segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Quais os truques do shopping para você comprar mais?
Quais os truques do shopping para você comprar mais?
Arquitetura, decoração e administração dos shopping centers conspiram para que você consuma mais. Veja como essas estratégias são aplicadas
por Emiliano Urbim, Gabriel Gianordoli, Lívia Aguiar e Samuel Rodrigues
PORTA POPULAR
Na maioria dos shoppings, quem chega sem carro é quem tem menos grana. Pensando nisso, o comércio popular fica perto da porta. Além disso, o público de menor poder aquisitivo fica mais à vontade ao ver marcas conhecidas logo de cara.
EXPOR EXEMPLO
Todo centro de compras tem um espacinho para pequenas exposições - processos industriais, esculturas de material reciclado, roupas da Barbie, por aí vai. Pode inspirar bocejos, mas quem é do ramo jura que isso atrai visitantes.
180 DEGRAUS
Ainda há shopping em que a escassez de escadas rolantes obriga a caminhar e "conhecer lojas". Felizmente, hoje a regra é atrolhar o prédio de escadas, até de meio andar, para que você chegue aonde quiser sem se cansar.
DANÇA DAS VITRINES
Lojas substituídas, reformadas, mudando de ponto - a administração prevê e estimula essas alterações. Isso dá aos visitantes desculpa para voltar: conhecer os novos espaços.
EM CASA
Espaços com poltronas e plantas existem para criar "situações residenciais". A ideia é que um marido sinta-se na sua sala de estar e deixe a esposa livre para consumir.
AOS ESTACIONADOS
Calculando que o público que chega de carro é o que tem mais dinheiro, as lojas mais luxuosas costumam ficar próximas do acesso aos estacionamentos.
LUZ E SOMBRA
Repare: os corredores dos shoppings são muito mal iluminados. Mas isso não é um acidente, a pouca iluminação das passagens faz as luzes das vitrines se destacar, atraindo seus olhos.
CHEIRO, SOM E FÚRIA
No exterior dá certo, mas aromatização e sonorização do ambiente foram banidos dos shoppings brasileiros - se tem, irrita, se não tem, ninguém liga. Perfume e trilha sonora ficam restritos a algumas lojas.
A PRAÇA É FOSSA
Sim, praças de alimentação são legais pela variedade de opções. Mas esse não é o único motivo para sua existência: o shopping concentra canalização de água e esgoto em apenas um local e barateia custos.
MUNDO LÁ FORA
Shoppings eram como cassinos, sem janelas que lembrassem a passagem do tempo. Para amenizar a sensação de que você perdeu o dia lá dentro, os prédios mais modernos incluíram painéis de vidro ou mesmo aberturas para o sol (e o luar) entrar.
Fontes: Manoel Alves Lima, diretor da FAL Design Estratégico para Varejo; Alberto Botti, diretor da Botti Rubin Arquitetos Associados.
A tirinha da Mafalda é de autoria de Quino.
Nos “Manuscritos econômicos e filosóficos” (1844), Karl Marx constata que “o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós”.
“Nada poderia ser maior que a sedução” – diz Jean Baudrillard – “nem mesmo a ordem que a destrói.”
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domingo, 30 de janeiro de 2011
Por que nossa malha hidroviária não "decola"?
Somente a ignorância impede o Brasil de contar com uma ampla rede de hidrovias, um potencial desperdiçado de seus grandes rios, lamenta José Alex de Oliva, superintendente de Navegação Interna da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Com mais de três décadas de militância a favor das vias fluviais, como a do Rio Madeira, no noroeste do país, José Alex sonha com a viabilização do “eixo estratégico da América do Sul”, unindo as bacias do Orenoco, Amazonas e Rio da Prata, partindo da Venezuela para cruzar Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai.
Contudo, sua persistente luta pelo transporte fluvial, como voz quase isolada e que lhe custou o apelido de “Quixote das Hidrovias”, não evitou o atraso do setor. Somente em novembro, foram inauguradas as eclusas de Tucuruí, no Rio Tocantins, no Pará, após 29 anos de construção interrompida várias vezes. O custo final, de US$ 1 bilhão, triplicou o que se teria gasto para construí-las simultaneamente à hidrelétrica em operação desde 1984, segundo José Alex.
O desconhecimento de sua importância por parte da sociedade, do governo e de empresários, limita os investimentos em transporte fluvial, apesar de seus custos mais baixos em relação ao uso de rodovias, em um país de longas distâncias como o Brasil. É preciso “educar, tirar preconceitos das pessoas”, acrescentou. Ignora-se que os navios podem ter vida útil econômica de 50 anos nos rios, o dobro da vida marítima, e que o avanço tecnológico permite transportar cargas pesadas em cursos fluviais de pouca profundidade, acrescentou. “Todos os rios são navegáveis, dependendo da finalidade”, inclusive os que têm pedras, que podem ser usados para esportes, ressaltou.
Como as ferrovias também são escassas no Brasil, as rodovias concentram 60% do transporte nacional de cargas, o que encarece a produção e provoca mais contaminação. Multiplicar as estradas e os veículos automotores foi prioridade na estratégia de desenvolvimento brasileiro na segunda metade do Século 20. Agora, há “um forte movimento” a favor de hidrovias, em contraste com o passado em que “nenhum setor brigava por elas”, disse Olivier Girardi, sócio da consultora Macrologística. É um “momento crucial” para ampliar este modelo de transporte, disse este especialista.
A oportunidade surgiu com o auge da produção agrícola no Centro-Oeste do Brasil e a forte expansão também em outras regiões distantes dos portos do Atlântico, acentuando as carências de infraestrutura logística do país. Antes, o interior do Brasil afastado da costa oceânica não tinha uma produção em escala que fizesse indispensável o transporte fluvial e ferroviário, que, em geral, se destinam a produtos pesados e volumosos, de pouco valor agregado. A exceção eram os minerais, que justificaram a construção de vários corredores hidroviários para levá-los para o exterior.
Por isso, os adiamentos das eclusas de Tucuruí não despertaram pressões fortes. O Tocantins, que passou a ser navegável nos seus últimos 700 quilômetros, une o centro do Brasil, que começa a ganhar densidade econômica, a um porto marítimo no Norte do país. O Centro-Oeste também vive agora um forte crescimento econômico. Assim, o custo do transporte para o negócio agropecuário aumentou 147% entre 2003 e 2009, segundo a Associação Nacional de Exportadores do Ceará, que estima em 70% a parte de grãos transportada em caminhões.
Em seu estudo “Norte Competitivo”, que elaborou para o setor industrial, a Macrologística apontou as hidrovias como as melhores alternativas para corrigir as dificuldades logísticas da região amazônica e arredores. “As ferrovias são a segundo opção”, pois seu elevado custo de implantação exige a segurança de uma demanda à altura dos investimentos, disse Olivier. O Plano Nacional de Logística e Transporte, adotado pelo Ministério do Transporte em 2007, prevê a ampliação da participação do transporte fluvial de 13%, em 2005, para 29% até 2025.
Os defensores das hidrovias, como José Alex, responsabilizam o setor energético por essa baixa presença da navegação interna na matriz brasileira de transportes. O uso dos rios ficou nas mãos do Ministério de Minas e Energia, diante da urgência em gerar mais eletricidade. Os concessionários de complexos hidrelétricos deveriam cuidar também das eclusas, já que impõem um novo obstáculo à navegação. Além disto, o custo é muito mais baixo quando são construídas simultaneamente com as represas.
Entretanto, os projetos hidrelétricos, em geral, excluem as eclusas para não encarecer a energia. O preço inferior da eletricidade a ser gerada é decisivo nas licitações promovidas pelo governo para concessão do aproveitamento dos rios. O setor de transporte ganhou o apoio da Agência Nacional das Águas, que defende usos múltiplos para os recursos hídricos, mas esta ainda é uma batalha em curso.
Olivier propõe que em casos como o da bacia do Tapajós, afluente do Amazonas, as autoridades de transporte se adiantem criando uma hidrovia, antes de definir o aproveitamento hidrelétrico, para não ficarem reféns do setor energético e transferir-lhe o custo das futuras eclusas.
O transporte fluvial também enfrenta travas institucionais. No passado, o descaso com que era tratado se refletiu na ausência de um organismo governamental para sua gestão, recordou José Alex. As hidrovias estiveram por um tempo confundidas com os portos, que mesclava terminais marítimos e fluviais. Depois passaram a companhias estatais que administravam portos de forma descentralizada, eliminando a possibilidade de uma política nacional. Os recursos destinados à infraestrutura fluvial tinham, então, que passar por vários organismos sem afinidade, agravando as travas burocráticas e a incerteza, tudo o que desestimulava investimentos privados nesse tipo de transporte, disse o chefe da Antaq.
No Ministério dos Transportes, que “gasta 90% de seu tempo cuidando das estradas”, o tema também transitou por várias secretarias e departamentos. A Antaq, órgão regulador nascido em 2001, criou a Superintendência de Navegação Interna que, diante do vácuo na formulação da política de hidrovias, promove o debate sobre a questão por meio de seminários e aprova regulações que vão abrindo caminhos para esse tipo de transporte.
As hidrovias também enfrentam a oposição de muitos ambientalistas que condenam a eliminação de rochas, a dragagem e outras intervenções que alteram o fluxo e o curso dos rios, prejudicando a biodiversidade. “São os ONGangotangos”, como José Alex chama as organizações não governamentais que considera pouco sérias.
Fonte: Portal Marítimo
Mais informação:
Privatização de hidrovias
O mito da autossuficiência em petróleo: No país do pré-sal, a gasolina mais cara do mundo
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Lagoa Rodrigo de Freitas
A Lagoa Rodrigo de Freitas é um dos cartões postais do Rio de Janeiro. De sua área original, grande parte foi aterrada com a expansão imobiliária da região.
Originalmente a lagoa comunicava-se com o mar naturalmente e essa via de acesso era inclusive navegável, oferecendo igualmente à população uma praia, que hoje não existe mais. Com os aterros, foi criado um sistema de eclusas com respectivo estreitamento desse canal e claro, impactando no meio ambiente. A mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas causada pela falta de oxigenação da água em decorrência do estreitamento do canal de acesso ao mar, tornou-se um problema comum no verão carioca e não surpreende mais ninguém.
Ano passado, 3 toneladas de peixes mortos foram retirados boiando nas águas da lagoa.
O grupo EBX, em parceria com o governo desenvolve um projeto de recuperação da área degradada. Leia melhor abaixo sobre o Projeto Ambiental Lagoa Limpa.
