terça-feira, 26 de julho de 2011

Adotei mais um cãozinho: a Pipa



Há fases na vida em que a única coisa que a gente tem é um fiapo de esperança, quando a Pipa chegou, foi assim.
Mas a presença de um bebê em casa muda tudo, é mais chamego, bagunça, xixis fora do lugar, panos comidos, rodapés roídos e parece que, dentro desse caos, tudo volta a fazer sentido e se rearrumar.

Há mais ou menos 1 mês, eu vinha da Feira de Orgânicos do Flamengo carregando 3 kgs de fruta na ecobag, passei por um menino de rua com um filhotinho lindo no colo, brinquei e ele não perdeu tempo "Moça, leva que eu não tenho como criar".
Era a frase que eu precisava ouvir para parar e olhar com mais atenção.
"Leva, é fêmea, é boazinha."
Na hr, pensei "Não! Você já tem 2 cães!"

Mas a verdade é que eu sempre quis 3, gosto mais do número e acho que uma terceira figura em cena desempata relações simbióticas e co-dependentes. A Olimpia está comigo há 3 anos, a Margarida  há 1. Ambas vieram para minha casa com 6 meses, já eram maiores e a relação foi mais de pega daqui e leva para lá, ensina a não fazer cocô no tapete, a não sair correndo pela porta, etc.
A Marga já chegou até castrada, era maior do que a Olimpia inclusive.

Desci a rua com o guri, que não me chamou de "tia", não me secou de cima a baixo, não cheirava à cola, nem se ofereceu para segurar minha bolsa (e sair correndo) e tampouco falava errado. Educado, com a cadelinha no colo o tempo todo, fazia carinho.
Puxei assunto, perguntei quem deu, como ela (e ele) haviam acabado naquela situação.
A história de sempre: "Uma moça deixou aqui, a dela teve muitos e ela não tinha mais para quem dar. Disse que é labrador."
Os donos têm pena de castrar, mas não têm de abandonar os filhotes, o que é crime previsto em lei. Sem comentários.
"E você, na rua, você tem família?"
"Tenho, mas me batiam e eu vim para a rua, eles moram na Nova Holanda (favela). Minha mãe me batia, meu pai foi embora... Meu irmão também me batia"
Merda... o que se diz nessas hrs?
"Você está na rua há muito tempo?"
"Tô, há muito tempo", o olhar completamente perdido sem esperança nenhuma.

Falei para irmos a um parque em frente a minha casa onde todos os moradores do bairro levam seus cães para passear, alguém que quisesse um vira-latinha poderia estar por ali dando sopa e quem sabe aquela coisinha teria uma sorte melhor.

Cheguei no Parque com o menino e, de filhote no colo, comecei a oferecer "É dele, não tem como criar, você não quer pegar? Eu já tenho duas..."
Ninguém quis, ainda olharam para o garoto com desdém.
O engraçado nessas hrs é que ninguém responde "Eu também já tenho 1... 2... 3 cães". As pessoas não têm cães, têm poodles, boxers, filas, bassets, etc. A raça prevalece.
Eu sempre tenho vontade de perguntar "Mas qual é a sua raça mesmo? A minha é humana, olha que coisa!"



Comecei a conversar com o menino, o filhote no meu colo, comendo meu cabelo e fazendo festinha.
E ele: "Leva, ela gosta de você, eu não tenho como criar".
"Você precisa de alguma coisa?"
"Se tiver um dinheiro, é bom"
"Faz uma coisa, por quanto você me vende esse cachorro?
"R$30,00, tá bom?"
"Só tenho R$50,00, pode ficar, compra alguma coisa para comer, uma sandália. Está frio, você está descalço..."
"Vou comprar um chinelo"
"Compra um pouco de comida, tenta voltar para casa. Se te baterem, pede ajuda para os vizinhos, chama a polícia. Ninguém dura muito na rua".
O olhar perdido de novo, cheio de lágrimas para acabar de vez comigo.
Merda... onde está o dinheiro dos 5 meses anuais de trabalho que eu sou obrigada a pagar de imposto ao Governo? Cadê o pessoal concursado do Conselho Tutelar e da Defensoria Pública?

Fui embora com o cachorro, precisava ainda ir ao banco, fazer um monte de coisas... O coração apertado por não poder salvar outro filhote, o da minha espécie.

Existem pessoas e olhares que a gente nunca esquece, o desse menino, Felipe, é um deles.



As duas primeiras fotos são da Felipa (ou Pipa) na mesa do veterinário, menorzinha do que a ecobag que eu venho usando para carregá-la de um lado para o outro. Antes da série de vacinas terminar, nada de coleira e contato, só colinho e ecobag.


