segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Quem trouxe a fome, foi a geladeira"

A frase de Carlinhos Brown está num texto do Frei Beto muito batido, que já rolou por aí faz tempo, mas que sempre vale ser lembrado num mundo onde 33% da comida vai para o lixo, mas tanta gente passa fome.

Consumo, logo existo
Frei Betto

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome, foi a geladeira", disse.

O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes, etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais -manipular o alimento que ingere.

A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis.

Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela. Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "O valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens". Portanto, em si o homem não tem valor para nós." O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão. Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma.

Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígine cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, esim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famos o estilista a gata borralheira transforma-se em cinderela...

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como umabendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, dopoder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração,depressão, infelicidade. Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre ovendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações devizinhança, como ainda ocorre na feira. Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados.

Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói."
E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja. Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".



 
 
A imagem é dos Malvados
 
 
 
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8 comentários:

Marilia disse...

Excelente texto. Fiz a minha monografia de final de curso e utilizei o livro de Baudrillard sobre a Sociedade de consumo. Não pode estar mais correto.

Abraço,
Marília

Anônimo disse...

Ficar inume a propaganda de máquinas maravilhosas e outros badulaques que tornam a vida melhor, ah, difícil. Acho que cada um tem o seu calcanhar de Aquiles, mesmo se policiando pra não se envolver, não se deixar levar pra não gastar à toa. Agora grifes como razão de viver, o profeta a quem se dobram os joelhos, é problema porque são inesgotáveis as necessidades e deixam de lado pequenos prazeres, "pequenos luxos", citando Danuza Leão, como por exemplo ler um livro numa sombra de mangueira com 11 gatinhos em volta. Não tem Hermes que substitua.
Abs.

Ana

Lucas disse...

Hey, notei a mudança e esquecí de mudar o link na coluna da direita, foi atualizado. Muito bom o texto, obrigado por compartilhar. E isso é muito verdadeiro, é o que sinto por ser um homem adulto que dispensa o uso do automóvel e outros adornos semelhantes: "As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão."

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

A revolução verde prometia comida na mesa de todos e o que fez foi tirar o trabalhador do campo, os poucos que restaram, tem que pagar royalties pelas sementes geneticamente modificadas e mal podem com tantos créditos a pagar.
A gente trabalha e compra a vida toda, pensando no dia em que vai poder se aposentar e ficar de sandália de dedo na praia ou no meio do mato...
Luxo mesmo é viver como se estivesse de férias :-)

Ludson disse...

Olá Carol, mais uma excelemte postagem!

Gostaria de convidar você e os leitores de seu blog á participar do site espalhandosementes.com (de pessoas em um estilo de vida baseada na dieta de frutas e natural).

Queria deixar também a sugestão do documentario What A Way To Go: Life at the End of Empire, que fala justamente sobre a temática do seu blog!
Pode ser visto on-line no próprio site do documentário:

http://www.whatawaytogomovie.com/watch-the-movie/ Porém está em ingles,

Mas se quiser baixar com a legenda em Portugues, recomendo o site:

http://tvprocuresaber.blogspot.com/2011/04/what-way-to-go-life-at-e...

onde pode ser baixado via MegaUpload 398.23 MB (não esquecer de pegar a legenda)
.
Infelizmente não achei seu e-mail para contato, entao escrevi por aqui mesmo..
Obrigado á todos!

ludson disse...

O link para o doc em portugues correto é http://tvprocuresaber.blogspot.com/2011/04/what-way-to-go-life-at-end-of-empire.html

Anônimo disse...

Oi Carol, adorei o texto. Cheguei até você através do blog da Sonia Hirsch, gostei muito da dica que comentou no post sobre os cosméticos naturais, o enxague de vinagre. Estou fazendo, e os resultados já estão aparecendo.
Parabéns pelo blog!

Abraços,

Cilene

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Cilene, vinagre é maravilhoso, acaba até com as bolinhas de sebo que muita gente tem nas costas, a pessoa usa o rinse na cabeça, escorre pelas costas e mata 2 coelhos com 1 paulada só.

Apareça :-)