segunda-feira, 15 de agosto de 2011

2 fábricas antigas, que deveriam ter sido tombadas, mas foram postas abaixo

Uma das muitas críticas que se faz por aqui é sobre a mania nacional de derrubar edificações antigas para levantar algo novo no lugar.
Comecei abordando o assunto na postagem "Um país em obras", continuei em "Reciclagem de Edifícios" e "6 parques públicos construídos com material reciclado" e me aprofundo na série "A casa sustentável é mais barata", que já está na décima quarta parte e, espero assim, deve continuar infinitamente.

Por que colocar tudo abaixo não é bom?
"A média de entulho produzido por metro quadrado em obras novas é de 150 kg, o que faz com que uma obra de 10 mil m produza cerca de 1.500 t de resíduos. No ano de 2000, é dito, foram descartadas na cidade de São Paulo 17.240 t de entulho por dia."
Leia melhor na postagem "A casa sustentável é mais barata - parte 10 (ecotijolos)"

Ainda, mesmo que usássemos todo o entulho produzido pelos grandes centros para produzir ecotijolos reciclados, a idéia não é essa. Como já foi exaustivamente repetido aqui - reciclagem é um conceito apoiado num tripé: recusar, reutilizar e só então, reciclar. A transformação (reciclagem) é a última etapa do processo, quando as duas primeiras já revelaram-se inúteis.
O próprio processo de fabricação do ecotijolo usa energia, água e matéria prima. A nova edifficação, em substituição à demolida, consumirá igualmente água, energia e matéria prima. É a cultura do desperdício que deve ser combatida e nunca uma edificação antiga.

No mundo todo está havendo a tendência de aproveitar construções antigas, incluindo usinas nucleares desativadas, justamente para economizar recursos e integrar a população em área públicas de convívio, o que dá ao conceito de urbanismo, uma dimensão muito maior do que o paisagismo que vemos no Brasil.

Seguem os dois casos lamentáveis abaixo:



Fábrica de 70 anos vai ao chão e vira condomínio em São Paulo

Projetado por Rino Levi na década de 1940, o prédio da antiga Companhia Jardim de Cafés Finos, na região central de SP, foi demolido há cerca de dois meses. Apesar do “inquestionável valor arquitetônico” que tinha, o edifício não aparecia em nenhuma lista de bens protegidos pelos órgãos do patrimônio histórico e a construtora não teve nenhum impedimento para derrubá-lo! Na matéria publicada pelo jornal Folha de S. Paulo no dia 6 de agosto, os arquitetos o arquiteto Lúcio Gomes Machado e Paulo Bruna falam um pouco da perda. Veja:

Às vésperas de completar 70 anos, a fábrica projetada pelo arquiteto ícone do modernismo brasileiro, Rino Levi, não resistiu à pressão imobiliária na capital paulistana e veio ao chão. No lugar do prédio da antiga Companhia Jardim de Cafés Finos, serão erguidos dois condomínios residenciais.

Embora com valor histórico e arquitetônico inquestionável, de acordo com especialistas ouvidos pela Folha, o edifício construído em 1942 na avenida do Estado (centro) não aparece nas listas de bens protegidos pelos órgãos do patrimônio histórico.

“O edifício era um documento fundamental para a história da arquitetura brasileira. O fato mostra falta de conhecimento de nossa cultura. Muito triste”, diz o arquiteto Lúcio Gomes Machado, 65, professor da faculdade de arquitetura da USP.

Para Machado, “qualquer arquiteto com razoável qualificação” poderia aliar novos edifícios à preservação de boa parte da fábrica em áreas comuns do condomínio.

Segundo Paulo Bruna, arquiteto que trabalhou com Rino Levi na década de 1960, a fábrica antecipava características de eficiência ambiental valorizadas hoje. “O prédio tinha para-sóis e era extremamente confortável. Lembro do doutor Rino calculando gráficos de insolação rigorosamente. A demolição é lamentável”, diz.

EXPANSÃO IMOBILIÁRIA
Fábio Adorni, da Engelux, afirma que a empresa desconhecia a autoria do edifício que demoliu há menos de dois meses, “Pedimos todas as autorizações na prefeitura. Não havia impedimento”.

Adorni diz que as 406 unidades dos dois empreendimentos lançados ali em junho já foram todas vendidas. São apartamentos de 33 m2, vendidos por R$ 130 mil. O Cambuci, cercado por bairros valorizados como Mooca, Vila Mariana e Ipiranga, é área natural para a expansão imobiliária, diz.

Para Manoela Rufinoni, professora da Unifesp, a antiga fábrica levou a linguagem da arquitetura moderna para a arquitetura industrial. "Fiquei bastante angustiada quando vi demolido. O prédio estava muito íntegro."

