terça-feira, 30 de agosto de 2011

Nike Reuse a shoe


A Nike lançou uma iniciativa interessante há alguns anos, recolher tênis velhos e usados em suas lojas para, com o material, produzir piso antiderrapante para academias de ginástica.

O Nike Grind, ou grãos de Nike, é um piso antiderrapante pré-moldado, encaixável e ideal para academias, colégios, ginásios, vestiários e ambientes já projetados.

Para colaborar na produção com a campanha "Reutilize um calçado", deixe seus tênis usados (de qualquer marca) nas lojas Nike espalhadas pelo mundo. Os calçados recolhidos serão triturados e processados para a transformação em piso de borracha.

Ainda não há postos de coleta no Brasil, apenas na Europa, Asia, Oceania e EUA. Que tal escrever à empresa pedindo para estender a inciativa à América Latina?



Em tempo, a melhor maneira de dar um bom destino ao seu tênis é usá-lo ao máximo ou doar quando o mesmo não couber mais. Reciclar um tênis velho é um paliativo para calçados que já esgotaram sua vida útil e a maioria da borracha é oriunda de petróleo.
Como sempre é lembrado por aqui - reciclar é um conceito apoiado num tripé: recusar, reutlizar e só então reciclar.
A aplicação dessa logística reversa é simpática para o maior fabricante mundial de calçados esportivos, mas nunca convém esquecer também que a Nike ainda responde a acusações de trabalho infantil e irregular em países emergentes.


Site oficial: Nike reuse a shoe



Mais informação:
Calçados e bolsas sintéticos em lojas convencionais
Bolsas, sandálias e cintos em pneus e cintos de segurança reciclados
As calçadas de borracha a partir de pneus reciclados em Washington

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O projeto de aquecedor solar na Mangueira

A Mangueira é uma comunidade aqui no RJ com a escola de samba mais popular do país. Como adoro samba e carnaval, já fui à quadra da escola algumas vezes, os ensaios e feijoadas são ótimos e constam de todos os guias turísticos da cidade.

Há algum tempo, divulguei os projetos da Sociedade do Sol, nas postagens: "Aquecedor solar de baixo custo: faça o seu em casa" e A casa sustentável é mais barata - parte 01 e parte 08"
Assino a newsletter deles e sempre fico à par dos cursos e palestras proferidos. Por coincidência, há alguns meses, a Sociedade do Sol promoveu um workshop gratuito no Residencial Mangueira 01, um conjunto habitacional na entrada da comunidade.
Como tive o prazer e o privilégio de participar desse workshop, disponibilizo as fotos abaixo:




A implantação de placas coletoras de energia solar em construções populares pode ser uma grande transformação na cultura do "gato" de luz, os chuveiros elétricos são substituídos por tecnologia limpa e acessível.

As placas são de fácil confecção e instalação, os projetos atuais que comportam academias de ginástica, clubes e residências em geral, mostram claramente como a economia de luz e gás é significativa.
Sempre é válido lembrar que nosso gás é extraído de plataformas de petróleo e a luz, por usinas hidrelétricas, como Belo Monte.
Vale lembrar também que mesmo grandes parques eólicos, as fazendas de vento, impactam ambientalmente e que talvez o grande erro seja colocar todas as fichas nas soluções de larga escala. Todas as residências com fornecimento autônomo e variado de energia são mais "limpas" e "inteligentes" do que a população co-dependente de uma iniciativa governamental. Leia melhor sobre o assunto nas postagens: "O lado B da energia eólica em larga escala" e "O PAC não se paga: Jirau, Belo Monte e Mauá".

Eu conversei pessoalmente com alguns moradores do conjunto habitacional e todos confirmaram que a água ferve, mesmo em dias nublados. Muitos mostraram-se felizes por pagarem contas de luz que não chegam a R$20,00.


O site da Sociedade do Sol disponibiliza uma apostila on line e gratuita a todos que queiram aprender a confeccionar sua própria placa. Para baixar, visite a área de "manuais: como fazer"


Mais informação:
Hidrelétrica de Belo Monte
Economia de gás para um inverno mais sustentável
Minha Casa Minha Vida financia casa bioconstruída
No interior do RN, Exército inaugura primeiro poço artesiano que funciona a energia solar


domingo, 28 de agosto de 2011

Carta aberta dos Bombeiros do Rio de Janeiro à população

Eu fui voluntária na Cruz Vermelha quando das chuvas que levaram aos deslizamentos na Região Serrana e alguns bombeiros faleceram soterrados ao que consta. A questão aqui não é se alguém torna-se bombeiro e depois não pode reclamar dos riscos, eles são inerentes à atividade, mas porque um profissional tão indispensável quanto à polícia, a única das Forças Armadas que não pega em armas, é sempre tão mal remunerada e as verbas para custas dos batalhões, sempre exíguas, o que obriga os bombeiros a retirar do próprio bolso para a compra do rancho.