LAGOA LIMPA é um projeto idealizado pelo grupo EBX e executado em parceria com o Governo do Estado e a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Tem como objetivo contribuir para a recuperação ambiental da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos principais cartões postais da cidade, buscando desenvolver soluções para reverter o seu atual processo de degradação ambiental.
Apesar de ter seu foco na despoluição do corpo lagunar, o Projeto é abrangente, pois também visa a implementação de ações que resultem em uma melhoria de todo o sistema hídrico que "alimenta" a Lagoa (sua bacia hidrográfica). Para isso, conta com a ação integrada e simultânea dos órgãos públicos gestores responsáveis pela sua manutenção.
Deste modo, o Projeto LAGOA LIMPA é constituído por cinco fases:
FASE 1 - Articulação Institucional
Considerando o papel desempenhado pelos órgãos públicos responsáveis pela gestão da Lagoa, esta fase tem como objetivo a articulação institucional com estes. Desta forma, foram levantadas as possibilidades e os meios existentes para formalizar as parcerias, seja através da celebração de Termos de Cooperação Técnica ou de Convênios.
FASE 2 - Levantamento e Avaliação das Necessidades
A segunda fase consiste no levantamento e avaliação das necessidades atuais de cada órgão gestor envolvido, consideradas fundamentais para a melhoria dos sistemas de infra-estrutura (esgotamento sanitário, drenagem e resíduos).
Esta fase contempla, ainda, a contratação dos consultores especialistas nos temas afins.
A avaliação das demandas vem utilizando uma metodologia (desenvolvida caso a caso) para a hierarquização das intervenções propostas em função do seu grau de importância e eficiência no processo de despoluição.
FASE 3 - Formalização dos Convênios e Termos de Cooperação
Esta fase consiste na formalização dos Convênios e Termos de Cooperação Técnica com os órgãos públicos envolvidos.
Estes termos de cooperação são a base norteadora dos trabalhos a serem realizados em parceria com os órgãos públicos gestores da Lagoa. Durante esta fase as propostas de ação são apresentadas aos órgãos para fins de análise, avaliação e autorização.
FASE 4 - Implementação das Ações Estruturantes
Corresponde à etapa de implementação das intervenções/ações selecionadas e avaliadas como as mais relevantes para contribuir com o objetivo do presente Projeto.
São elas:
a) Gestão de Resíduos Sólidos;
b) Dragagem do Canal do Piraquê e outros pontos críticos de assoreamento;
c) Instalação de comporta no Canal do Jockey;
d) Revisão do sistema de esgotamento sanitário;
e) Revitalização dos rios dos Macacos e Cabeça;
f) Investigação e eliminação de ligações clandestinas na rede de drenagem pluvial;
g) Monitoramento da qualidade de água para verificação dos resultados obtidos.
FASE 5 - Implementação de Soluções Técnicas de Recuperação
Esta fase consiste no levantamento de possíveis soluções técnicas para estimular a reversão do atual processo de degradação da Lagoa através do aumento da troca de água entre esta e o mar.
Deste modo, estão sendo desenvolvidos estudos no sentido de se verificar a viabilidade técnica e ambiental da instalação de tubulações sob a faixa de areia da praia, que irão conectar o canal do Jardim de Alah ao oceano; solucionando, assim, o problema de assoreamento da barra do canal por ação das ondas.
A foto de Marcos Terranova, tirada sob um ângulo inédito, revelou aos cariocas que a Lagoa Rodrigo de Freitas tem o formato de um coração
Originalmente a lagoa comunicava-se com o mar naturalmente e essa via de acesso era inclusive navegável, oferecendo igualmente à população uma praia, que hoje não existe mais. Com os aterros, foi criado um sistema de eclusas com respectivo estreitamento desse canal e claro, impactando no meio ambiente. A mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas causada pela falta de oxigenação da água em decorrência do estreitamento do canal de acesso ao mar, tornou-se um problema comum no verão carioca e não surpreende mais ninguém.
Ano passado, 3 toneladas de peixes mortos foram retirados boiando nas águas da lagoa.
O grupo EBX, em parceria com o governo desenvolve um projeto de recuperação da área degradada. Leia melhor abaixo sobre o Projeto Ambiental Lagoa Limpa.
LAGOA LIMPA é um projeto idealizado pelo grupo EBX e executado em parceria com o Governo do Estado e a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Tem como objetivo contribuir para a recuperação ambiental da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos principais cartões postais da cidade, buscando desenvolver soluções para reverter o seu atual processo de degradação ambiental.
Apesar de ter seu foco na despoluição do corpo lagunar, o Projeto é abrangente, pois também visa a implementação de ações que resultem em uma melhoria de todo o sistema hídrico que "alimenta" a Lagoa (sua bacia hidrográfica). Para isso, conta com a ação integrada e simultânea dos órgãos públicos gestores responsáveis pela sua manutenção.
Deste modo, o Projeto LAGOA LIMPA é constituído por cinco fases:
FASE 1 - Articulação Institucional
Considerando o papel desempenhado pelos órgãos públicos responsáveis pela gestão da Lagoa, esta fase tem como objetivo a articulação institucional com estes. Desta forma, foram levantadas as possibilidades e os meios existentes para formalizar as parcerias, seja através da celebração de Termos de Cooperação Técnica ou de Convênios.
FASE 2 - Levantamento e Avaliação das Necessidades
A segunda fase consiste no levantamento e avaliação das necessidades atuais de cada órgão gestor envolvido, consideradas fundamentais para a melhoria dos sistemas de infra-estrutura (esgotamento sanitário, drenagem e resíduos).
Esta fase contempla, ainda, a contratação dos consultores especialistas nos temas afins.
A avaliação das demandas vem utilizando uma metodologia (desenvolvida caso a caso) para a hierarquização das intervenções propostas em função do seu grau de importância e eficiência no processo de despoluição.
FASE 3 - Formalização dos Convênios e Termos de Cooperação
Esta fase consiste na formalização dos Convênios e Termos de Cooperação Técnica com os órgãos públicos envolvidos.
Estes termos de cooperação são a base norteadora dos trabalhos a serem realizados em parceria com os órgãos públicos gestores da Lagoa. Durante esta fase as propostas de ação são apresentadas aos órgãos para fins de análise, avaliação e autorização.
FASE 4 - Implementação das Ações Estruturantes
Corresponde à etapa de implementação das intervenções/ações selecionadas e avaliadas como as mais relevantes para contribuir com o objetivo do presente Projeto.
São elas:
a) Gestão de Resíduos Sólidos;
b) Dragagem do Canal do Piraquê e outros pontos críticos de assoreamento;
c) Instalação de comporta no Canal do Jockey;
d) Revisão do sistema de esgotamento sanitário;
e) Revitalização dos rios dos Macacos e Cabeça;
f) Investigação e eliminação de ligações clandestinas na rede de drenagem pluvial;
g) Monitoramento da qualidade de água para verificação dos resultados obtidos.
FASE 5 - Implementação de Soluções Técnicas de Recuperação
Esta fase consiste no levantamento de possíveis soluções técnicas para estimular a reversão do atual processo de degradação da Lagoa através do aumento da troca de água entre esta e o mar.
Deste modo, estão sendo desenvolvidos estudos no sentido de se verificar a viabilidade técnica e ambiental da instalação de tubulações sob a faixa de areia da praia, que irão conectar o canal do Jardim de Alah ao oceano; solucionando, assim, o problema de assoreamento da barra do canal por ação das ondas.
A foto de Marcos Terranova, tirada sob um ângulo inédito, revelou aos cariocas que a Lagoa Rodrigo de Freitas tem o formato de um coração
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sábado, 22 de janeiro de 2011
Greenwashing – a mentira verde da publidade sustentável
Greenwashing (traduzido como branqueamento ecológico) ou Greenwash (traduzido como lavagem verde). Essa expressão é a mistura de dois termos: green e whitewash. Green, como sabemos, significa verde. Whitewash é um tipo barato de tinta branca aplicada nas fachadas das casas. Por isso essa expressão é usada por ambientalistas para se referir às propagandas corporativas que tentam mascarar um desempenho ambiental fraco por parte da empresa. Resumindo, é a propaganda de uma empresa com o intuito de (tentar) ser ecologicamente correta, mas que não o é de fato. Ou seja, propaganda ambiental enganosa, omissa ou incoerente com o valor ambiental do negócio gerido.
Os seis pecados do apelo greenwashing:
Pecado dos Malefícios “esquecidos”:
O principal pecado encontrado na pesquisa, estando em 56% dos produtos pesquisados, se caracteriza pelo fato do produto destacar apenas um benefício ambiental e “esquecer” os outros. Exemplos: Meu produto é reciclável (mas é extremamente gastador de energia e água para ser produzido); meu produto é feito sem teste em animais (mas sua decomposição natural pode prejudicar a cadeia alimentar natural).
Pecado da Falta de Provas
Representando 26% das promessas encontradas, é utilizado por produtos que anunciam benefícios ambientais sem comprovação científica ou certificação respeitável. Nesta categoria são encontrados xampus que não são testados em animais, produtos de papel com uso de material reciclado, lâmpadas com maior eficiência energética – todos sem comprovação dos argumentos disponível ao consumidor.
Pecado da Promessa Vaga
Entre as promessas vagas – encontradas em 11% dos produtos pesquisados – estão produtos “não-tóxicos” (e sabemos que qualquer produto em excesso pode intoxicar uma pessoa); produtos “livre de químicos” (o que é impossivel, porque todos os insumos de todos os produtos têm elementos químicos em sua composição); “100% natural” (urânio, arsênico e outros venenos também são “naturais”); “ambientalmente produzido”, “verde”, “conscientemente ecológico”, todas promessas 100% vagas. E estamos falando de embalagens – imagine aqui no Brasil as promessas vagas que vimos diariamente na propaganda…
Pecado da Irrelevância
Pecado encontrado em 4% dos produtos pesquisados, se caracteriza por destacar um benefício que pode ser verdadeiro, mas não é relevante. A mais irrelevante das promessas foi a relacionada ao CFC, banido do mercado norte-americano nos anos 70: inseticidas, lubrificantes, espumas de barba, limpadores de janelas e desifetantes, por exemplo, todos livres de CFC. A promessa é irrelevante porque se não fossem livres de CFC estes produtos não teriam licença para estar à venda no mercado…
Pecado da Mentira
Encontrado em 1% dos produtos, é simplesmente uma mentira deslavada.
Pecado dos Dois Demônios
Encontrado em 1% dos produtos, são benefícios verdadeiros, mas aplicados em produtos cuja categoria inteira tem sua existência questionada, como cigarros orgânicos, inseticidas ou herbicidas orgânicos.
