quarta-feira, 13 de abril de 2011

Reciclagem de edifícios na Holanda e na Dinamarca

Uma das minhas muitas críticas é em relação à cultura de desperdício na construção civil, me aprofundo melhor no assunto na postagem Um país em obras, citando como exemplo a casa onde morei, construída pelo meu pai reaproveitando material de demolição, especialmente madeira de lei. E a foto que ilustra a postagem é justamente do Palácio Monroe, antiga Sede do Senado e demolido.
Em tempo, a construção civil no Brasil ainda não saiu do século XIX, com seus peões analfabetos morando nos barracões, comendo pelo chão, trabalhando sem carteira assinada, qualificação, treinamento e equipamento de proteção. O setor inclusive é campeão em acidentes de trabalho, trabalho infantil e irregular, só perdendo para pecuária, canaviais e carvoraria.


Mas hoje, trago boas novas, o pessoal do Coletivo Verde traz uma série de casos onde construções abandonas foram reaproveitadas com outros fins e até reintegradas à paisagem. Leia melhor abaixo:

Se você é interessado pelo tema da sustentabilidade, com certeza já ouviu falar que a redução de consumo é vital para que possamos continuar habitando esse planeta. Diminuir o consumo significa principalmente reduzir os resíduos, que são despejados diariamente no mar, em rios, terrenos baldios ou em aterros sanitários.

Você sabia que cerca de 65% dos resíduos sólidos produzidos nas cidades são entulhos de construções?

Demolições, reformas, ampliações de edificações geram um volume gigantesco de lixo que não é aproveitado e fica depositado muitas vezes em locais irregulares. Cada metro quadrado construído gera cerca de 150 kg de resíduos!

Para diminuir este impacto uma ideia que vem ganhando força nos últimos anos é a reutilização de edifícios abandonados: ao invés de demolí-los, gerando toneladas de entulho, reaproveita-se as estruturas e infra-estruturas para novos usos.


Mas o que é uma construção sustentável? Difícil definir exatamente, mas acredito que seja uma obra que concilie alguns itens básicos da sustentabilidade, como:

Redução do consumo de energia e de água (na construção e no uso do edifício);

Redução dos resíduos e da poluição e melhoria da qualidade de vida dos usuários.

A reutilização de edificações abandonadas vem ganhando força, principalmente na Europa, e começa a ser considerada no Brasil.

Na Holanda, o escritório NL Architects projetou um centro multi-cultural dentro de silos abandonados na cidade de Amsterdam, com direito a parede de escalada, academia, teatro, escritórios e estúdio de música. Eis as imagens do “antes-e-depois” e uma perspectiva interna do edifício.







Já na Dinamarca, uma torre de água foi transformada em moradia estudantil. O projeto é do escritório DorteMandrup e você pode ter mais informações sobre o edifício no Arch Daily.







No Brasil há uma iniciativa muito bacana de reutilização de edifícios abandonados no centro das grandes cidades para habitação social: o nome do projeto é Moradia Central e tem como princípio a revitalização de imóveis degradados e a diminuição do deslocamento moradia-trabalho, que consome cada dia mais tempo e energia. Essa inclusão da população de baixa renda no acesso às cidades é uma forma de sustentabilidade: social.

Se na sua região tem algum edifício abandonado, envolva sua comunidade, discuta um novo uso para a área: muitas vezes o valor devido de impostos do imóvel ultrapassa seu valor comercial, possibilitando que a Prefeitura se aproprie do lugar. Quem sabe aquele prédio feio não se transforme em algo útil para a cidade?



Sobre o Moradia é Central, leia mais:

Moradia é central - INCLUSÃO, ACESSO E DIREITO À CIDADE

As áreas centrais das cidades brasileiras são as que oferecem melhor infra-estrutura urbana e oportunidades de trabalho. No entanto, essas áreas têm perdido moradores nas últimas décadas e contam hoje com uma grande quantidade de imóveis vazios e ociosos. Muitos dos moradores que ali permanecem vivem em situações precárias - em cortiços, favelas e nas ruas. A transformação dos imóveis ociosos em habitação social, juntamente com a melhoria das condições de vida da população que vive nas áreas centrais, além de promover inclusão social, implica em melhor aproveitamento da infra-estrutura existente.

É uma medida que favorece a cidade como um todo: contribui para o combate à expansão das periferias, previne o aumento da ocupação de áreas de proteção ambiental e diminui as necessidades diárias de deslocamento casa-trabalho - que tanto comprometem o trânsito. O objetivo do projeto MORADIA É CENTRAL é demonstrar a importância do acesso da população de baixa renda à habitação social nos centros urbanos.



Visite também o site do Forum Nacional de Reforma Urbana, que trata de mobilidade e direito à cidade - parece papo de ocupação clandestina, mas é sério e levanta uma questão que governo nenhum consegue responder: Por que o trabalhador mal remunerado tem que morar tão longe do local de trabalho?