Minha relação com a Cruz Vermelha antecede essa experiência, quando comecei a cursar a Escola Técnica em Segurança, achei interessante fazer a formação em Primeiros Socorros na Cruz Vermelha e aprendi muito sobre a Instituição. Outra coisa que não aparece aqui no blog é que também tive formação como brigadista, por ser Técnica em Segurança do Trabalho e trabalhar como Supervisora de Segurança em plataforma de petróleo, sou por definição, além de agente de pouso e decolagem dos helicópteros, a chefe da brigada de incêndio. A própria formação como técnica prevê em currículo a matéria de "Combate à incêndio" como obrigatória e normalmente ministrada por Bombeiro Militar reformado. Quando na Escola Técnica, foi a minha favorita, que me levou à prova de Bombeiro Civil, aberta à população em geral, e tudo que eu posso afirmar, é que dos batalhões que visitei, só vi seriedade e comprometimento.

Não deixe de ler, nós pagamos 5 meses anuais de nossos salários em impostos a um governo que tradicionalmente remunera mal as categorias de base, como bombeiros, professores e médicos.





Povo Fluminense,
Os Bombeiros do Rio de Janeiro, profissionais trabalhadores, ordeiros e competentes, em respeito à população que sempre defenderam, por vezes com o sacrifício da própria vida, vem a público esclarecer o que tem ocorrido na Corporação e no Governo do Estado e o que levou companheiros e seus familiares a desafiarem os desmandos do Comandante Geral Cel Pedro Marco e do Governador Sérgio Cabral.

Como sabemos, o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro é uma corporação voltada para a preservação de vidas e proteção de bens da população do Estado do Rio de Janeiro.
Ao longo da sua existência, o CBMERJ sempre se pautou pela hierarquia e disciplina e também pela credibilidade de seus serviços, estando ao lado da população fluminense em todas as suas aflições e enfrentando com bravura as calamidades naturais que atingem o Estado. São inúmeras as vidas salvas e os bens preservados pelos profissionais do Corpo de Bombeiros, que a população chama carinhosamente de heróis. Ao nos formarmos, juramos defender a população com o sacrifício da nossa própria vida e assim temos feito ao longo desses 155 anos de existência.

A Corporação recolhe cadáveres, combate os mosquitos da dengue, atua nas UPAS, guarnece o sambódromo no carnaval e atua no Rock in Rio (sem remuneração extra, embora o evento seja cobrado ao público), além de exercer as suas funções de salvamentos e combate à incêndio, recebendo um dos PIORES SALÁRIOS pagos pela categoria no Brasil (tabela ao Final).

O reequipamento da Corporação não é mérito do Governador, mas sim da população do Estado do Rio de Janeiro que paga a taxa de incêndio e que, ainda assim, não sabe que os recursos não são totalmente destinados à Corporação.

A ira do Sr. Sérgio Cabral, com os Bombeiros, vem de 2009, quando foi vaiado pela Corporação durante o lançamento da Campanha “Cultura Antidengue” no ginásio do Maracanãzinho e desde então tem discriminado os Bombeiros militares, sejam nas gratificações (usando seu poder de discricionariedade) seja nas condições de trabalho (vocês viram alguma homenagem aos heróis que morreram na calamidade da Região Serrana?)
Agora, a população do Estado do Rio de Janeiro assiste a sua Corporação de heróis ser aviltada e achincalhada pelas atitudes ditatoriais do Governador Sérgio Cabral que culminou com os manifestantes adentrando o Quartel Central da Corporação, no ultimo dia 03, para serem ouvidos pelo seu Comandante Geral, que omisso, serviu de “pau mandado” do governador Sérgio Cabral e ignorou os clamores de sua Tropa, nem comparecendo ao local.

O Governador Sérgio Cabral, adotando os melhores recursos da DITADURA, mandou o BOPE invadir com tiros e bombas o Quartel Central do Corpo de Bombeiros, ferindo militares honestos, mulheres e crianças indefesas. Atitude inadmissível em um Estado democrático de Direito!
Porque o Comandante Geral do CBMERJ, Cel Pedro Marco, não tomou as medidas necessárias para a retirada de seus militares do pátio do Quartel Central? Estavam todos desarmados e com seus familiares. Não era necessário o uso da força e sim do diálogo. Os Bombeiros são pacíficos por natureza.

O Governador nunca gostou da Corporação. Nomeou para Secretário o ex-médico do CBMERJ Sérgio Côrtes, um homem que deixou a Corporação por não concordar com os baixos salários e a carga de trabalho excessiva e agora nada faz para ajudar a Corporação, apenas integra os desmandos administrativos e superfaturados do Governo do Estado na área da saúde.

Assistimos perplexos ao Comandante Geral da PMERJ usurpar o Comando do CBMERJ e se dirigir, dentro do quartel dos Bombeiros, à tropa de profissionais honestos como se bandidos fossem.
Nossos militares foram presos e conduzidos aos quartéis da PMERJ como criminosos apenas por reivindicar dignidade profissional!