Pela milésima vez: cada animal comprado é um animal a menos sendo adotado e morrendo de solidão, fome e doença na rua ou num abrigo superlotado. Se já tem algum animal, cão ou gato, castre.


Mais informação:
Fábricas de filhotes
Onde castrar seu animal gratuitamente
10 passos para tornar seu animal de estimação mais sustentável
Comendo a ração que vende - parte 09: caminha de cachorro em pallet
Castre seu cão: 1 casal pode gerar 80.000.000 descendentes em 10 anos



10 comentários:

Mila Fontes disse...

Carol,Bom dia! sou Mila de AREIA bRANCA,R/N amuh cachorros que é uma coisa demaiis é de dentro de mim é mais forte que eu sabe eu tinha uma cockie spainels ingles Dana morreu no ultimo dezembro o gato meu trouxe uma doença paralisou as patas traseira dela dai ela sofreu tanto e morreu,depois o Xulec gato tbm morreu mais sofrii tanto que ainda sofro o guia e peitoral dela ainda ta aqui do aldo do meu pc olho todo dia,no mes de maio agora dei uma poodle preta a uma amiga keline de tanta vontade que queria pra mim sera que eu crio de novo?? Entra no meu orkut vc vai vê-la : Mila fontes choco_mila@hotmail.com valeu adoreii seu blog.

Anônimo disse...

Puxa, Carol, me emocionei com o relato. Muito bonita sua atitude, para com os dois filhotes.
O Felipe parece ter a idade do meu sobriho mais velho, que está me visitando esses dias...essas situações dão um nó na garganta, aperto no coração, faz pensar muito mesmo...

Tomara que o Felipe volte pra casa, que sua família tenha condições de tratá-lo melhor, tantos "ques" que a gente só se sente impotente :(

A Pipa é linda, muito fofa! A família cresceu, parabéns!

E obrigada por partilhar essa sua história...bjs!
Edith

Anônimo disse...

Carol, menina, parabéns pela adoção. Vocês todas serão muito felizes! Atitude responsável do garotinho, achar dono pra menina. Poderia tê-la abandonado como muitos, inclusive alguns com condições de manter os animais. Deve ter doído separar-se dela. É o afeto sem preconceito.
Bjs.
Ana Maria

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi pessoal, a Pipa é uma fofa, espertíssima, manda e desmanda na Margarida, que é muito maior.

O Felipe se despediu da Pipa, fez carinho, abraçou... foi de partir o coração. Nunca mais o vi.

Fico imaginando quantos Felipes não existem por aí e quantas Pipas não acabam na panela por falta de comida aos moradores de rua.

Adriano Carvalho disse...

Encontrei o nome do blog no Top 30 do Top Blog e resolvi dar uma passada.
Adorei o senso crítico e até meio ácido nos artigos.
Já me tornei seguidor.
Parabéns e sucesso no concurso.
Também estou dando meu voto.
Abraço

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Adriano,
obrigada e seja bem vindo.
Acabo de votar no Caminhando Junto, boa sorte no concurso para todos nós!
Abs,
Carol

Cacau disse...

Se o mundo fosse um pouco mais sensível como vc foi neste momento certamente nehum dos dois estaria abandonado e sem carinho. As pessoas em geral só desejam o que lhes confere status, compram demais, consomem sem ter o menor sentido. Penso que espiritualmente os humanos estão como adolescentes mesmo sendo cronologicamente adultos. Fazem coisas só porque os outros fazem, ou pra aparecer (pros outros). Não fazem pensando no coletivo ou buscando alguma coerência. Acho que tem gente que ainda tenta. Parabéns pelas tuas acolhidas eu tenho 2 adotados também. A Brisa e o Maré. Se quiser conhecer os meus vira-latinhas amados entra no meu blog. Na Postagem Maré. Bjs Cacau!

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Brisa e Maré, que nomes lindos e oceânicos, parece nome de veleiro. Vou lá ver os dois. Bjs e apareça

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Pessoal, a Pipa literalmente dobrou d etamanho nessa últimas semanas. Chegou lá em casa com 3,5kgs e já está com 7!
Fofa, espertíssima e me dando um trabalhão. Não vejo a hr de aplicar a última vacina para levar para passear.
É o filhote mais bonito que eu já vi, um chamego só :-)

Sansan Olivierr disse...

Carol

Fiquei emocionada com a foto do garoto com a cachorrinha: me cortou o coração!

Adotei 5 vira-latas por não aguentar vê-los na rua a merce da pp sorte. Mas, é o que vc falou : e os filhotes da nossa espécie?

Pagamos nossos impostos, ajudamos ongs, mas nunca nada é suficiente, pq o que prevalece, infelizmente, em nosso país é a corrupção...

Triste tudo isso.... Mas, ainda bem que existem boas pessoas no mundo como vc

Um beijo carinhoso
sandra