Mais informação:
Casas na árvore
O mito do reflorestamento de eucalipto
Antigo Sears Towers convertido em usina solar
A casa sustentável é mais barata - parte 01 (básico de sobrevivência)
2 fábricas antigas, que deveriam ter sido tombadas, mas foram postas abaixo
Antiga fábrica abandonada em Chicago é transformada em fazenda urbana vertical energeticamente autônoma

10 comentários:

Lubélia disse...

Carol bom dia.Eu tenho um sonho de construir uma casa com materiais reaproveitáveis e que possa sersustentável com energia, agua e demais propostas,mas fica difícil pq parece que tem um pessoal que se aproveita da sustentabilidade para encarecer tecnologias e enriquecer,fica tudo inviavel quando a real proposta é ficar livre das grandes empresas de energia,água etc.
Um sonho mesmo

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Lubélia, estou surpresa com seu comentário. Na verdade, é mais barato fazer uma construção-reforma sustentável do que convencional. Se puder me dizer exatamente o que vem encarecendo sua obra, posso detalhar tudo para vc e até te indicar alguns fornecedores.
Bjs e entre em contato

Lubélia disse...

carol estou estudando o manual do sosol pra fazer o curso e desenvolver tec solar,e tudo o q eu acho que não seja tipo faça vc mesmo,o danado do empresário quer me esfoloar alegando um papinho furado de custo/benefício,design.obrigado por me atender com tamanha generosidade.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Fiquei tão impressionada com teu comentário, achei a situação tão absurda, que escrevi sobre o assunto numa postagem chamada "A casa sustentável é mais barata - parte 1". Fique de olho, vou cair dentro desse assunto pelos próximos dias.

Cacau Gonçalves disse...

Carol, aproveito a carona para dar meu depoimento tb... Eu morava em uma pequena cidade do Sul de Minas e não sei se em função disso quando fui procurar fazer uma casa bioconstruída fiquei sabendo que, apesar de bem pequena, ela não sairia por menos de algo em torno de 75 mil reais (com este valor, na época, dava pra comprar uma casa pronta, maior do que a que queríamos construir, naquela cidade).

Tempos depois, um conhecido meu, que é mestre de obras, disse que uma casa que fosse construída nos padrões normais, mas com materiais "alternativos", daquele mesmo tamanho, poderia custar algo em torno de 45 mil. No final, acabamos mudando pra outra cidade e tudo mais... Mas ficou claro que só o termo "bioconstruído" tava valendo em torno de 30 mil reais. Sendo que casas bioconstruídas maiores (100 m2), pelo que já pesquisei, têm custo de material entre 7 e 10 mil reais. Ou seja, todo o resto é mão de obra.

Isso foi algo interessante pra mim, que não entendo lhufas de obras... Sou jornalista e taróloga, não arquiteta... E comecei a pesquisar esta coisa de construção.

Antigamente, as pessoas construíam suas próprias casas, sem serem arquitetos ou engenheiros. Aliás, o bisavô do meu ex marido, que era fazendeiro, construiu um prédio (pré-di-o) de 3 andares, que está em pé até hoje em Cachoeiro do Itapemirim, já deve ter mais de 50 anos... Como fomos deixando nossas vidas, nossas casas, nossa saúde, nossa alimentação nas mãos de estranhos, com a desculpa de eles terem um diploma que garante que sabem o que fazem?

Estou sendo muito rebelde? rs

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Não, meu bem, vc está certíssima.
Da mesma forma que os nutricionistas cansaram de fazer papel de propagandista, está mais do que na hr, dessa revolução se estender às nossas casas.

Vou ainda mais longe, nas periferias, todo mundo constrói seu puxadinho.

Mariana disse...