Se nossos companheiros erraram ao ADENTRAR a SUA SEGUNDA MORADA, o Governador foi CRIMINOSO e DITATORIAL ao ordenar a invasão do Quartel Central dos Bombeiros pelo BOPE com uso de FORÇA, TIROS E BOMBAS, como se ali fosse uma antro de criminosos e não de profissionais que arriscam a sua vida pela população, CAUSANDO FERIMENTO EM MULHERES E CRIANÇAS e obrigando a nossos companheiros ao confronto.

AJUDEM AQUELES QUE SEMPRE O SOCORRERAM!!!
NUNCA DEIXAMOS DE ATENDER E SOCORRER A POPULAÇÃO!
MOSTRE A SUA INDIGNAÇÃO POR ESSE ATO VIOLENTO E DITATORIAL DO GOVERNADOR SERGIO CABRAL!!!
MOSTRE O SEU APOIO AOS BOMBEIROS!
ENVIEM ESSA CARTA PARA TODOS OS SEUS AMIGOS.
ACOMPANHEM E APOIEM O NOSSO MOVIMENTO PELO SITE  http://www.sosguardavidas.com

SALÁRIOS BRUTOS NO BRASIL:
01º – Brasília – R$ 4.129.73
02º – Sergipe – R$ 3.012.00
03º – Goiás – R$ 2.722.00
04º – Mato Grosso do Sul – R$ 2.176.00
05º – São Paulo – R$ 2.170.00
06º – Paraná – R$ 2.128,00 1
07º – Amapá – R$ 2.070.00
08º – Minas Gerais – R$ 2.041.00
09º – Maranhão– R$ 2.037.39
10º – Bahia – inicial – R$ 1.927.00
11º – Alagoas – R$ 1.818.56
12º – Rio Grande do Norte – R$ 1.815.00
13º – Espírito Santo – R$ 1.801.14
14º – Mato Grosso – R$ 1.779.00
15º – Santa Catarina – R$ 1.600.00
16º – Tocantins – R$ 1.572.00
17º – Amazonas – R$ 1.546.00
18º – Ceará – R$ 1.529,00
19º – Roraima – R$ 1.526.91
20º – Piauí – R$ 1.372.00
21º – Pernambuco – R$ 1.331.00
22º – Acre – R$ 1.299.81
23º – Paraíba – R$ 1.297.88
24º – Rondônia – R$ 1.251.00
25º – Pará – R$ 1.215,00
26º – Rio Grande do Sul – R$ 1.172.00
27º – Rio de Janeiro – R$ 1.031,38 (SEM VALE TRANSPORTE)

O RIO DE JANEIRO é o Estado que mais recebe investimentos no Brasil, é o 2º que mais arrecada impostos. Pretende sediar o Rock in Rio, as Olimpíadas militares, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016.
Há algo de errado e podre no Governo do Exmo Sr Governador Sérgio Cabral Filho!!!





sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Como funciona uma Corporação e como o que você consome, implica nisso



Há muitos anos, o Bill Clinton esteve no Brasil em viagem oficial e fez um comentário que desagradou as então autoridades brasileiras: que não havia um único produto brasileiro sem que mão de obra infantil estivesse envolvida em pelo menos uma etapa do processo. Mais de 10 anos se passaram e a situação não mudou muito, o brasileiro continua comprando muito e pior, sem ter a menor noção de como e onde o produto foi feito.

Eu estou para falar dos 2 filmes abaixo há muito tempo, já havia abordado todos os outros que também estão listados no final da postagem, mas sempre faltava uma ocasião especial para falar desses 2 em específico. A maioria das pessoas acha difícil entender como comprar um computador por ano e comer 1 bifinho (ou peito de frango) por dia, pode impactar tanto no meio ambiente, afinal que mal pode haver se todo mundo faz e a gente precisa muito desses produtos...  É complicado sim e consumo consciente deveria ser ensinado antes da alfabetização nas escolas, justamente porque permeia todas as escolhas da vida de uma pessoa. Fala-se em fair trade, buy local, feira orgânica, compras cooperativadas, mas parece que no final das contas, é só a pontinha de um iceberg.
A gente compra uma mera camiseta numa loja muito bacana e socialmente responsável e no dia seguinte, abre o jornal e vê que a mesma foi produzida por bolivianos mantidos como escravos, aqui em São Paulo. Não, não é no Acre, é ali por Osasco mesmo.
Por que uma grande rede varejista escraviza e a pequena confecção do meu vizinho não?
Existe uma relação nisso tudo e os vídeos abaixo, tentam explicar. Tire um tempinho e tente assistir aos dois.

Para entender como tudo funciona, da produção à distribuição, assista ao curta "The story of stuff", curtinho e super didático:





Se tiver que assistir a um único documentário, assista a "The Corporation".
Há muitos outros filmes excelentes listados aqui, como o "Flow, por amor à água", "Ouro azul, a guerra mundial pela água", "O mundo segundo a Monsanto", "Criança, a alma do negócio" e o imperdível a "Revolução dos cocos", mas "The Corporation" parece a síntese de tudo, até porque há inúmeros depoimentos de especialistas presentes na maioria dos outros filmes.