Alguns exemplos de Greenwashing:
Só para saberem, na Noruega não existe EcoSport.
"É impossível que um carro faça algum bem ao meio-ambiente, a não ser destruí-lo menos do que os outros. Não existem carros ´verdes´, ´amigos do ambiente´ ou ´limpos´"
As frases são de Bente Oeverli, executiva do órgão de regulação publicitária da Noruega.
Fonte: Gledson Silva, amigo ciclista do Ciclorgânico
Observação minha: acredito que o Greenwashing traga um estigma de "lavagem de $$$", até porque as empresas recebem incentivos fiscais quando lançam produtos supostamente verdes ou apoiam causas sociais. Empresas certificadas com ISO e outros selos internacionais atraem clientes maiores e mais lucrativos, fecham contratos mais atraentes e têm ações mais valorizadas e facilidades maiores de financiamentos públicos.
E exatamente por essa opção de poder publicar um balanço fiscal muito mais atraente, que faz com que as ações da emresa aumentem de valor no mercado, é o caso de fiscalizar com profundo rigor se as medidas tomadas são realmente sustentáveis.
Mais informação:
Campanhas ambientais premiadas
Os vídeos do Wateraid premiados com o Young Lions em Cannes
A automovelcracia de Eduardo Galeano : "O que é a ecologia? Um táxi pintado de verde?"
Para entender:
Beber água pura não deveria ser caro
A sustentabilidade não tem gamour algum
O fim da polêmica: O Aquecimento Global existe de fato
O mito da embalagem sustentável: manual básico de reciclagem
Como funciona uma corporação e o que você consome, implica nisso
A rede capitalista de 147 empresas que controla 60% das vendas do mundo
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Catedral construída com entulho de construção civil e lixo reciclado
Há 50 anos atrás, quando Dom Justo desistiu da sua vida de monge, ele decidiu construir uma catedral nada convencional: ela é feita de material de construção descartado e de lixo.
Agora, depois de meio século, ela está quase pronta, com apenas algumas janelas e uma parte do telhado faltando. A arquitetura é inspirada na Catedral de São Pedro, da Itália, e na Casa Branca.
Todo o material usado na construção foi salvo do lixo e a catedral foi construída nas terras do próprio Dom Justo, em uma área de 4 km quadrados, em Madri.
A maioria dos países não permitiria uma construção dessas, especialmente administrada por alguém que não tem conhecimento sobre engenharia ou arquitetura, mas o conselho de Madri fez vista grossa para a catedral de Dom Justo, que tem um motivo “mais nobre”. Agora o ex-monge quer conseguir uma licença para que fiéis possam visitar e rezar na catedral de lixo.
Fonte: Hype Science
A média de entulho produzido por metro quadrado em obras novas é de 150 kg, o que faz com que uma obra de 10 mil m produza cerca de 1.500 t de resíduos. No ano de 2000, é dito, foram descartadas na cidade de São Paulo 17.240 t de entulho por dia.
Leia melhor sobre o assunto na postagem: A casa sustentável é mais barata - parte 10 (ecotijolos)
Mais informação:
A casa construída com 18 toneladas de plástico
A vila colombiana construída inteiramente em material reciclado
Michael Reynolds, garbage warrior, e a bioarquitetura do Novo México
Agronegócio perde em eficácia para agricultura familiar: O mito do agrobusiness
Plantações
orgânicas produzem o mesmo rendimento em grãos
em lavouras de milho e soja em relação às plantações convencionais, mas
utilizam 30 por cento menos energia, menos água e nenhum pesticida.
Esta é a conclusão de um estudo que durou nada menos do que 22 anos,
conduzido pelo professor David Pimentel, da Universidade de Cornell, Estados Unidos.
"Lavouras orgânicas oferecem vantagens
reais em plantações de milho e
soja," afirma o pesquisador em um artigo publicado no exemplar de Julho
da revista Bioscience. O estudo compara a plantação orgânica com a
plantação convencional de lavouras de soja e milho em termos de seus
custos e benefícios ambientais, energéticos e econômicos.
"O
cultivo orgânico desses grãos não apenas utiliza uma média de 30 por
cento menos energia fóssil, mas também conserva mais água no solo, induz
menos erosão, mantém a qualidade do solo e conserva mais recursos biológicos do que a agricultura convencional," afirma Pimentel.
O
experimento de 22 anos, intitulado "Rodale Institute Farming Systems
Trial", comparou uma fazenda convencional, que utiliza aplicações de
fertilizantes e pesticidas recomendados por especialistas, com uma
fazenda que utiliza esterco animal como adubo e outra, que cultiva
legumes orgânicos e utiliza uma rotação de três anos de ervilha/milho e
centeio/soja e trigo. Os dois sistemas orgânicos não receberam nenhum
tipo de pesticida ou fertilizante químico.
A
pesquisa comparou a atividade de fungos no solo, rendimento em grãos,
eficiência
energética, custos, alterações da matéria orgânica ao longo do tempo,
acumulação de nitrogênio e lixiviação de nitratos dos dois sistemas de
cultivo.
"Primeiro e mais
importante, nós descobrimos que o rendimento do milho e da soja foram os
mesmos nos três sistemas," afirmou Pimentel, acentuando que, embora o
rendimento do milho orgânico tenha sido de apenas um terço do
convencional durante os quatro primeiros anos do estudo, ao longo do
tempo os sistemas orgânicos produziram mais, especialmente sob condições
de seca.
A razão para esse maior
rendimento da agricultura orgânica é que a erosão do vento e da água
degradou o solo na fazenda convencional, enquanto que o solo das
fazendas orgânicas melhorou
continuamente em termos de matéria orgânica, umidade, atividade
microbiana e outros indicadores de qualidade do solo.
O
fato de que os sistemas de agricultura orgânica absorvem e retêm
quantidades significativas de carbono no solo também tem implicações
para o aquecimento global, afirma o professor, destacando que o carbono
no solo das fazendas orgânicas aumentou de 15 para 28 por cento, o
equivalente à captura de 1.500 quilos de dióxido de carbono do ar por
hectare plantado.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), Regional Mato Grosso do Sul, no intuito de dar maior visibilidade à luta dos pequenos produtores e à agricultura familiar camponesa, vem resgatando e divulgando importantes dados estatísticos que colocam em xeque justificativas de produtividade e geração de emprego do agronegócio, que não coincidem com a realidade. De acordo com a entidade, no Mato Grosso do Sul (MS), se faz uma apologia ao agronegócio alicerçado no grande capital financeiro.
A profusão da propaganda, segundo a CPT/MS, tem como objetivo convencer a população acerca de sua superioridade econômica e, portanto, da necessidade do Estado continuar protegendo o setor em detrimento da luta camponesa pela reforma agrária, pela produção agroecológica, bem como a luta dos povos indígenas pela restituição de seus territórios tradicionais.
Um destes estudos foi o realizado pela doutora Rosemeire Aparecida de Almeida, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), tendo como referência os censos agropecuários do IBGE de 1995/96 e 2006. A investigação teve como foco a análise das transformações na agropecuária, no último período censitário, a partir de duas escalas comparativas: a primeira refere-se ao Estado em si, a segunda é a análise comparativa entre amostras regionais, neste caso a região Leste de Mato Grosso do Sul e Norte Central paranaense. O estudo comparativo destas amostrais regionais se justifica pela reconhecida diferença agrária de Mato Grosso do Sul e do Paraná.
O primeiro conjunto de análises revela que em Mato Grosso do Sul, segundo o Censo 2006, a concentração da terra continua sendo realidade, pois as classes de áreas de menos de 50 hectares representam 58,83% dos estabelecimentos e detêm apenas 2,09% daterra, já os estabelecimentos acima de 1000 ha representam 10,18%, mas possuem 76,93% do território.
Uso da Terra: a força da agricultura familiar
Outra observação importante na escala estadual diz respeito ao aumentosignificativo na produção de aves no Censo 2006. Ressalta-se que 71,51% desta produção vêm da pequena unidade (até 200ha). O mesmo ocorre com a produção de suínos que cresceu 69,87%, sendo a pequena unidade responsável por 70% desta produção. Em relação ao leite a pequena unidade teve um aumento na produção de 41,01% em relação ao Censo 1995/96, enquanto a média e a grande unidade reduziram sua produção de leite. Este aumento na produção de leite está nas classes de área de menos de 50 hectares, que representam em grande medida o tamanho das parcelas dos lotes da Reforma Agrária.
Estas classes de área de menos de 50ha, que detém apenas 2,09% da área total, produzem 46,48% do leite no Estado, utilizando parco financiamento.
Segundo os dados fornecidos para a CPT/MS, os pequenos stabelecimentos do Mato Grosso do Sul que produzem arroz e feijão, foram mais eficientes que as propriedades da agricultura de exportação, de acordo com os dados dos dois últimos censos agropecuários (1995/96 e 2006).
Por exemplo, a soja teve um acréscimo de produtividade de apenas 6,77% de quilos por hectare em 2006, comparado aos dados do Censo de 1995/96. Já o arroz registrou um aumento de produtividade de 67,77% em 2006, comparado com os dados do Censo de 1995/96, e o feijão também aumentou a produtividade em 51,19% em relação ao mesmo período. Portanto, apesar destes produtos da agriculturafamiliar ter sofrido uma redução de área colhida em 2006, o volume da produção foi superior ao de 1995/96. A pesquisa ressalta, por exemplo, que a classe de área responsável pela produção de feijão é a pequena unidade com até 200 ha.
Este estrato responde por 64,07% do total da produção. “Apesar de pequeno, estes estabelecimentos têm conseguido se apropriar dos avanços tecnológicos e melhorar sua eficiência produtiva” explica a doutora Rosemeire para a Radioagência NP.
Geração de Empregos no Campo: as pequenas unidades empregam mais
A referida pesquisa mostra que a geração de ocupações nos menores estratos de área é também significativa, pois, segundo o Censo 2006/MS, o aumento no número de pessoal ocupado ocorreu nas classes de área de menos de 50 ha, ela sozinha representa 44,18% do total do pessoal ocupado no Estado (93.311). Cruzando as ocupações com o tamanho da terra, a classe de área de menos de 50 ha gera umaocupação a cada 6,7 ha, enquanto a classe de área acima de 1000ha gera uma ocupação a cada 411,56ha.
