sábado, 24 de setembro de 2011

A sustentabilidade não tem glamour algum

Muita gente me escreve perguntando sobre boas práticas sustentáveis a serem vividas, postas em prática no dia a dia, para construir, comer, vestir, etc. Da mesma forma que a agricultura orgânica não é uma novidade, mas exatamente o contrário, o resgate de formas tradicionais de cultivo que deram certo por quase 10.000 anos, mas parecem ter sido esquecidas nos últimos 100, o consumo consciente e a sustentabilidade são o resgate da simplicidade e justamente de algo que anda igualmente esquecido, pensar mais coletivamente do que individualmente.

Ser "verde" é fácil e prazeiroso, não tem muita ciência e muitas vezes a escolha é simples, envolvendo apenas uma mudança no trajeto de casa, fornecedor, hábito enraigado, etc... mas em alguns casos, realmente ficamos numa "sinuca de bico" e só podemos administrar o prejuízo, escolhendo o que impacta menos, não o ideal.

As vezes, eu fico na dúvida se as pessoas estão esperando por um milagre onde tudo será biodegradável  e com design escandinavo (até plástico filme e lataria de carros de fórmula 3, ambos já postados aqui) ou se realmente estão perdidas.
Não adianta comprar 1 novo eletro-eletrônico por semana, enviar à reciclagem e esperar que áreas nativas sejam tranformadas em parques eólicos ou novos eletro-eletrônicos sejam produzidos a partir dos antigos reciclados, consumindo mais água, matéria-prima e energia. Uma "fazenda de vento" não é a solução se a população não muda os hábitos de consumo e principalmente a proporção em que tudo é consumido.
O próprio conceito de fazenda de vento vem se revelando equivocado por centenas de razões, especialmente ambientais, mas em um país com um potencial solar como o Brasil, é até desperdício de mão de obra não capacitar a população a aprender a fazer sua própria placa de energia solar.

Fazendo uma comparação básica: esperar que tudo que consumimos seja substituído por alternativas "verdes" é o mesmo que abandonar os projetos de transporte urbano coletivo movido a energia limpa, para então vender 1 carro elétrico a cada habitante. O custo ambiental, social e financeiro em recursos básicos como água, matéria-prima e energia é maior do que a implantação do transporte coletivo eficiente.
Ganhamos em eficiência tecnológica e autonomia social.

Hoje, li um texto muito interessante que aborda com precisão as questões equivocadas de consumo "engajado", hidropirataria, logística reversa, transporte e principalmente excesso de embalagens, deixo então o mesmo disponível abaixo.
Quem estiver com tempo e paciência, pode ler junto com o texto do Frei Beto "Quem trouxe a fome, foi a geladeira" e com outra postagem daqui "Como funciona uma corporação e o que você consome, implica nisso".

Se pensa então em trabalhar em ONG voltada para a sustentabilidade, leia a postagem "Eu queria trabalhar com sustentabilidade".
Parofraseando Sonia Hirsch, a sustentabilidade (de verdade) é subversiva, porque não dá lucro à ninguém.




Na fila do supermercado, o caixa diz uma senhora idosa: - A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis ao meio ambiente.
A senhora pediu desculpas e disse: - Não havia essa onda verde no meu tempo.
O empregado respondeu: - Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com nosso meio ambiente.
- Você está certo - responde a velha senhora - nossa geração não se preocupou adequadamente com o meio ambiente. Naquela época, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas, umas tantas outras vezes.
Realmente não nos preocupamos com o meio ambiente no nosso tempo. Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisamos ir a dois quarteirões
Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos com o meio ambiente. Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis.
Roupas secas: a secagem era feita por nós mesmos, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.
Mas é verdade: não havia preocupação com o meio ambiente, naqueles dias. Naquela época só tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio; que depois será descartado como?
Na cozinha, tínhamos que bater tudo com as mãos porque não havia máquinas elétricas, que fazem tudo por nós.
Quando embalávamos algo um pouco frágil para o correio, usamos jornal amassado para protegê-lo, não plástico bolha que dura cinco séculos para começar a degradar.
Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a grama, era utilizado um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisava ir a uma academia e usar esteiras que também funcionam a eletricidade.
Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o meio ambiente. Bebíamos diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos.
Canetas: recarregávamos com tinta umas tantas vezes ao invés de comprar uma outra.
Abandonamos as navalhas, ao invés de jogar fora todos os aparelhos 'descartáveis' e poluentes só porque a lámina ficou sem corte.
Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época. Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas.
Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.
Então, não é risível que a atual geração fale tanto em meio ambiente, mas não quer abrir mão de nada e não pensa em viver um pouco como na minha época






As imagens são dos Malvados, muito queridos por aqui.


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6 comentários:

Ção disse...

Muito bom.
Eu era criança no tempo dessa senhora, mas antes dessa onda verde atual, eu me lembro quando a Drogaria São Paulo adotou sacos de papel para embalar os produtos vendidos e por duas vezes presenciei clientes brigando com os atendentes porque queriam sacolinhas plásticas e não de papel.
Aí a Drogaria São Paulo se rendeu e voltou a utilizar sacolinhas plásticas.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Ção, realmente existem excessos e equívocos de todas as gerações. Espero que o pessoal que leia não pense que defendo sacolas plásticas. Na verdade, a primeira postagem do blog foi justamente sobre ecobags, há mais de 2 anos.
Mas a idéia geral é aliar o nosso conhecimento tecnológico atual com o despojamento que existia antes.

Bjs e bom final de semana

MaFê Senger disse...

Oi,Carol,
pessoas,

enton, eu era criança na 'época' dessa senhora e costumávamos usar sacolas que hoje se tornaram as ecobags atuais para evitar prejuízo para as comprar na feira, no supermercado, na quitanda, porque saquinho de papel rasgava conforme o peso da coisa que tava dentro e conforme o balanço do braço de quem carregava.
Depois de uns anos, usar a sacola virou 'brega', 'coisa de pobre' e elas desapareceram aos poucos do cenário do mundo (que é colado com fita crepe).

O equívoco é mesmo enorme, logo nessa época em que vivemos,com tanta informação solta por aí. Por que isso acontece? Porque falta dicernimento e distinção, falta pesquisa, falta planejamento, falta prever as consequências do que se faz, se fala e se pensa. Um mundo de umbilicais: todo mundo quer receber prontinho, todo mundo quer ficar ligado no seu umbilical, e é raro quem realmente assume que deseja ter autonomia.

BeijOM,

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Disse tudo, linda.
Falta planejamento, visão de longo prazo, estudo de manejo e o ser humano, que se acha o topo de todas as cadeias (e não apenas mais um dos elos), querer a própria autonomia.
BeijOM procê tb :-)

MaFê Senger disse...

+ 1 pitaco:

em moro numa cidade que já foi a 2ª cidade com maior número de bicicletas no país e que tem um índice de qualidade de vida reconhecido mundialmente.
Mudei para cá faz cerca de 6 anos, não havia congestionamento e eu me sentia no Japão na hora de atravessar qualquer rua, mesmo fora da faixa para pedestres: era só por o pé no leito carroçável que todo mundo parava para qualquer pedestre atravesar a rua.
6 anos depois, sumiram as bicicletas e a educação no trãnsito; apareceram os congestionamentos e os motoristas autistas.

+ BeijOM <3

Marilia disse...

Muito bom texto!!!
Abraço,
MArília