Se você pensa em transgênicos, sementes suicidas e o pesticida Round Up, "The Corporation" aborda e ainda nos presenteia com um depoimento da Dra Vandana Shiva, autora da tese sobre a tecnologia terminator e igualmente presente em "O mundo segundo a Monsanto". Já para os que lembraram da água e das questões de hidropirataria, o mesmo sapateiro boliviano, principal personagem de "Ouro Azul" também dá o seu depoimento. Lembrou de Michael Moore e do golpe de estado corporativo descrito em "Capitalismo", pois "The Corporation" encerra com um depoimento dele.
Está todo mundo ali, Peter Singer, Melanie Klein, Milton Friedman e até ex-CEO´s de corporações como a Shell e IBM.
Confesso que não é dos mais fáceis de assistir, são 24 partes de menos de 10 minutos e muita informação abrangendo centenas de assuntos correlacionados. Mas vale muito a pena, você pode pausar ou mesmo deixar para assistir a metade no dia seguinte e o documentário faz aquela lavagem cerebral necessária esporadicamente.





Outros filmes igualmente bons e que abordam a mesma questão de outras óticas:
Das Rad 
Turista Espacial
Dying to have known
Os videos da Libertação Animal
Chemtrails, o rastro químico que está sendo jogado no ar


Ainda da "The story of stuff":
A história dos eletrônicos
A história da água engarrafada
Como funciona a indústria de cosméticos
A história das soluções, da falência e da mudança


Para quem quiser cair dentro:
Soja é desnecessário
O mundo é o que você compra
75 livros sobre sustentabilidade
A casa sustentável é mais barata
Quantos escravos trabalham para você?
"Eu queria trabalhar com sustentabilidade"
"10 empresas controlam 85% dos alimentos”
Greenwashing, a mentira verde da publicidade sustentável
A rede capitalista de 147 empresas que controla 60% das vendas do mundo
Greenwashing é isso aí: Ranking das marcas mais verdes do mundo (mas Darwin explica)
A crise climática do século 21 foi causada por apenas 90 empresas (incluindo a Petrobrás)?


Desmistificando tudo:
O mito da proteína
O mito do reflorestamento de eucalipto
O mito das emissões de carbono neutralizadas
O mito da embalagem sustentável: manual básico de reciclagem
O mito do agrobusiness: agronegócio perde em eficácia para agricultura familiar
O mito da autossuficiência em petróleo: No país do pré-sal, a gasolina mais cara do mundo



Só existe uma solução: comprar menos, reaproveitar e dividir tudo - não tem milagre, mas ninguém precisa surtar. Assista à "Revolução dos cocos" e você vai entender o que tem que ser feito. Se não consegue entender porque tudo que é produzido atualmente dura menos do que manufaturados de 20 anos atrás, leia sobre obsolescência programada na postagem "A casa sustentável é mais barata 05 - parte  (eletrodomésticos vintage)".


A imagem é Malvadinha, como sempre.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

2 fábricas antigas, que deveriam ter sido tombadas, mas foram postas abaixo

Uma das muitas críticas que se faz por aqui é sobre a mania nacional de derrubar edificações antigas para levantar algo novo no lugar.
Comecei abordando o assunto na postagem "Um país em obras", continuei em "Reciclagem de Edifícios" e "6 parques públicos construídos com material reciclado" e me aprofundo na série "A casa sustentável é mais barata", que já está na décima quarta parte e, espero assim, deve continuar infinitamente.

Por que colocar tudo abaixo não é bom?
"A média de entulho produzido por metro quadrado em obras novas é de 150 kg, o que faz com que uma obra de 10 mil m produza cerca de 1.500 t de resíduos. No ano de 2000, é dito, foram descartadas na cidade de São Paulo 17.240 t de entulho por dia."
Leia melhor na postagem "A casa sustentável é mais barata - parte 10 (ecotijolos)"

Ainda, mesmo que usássemos todo o entulho produzido pelos grandes centros para produzir ecotijolos reciclados, a idéia não é essa. Como já foi exaustivamente repetido aqui - reciclagem é um conceito apoiado num tripé: recusar, reutilizar e só então, reciclar. A transformação (reciclagem) é a última etapa do processo, quando as duas primeiras já revelaram-se inúteis.
O próprio processo de fabricação do ecotijolo usa energia, água e matéria prima. A nova edifficação, em substituição à demolida, consumirá igualmente água, energia e matéria prima. É a cultura do desperdício que deve ser combatida e nunca uma edificação antiga.

No mundo todo está havendo a tendência de aproveitar construções antigas, incluindo usinas nucleares desativadas, justamente para economizar recursos e integrar a população em área públicas de convívio, o que dá ao conceito de urbanismo, uma dimensão muito maior do que o paisagismo que vemos no Brasil.

