Existem plantas perigosas cujo manuseio deve ser evitado. Consulte sempre um especialista ou botânico. Ossos triturados, conchas e cascas de ovos também servem como pigmentos retirados do reino animal.


Outras fontes de pigmentos naturais:
Açafrão em pó
Amoras
Caroço de Abacate
Casca de Angico
Casca de Aroeira
Casca de Mangueira
Casca de Murici do Cerrado
Extrato de Acacia
Extrato de Alfafa
Extrato de Cochonilha (método cruel, esmagamento de insetos)
Extrato de Curcuma
Extrato de Pau-Brasil
Extrato de Pau Campeche
Extrato de Romã
Erva de passarinho
Folha de erva-mate
Henna
Índigo em pó
Jenipapo
Picão
Sementes de Urucum
Serragem de Moreira

Pode parecer estranho pensar em tingimentos naturais, mas foi graças à abundância de pau-brasil que nosso país (que deve o nome à planta, hoje extinta) foi visto como uma boa opção a ser explorada, a tinta extraída da casca de suas árvores, era o melhor corante vermelho de sua época.
Minha mãe foi bailarina clássica e cansou de tingir suas meias, normalmente em rosa claro, com erva mate na panela, sempre que a apresentação pedia uma meia mais escura. Funcionava, mas ninguém tinha coragem de beber aquele mate depois.


Tinta branca feita com copos plásticos reciclados:
Copos descartáveis
Thinner
Após reunir uma quantidade significativa de copos descartáveis que teoricamente iriam para o lixo ponha-os dentro de uma lata e/ou recipiente metálico adicione uns 500 a 300ml de Thinner, mexa um pouco para acelerar o processo em poucos minutos você terá um "líquido estranho" o ponto de diluição você escolhe mais thinner mais ralo mais copos mais grosso.
Agora é só pintar.


Para impermeabilizar tijolos aparentes em paredes internas:
Base GRUDE: 7 colheres de polvilho azedo diluidas em 1 litro de água.
Levar ao fogo e deixar engrossar ( fica transparente), junte 1 colher de sopa de vinagre.
Depois diluir este grude em 3litros de água fria e pintar as paredes de tijolinho. Duas ou 3 mãos fixam bem. Pode-se ainda usar esta base e colocar terra como corante.


Para quem não quer fazer e arriscar estragar uma parade ou fachada, compre as ecotintas e covernizes prontos para venda do IDHEA (Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica), da Tintasolum, da Ecotintas.com.br, da Ecotintas.ind.br , Ecocasa.com.br , ou da Organum Ecotintas


Para quem quer fazer sua ecotinta, mas gostaria de estudar um pouco mais o assunto antes de partir para a ação, faça um curso à distância de ecotintas, devidamente ministrado e organizado pela Universidade Federal de Viçosa:
O curso Cores da Terra ensina a técnica de fazer tintas usando o solo como pigmento. A pintura de interiores e exteriores é de baixíssimo custo e impacto ambiental e tem alta durabilidade.
Além de dar a opção de fazer a tinta usando grude ou cola branca, o curso também ensina a coletar o solo, preparar a parede e aplicar a tinta. Esta é uma técnica muito antiga que foi resgatada por uma equipe de pesquisadores e estudantes do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa





Mais uma opção, no Gaianos e Gaianos:

Tinta com farinha? Sim, é natural e sem cheiro!