A professora integra o projeto de cooperação entre universidades e prefeitura para catalogar o patrimônio industrial da cidade.
Esses bens estão concentrados onde o plano diretor de 2002 prevê o adensamento da cidade. A ideia é aproximar pessoas da infraestrutura de transportes e empregos, além de revitalizar a cidade.




Implosão de antiga fábrica na Sapucaí durou 23 segundos

Meia tonelada de explosivos foram usados na manhã deste domingo para derrubar os quatro prédios e uma chaminé que formavam a antiga fábrica da Brahma na Marquês de Sapucaí. Iniciada pontualmente às 8 horas, a demolição foi marcada por um intervalo de um segundo entre a queda de cada prédio e durou, no total, apenas 23 segundos.

A fábrica da Brahma tinha 59 anos e sua implosão vai viabilizar a ampliação do Sambódromo na Sapucaí. Foram necessários dois dias para o carregamento dos explosivos e um mês para montagem de toda a operação, com medidas como a perfuração de solo. A possibilidade de falha era quase nula.

No lugar desses quatro prédios, serão instaladas novas arquibancadas para abrigar 18 mil pessoas. As mudanças permitirão recuperar o projeto original do arquiteto Oscar Niemeyer, que previa lados simétricos da passarela do samba.

Limpeza do local deve levar algo em torno de um mês e demandará o trabalho de uma equipe de 40 homens. Todo o material será reutilizado na fabricação das novas arquibancadas, o que torna a obra totalmente ecológica, segundo o secretário especial do Turismo, Antonio Pedro.

“A gente continua com o prazo origunal de entregar o novo Sambódromo no mês de dezembro, já para os ensaios técnicos do grupo especial. Essa reforma já atende ao compromisso da cidade com os jogos olímpicos de 2016”, disse o secretário.

O prefeito Eduardo Paes chegou cedo ao local e brincou o tempo todo, fingindo que iria apertar o botão do detonador. “Este é mais um marco para a cidade do Rio de Janeiro e é também uma nova fase de valorização e revitalização da Cidade Nova”, disse o prefeito.

A Defesa Civil já realizou uma primeira vistoria no local e concluiu que não houve avaria nos prédios ao redor. A varredura contemplou 500 imóveis que foram evacuados. Os moradores já estão autorizados a retornar às suas casas.

Trânsito
O estacionamento em 28 pontos da região foi proibido na tarde de ontem até às 9h desse domingo. Para a segurança dos motoristas, 12 ruas e avenidas ficaram interditadas desde às 6:30h. O túnel Santa Bárbara e o elevado 31 de março fecharam às 7:30h.

Paineis foram espalhados pela cidade para orientar os motoristas. Além disso, 65 agentes de trânsito, guardas municipais e funcionários da Cet-Rio, também estiveram no local.

A linha 1 do metrô foi interrompida por cerca de 20 minutos nas estações da Central do Brasil, Praça Onze e Estácio. A linha 2 funcionou normalmente.




Um caso bem sucedido aqui no Rio: A antiga fábrica de tecidos Confiança teve sua construção preservada e hoje serve como Boulevard com mercado, lojas e serviços em Vila Isabel (RJ)
O apito da fábrica foi inclusive citado por Noel Rosa, filho querido do bairro de Vila Isabel, em uma de suas muitas composições.





Observação minha (Carol): já que o mercado imobiliário e da construção civil está tão aquecido a ponto de derrubar fábricas centenárias para ganho de unidades residenciais sem qualquer preocupação em salvar pela menos uma fachada num jardim comum, imagino que as obras da Copa com nosso $$$ de contribuinte(especialmente a ampliação dos aeroportos) já tenham sido concluídas, certo?
E essas novas construções, tão modernas e necessárias, serão feitas usando as novas tecnologias de reúso de águas cinzas, materiais reciclados e captação de energia solar, não?


Um bom exemplo que pode ser replicado no mundo todo: Antiga fábrica abandonada em Chicago é transformada em fazenda urbana vertical energeticamente autônoma

2 comentários:

PaulaZZT disse...

Carol, eu sempre me perguntei isso. Venho de cidade pequena e isso parece ser pior ainda... Em Caçapava (no Vale do Paraíba) já destruiram casas maravilhosas, para nada. E não há hj, nada que nos lembre o passado cafeicultor do lugar. Nenhuma memória, só construções feias... E aqui em Campinas, cada vez que passo por um esqueleto de prédio abandonado, questiono, pq isso não pode ser aproveitado? Que problema é ese que a gente tem com coisas não novas? Qual o problema de se "reaproveitar" um prédio? Enfim...
Bjoks

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Sabe outra coisa que me deixa pasma? A mania de cimentar tudo, o sujeito compra um terreno e não deixa um milímetro de terra e gramado para absorver a chuva. Sem pavimentação não se sente na civilização. Em bairros mais pobres é ainda mais notável, não se vê uma árvore para fazer sombra, resta o calorão e as enchentes.

Outra, vc viu a resposta para a compra do livro?