Seguem os dois casos lamentáveis abaixo:



Fábrica de 70 anos vai ao chão e vira condomínio em São Paulo

Projetado por Rino Levi na década de 1940, o prédio da antiga Companhia Jardim de Cafés Finos, na região central de SP, foi demolido há cerca de dois meses. Apesar do “inquestionável valor arquitetônico” que tinha, o edifício não aparecia em nenhuma lista de bens protegidos pelos órgãos do patrimônio histórico e a construtora não teve nenhum impedimento para derrubá-lo! Na matéria publicada pelo jornal Folha de S. Paulo no dia 6 de agosto, os arquitetos o arquiteto Lúcio Gomes Machado e Paulo Bruna falam um pouco da perda. Veja:

Às vésperas de completar 70 anos, a fábrica projetada pelo arquiteto ícone do modernismo brasileiro, Rino Levi, não resistiu à pressão imobiliária na capital paulistana e veio ao chão. No lugar do prédio da antiga Companhia Jardim de Cafés Finos, serão erguidos dois condomínios residenciais.

Embora com valor histórico e arquitetônico inquestionável, de acordo com especialistas ouvidos pela Folha, o edifício construído em 1942 na avenida do Estado (centro) não aparece nas listas de bens protegidos pelos órgãos do patrimônio histórico.

“O edifício era um documento fundamental para a história da arquitetura brasileira. O fato mostra falta de conhecimento de nossa cultura. Muito triste”, diz o arquiteto Lúcio Gomes Machado, 65, professor da faculdade de arquitetura da USP.

Para Machado, “qualquer arquiteto com razoável qualificação” poderia aliar novos edifícios à preservação de boa parte da fábrica em áreas comuns do condomínio.

Segundo Paulo Bruna, arquiteto que trabalhou com Rino Levi na década de 1960, a fábrica antecipava características de eficiência ambiental valorizadas hoje. “O prédio tinha para-sóis e era extremamente confortável. Lembro do doutor Rino calculando gráficos de insolação rigorosamente. A demolição é lamentável”, diz.

EXPANSÃO IMOBILIÁRIA
Fábio Adorni, da Engelux, afirma que a empresa desconhecia a autoria do edifício que demoliu há menos de dois meses, “Pedimos todas as autorizações na prefeitura. Não havia impedimento”.

Adorni diz que as 406 unidades dos dois empreendimentos lançados ali em junho já foram todas vendidas. São apartamentos de 33 m2, vendidos por R$ 130 mil. O Cambuci, cercado por bairros valorizados como Mooca, Vila Mariana e Ipiranga, é área natural para a expansão imobiliária, diz.

Para Manoela Rufinoni, professora da Unifesp, a antiga fábrica levou a linguagem da arquitetura moderna para a arquitetura industrial. "Fiquei bastante angustiada quando vi demolido. O prédio estava muito íntegro."

A professora integra o projeto de cooperação entre universidades e prefeitura para catalogar o patrimônio industrial da cidade.
Esses bens estão concentrados onde o plano diretor de 2002 prevê o adensamento da cidade. A ideia é aproximar pessoas da infraestrutura de transportes e empregos, além de revitalizar a cidade.




Implosão de antiga fábrica na Sapucaí durou 23 segundos

Meia tonelada de explosivos foram usados na manhã deste domingo para derrubar os quatro prédios e uma chaminé que formavam a antiga fábrica da Brahma na Marquês de Sapucaí. Iniciada pontualmente às 8 horas, a demolição foi marcada por um intervalo de um segundo entre a queda de cada prédio e durou, no total, apenas 23 segundos.

A fábrica da Brahma tinha 59 anos e sua implosão vai viabilizar a ampliação do Sambódromo na Sapucaí. Foram necessários dois dias para o carregamento dos explosivos e um mês para montagem de toda a operação, com medidas como a perfuração de solo. A possibilidade de falha era quase nula.

No lugar desses quatro prédios, serão instaladas novas arquibancadas para abrigar 18 mil pessoas. As mudanças permitirão recuperar o projeto original do arquiteto Oscar Niemeyer, que previa lados simétricos da passarela do samba.

Limpeza do local deve levar algo em torno de um mês e demandará o trabalho de uma equipe de 40 homens. Todo o material será reutilizado na fabricação das novas arquibancadas, o que torna a obra totalmente ecológica, segundo o secretário especial do Turismo, Antonio Pedro.

“A gente continua com o prazo origunal de entregar o novo Sambódromo no mês de dezembro, já para os ensaios técnicos do grupo especial. Essa reforma já atende ao compromisso da cidade com os jogos olímpicos de 2016”, disse o secretário.

O prefeito Eduardo Paes chegou cedo ao local e brincou o tempo todo, fingindo que iria apertar o botão do detonador. “Este é mais um marco para a cidade do Rio de Janeiro e é também uma nova fase de valorização e revitalização da Cidade Nova”, disse o prefeito.