Valor da produção e Financiamento: o mito do agronegócio
Quando o assunto é financiamento, a pesquisa aponta uma interessante contradição no MS. Os 1.231 estabelecimentos com mais de 1.000ha acessaram 78,97% do valor total dos financiamentos em 2006 e responderam por 51,17% do valor total da produção agropecuária em 2006. Os 4.269 estabelecimentos das classes de área de menos de 50 hectares acessaram 2,45% dos financiamentos em 2006 e responderam por 12,19% do valor total da produção agropecuária.
Ou seja, proporcionalmente a pequena unidade (menos 50 ha) é quase dez vezes mais eficiente do que a grande unidade, porque acessou R$ 45.606.000 (2,45%) de recursos públicos e respondeu por R$ 434.460.000 (12,19%) do valor de produção agropecuária. Enquanto que a grande unidade que acessou R$ 1.472.448.000,00 (78,97%) respondeu por 1.823.344.000,00 (51,17%). É mais um dado do IBGE a confirmar a eficiência da pequena unidade de produção.
O mito do agronegócio empresarial
A Comissão Pastoral da Terra-Regional Mato Grosso do Sul (CPT/MS), em mais uma análise que resgata o estudo da doutora Rosemeire Aparecida de Almeida, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), apresenta a análise comparativa das transformações na agropecuária entre a região Leste do MS e Norte Central Paranaense.
A pesquisa teve como referência os censos agropecuários do IBGE de 1995/96 e 2006. A primeira parte da matéria resgatou que, comparativamente, os pequenos estabelecimentos tiveram mais eficiência produtiva que as grandes unidades de produção. Nesta parte fica demonstrada que, comparando os dados de posse e uso da terra entre as duas regiões, a concentração fundiária na região Leste bloqueia a geração de trabalho, renda e riqueza.
A segunda metodologia da pesquisa, que é a comparação das amostras regionais, evidencia uma estrutura fundiária menos concentrada no Paraná e, portanto, a divisão mais equânime da terra. Por outro lado, estes dados confrontados com os dados da produção (área colhida, volume da produção e valor da produção), explicitam a relação destes modelos de estrutura fundiária com o uso da terra. Um dos apontamentos fundamentais é que a desconcentração fundiária e, portanto, a pequena unidade tem papel preponderante na pujante produção agropecuária da região do Norte Central paranaense.
Posse e propriedade da terra
Na região Leste os dados do IBGE revelam que os estabelecimentos de até menos de 50 ha (6.023) ocupam 1,55% da área total, por outro lado na região do Norte Central o número de estabelecimentos de até menos 50 ha (45.724) ocupa 21,81% da área total. Já os estabelecimentos acima de 1000 ha representam 14,24% na região Leste do MS, detendo 73,45% da área. No Norte Central do PR são 0,25% ocupando 13,5% da área.
Uso da terra
A pesquisa destaca que apesar do rebanho bovino da região Leste de Mato Grosso ser mais de quatro vezes superior em relação à região Norte Central paranaense, a quantidade produzida de leite é superior nesta última, situação a indicar a finalidade distinta da produção pecuária. Sendo que, esta distinção se materializa em classes de área e uma simetria permanece, qual seja: nas duas regiões é a pequena unidade quem responde pela maior produção de leite. Na região Leste, 42,68% do leite produzido provém dos estabelecimentos de menos de 100 ha e 76,93%, na região Norte Central.
Geração de emprego
Nos dados acerca do pessoal ocupado, a realidade diverge no tocante ao desempenho dos extratos abaixo de 50 ha, situação que guarda estreita relação com o modelo da estrutura fundiária de cada região estudada. Assim, na região Leste, que tem uma estrutura fundiária extremamente concentrada, os estabelecimentos com menos de 50 ha, que detém apenas 1,55% da área, vão ocupar 31,29% do pessoal, enquanto que os estabelecimentos acima de 1000 hectares, que possuem 73,45% da área, vão ocupar 33,02% da mão de obra. Já a região do Norte Central, que se encontra mais fragmentada, as classes de área de menos de 50 hectares ocupam 70,44% da mão de obra e as classes com mais de 1000 hectares tão somente 3,65%. Realidade que reforça a premissa de que a terra fracionada é sinônimo de geração de emprego.
Em relação aos valores da produção, verifica-se que na região Leste as classes de área de menos de 50 hectares foram responsáveis por 5,89% do valor total produzido e a classe de área com mais de 1000 hectares por 71,98%.
Valor da produção e financiamento
Cruzando estes dados com o valor dos financiamentos obtidos observa-se que a eficiência da pequena unidade é maior, pois a classe de área de mais de 1000 hectares obteve financiamento de mais de 1 bilhão de reais e gerou um valor de produção total de 524 milhões; a pequena unidade de produção de menos de 50 ha acessou 2,4 milhões (0,21% do valor total dos financiamentos obtidos) e gerou um valor de produção total de 42,9 milhões.
Ou seja, a classe de área de menos de 50 hectares multiplicou por quase 20 o valor do financiamento e a grande dividiu por dois o valor do financiamento. Portanto, a grande unidade de produção produziu metade do valor que tomou de recursos públicos. Na região Norte Central a classe de menos de 50 ha multiplicou por 10 o valor do financiamento, enquanto que a classe acima de 1000 não chegou a multiplicar por cinco o valor do financiamento.
Quando comparamos os valores totais da produção agropecuária entre as duas regiões a diferença fica ainda mais gritante. O valor da produção do Norte Central é de R$ 2.905.481.000,00 e da região Leste de apenas R$ 728.201.000,00. Já os valores de financiamentos são da seguinte ordem: R$ 445.201.000,00 no Norte Central e de R$ 1.154.191.000,00 na região Leste. Considerando que a área total da região Leste é mais que três vezes superior à região do Norte Central, podemos afirmar que a concentração fundiária da região Leste bloqueia a geração de trabalho, renda e riqueza.
Produção de alimentos e crise energética
Em 1982 foi traduzido pela Empresa Catarinense de Pesquisa Agropecuária (Empasc) um dos trabalhos clássicos sobre energia na agricultura em âmbito internacional, Produção de alimentos e crise energética, de autoria de David Pimentel e colaboradores. Nele os autores analisam a evolução da eficiência energética da cultura do milho nos Estados Unidos, de 1940 a 1970, período em que ocorreram alterações substanciais na tecnologia de produção do cereal.
Em três décadas ocorreu um incremento da produtividade da cultura de 240%, mas sua eficiência energética decresceu, pois, com o elevado aporte de insumos demandados pela “modernização”, despendeu-se mais energia em insumos do que os acréscimos em energia embutidos no incremento da produção.
Enquanto em 1940, para cada caloria injetada no processo, produziam-se 3,7 calorias em milho, em 1970 tal relação era de apenas 2,8. Em suas conclusões, o estudo aponta que nos Estados Unidos o combustível fóssil é a mais importante matéria-prima utilizada na agricultura moderna, enquanto a mão de obra é pouco utilizada (cerca de 9 horas/acre cultivado); que no sistema agrícola tipo “revolução verde” têm ocorrido problemas com a produção, especialmente no que se refere a pragas e doenças; que para a redução da demanda de energia decorrente da utilização de fertilizantes e pesticidas químicos e o incremento de sua eficiência energética devem ser adotadas tecnologias alternativas, como a rotação de culturas, a adubação verde e um melhoramento genético voltado à resistência a pragas e doenças.
Com base na metodologia de Pimentel, em 1982 foi publicado, pelo Instituto de Economia Agrícola do Estado de São Paulo (IEA), o estudo Perfil energético da agricultura paulista, de autoria de Castanho Filho e Chabariberi, avaliando a eficiência energética da produção vegetal, animal e das principais explorações da agricultura paulistas.
Com as crises do petróleo de 1973 e 1979, a questão energética emergiu no Brasil, quando os gastos com as importações de petróleo evoluíram de 10,3 % do valor das exportações em 1970, para 36,4% em 1974 e para 50,7% em 1980.
Tal crise redundou na elaboração da Política Energética Brasileira, cuja ação mais expressiva foi a criação do Proalcool, que tinha como meta produzir 10,4 bilhões de litros de álcool hidratado e anidro em 1985. O programa teve rápida expansão, e dentre seus benefícios relacionam-se a redução da dependência externa de energia, a geração de emprego e renda, o desenvolvimento tecnológico endógeno, o menor potencial poluente do álcool em relação à gasolina e ao óleo diesel.
Seus vieses centrais foram a concentração da renda que promoveu e o deslocamento das culturas alimentícias para áreas distantes dos centros consumidores. O Proalcool exacerbou a competição entre a produção de alimentos básicos e as culturas industriais e de exportação, com reflexos negativos no nível social.
O Programa Nacional de Pesquisa em Energia tinha como diretrizes para a agricultura a economia de insumos energéticos na agropecuária e na silvicultura; o aumento da produtividade de biomassa e de “substâncias energéticas” (açúcares, amido, óleos e celulose) em espécies tradicionais e/ou em processo de introdução; o autossuprimento energético da propriedade rural; a substituição de combustíveis fósseis por aqueles provenientes da transformação da biomassa e do uso da energia solar e eólica no acionamento de máquinas agrícolas; o aproveitamento de resíduos na produção de combustíveis e fertilizantes e a análise da economia energética na agropecuária e silvicultura.
Dos quase 5 milhões de estabelecimentos rurais existentes em 1975, 59% usavam apenas a força humana no preparo do solo; 26% usavam tração animal e apenas 15% a tração mecanizada. A irrigação existia em apenas 3% dos estabelecimentos e os fertilizantes químicos e/ou orgânicos eram usados em 22% deles.
Em janeiro de 1981 o CNPq realizou em São Paulo mesa redonda sobre as “Tecnologias poupadoras de insumos na agricultura”, a qual contou com a presença de cerca de 20 cientistas brasileiros que questionavam o modelo de capital intensivo. O documento final do evento propugnava o apoio a linhas de pesquisa que minimizassem o emprego de insumos e máquinas movidas a energia fóssil, o desenvolvimento de sistemas de produção técnica e economicamente viáveis, energeticamente sustentáveis, ecologicamente equilibrados e socialmente justos, e apontava que a agricultura em bases ecológicas é um conjunto de conhecimentos, técnicas e enfoques resultantes da investigação científica, e de uso consagrado, aplicados no processo produtivo agrícola, com a finalidade de produzir alimentos sãos e baratos para o homem, em harmonia com a natureza para a sustentação dos ecossistemas, reciclando energia, gerando e usando insumos e promovendo a plena integração do solo, planta, animal e homem.
Na ocasião, foi sistematizado documento que estabelecia um roteiro de prioridades de pesquisa, abrangente aos campos da agricultura alternativa e das tecnologias poupadoras de insumos na agricultura.
