segunda-feira, 2 de maio de 2011

A casa sustentável é mais barata - parte 06 (captação de águas pluviais)

É o meu tema favorito em construção sustentável.
A gente vive num país onde se lava calçada em dia de chuva com mangueira, se empurra as próprias fezes com água potável e, no verão, somos obrigados a chamar um caminhão pipa obviamente.

Observe que toda laje tem naturalmente uma inclinação para escoamento de água da chuva, as calhas coletoras normalmente despejam essa água coletada o mais próximo possível da rua, gramados e até bueiros.

O problema de coletar água da chuva não é nem tanto pela coleta, mas pelo armazenamento.
Instalar calhas é fácil, difícil é manter uma cisterna de uso viável que não tome toda a área útil do terreno.
Caso tenha um quintal-horta, acople outra mangueira à saída da cisterna e fure a mesma ao longo de todo o comprimento, mantendo uma distância de 2 cm para cada furo. Essa mangueira vai irrigar todo o seu quintal-horta, permitindo a melhor forma de irrigação: por gotejamento, sem perda por evaporação.




Vamos aos métodos:

Waterwalls tanks (meu preferido):
Um muro, ou parede divisória, em PVC prémoldado e sem divisórias, onde a água coletada pelas calhas flui por sistemas de vasos comunicantes, mantendo o peso da estrutura distribuído.
Imagino inclusive que possa ser feito a partir de plástico reciclado, basta um bom polímero de alta densidade para aguentar a pressão interna.
Visite o site de um fabricante australiano e descubra como a instalação é simples, rápida e barata.









Os waterwall tanks possuem abertura superior igualzinha a de um cantil plástico, justamente para que a calha coletora seja encaixada. Algumas pessoas deixam as calhas do telhado em nível mais baixo, usando então uma bomba para puxar a água para o waterwall tank, eu acho mais fácil acoplar a calha direto na abertura do tank.
O waterwall tank pode ter função decorativa quando integrado à paisagem e servir de apoio à cercas vivas floridas. Para quem ainda resiste à estética do waterwall tank, deixo como sugestão fazer uma cerca em treliça de pallets e plantar muitas trepadeiras, como hera, açucena e buganvilia para que as plantas tomem a estrutura de madeira. Para saber tudo sobre pallets, veja a postagem A casa sustentável é mais barata - parte 07 (pallets e reels).


As empresas brasileiras que produzem water wall tank, ou a caixa slim, veja a postagem homônima: Tanque (ou caixa) slim, a versão brasileira do water wall tank



O que é realmente usado aqui no Brasil:
Cisternas aparentes ou subterrâneas, vou começar pelas subterrâneas:



Por que eu não gosto?
Porque precisa "quebrar" e é mais caro, além do risco de vazamento que pode vir até a comprometer a fundação da casa. Brasileiro gosta de obra, quanto mais tijolo, melhor e eu falo melhor sobre essa obsessão nacional em duas postagens: "Um país em obras" (o nome já diz tudo) e "Reciclagem de edifícios".
Gringo gosta de tudo pré-fabricado e de fácil aplicação. Eu fico com os gringos nesse caso, qualquer mocinha instala um waterwall tank, já a cisterna suterrânea vai precisar de meia dúzia de pedreiros, manta de impermeabilização, bomba, alterar a tubulação da casa pelo menos no primeiro andar e pior, veja o que demanda instalar uma cisterna dessas na sua casa, segundo o site da Seferin Arquitetura, que escreve com propriedade e responsabilidade:

"Então, como dimensionar um sistema de coleta de água da chuva?


1) Deverá ser identificado o índice pluviométrico da cidade em questão.

2) Definir qual será a área de coleta. Geralmente é indicado que se faça nas coberturas, mas, a coleta de água das pavimentações também é utilizada, apesar de ser uma água mais suja.

3) Calcular o volume de chuva coletado, por cada mês do ano.

4) Identificar qual será o volume de água reaproveitada. A água, após tratada, poderá ser utilizada na irrigação ou nas bacias sanitárias. Nunca poderá ser utilizada para fins potáveis.

5) A cisterna será dimensionada a partir do cruzamento de duas condicionantes: volume de água coletada X reuso. Somente será coletado o que for utilizado. Deve ser feito um estudo de mês a mês para identificar o período seco e prever o abastecimento da cisterna para esses meses. Por exemplo, em meses em que a chuva não atende a demanda de reuso necessária é primordial prever um acúmulo de água na cisterna nos meses anteriores para poder abastecer o prédio nesses meses de estiagem.