Oi Carol tudo bem?
entrei em seu site por acaso, ao visitar o blog da sonia.
Como engenheira civil concordo com você quando diz que a construção civil é o setor que mais gera resíduos, além de enfrentar a falta de qualificação da mão-de-obra (pq peão é somente os de rodeio-que fique claro).
Os países desenvolvidos são mais "sustentáveis" pq já não possuem tantos recursos naturais como o Brasil (que enquanto possui não está se preocupando com a falta do mesmo) por isso desenvolveram técnicas para aproveitamento de enegia, de chuva, eólica, etc..No Brasil temos o sistema de aproveitamento de chuvas através de cisterna (no Nordeste, onde falta água e quando cai do céu tem que armazenar).
No caso do aproveitamento de edifícios acho a idéia super válida mas no Brasil, a maioria dos prédios abandonados são de construtoras que faliram e os prédios possuem proprietários (gente que perdeu muito com isso). Será justo? A sustentabilidade social é para todos..
Outro assunto que vi nos comentários foi a não necessidade de engenheiros para a construção de casas..a sociedade está tão acostumada com os "puxadinhos" que acha normal..gente, isso é reflexo da cultura do "todo mundo sabe construir" é só "bater uma laje" ou "coloca um concreto forte - meu Deus, o que é isso? um concreto que toma bomba??? E as favelas são lugares esquecidos pelo poder público que só pensa nas políticas imediatistas e deixa o povo lá. Mas voltando ao assunto, as construções tem um padrão, uma norma a ser seguida, no que tange a dimensão mínima de comodos, a melhor disponibilização, enfim, é todo um estudo a ser feito e não só faze um puxadinho...
Vamos parar de achar que todo mundo sabe construir e valorizar mais os profissionais. Cada caso é um caso. Pra fazer uma casa é um sistema X. Pra fazer um prédio, um sistema Y ou X. quem saberá escolher a melhor forma de construir evitando o desperdício é o engenheiro. Mas o setor está no boom ultimamente e por conta da não-qualificação da mão de obra acontece isso. Agora, se o cara não sabe nem ler e nem escrever (e não se exige isso), vc acha que ele vai se importar em reciclar material? em desperdiçar menos?
E isso não é só para as grandes construtoras. Vale também para a maioria das pessoas que quando vai reformar a casa chama o primeiro que aparece (o que importa é o cara ser forte pra quebrar a parede, não é?) ou estou enganada??
Acho que isso é discussão que não acaba nunca..o setor da construção embora esteja crescendo está defasado em alguns pontos e cabe a nós , profissionais passar essa conscientização para eles.

Do mais, gostei muito do blog, vou visitar sempre que puder.
Obrigada
Mariana
Eng. Civil e Pesquisadora de tecnologias para construção.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Mariana,
eu estou há dias pensando em como te responder.
Vamos lá. Eu sou peão, não tenho problema com isso e todos os peões que conheço tb não. Existe até a expressão "rádio peão" para a fofoca que rola em off seja numa plataforma, seja num grande canteiro de obras.
Hoje, faço faculdade de Engenharia, onde fui aprovada em primeiro lugar no vestibular, mas sei por ter sido peão, que Engenheiro não é isso tudo. Eu falo melhor sobre isso na postagem "Eu queria trabalhar com sustentabilidade".

Você fala em normas e padrões, o que é válido, até por serem obrigatórios por lei e criados visando o bem comum e a segurança de todos. Aí eu te pergunto, e as casas da permacultura bioconstruídas pelos próprios moradores obecendo a critérios pré-estabelecidos? Está todo mundo errado?

Vou um pouquinho mais longe, se imóveis urbanos abandonados pertecem a construtoras falidas ou cidadãos que não podem arcar com seus custos, nada mais justo que sejam desapropriados em prol do bem comum: instalar o trabalhador próximo ao local de trabalho. A Reforma Agrária tb não seria uma forma de desocupação? Então nada mais justo do que uma Reforma Urbana, afinal temos 80% da população concentrada em grandes centros e apenas 20% no campo.

Aqui no RJ, os imóveis valorizaram 500% na última década, em alguns bairros há o metro quadrado a $50.000,00, o que nos leva a imóveis de sala e 2 quartos por mais de R$3 milhões.
Será que as grandes construtoras não estariam por trás dessa súbita transformação da cidade, antes lugar comum no Jornal Nacional pela violência, em Olímpica e Futebolística com favelas pacificadas a bala?

A questão primordial nessa história toda é: engenharia é política e manter as propriedades urbanas na mão de meia dúzia é muito lucrativo, principalmente a longo prazo com a valorização de áreas decadentes e a respectiva especulação imobiliária.

Um abração, suas colocações levaram a outras questões.
Carol

Carlos Heitor disse...

Boa tarde,
Em primeiro lugar gostaria de parabeniza-la pelo blog, ele me ajudou
muito. Venho por meio deste comentário
saber se você conhece ou sabe da existência de algum livro que fale especificamente sobre este assunto, reutilização de edifícios, e tb tenho uma pergunta: este tipo de intervenção seria o mesmo que retrofit?
Sou aluno do curso de arquitetura e gostaria de fazer meu TCC sobre esse assunto. Agradeço desde já.
Carlos Cerqueira

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Carlos, não conheço nenhum livro a respeito, mas achei alguns links q podem te ajudar e quem sabe, levar aos livros que procura.
Boa sorte com tua monografia.

http://www.forumdaconstrucao.com.br/conteudo.php?a=22&Cod=60
.
http://www.pergunteaoengenheiro.com.br/novos-materiais/88-retrofit-o-que-e.html
.
http://www.tha.com.br/espacotha/arquitetura-retrofit-uma-tendencia-mundial/
.
http://oglobo.globo.com/rio/tendencia-do-retrofit-chega-gloria-4765672
.
http://www.sindiconet.com.br/607/Informese/Retrofit
.
http://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/imoveis/noticias/retrofit-atualiza-edificacoes-e-espacos-degradados


abs,
Carol