O documento Ação programada em ciência e tecnologia – produção vegetal, publicado pelo CNPq em 1982, tratava das prioridades do governo federal na esfera da ciência e tecnologia agrícola, assinalando que o esforço de geração tecnológica no País se orientou no sentido de favorecer determinadas culturas, a ponto de, em 1978, cinco delas (cana-de-açúcar, cacau, café, soja e algodão) absorverem 52% dos investimentos totais em pesquisa. Culturas essas que mais utilizam os chamados insumos modernos, que são, em última análise, a concretização da revolução tecnológica em curso na agricultura brasileira.
Enquanto os produtos exportáveis demonstravam alguns ganhos de produtividade, os produtos domésticos apresentaram rendimentos declinantes, ou estáveis. Tornava-se, assim, necessário repensar a prioridade de pesquisa por produto, que, além de visar ao crescimento da oferta e da produtividade, considera a poupança dos insumos químicos e o uso da mecanização (CNPq, 1982).
Como orientação de caráter geral para a pesquisa, o documento referenciado acima relacionava uma nova orientação para o melhoramento genético; para a área de proteção de plantas às pragas, doenças e invasoras e o enfoque da pesquisa voltada aos sistemas integrados de produção, dentre outros.
O importante a resgatar é que a crise energética viria a desencadear uma conjuntura em que se abririam espaços para a reflexão e articulação de ações e iniciativas, no âmbito do poder público federal e da comunidade científica, compatíveis e afins com o ideário da agricultura alternativa.

Agronegócios, a nova face do latifúndio
“Não podemos entender a discussão do agronegócio sem primeiro compreender o que ele estabeleceu do ponto de vista produtivo e qual foi seu impacto na questão da concentração das propriedades de terra em países como o Brasil”. A afirmação é do professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Marcos Pedlowski. Em entrevista, concedida, por telefone, à IHU On-Line, Pedlowski explica como a prática, considerada por ele uma maquiagem para a proteção do latifúndio no país, pode ser prejudicial para a sociedade brasileira e mundial.
Segundo ele, “quem mais ganha com o agronegócio são as grandes cadeias de comercialização, que ficam com o grosso do que é gerado mundialmente”. Pedlowski aponta que “isso foge do nosso alcance, porque, geralmente, ficamos só observando a relação entre agronegócio, latifúndio e reforma agrária”. “O agronegócio não é autodestrutivo, é destrutivo só para a nação e para os países que tentam sair dessa dependência histórica e geopolítica dos países ricos”, afirma.
Marcos Pedlowski é professor associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, com atuação no âmbito do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico do Centro de Ciências do Homem da UENF.
IHU On-Line – Quando, hisoricamente falando, surgiu a ideia de agronegócio?
Marcos Pedlowski – Academicamente, existem artigos que citam o surgimento do termo agronegócio na década de 1950, mas isso não é verídico. O conselho da Revolução Verde, no qual o agronegócio é irmão-gêmeo, nasceu com a concepção de uma nova forma de produzir, menos dependente das intempéries. Por outro lado, isso estabelece a necessidade de uma nova integração no processo produtivo na agricultura.
Porém, uma das promessas que a Revolução Verde trazia, a partir dessa maior cientificidade do processo produtivo, era o fim da fome, além da maior democracia no acesso à terra. Se olharmos no tempo, vemos que a Revolução Verde não acabou com a fome, e tão pouco democratizou a propriedade da terra no mundo. Pelo contrário, essa forma de produzir tem elevado o índice de concentração de terras na maior parte do planeta.
IHU On-Line – O agronegócio hoje está posicionado dentro de questões fundamentais no Brasil, como no debate do código florestal, e colocando o país como maior consumidor de agrotóxicos no mundo. Como o senhor vê a relação entre esses temas vinculados ao agronegócio?
Marcos Pedlowski – Temos que ligar essa questão da Revolução Verde e do agronegócio às características que o capitalismo tem nos países de periferia como o Brasil. O termo que foi cunhado, a partir da década de 1960, para definir o que acontece em países como o nosso é modernização conservadora. Do ponto de vista da importação ou dos pacotes, hoje falamos em implementos agrícolas, agrotóxicos, sementes geneticamente modificadas, e isso tudo foi feito às custas da manutenção.
Tenho visto alguns números sobre Coeficiente de Gini [1] no Brasil, uma curva que mede a igualdade e desigualdade. Quanto mais próximo o coeficiente está de zero, maior será a igualdade, quanto mais próximo de um, maior a desigualdade. Os últimos dados que temos são de 2006, e registram 0.87 no Brasil. Isso, na escala do coeficiente, é uma concentração bastante forte. O interessante é que, em 1996, o número era 0.856. Entre esses anos, tivemos um acréscimo de dois pontos, o que significa que aumentou a concentração da terra no país.
Não podemos entender a discussão do agronegócio sem primeiro compreender o que ele estabeleceu do ponto de vista produtivo e qual foi seu impacto na questão da concentração das propriedades de terra em países como o Brasil, onde essas propriedades já eram muito concentradas. Normalmente, a faceta mais ideológica e que ficou muito mais popularizada a partir da década de 1990, no Brasil, do agronegócio como algo moderno, e da agricultura familiar como algo atrasado, não é fortuita, já que corre na onda neoliberal.
A questão da maior dependência do mercado e a maior inserção no mercado mundial virou quase uma religião. De lá para cá, temos usado o agronegócio como símbolo de modernidade, quando, na verdade, temos um maior nível de contaminação de solos e recursos hídricos, contaminação de trabalhadores por agrotóxicos e por dispersão de sementes geneticamente modificadas, os desmatamentos no centro-oeste e na Amazônia e a questão do trabalho escravo. Tudo isso está concentrado no agronegócio, que é apenas uma faceta ou maquiagem para a manutenção do latifúndio no país.
IHU On-Line – Qual é o discurso dos latifundiários acerca do trabalho escravo?
Marcos Pedlowski – Isso tem sido liderado pela senadora Kátia Abreu, que fala que devemos discutir à exaustão o que é trabalho escravo. Também já ouvi o deputado do PPS de Rondônia, Rubens Moreira Mendes, no Encontro Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo em Brasília. Ele fala que se fôssemos cumprir todos os critérios da legislação vigente, nenhum pequeno produtor cumpriria as normas. Por isso, é complexo falar o que é trabalho escravo, o que deveria ser feito é um diálogo exaustivo para ajustar a realidade do campo à legislação.
Quando temos documentação explícita e uma proposta de legislação mais rígida parada no congresso por força do latifúndio e do agronegócio, a PEC 438, quando sabemos exatamente o que é trabalho escravo, a escravidão por dívida ou a escravidão por não cumprimento da legislação trabalhista, não precisamos nos ater a normas mais estritas. O código civil e a constituição são suficientes para determinar e punir trabalho escravo, não há discussão. Sabemos que a legislação rediscutiu o que é trabalho escravo, o que é uma atitude de procrastinação das medidas que devem ser tomadas contra os escravocratas. É lamentável que a Banca Ruralista do Congresso esteja protegendo os produtores que viabilizam a sustentabilidade da agricultura agroexportadora nos países desenvolvidos. Não só se fala em rotular socialmente o álcool, mas também a soja e tudo mais.
“O código civil e a constituição são suficientes para determinar e punir trabalho escravo, não há discussão”
Enquanto existir desconfiança, ou certeza, o trabalho escravo permanecerá no Brasil, e hoje ele está espraiado por todas as regiões. O estado com maior apreensão de trabalho escravo atualmente é Santa Catarina. Não existe escravidão em pequenas propriedades familiares, quando encontramos esta prática, é em latifúndios e empresas do agrobusiness. É esta a discussão que deve ser feita. Rediscutir o trabalho escravo é dizer que não sabemos quando alguém está preso, quando existem capatazes e jagunços, quando o trabalhador está com os documentos retidos ou não sabe o quanto ganhou por um dia de trabalho.
IHU On-Line – Analisando as propostas colocadas em jogo em relação às eleições deste ano, quando a reforma agrária, no Brasil, será realizada?
Marcos Pedlowski – A Reforma Agrária não será realizável enquanto não se entender que o que está em jogo é o apoio que as administrações federais dão ao agronegócio. O agronegócio representa uma possibilidade de articulação com o mercado globalizado, o que, do meu ponto de vista, é uma aposta equivocada se considerarmos que os preços das principais commodities estão em depressão histórica. Porém, existe a insistência no financiamento do agronegócio. Este ano, por exemplo, a agricultura está recebendo um aporte financeiro do governo federal de 12 bilhões de reais para colocar em safra. Deste dinheiro, 10 bilhões estão indo para o agronegócio.
No entanto, a dívida acumulada do agronegócio em 2008, é de 75 bilhões de reais, sendo que destes, 27 bilhões são dívidas da década de 1990. Essa é uma aposta que nos mantêm financiando o latifúndio, dependentes de uma agricultura globalizada em que temos uma depressão contínua dos valores reais dos produtos. E ainda há algo pior. Neste momento, com a crise na Europa e a ameaça de crise hipotecária na China, o Brasil pode ter um colapso em sua balança comercial por causa da aposta no agrobusiness.
Por outro lado, quando lembramos, objetivamente, o que já havia sido feito pelo FHC e pelo Lula em termos de agronegócio, percebemos que não houve reforma agrária. O que tem acontecido, principalmente na Amazônia, é o Programa de Regularização de Posses de caráter muito precário e que não mexe no centro do problema, que é o Coeficiente de Gini. Este coeficiente aumentou durante o governo Lula, isto significa que não houve nenhuma reforma. Isso é interessante. O agronegócio é feito por um número pequeno de proprietários.
Sabemos que proprietários com mais de mil hectares no Brasil, que são 1% dos proprietários, controlam 43% das terras no país. Não há, nesse horizonte, nenhuma proposta que reaja pela reforma agrária. Mas, na minha visão, quando analisamos especialmente os resultados surpreendentes que aparecem no censo agropecuário em 2008, e que causam certa estupefação, vemos que o grosso da produção, não apenas de alimentos, mas de commotidies, é da agricultura familiar. Isto nos mostra que a opção correta para o Brasil seria fazer uma corajosa reforma agrária e modernizar o campo brasileiro do ponto de vista das relações sociais e produtivas. Essa modernidade de agrotóxicos, desmatamentos, escravidão é falsa.
IHU On-Line – E como a Revisão dos índices de produtividade pode colaborar com o início da reforma agrária efetiva no Brasil?