A Defesa Civil já realizou uma primeira vistoria no local e concluiu que não houve avaria nos prédios ao redor. A varredura contemplou 500 imóveis que foram evacuados. Os moradores já estão autorizados a retornar às suas casas.

Trânsito
O estacionamento em 28 pontos da região foi proibido na tarde de ontem até às 9h desse domingo. Para a segurança dos motoristas, 12 ruas e avenidas ficaram interditadas desde às 6:30h. O túnel Santa Bárbara e o elevado 31 de março fecharam às 7:30h.

Paineis foram espalhados pela cidade para orientar os motoristas. Além disso, 65 agentes de trânsito, guardas municipais e funcionários da Cet-Rio, também estiveram no local.

A linha 1 do metrô foi interrompida por cerca de 20 minutos nas estações da Central do Brasil, Praça Onze e Estácio. A linha 2 funcionou normalmente.




Um caso bem sucedido aqui no Rio: A antiga fábrica de tecidos Confiança teve sua construção preservada e hoje serve como Boulevard com mercado, lojas e serviços em Vila Isabel (RJ)
O apito da fábrica foi inclusive citado por Noel Rosa, filho querido do bairro de Vila Isabel, em uma de suas muitas composições.





Observação minha (Carol): já que o mercado imobiliário e da construção civil está tão aquecido a ponto de derrubar fábricas centenárias para ganho de unidades residenciais sem qualquer preocupação em salvar pela menos uma fachada num jardim comum, imagino que as obras da Copa com nosso $$$ de contribuinte(especialmente a ampliação dos aeroportos) já tenham sido concluídas, certo?
E essas novas construções, tão modernas e necessárias, serão feitas usando as novas tecnologias de reúso de águas cinzas, materiais reciclados e captação de energia solar, não?


Um bom exemplo que pode ser replicado no mundo todo: Antiga fábrica abandonada em Chicago é transformada em fazenda urbana vertical energeticamente autônoma

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Estou na Revista dos Vegetarianos de Julho e Agosto

A Raquel Ribeiro, que editou o livro Festa Vegetariana, vendido com tanto sucesso por aqui, também publica reportagens esporáticas na Revista dos Vegetarianos.

Na edição de Julho (a capa abaixo), foi divulgada uma reportagem sobre cosmetologia natural, "Beleza vegana", onde sou citada e dou minha opinião.
Confesso que fiquei com preguiça de escanear a reportagem, além de não achar muito bacana com a revista, que ainda está à venda e permite a compra de edições antigas pelo site oficial.

Mas aos que quiserem ler sobre o assunto, tudo que disse na reportagem está disponível em postagens antigas daqui do blog, como: "A polêmica dos cosméticos verdes e um par de dicas do tempo da vovó", além da própria Raquel ter dado uma palinha sobre o assunto no blog da sempre querida Sonia Hirsch, na postagem "Dicas da Raquel Ribeiro: Cosméticos Naturais", onde também sou citada.

Mas como a reportagem acaba com dicas minhas, resumindo a festa, deixo aqui o trecho:

"As preciosas dicas da Carol Daemon, adepta da cosmetologia fitoterápica:
1. Desconfie de sabonetes com cores atraentes e brilhantes, cremosos, leitosos, perfumados e que fazem um mundo de espuma. São indicios de corantes, essências, espessantes e agentes espumantes artificiais responsáveis por reações alérgicas.
2. Produto caseiro não significa natural: tem sabonetinho artesanal cheio de soda cáustica!
3. Os óleos vegetais indicados são os essenciais (medicinais) e os que podem ser ingeridos. Aqueles perfumados à venda nas farmácias, como óleo de amêndoas para uso cosmético, não servem e não têm nada de naturais.
4. As pessoas têm a impressão que xampus que fazem mais espuma são melhores, pois limpam mais. Não é verdade: limpam além do necessário e acabam removendo a camada natural de hidratação da pele, causando ressecamento excessivo.
5. Um óleo de girassol nacional pode ser tão bom quanto um óleo importado de planta exótica. O próprio azeite de oliva é usado como cosmético em todo o Mediterrâneo.
6. Ao usar produtos caseiros, tenha muito cuidado. Faça um teste preliminar na pele do braço e não se exponha ao sol."




Agora, na edição de Agosto, o blog é citado diretamente na seção "notas verdes" como uma boa dica ecológica, veja melhor abaixo:







Em tempo, o blog não é vegetariano, apóia e divulga a causa com o mesmo respeito e imparcialidade com que combate a monocultura de soja transgênica e a indústria de bebidas prontas, ambos consumidos por vegetarianos militantes. A minha escolha pessoal não reflete na informação divulgada aqui.