Vale lembrar que o mais caro do sistema é a cisterna e, portanto, é essencial o correto dimensionamento da mesma.

Existem métodos que podem ser utilizados para fazer o cálculo de dimensionamento das cisternas. Em nosso escritório é usado, para cálculo, as planilhas do método de Rippl.


Da captação até a reutilização

Depois de dimensionado o tamanho da cisterna devemos nos preocupar com o sistema de coleta e desinfecção.

Devemos ter consciência de que telhados são sujos por fezes e animais mortos e de que a chuva, em determinadas regiões, é poluída. Mas, geralmente, um sistema de desinfecção por cloro já seria suficiente. Em alguns casos, como em zonas industriais, poderá ser usado um sistema de desinfecção por ozônio ou UV.


Qual o caminho da água até a reutilização?

1) Após coletada a água pela superfície do telhado, ela deverá passar por um equipamento que fará a eliminação da água dos primeiros 15 minutos de chuva. Essa água é considerada muito suja, pois será a água que lavará o telhado. Então, o ideal é eliminá-la.

2) Após passar pelo sistema de eliminação dos primeiros minutos de água, ela deverá passar por um filtro removedor de partículas. Um ótimo equipamento é o filtro de descida Vortex, da Wisy.

3) Após passar pelo filtro, a água passará por um clorador.

4) Por fim, essa água chegará à cisterna. É importante que haja um freio no fim da tubulação de descida para que não ocorram turbulências no interior da cisterna.

5) Essa cisterna deverá ter um extravasor e um ponto de abastecimento com água potável da rede, controlado por um sistema de bóias. Esse sistema assegurará que a cisterna esteja abastecida mesmo em condições extremas de estiagem.

6) Através de uma bomba submersa essa água se transferirá para um reservatório de reuso. Indica-se que sejam utilizadas bombas de pressão e não de sucção, pois exigem menos manutenção.


Cuidados a serem tomados:

Nunca cruzar a tubulação para água de reuso com tubulações de água potável.

Sempre identificar, com sinais, onde existe água de reuso e assinalar que essa água não é potável."


É de desanimar, principalmente porque não é "necessário", sustentabilidade ainda é vista como supérfulo e os gastos de uma obra costumam ultrapassar muito a previsão inicial. Como se diz no meio "Obra não se acaba, se abandona".

Outro método nacional, a cisterna aparente:


Bem intencionado, mas eu prefiro um waterwall tank colorido e integrado à paisagem do que essa caixa d´água imensa (e feia) atravancando a minha passagem. É uma questão de estética, espaço e utilidade: um waterwall ocupa menos espaço, integra-se à paisagem, substitui muros e paredes economizando mais matéria-prima e mão de obra, além de armazenar um volume muito maior de água.
Mais uma vez a questão da "obrinha", repare na foto que a escada de acesso à habitação foi reconstruída para que a caixa d´água ficasse num patamar próprio e a torneira pudesse então ser girada. Ainda alterou a fachada, impedindo a visão e passagem da porta de madeira antiga e bonita. Pior, a julgar pela cortina atrás da porta, essa saída deve ser na área social de convívio.



Para grandes edificações, veja a postagem Por que Tóquio não alaga?
"O subsolo de Tóquio alberga uma fantástica infraestrutura cujo aspecto se assemelha ao cenário de um jogo de computador ou a um templo de uma civilização remota. Cinco poços de 32 m de diâmetro por 65 m de profundidade, interligados por 64 Km de túneis, formam um colossal sistema de drenagem de águas pluviais destinado a impedir a inundação da cidade durante a época das chuvas."

E mesmo contando com a estrutura abaixo, alagou no último tsunami.





Mais informação: A casa sustentável é mais barata

3 comentários:

João Ricardo Louven disse...

Legal Carol! Gostei da reportagem.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi João, vi que é estudante de engenharia. Seja bem vindo.
Descobri o waterwall tank num curso de reúso de águas cinzas do CREA, válido. Aproveitei e já estou visitando um link que vc indica no seu blog, da ABES RJ.

Muito bom, apareça sempre
Carol

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

oi João, dá uma olhada na versão nacional: a caixa slim
http://caroldaemon.blogspot.com/2011/07/tanque-ou-caixa-slim-versao-brasileira.html