Marcos Pedlowski – Certamente, essa é outra falácia. O latifúndio, toda vez que faz uma aposta ruim, vai correndo pro estado pedir renegociação e mais dinheiro. Ao mesmo tempo, quando vemos que nenhum esforço objetivo tem sido feito nas regiões brasileiras, não temos uma mudança de produtividade. Dizem que hoje somos 75% mais produtivos, mas 75% mais produtivos em relação a quê? Certas culturas têm sua produção estabilizada quando a área aumenta muito, como no caso da Amazônia. Ou seja, o que tivemos de aumento na produção está ancorado no aumento da área em produção, não existe um aumento de produtividade. Por isso que o latifúndio é contra a ausência de produtividade, porque sabe que, se esses índices estiverem defasados, deve investir muito mais, melhorar a capacidade dos trabalhadores e aperfeiçoar os investimentos públicos.
Na verdade, esse apoio à safra não passa de subsídios disfarçados. O governo Lula reclama dos subsídios da União Europeia, mas, ao permitir essa rolagem eterna da dívida do latifúndio, não faz nada mais do que subsidiar. Acredito que essa questão da revisão dos índices de produtividade é uma necessidade, não apenas do ponto de vista da reforma agrária. Quando fica escancarado que determinados proprietários não estão preocupados com produtividade, e estão fazendo especulação fundiária, torna-se evidente que precisamos de uma mudança muito grande. Assim eles seriam obrigados a fazer um esforço para se adequar a uma realidade em termos de observação da função social da terra.
Por outro lado, se eles continuarem não querendo trabalhar na terra de forma mais produtiva, podemos usar isso para fazer uma reforma agrária. Como é apresentado, parece que só se quer a revisão para fazer a reforma agrária, isso não pode ser o único motivo. Um motivo a mais, e talvez a prioridade, é que termos muita terra improdutiva no país. E, convenhamos, o latifúndio não tem uma competência real para ser produtivo, especialmente se não tiver os subsídios que recebem do estado.
IHU On-Line – O que vem a ser o Neolatifúndio?
Marcos Pedlowski – O neolatifúndio é o que estão chamando de agronegócio. O problema é que ninguém gosta de ser chamado de latifundiário. É mais chique ser chamado de agroboy ou agro qualquer coisa. Eu pelo menos entendo a expressão como latifúndio com cara moderna, mas que continua sendo o latifúndio de sempre. Na literatura mexicana, quando se fala na questão da reforma agrária, usa-se o termo neolatifúndio como um filão para agronegócio. Mas quando se fala em agronegócio, não temos mais aquele latifundiário que forma sua empresa agrícola.
Não é somente a questão local que influencia, temos ligação direta entre as grandes multinacionais de produção de sementes, de agrotóxicos, e essa ligação não para por aí. Temos quem recolhe a safra, – um exemplo são os produtos da Monsanto que vão para a Bunge – depois alguém exporta e vai parar no Carrefour, em Paris, ou no Walmart, em Washington. Se observarmos os cálculos, quem mais ganha com o agronegócio são as grandes cadeias de comercialização, que ficam com o grosso do que é gerado mundialmente. Isso foge do nosso alcance, porque, geralmente, ficamos só observando a relação entre agronegócio, latifúndio e reforma agrária. Esse seria moderno, tecnológico. A defesa desse novo latifúndio, na verdade, é outra forma de falar que não precisamos mais de reforma agrária.
IHU On-Line – A estratégia adotada pelo agronegócio, levando em conta o desmatamento, o trabalho escravo e degradante, uso de agrotóxicos, é autodestrutiva?
Marcos Pedlowski – Não, ela só nos destrói. Na lógica, que é globalizada, aqueles que são responsáveis pelo funcionamento não estão onde os grandes problemas vão se manifestar. O agronegócio não é autodestrutivo, só para a nação e para os países que tentam sair dessa dependência histórica e geopolítica dos países ricos. Um exemplo é Campos dos Goytacazes. Quando se fecham as usinas, os usineiros vão construir hotéis, grandes prédios comerciais e vão vender terreno na rua.
A empresa jurídica vai falir, e a pessoa física vai estar na boa. Temos situações em que a fábrica falida de um usineiro, que estava escravizando pessoas, é transferida para outro lugar. Não vemos estes trabalhadores escravos procurarem seus direitos. Essa mobilidade do agronegócio traz a impunidade. O latifúndio quer falar que trabalho escravo só pode ser punido se julgado, mas existem causas trabalhistas que duram 30 anos. Se pensarmos em projetos de desenvolvimento nacional, isso é destrutivo para o país. O agronegócio se recicla.
Notas:
[1] Coeficiente de Gini é uma medida de desigualdade desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini. É comumente utilizada para calcular a desigualdade de distribuição de renda mas pode ser usada para qualquer distribuição. Ele consiste em um número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à completa igualdade de renda (onde todos têm a mesma renda) e 1 corresponde à completa desigualdade (onde uma pessoa tem toda a renda, e as demais nada têm). O índice de Gini é o coeficiente expresso em pontos percentuais (é igual ao coeficiente multiplicado por 100).
[1] Coeficiente de Gini é uma medida de desigualdade desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini. É comumente utilizada para calcular a desigualdade de distribuição de renda mas pode ser usada para qualquer distribuição. Ele consiste em um número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à completa igualdade de renda (onde todos têm a mesma renda) e 1 corresponde à completa desigualdade (onde uma pessoa tem toda a renda, e as demais nada têm). O índice de Gini é o coeficiente expresso em pontos percentuais (é igual ao coeficiente multiplicado por 100).
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Não telefone para o BBB, telefone para a Cruz Vermelha
Se é para pagar impulso, que seja com o que presta.
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E-Ship1: Primeiro navio movido a energia eólica no mundo chega nesta quinta-feira ao RS
Embarcação deve atracar à noite no porto de Rio Grande, na Região Sul
Quando atracar na noite desta quinta-feira no porto de Rio Grande, o navio E-Ship 1 fará história em águas gaúchas. A embarcação é o primeiro cargueiro movido a energia eólica do mundo.
Construída pela empresa alemã Enercom GmbH, umas das líderes mundiais em turbinas eólicas, a embarcação tem propulsão híbrida.
Além da força dos ventos, usa motores a diesel e eletricidade. É usada para transporte de componentes entre a fabricante e as subsidiárias – no caso do Brasil, a Wobben Windpower, que fabrica equipamentos.
O E-Ship é um navio Flettner, e faz uso do Efeito Magnus para propulsão. Quatro rotores imponentes ficam instalados no convés principal e estão ligados a hélices do navio, o que faz com que elas girem. As quatro torres cilíndricas de 27 metros de altura por quatro metros de diâmetro que emergem do convés são rotores eólicos capazes de captar a energia do vento para auxiliar a propulsão a diesel do navio, sem interferir com as operações de carga e descarga. O efeito Magnus faz uma força para agir em cima de um corpo girando em movimento através de uma corrente de ar, perpendicular à direção de fluxo.
O E-Ship 1 é equipado com nove geradores diesel Mitsubishi, com uma potência total de 3,5 MW. O navio possui caldeiras, que alimentam uma turbina a vapor da Siemens, que, por sua vez, aciona quatro rotores Enercon desenvolvidos pela Flettner. Estes rotores, assemelhando-se quatro cilindros grandes montado no convés do navio, têm 27 metros de altura e 4 metros de diâmetro. A unidade Flettner permite economia de combustível da ordem de 30 a 40% a uma velocidade de 16 nós.
Fonte: Portos e Navios e Portal Marítimo
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Maternidade sustentável
Cada vez mais, papais e mamães se preocupam em ter e criar seus bebês de forma natural – do pré-parto às fraldas, amamentação, banho... - e provocando o menor impacto possível no planeta. Reunimos, aqui, reportagens do Guia Especial publicado pela revista Vida Simples
Fonte: Planeta Sustentável
Maternidade ativa
Cresce cada vez mais no país um movimento que defende que a mulher tem o direito de receber do médico informações de qualidade, para poder decidir a forma de parto que é mais conveniente para ela
Em casa, cercada pelas mulheres da família e pelas parteiras da comunidade. Ao longo da história, foi assim que a maioria das mulheres deu à luz. O parto era considerado um evento doméstico, fisiológico, que não precisava da atenção dos médicos. O quadro começou a mudar há 200 anos, quando os profissionais da medicina passaram a atender casos mais graves. Foi somente há cerca de 100 anos que o parto passou a ser uma questão de hospitalização. "É o que chamamos de ‘doentificação’: transformar algo normal em doença", diz Ana Cristina Duarte, obstetriz formada pelo curso de parteiras da USP-EACH e coordenadora do Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa).
A tendência, que começou na Europa com a intenção de simplificar o atendimento, chegou ao Brasil na década de 1950. Nos anos 1970, começou a chamada epidemia de cesáreas no país. Enquanto isso, na Europa já surgiam profissionais adeptos de um parto mais humanizado, sem intervenções médicas. Hoje, o Brasil é o segundo país do mundo com maior número de cesáreas: elas respondem por cerca de 90% dos partos da rede privada de hospitais e 30% dos da rede pública. "Os médicos recebem dos convênios o mesmo para fazer uma cesárea agendada de 40 minutos ou acompanhar um parto normal, que pode levar horas", afirma a obstetra Catia Chuba. Muitas mulheres - e seus companheiros - começam a buscar uma nova forma de ter seus filhos. É a maternidade ativa. "A ideia é a de que a mulher é dona de seu corpo e deve receber informações de qualidade para poder escolher seu parto", diz Ana Cristina. Informada sobre as opções, a grávida pode decidir o que for mais conveniente para ela. Afinal, não existe forma errada ou certa de dar à luz: cada escolha deve se adequar à situação específica de cada mulher.
Miniofurô: banho de balde
Pode parecer esquisito, mas especialistas garantem que o banho de balde dá uma sensação de segurança aos bebês, porque oferece condições parecidas com as do útero materno
Quer experimentar uma forma diferente de dar banho em seu bebê? Tente um banho de balde.
Pode parecer esquisito, mas basta olhar a alegria - ou calma - estampada no rosto das crianças para ver que a técnica dá certo. Isso porque o balde oferece condições mais parecidas com as do útero materno, por permitir que o bebê fique em posição fetal, com o corpo submerso e a cabecinha para fora da água.
Os pequenos sentem-se mais seguros e, sentadinhos, relaxam na água, que deve estar aquecida entre 35 e 37°C. No caso dos recém-nascidos, é ideal que estejam envolvidos por uma fraldinha. Os pais podem segurar o bebê pelo corpo (embaixo do braço) ou pelos ombros.