Mais informação: As vendas do livro "Festa Vegetariana" em grupão coletivo acabaram virando outra festa

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Michael Reynolds, Garbage Warrior: a bioarquitetura do Novo México




O que latas de cerveja, pneus de carro e garrafas de água têm em comum? Não muito, a menos que você seja o arquiteto Michael Reynolds, nesse caso, eles são ferramentas de escolha para a produção de massa térmica e de energia independente numa habitação. Estabelecido no Novo México por 30 anos, Reynolds e seus discípulos verdes têm dedicado seu tempo para aprimoramento da arte de "Biotecture Earthship" através da construção de auto-suficiente de comunidades, onde o design e a função convergem em harmonia sustentável. No entanto, estas estruturas experimentais que desafiam os padrões estabelecidos, criam conflitos entre Reynolds e as autoridades apoiadas por grandes empresas. Frustrado pela legislação antiquada, Reynolds faz lobby para o direito de criar um espaço de teste de vida sustentável. Enquanto os políticos desconhecem as leis da Mãe Natureza, deixando comunidades devastadas por tsunamis e furacões, Reynolds e sua tripulação aproveitam a oportunidade para emprestar suas habilidades pioneiras àqueles que mais precisam. Filmado ao longo de três anos e em quatro países, Garbage Warrior é um retrato de um visionário determinado, um herói do século 21.





"Biotecture Earthship"
Bioarquitetura n. 1. a profissão de projetar edifícios e ambientes em consideração para a sua sustentabilidade. 2. Uma combinação de biologia e arquitetura


NaveTerra n. 1. casa solar feita de materiais naturais e reciclados 2. construção em massa térmica para a estabilização da temperatura. 3. energias renováveis ​​e sistemas de gestão integrada para tornar a Earthship uma casa fora da rede com pouca ou nenhuma utilidade para a mesma.
 
 
 
Nas palavras de um morador-construtor, o casal Matt e Misty Lindey:
"A Earthship é uma casa... mais ou menos. Eu acho que é realmente o que toda casa sonha ser quando crescer. Earthship.com chama seu projeto "uma casa sustentável radicalmente feita de materiais reciclados." Acho que a frase chave é "radicalmente sustentável". Isso significa que estas casas, além de seus projetos artisticamente refrescantes e atraentes, são 100% off-the-grid (não ligadas a cidade utilitária), porque podem:


• aquecer e resfriar-se naturalmente
• recolher a sua própria energia solar e eólica
• captação de sua própria água da chuva e da neve derretida
• são construídos inteiramente de materiais naturais e reciclados
• conter e tratar seus esgotos no próprio local
• produzir uma quantidade significativa de alimentos
• são construídas utilizando os subprodutos da sociedade moderna, como latas, garrafas e pneus



Site oficial do filme sobre o arquiteto: garbagewarrior.com
Mas existem centenas de blogs descrevendo em detalhes as construções dessas casas, blogs mantidos pelos próprios moradores.



 
 
Mais informação:
Manual do Arquiteto descalço
A casa sustentável é mais barata
A Eco-ilha, ilha-lixão ou eco-barco
Ibiraçu: como na Floresta da Tijuca
3 dias bioconstruindo em Santa Teresa
Aproveitamento do pneu na construção civil
6 parques públicos construídos com material reciclado
A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível
O projeto colombiano da Eco-Tec de moradias populares usando material reciclado

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Quem trouxe a fome, foi a geladeira"

A frase de Carlinhos Brown está num texto do Frei Beto muito batido, que já rolou por aí faz tempo, mas que sempre vale ser lembrado num mundo onde 33% da comida vai para o lixo, mas tanta gente passa fome.

Consumo, logo existo
Frei Betto

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome, foi a geladeira", disse.

O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes, etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais -manipular o alimento que ingere.

A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis.

Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela. Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "O valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens". Portanto, em si o homem não tem valor para nós." O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão. Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma.

Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígine cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, esim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famos o estilista a gata borralheira transforma-se em cinderela...

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como umabendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, dopoder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração,depressão, infelicidade. Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre ovendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações devizinhança, como ainda ocorre na feira. Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados.

Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói."
E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja. Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".



 
 
A imagem é dos Malvados
 
 
 
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domingo, 7 de agosto de 2011

As frutas que ninguém come mais

A Neide escreveu no Come-se sobre as frutas de quintal do Acre, de Acrelândia para ser mais exata. E lá estão elas, naturalmente orgânicas e sem qualquer modificação genética. Dando na época certa, para combinar entre si. Para que o refresco em pó deixe de ser uma realidade e a conta do supermercado fique cada vez mais barata.
Mas essa conta não fica mais barata, na verdade gasta-se cada vez mais com a comida embalada, fora de época, que não alimenta, engorda e ainda obriga nossos produtores rurais a pagarem royalties pelas sementes e pesticidas.
E tende a ficar ainda mais cara no longo prazo, com as fábricas de bebidas prontas sugando a água dos lençõis freáticos de onde se instalam e desertificando cidades inteiras, ou com os mesmos lençóis freáticos sendo contaminados pelos agrotóxicos das monoculturas de larga escala.