Uma tinta natural, feita em casa, com panela no fogo, no maior estilo mingau de cereal. A grande vantagem vem do fato de sua fórmula ser 100% natural: é uma tinta inofensiva para a saúde humana e o equilíbrio do planeta. Outro ponto positivo? Vamos lá: ela se baseia em um saber antigo, de povos do Marrocos e regiões adjacentes, que há séculos usam a cal para revestir superfícies lisas como paredes, bancadas de pias e até banheiras.
O nome da técnica é tadelakt, que pode ser executada com algumas variações, dependendo da aplicação e do efeito visual que se deseja obter. Trata-se de uma mistura de elementos naturais (farinha de trigo, argila branca, mica, quartzo e água), que permite revestir superfícies internas com ótimo resultado estético e, ao mesmo, sem comprometer a qualidade do ar interno.
Sabemos que as tintas imobiliárias contêm componentes agressivos à saúde humana, que são gradualmente liberados na atmosfera – também com potencial de geração de impactos ambientais. São os chamados compostos orgânicos voláteis ou COVs. Em geral, as pessoas imaginam que o problema se restringe ao período em que a tinta apresenta cheiro, mas não é bem assim: os COVs continuam sendo emitidos à atmosfera mesmo após a eliminação dos odores do produto, causando problemas para a saúde dos moradores, tais como dores de cabeça, insônia, distúrbios neurológicos, fadiga etc.
Já existem algumas certificações de construção sustentável atentas ao problema, bem como fabricantes se empenhando em reduzir o percentual de COVs em seus produtos. De qualquer forma, buscar alternativas caseiras eficientes, econômicas e saudáveis ajuda a simplificar toda essa história, certo?
Então, vamos à receita de tadelakt:
Grude:
2 partes de farinha de trigo (branca ou integral)
8 partes de água
Em uma panela grande, cozinhe a mistura mexendo sempre, até adquirir consistência de um grude mole (mais ou menos por uns 20 minutos).
Tadelakt:
3 partes de argila branca
1 parte de mica
1 parte de quartzo
1 parte do grude preparado com farinha

Misture tudo em um balde grande e vá adicionando água aos poucos, mexendo bem, até adquirir consistência para aplicar com pincel ou trincha.
Se desejar, você pode acrescentar pigmentos minerais para obter diferentes cores e tonalidades.
Acabamento:
4 potes de pasta para dar brilho em panelas e louças
água
Após a segunda demão de tadelakt, dilua a pasta de brilho em água e, com um borrifador, aplique a mistura sobre a superfície semisseca, usando uma pedra de seixo rolado para alinhar os minerais até deixá-la totalmente lisa. Se for o caso, é possível substituir a pedra por um tecido bem grosso (tipo jeans).
No Marrocos, o tadelakt é muito usado para revestir pias, banheiras e paredes de banheiros. Mas a receita, neste caso, deve incluir 2 partes de cimento branco, 1 parte de argila branca, 1 parte de mica e 1 parte de quartzo. Ao acrescentar água, a mistura deve ficar com consistência pastosa, para ser aplicada com uma espátula.


Veja na prática como se faz uma ecotinta e leia abaixo o relato de Tomaz Lotufo no BioArquiteto.com.br:
 












As paredes tiveram um resultado incrível, trabalhamos com 3 camadas de barro, de forma que na ultima aplicamos linhaça e leite em pó(caseina), dando estabilidade e resistência a parede. Com este cuidado, o resultado é uma parede de terra crua sem trincas.

O acabamento foi feito com tinta natural (sem tóxicos) a base de mingau de polvilho (grude), óleo de linhaça e leite em pó (caseina), pigmentada com óxido ferroso (pó xadrez ocre), pó xadrez vermelho e preto.

As fotos demonstram a qualidade que pode se dar à uma barede de pau a pique com acabamento de tintas naturais. Um aproximação de uso da bioconstrução no meio urbano.


 
Outras fontes de consulta não linkadas acima:
Ecotintas e Pigmentos naturais
Latas de tinta não reciclam
blog da Professora Mara
Ecovila Beira Serra



Mais informação: A casa sustentável é mais barata

4 comentários:

flor da pele disse...

Olá Carol,
Adorei essa postagem.
Sempre procurei usar essas formas naturais de tingimentos nos meus trabalhos e com ótimos resultados.
Beijos,
Sonia.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Sonia, eu acho seus sabonetes sensacionais e fico muito feliz pela troca do mel pelo melado.
Grande beijo,
Carol

Eliandro Kienteca disse...

Gostei muito da proposta! Além disso, faz tempo que tenho buscado fazer um acabamento em tadelakt. O único problema é saber onde encontrar quartzo e mica (ambos em pó?) no RJ.

Eu gostaria que me indicasse um local confiável para encontrar, nem que seja em outro estado através da internet. Obrigado!

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Eliandro, vc já fez uma busca no google por fornecedores de feldspato e pó de mica e quartzo?
Tem empresas que só trabalham com isso, como muitas chinesas, que não recomendo por não conhecer.
O pessoal que desenvolveu a técnica tb pode te ajudar. Já contactou?

Abs