No Brasil, já existem baldes específicos para esse fim, como o TummyTub, que é feito de material atóxico e tem uma base antiderrapante. A água quente ajuda a aliviar as cólicas e em alguns casos as crianças ficam tão tranquilas que chegam a dormir. Uma boa dica é colocar chá de camomila ou óleos especiais para deixar o momento ainda mais prazeroso.
Cursos para o casal grávido ficar mais tranquilo
Do pré-parto aos cuidados que se deve ter com o recém-nascido em casa, cursos em todo o Brasil buscam ajudar os pais a lidar, da melhor maneira possível, com a experiência da maternidade
PREPARAÇÃO PARA O PARTO
São Paulo (SP): O curso prepara a grávida e seu acompanhante para o parto normal e traz dicas de como evitar cesáreas sem necessidade. O curso pode ser ministrado também em empresas, para as funcionárias grávidas. R$ 210 por casal, ou por grávida mais acompanhante. Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (Gama), (11) 2507-7090.
CURSO PARA CASAIS GRÁVIDOS
Curitiba (PR): Com duração de duas noites, busca orientar o casal sobre parto humanizado. Gratuito, pede-se apenas que a gestante faça uma doação de fraldas de pano ou itens como roupas, calçados ou novelos de lã. Centro de Apoio às Mulheres e ao Casal Grávido (Cemuc), (41) 3248-7609.
CUIDADOS COM O BEBÊ, COM ORIENTAÇÕES CASEIRAS E NATURAIS
Rio de Janeiro (RJ): Intensivo de 5 horas de duração que ensina os futuros pais a prevenir e tratar problemas como cólicas, assaduras, prisão de ventre com soluções caseiras e naturais, além de dar dicas de alimentação, massagem e banho. O espaço oferece também aulas de ioga, relaxamento e cuidados com o corpo na gravidez. R$ 220 para o casal. Instituto de Yoga e Terapias Naturais Aurora, (21) 2556-2455.
CURSO DE GESTANTE
Salvador (BA): A gestante e o acompanhante participam de duas manhãs de aulas práticas e teóricas com uma equipe composta por diversos profissionais, como enfermeiras, nutricionistas, anestesistas, neonatologistas, psicólogos e fisioterapeutas. O tema são os cuidados com parto, pós-parto e cuidados com o bebê. O curso é gratuito para quem tem convênio de saúde que dê direito a ter o filho no hospital. Hospital Aliança, (71) 2108-5875.
Dicas preciosas para novos pais
Especialistas dão dicas para os pais de primeira viagem sobre banho, troca de fraldas e amamentação
BANHO
A sugestão da pediatra Sandra Regina de Souza, de São Paulo, é colocar o bebê enrolado em uma fraldinha ou lençol dentro da banheira ou do balde. Aos poucos, vá desenrolando. Assim, o bebê fica mais calmo.
TROCA DE FRALDAS
Não é preciso usar produtos químicos. Para fazer a higiene do bebê, o mais importante é limpá-lo com água morna, com um algodão ou pano, a cada troca, sejam as fraldas descartáveis, sejam as de pano.
AMAMENTAÇÃO
É desnecessário "preparar" o peito com produtos especiais. O que garante uma boa mamada é a pega correta do bebê. Observe se ele está com a boquinha bem aberta, englobando o bico e a auréola do peito. Se ouvir um barulho estranho, pode ser que esteja entrando ar, diz Ana Bazaglia, do grupo de apoio à amamentação Matrice.
Amigas do peito: mães em grupo
Aumenta o número de grupos virtuais e reais formados por mães interessadas em trocar experiências sobre o cotidiano materno, como os melhores tipos de parto e os cuidados que se deve ter durante o período de amamentação
Mães em grupo
O conceito de maternidade ativa fez surgir grupos de mães que se reúnem para se informar melhor e compartilhar formas de amamentação, cuidados com os bebês e experiências do cotidiano materno. Nos encontros da ONG carioca Amigas do Peito, a pauta é a importância da amamentação. Questões da maternidade de quem espera pelo primeiro bebê ou já teve filhos aparecem nos encontros semanais do Gama, uma associação paulista que conta com profissionais de diversas áreas (obstetriz, psicóloga, doula, médicos etc.) para dar auxílio e tirar dúvidas. Como os encontros reais nem sempre são possíveis, há uma série de comunidades virtuais em que as mães podem buscar apoio, repartir experiências ou tirar dúvidas, como acontece na comunidade online Parto do Princípio. Alguns desses grupos até saem da internet para o mundo real, como o Cinematerna, criado a partir de um grupo de discussão online, que hoje reúne semanalmente mães e seus bebês para sessões de cinema em 14 cidades do país. Todas têm som e ar-condicionado reduzidos para não incomodar as crianças.
Um parto para você
Parto natural ou cesárea? Na água ou em casa? Para tomar uma boa decisão, o casal deve se informar sobre cada um deles e ver qual tem mais a ver com seu perfil. Afinal, o melhor parto para uma mulher é o que ela escolher, de acordo com suas condições físicas, idade, temperamento e vontade
PARTO NATURAL
A mulher pode se movimentar quando precisa. Não são feitas anestesias ou cortes, o que acelera a recuperação. Mas nem sempre é possível, dependendo da posição do bebê ou de complicações na gravidez. Se for necessária fazer uma episiotomia (corte na região do períneo) ou anestesia, passa a ser chamado de parto vaginal ou normal.
PARTO DE CÓCORAS
Semelhante ao natural, mas aqui a mulher fica de cócoras e não deitada. Com a ajuda da gravidade, o bebê encontra a saída com mais facilidade. Só é possível quando a criança está encaixada com a cabeça para baixo.
PARTO LEBOYER
Procedimento defendido pelo obstetra francês Frederick Leboyer, que na década de 1970 lançou a obra Nascer Sorrindo (Brasiliense), esse parto pretende reduzir o trauma do bebê ao deixar o útero. O ambiente deve ser silencioso e estar à meia-luz. Assim que nasce, o bebê recebe uma carinhosa massagem nas costas e vai para o colo da mãe.
PARTO NA ÁGUA
O nascimento é dentro da água, aquecida a 36 °C. Quando o bebê sai do útero, encontra um ambiente semelhante ao em que estava antes, o que ameniza o choque para ele. A temperatura ajuda a aliviar as contrações e relaxa a musculatura do períneo, facilitando a saída da criança. Nessa técnica, não é possível o uso de anestesia.
PARTO CESARIANO
Acontece quando há alguma complicação, como o bebê ser maior que a região pélvica, por exemplo. A mulher recebe anestesia e em seguida é feita uma incisão de 10 centímetros, acima dos pelos pubianos. A recuperação é mais lenta. A cesárea eletiva, com hora marcada, em geral não é recomendada, pois pode prejudicar o bebê, que nascerá antes de estar completamente desenvolvido.
PARTO HUMANIZADO
Não existe uma definição precisa sobre o termo, mas em geral é quando a mulher fez o pré-natal e pode escolher onde ter o bebê, quem estará ao seu lado na hora do parto e até em que posição vai ficar na hora do nascimento. Assim que nasce, a criança vai para os braços da mãe e é amamentada.
A foto é do Globo.com
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Brasil é o principal consumidor de agrotóxicos: entrevista com a maior autoridade do país no assunto
A nanotecnologia oferece novas oportunidades para indústrias ligadas à cadeia de produção agrícola, mas pode gerar enormes riscos para saúde e o meio ambiente, Fonte: Instituto Humanitas Unisinos
Por Redação do IHU Online
"Como são regidas pelas leis da física quântica, as nanopartículas apresentam comportamentos distintos dos habituais para materiais em escala macroscópica. Testes de laboratório mostraram, por exemplo, que nanopartículas de óxidos de metais podem penetrar nas células e danificar o DNA. Devido ao tamanho diminuto, partículas não são retidas pela barreira do cérebro ou pela da placenta", adverte a fundadora do Centro Ecológico do município de Ipê, Rio Grande do Sul.
Em entrevista concedida por e-mail a IHU On-Line, a pesquisadora assinala que genes de plantas geneticamente modificadas são transferidos para bactérias intestinais humanas. No caso dos cultivos Bt, ressalta, "nos quais toda a planta é transformada num agrotóxico pela transgenia, se os genes Bt forem transferidos, eles poderiam fazer nossas bactérias intestinais tornarem-se fábricas vivas de agrotóxicos". Com isso, destaca, aumenta a probabilidade de os transgênicos serem responsáveis por doenças toxológicas.
Para Maria José, a expansão da fronteira agrícola brasileira "é uma das causas do aumento do consumo de agrotóxicos juntamente com os cultivos de transgênicos" no país. E acrescenta: "Não por coincidência, algumas das maiores empresas de sementes do mundo, que controlam grande parte do mercado mundial de sementes proprietárias estão também entre as maiores empresas de agrotóxicos do mundo, como a Monsanto, a Dupont, a Bayer e a Syngenta".
Maria José Guazzelli é engenheira agrônoma, formada pela Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e na década de 1980, participou na elaboração da Lei dos Agrotóxicos do Rio Grande do Sul (Lei 7747/82). Ela é coautora do livro Agropecuária sem veneno, tradutora dos livros Plantas doentes pelo uso de agrotóxicos - Teoria da trofobiose, de Francis Chaboussou; Agroecologia, de Stephen Gliessman, Nanotecnologia - Os riscos da tecnologia do futuro, do Grupo ETC, e Roleta genética - Riscos documentados dos alimentos transgênicos sobre a saúde, de Jeffrey Smith .
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Quais são os venenos mais usados nas lavouras brasileiras e em que medida isso é feito?
Maria José Guazzelli - O Brasil, em 2008, tornou-se o maior consumidor mundial de venenos agrícolas (733,9 milhões de toneladas), ultrapassando os Estados Unidos (646 milhões de toneladas). Em 2007, as vendas no Brasil significaram 5,372 bilhões de dólares e em 2008, 7,125 bilhões. A cultura que mais consome agrotóxico é a soja. No total, os herbicidas representam cerca de 45% das vendas, os inseticidas 29%, e os fungicidas 21%.
De acordo com dados da Anvisa de 2008 e de 2009, mais 15% dos alimentos no país têm resíduos de agrotóxicos em excesso. Para a Andef (Associação Nacional de Defesa Vegetal), o massivo uso de agrotóxicos é chamado de "emprego intensivo de tecnologia", e o mercado brasileiro tem potencial para "avanço mais consistente no futuro". Boa parte dessa consistência deve-se às variedades transgênicas.
IHU On-Line - A evolução da transgenia é o principal fator para o aumento do uso de agrotóxicos nas lavouras?
Maria José Guazzelli - A expansão da fronteira agrícola no Brasil também é uma das causas do aumento do consumo de agrotóxicos juntamente com os cultivos transgênicos. Não por coincidência, algumas das maiores empresas de sementes do mundo, que controlam grande parte do mercado mundial de sementes proprietárias, estão também entre as maiores empresas de agrotóxicos do mundo, como a Monsanto, a Dupont, a Bayer e a Syngenta.
Em 1994, foram consumidas cerca de 800 toneladas de herbicidas no Brasil e, em 1998, aproximadamente 1400, coincidindo com o período de introdução da soja transgênica no país.
A pauta atual da CTNBio mostra bem que os transgênicos fazem sua parte no consumo de agrotóxicos. Dos seis pedidos para liberação comercial de sementes transgênicas, quatro delas são modificadas para tolerar aplicações de herbicidas e uma é Bt e tolerante a herbicida. Dos 45 pedidos de variedades que estão sendo testadas a campo, 41 são para plantas tolerantes a herbicidas, ou seja, 91% do total.
Um dado interessante é que o único estudo de alimentação de humanos com cultivos transgênicos mostrou que genes das plantas são transferidos para bactérias intestinais humanas. No caso de cultivos Bt , nos quais toda a planta é transformada num agrotóxico pela transgenia, se os genes Bt forem transferidos eles poderiam fazer nossas bactérias intestinais tornarem-se fábricas vivas de agrotóxicos.
Não por acaso, a Academia Americana de Medicina Ambiental divulgou documentos sobre alimentos transgênicos pedindo uma moratória imediata e afirmando que "os produtos transgênicos representam um sério risco à saúde nas áreas da toxicologia, alergias, funções imunológicas, saúde reprodutiva, metabolismo, fisiologia e saúde genética".
IHU On-Line - Qual é a composição do Roundup e por que ele é considerado um dos agrotóxicos mais prejudiciais?
Maria José Guazzelli - O Roundup é um herbicida à base de glifosato muito usado por agricultores, jardineiros e órgão públicos para o controle de ervas indesejadas. A maioria dos transgênicos cultivados hoje no Brasil são variedades resistentes a esse produto.
É bastante difundido, especialmente pela indústria, que o glifosato é menos prejudicial que outros herbicidas. A Anvisa o classifica como Classe IV (faixa verde). A toxicidade aguda do glifosato é relativamente baixa, mas o Roundup é composto de glifosato e mais um surfactante . O surfactante chamado POEA aumenta a eficácia do produto bem como os riscos pelo seu uso. Por ser um produto sistêmico, o Roundup é absorvido por sementes e frutas.
O produto também é tóxico para animais aquáticos (experimentos com rãs, nos EUA, mostraram que mais de 80% dos adultos expostos ao Roundup, em proporções normais morreram em 24 horas). Ele pode ser absorvido pela pele e mucosas agindo no sistema nervoso, afetando os músculos. Além disso, provoca hipotensão arterial, dores intestinais, vômito, diarréia, dor de cabeça, tontura, ardência nos olhos, visão borrada e dificuldade de respirar. É um disruptor endócrino (provoca danos no DNA) e pode ativar o desenvolvimento de câncer e de outras anomalias que favorecem abortos espontâneos, nascimentos prematuros e má formações em recém-nascidos.
Algumas horas de exposição ao Roundup, em concentração 10 vezes mais baixa do que a usada na agricultura, é tóxica para células da placenta humana. Em diluições de até 10.000 vezes, o Roundup altera a produção hormonal das células placentárias. Níveis extremamente baixos de exposição ao Roundup podem resultar em produção 90% mais baixa de hormônios sexuais masculinos. Como um disruptor endócrino sintético, em bebês, oferece risco de danos sexuais, cognitivos, de desenvolvimento físico e do sistema imunológico permanentes.
No Rio Grande do Sul, estudo em ratos mostrou aumento no percentual de espermatozóides anormais durante a puberdade e a redução da produção diária e do número de espermatozóides em adultos. Pesquisa recente na Argentina mostrou que este agrotóxico produz alterações intestinais, cardíacas e deformações e alterações neuronais em embriões anfíbios mesmo em doses muito inferiores às usadas na agricultura.
Quando a soja RoundupReady da Monsanto foi liberada, o governo, por meio da Anvisa e do Ministério da Saúde, aumentou em 50 vezes o Limite Máximo de Resíduos (LMR) permitido do glifosato na soja para que o grão pudesse ser legalmente comercializado (de 0,2 mg/kg para 10 mg/kg).
IHU On-Line - Qual é a relação dos agrotóxicos com o desenvolvimento da doença de Parkinson? Que outras doenças podem surgir?
Maria José Guazzelli - Já em 2000, há referência de estudo em cobaias publicado no Journal of Neuroscience indicando que a exposição simultânea ao herbicida Gramoxone (Paraquat) e ao fungicida Maneb, ambos bastante usados na agricultura, é fator determinante no desencadeamento do mal de Parkinson. Levantamento recente feito com trabalhadores rurais mostrou resultados similares. Da mesma forma, em 2008, estudo realizado na Duke University, Durham, North Carolina, constatou que dos pacientes com Parkinson, mais de 61 % relatavam contato direto com aplicação de agrotóxicos quando comparados com parentes saudáveis. O Mal de Alzheimer, por exemplo. Não tenho lembrança de estudos para discorrer mais sobre este aspecto.
Há agrotóxicos com características bem distintas que começam a ser usados na agricultura sem que existam estudos dos seus impactos sobre a saúde e o meio ambiente. São difundidos como de liberação controlada e usam partículas de tamanho nano. Ou seja, somam aos problemas dos agrotóxicos os problemas de substâncias nanotecnológicas que irão para a água e solo etc., onde podem apresentar riscos de toxicidade. Os produtos Karate Zeon, da Syngenta são exemplos deste tipo de tecnologia.
IHU On-Line - Nesse sentido, as nanotecnologias podem agravar ainda mais a toxidade dos agrotóxicos? Que relações estabelece entre essa tecnologia e os venenos?
Maria José Guazzelli - As inovadoras propriedades de nanomateriais oferecem novas oportunidades para a indústria ligada à cadeia de produção agrícola, como, por exemplo, agroquímicos e fertilizantes mais potentes. Mas esses materiais podem trazer enormes riscos para a saúde e o meio ambiente.
Como são regidas pelas leis da física quântica, as nanopartículas apresentam comportamentos distintos dos habituais para materiais em escala macroscópica.
Testes de laboratório mostraram, por exemplo, que nanopartículas de óxidos de metais podem penetrar nas células e danificar o DNA. Devido ao tamanho diminuto, partículas não são retidas pela barreira do cérebro ou pela da placenta. Os métodos atuais para avaliar riscos potenciais dos nanomaterais são inadequados e as versões nano de químicos já existentes deveriam ser avaliadas como novos químicos. Assim, além da toxicidade do próprio agrotóxico, soma-se a toxicidade da nanopartícula decorrente de seu tamanho e estrutura.
IHU On-Line - O uso de agrotóxicos contribui também para a infertilidade futura do solo?
Maria José Guazzelli - O uso de agrotóxicos contribui para alterar a flora microbiana, responsável, em grande parte, pela fertilidade de um solo. Alguns tipos de venenos comumente usados também são capazes de bloquear sinais químicos que permitem o funcionamento de bactérias fixadoras de nitrogênio, fazendo com que o solo na área tratada fique mais pobre deste nutriente, demandando aplicação maior de fertilizantes.
IHU On-Line - Pode nos falar sobre a teoria da trofobiose? Em que sentido isso contribui para a construção de uma agricultura sadia?
Maria José Guazzelli - A palavra Trofobiose foi usada pelo pesquisador francês Francis Chaboussou para dar nome à sua teoria que não é qualquer planta que é atacada por pragas e doenças. A planta precisa servir de alimento adequado e só será atacada por um inseto, ácaro, nematóide ou microorganismos (fungos ou bactérias), quando tiver, na sua seiva, exatamente o alimento que eles precisam. Este alimento é constituído, principalmente, por aminoácidos, que são substâncias simples, rapidamente aproveitadas. Em outras palavras, uma planta saudável, bem alimentada, dificilmente será atacado por pragas e doenças. As ditas pragas morrem de fome numa planta sadia.
IHU On-Line - Que modificações são provocadas nas plantas pelo uso de adubos químicos e o que essas substâncias geram?
Maria José Guazzelli - Devido à sua solubilidade, os adubos químicos são um dos fatores que provocam desequilíbrios no metabolismo das plantas, segundo Chaboussou, fazendo com que a planta tenha na sua seiva uma quantidade maior de substâncias simples. Isto está relacionado com a formação de proteínas - quanto mais intensa for a síntese de proteínas, menor será a sobra de aminoácidos livres, açúcares e minerais solúveis que os insetos e doenças necessitam para poderem se alimentar, já que têm uma variedade muito pequena de enzimas digestivas, o que reduz sua possibilidade de aproveitar completamente moléculas grandes (complexas), como as proteínas, por exemplo. Além disso, a formação eficiente de proteínas aumenta o nível de respiração e de fotossíntese da planta, melhorando todo o funcionamento da planta. Plantas que recebem nutrição desequilibrada provavelmente irão necessitar aplicação de agrotóxicos - fechando esse ciclo de dependência de adubo químico e veneno agrícola.
IHU On-Line - É possível hoje, de acordo com o modelo de produção agrícola existente e com o crescimento da transgenia, não utilizar agrotóxicos?
Maria José Guazzelli - O atual modelo de agricultura, seja usando sementes convencionais ou transgênicas, é desenhado para assegurar lucros às empresas. Assim, faz parte do modelo ter plantas "adoecidas" e plantas modificadas geneticamente que requerem aplicações de adubos químicos e de agrotóxicos. Mas é possível não precisar mais utilizar agrotóxicos. A opção é mudar para um sistema de produção que vise preservar a saúde e o ambiente, sem abrir mão da viabilidade social e econômica. Estudos apontam que a agroecologia tem capacidade de produzir alimentos e fibras em quantidades suficientes para abastecer a população atual e futura e, além disso, promove os chamados serviços ambientais. Dentre eles, destaca-se a preservação da diversidade biológica e a mitigação dos gases de efeito estufa, contribuindo para reduzir o aquecimento global. São sistemas agrícolas mais resilientes , tanto em termos econômicos quanto ecológicos.
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