Lendo a postagem da Neide, lembrei de outra pessoa, um colega de faculdade negro retinto, alto e magro. Parecia um jogador da NBA. Nunca comprou uma fruta na vida, nascido e criado na ilha de Itaparica (BA), comia as frutas do quintal, seu e dos outros. Assim mesmo como Neide conta, tudo na base do escambo. Fez uma ressalva e confessou que as vezes comprava umbu (que não existe por aqui), mas um latão de tinta cheio de umbu custava mais ou menos R$5,00. Vendiam tão barato para não estragar e ele, que não tinha essa facilidade com umbus, pagava os tais R$5,00 a contragosto (???)
Ria da gente, cariocas, dizia que só comíamos bife com batata frita e que fruta era maçã, banana e laranja. E achava a vida por aqui muito cara, principalmente a comida. Um professor muito viajado lembrou de ter comido a melhor dobradinha de sua vida justamente na terra desse rapaz, a ilha de Itaparica. Uma dobradinha divina, com azeitonas e tudo que um ser humano possa imaginar, nadando em grosso feijão branco. O ilhéu lembrava, contou em sala que sua mãe fazia essa dobradinha à moda da Ilha, aproveitando de tudo num lugar limitado de recursos e o resto da turma torceu o nariz com nojo das tripas que fazem parte de uma dobradinha.
Tudo bobagem, me deixou ainda com mais vontade de conhecer esse paraíso tropical, onde até um Club Med está instalado. Deveriam ter nojo de um peito de frango molengo e sem sabor do frango criado confinado à base de remédios e hormônios.

Esse colega de turma me mostrou no campus da faculdade um pé de cajá manga, ele cutucava os galhos com uma vassoura e comia os frutos que caíam. Eram os que estavam bons. Eu que nunca havia comido um cajá manga, provei e achei sensacional, uma versão agreste e sertaneja da manga espadinha. Que coisa, bem ali na minha cara e eu perdendo tudo.
Comecei a ficar atenta e descobri uma jaqueira, lá estava a jaca verde que eu tanto procurei pelas feiras e nunca achei. Pronto, é roubar uma e fazer moqueca, coxinha, sanduíche de "carne louca"... Estou salva!

Lembrei também de outro colega, dessa vez de trabalho. Mineiro, dono de fazenda de café nas hrs vagas. Para descansar a terra, alternava a plantação de café com feijão e banana. Exportava o café "cultivado com veneno", mas consumia e distribuía aos amigos o feijão e a banana cultivados sem agrotóxico, que não são orgânicos por serem produzidos numa terra tão contaminada e sem critério algum. Contou que não valia a pena vender, um dos muitos atravessadores que somos obrigados a entubar, ofereceu R$3,00 no caminhão de banana. Ele achou um desaforo, pegou tudo de volta e começou a distribuir aos vizinhos, fazer doce ou dar aos cachorros. Fez melhor negocio no final das contas, complicado é saber disso e entrar no mercado para pagar R$3,00 no cacho com uma dúzia.

E eu vinha pela rua aqui no RJ, observando o movimento dos ônibus, a barulheira e ia entrar no banco de sempre, quando me deparei com a figura abaixo:



Simpaticíssimo, passa os dias na Rua das Laranjeiras, que de laranjal só tem o antigo nome, seu ponto é em frente à Caixa Econômica Federal, onde há uma galeria com a única loja da cidade que vende orgânicos à granel. Olhei os produtos meio sem padrão e perguntei "Que frutas são essas?"
Ele foi sincero: "Os morangos, pinhas e abacates são comprados, o resto é do sítio lá em Seropédica".

Seropédica é um município contíguo ao Rio, é relativamente próximo, mas completamente rural. Tão rural que a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro instala-se por lá. Na verdade, eu fiz vestibular para essa Universidade há muitos anos, passei e nunca fui, mas voltei com uma jaca imensa e molenga na mala do carro quando das provas. Jaca roubada descaradamente por um grupo de vestibulandos recém saídos da adolescência urbana, virou doce feito pela minha falecida avó e meus pais se refestelaram na época. Não gosto de doce de jaca, melhor assim.
E pena esse abacates serem comprados, já morei em rua com abacateiro, dava fruta de 2 em 2 meses, o porteiro guardava para mim. Eu falo melhor sobre isso na postagem exclusiva dos Abacates.

Mas ele disse tudo que eu queria ouvir. Peguei logo de cara um saco de carambolas, R$5,00 cada saco com uma dúzia de frutas perfumadas, levei também as jabuticabas (de casca fina, maiores e mais gostosas) por R$6,00. Ganhei um sapoti, não conhecia, que delícia.
Ele tinha um último abiu, levei para experimentar com o troco de R$1,00. Sapoti é melhor, mas bom mesmo foi o custo total: R$12,00
Disse que costuma ter jacas, jambos, cajás, graviolas, siriguelas, acerolas e caquis fuyu, que eu só conhecia de Macaé (são maiores e mais firmes, quase um cruzamento de caqui com maçã, se dá para imaginar). Tudo de Seropédica, do sítio de uma "jovem de 92 anos", como ele descreveu.
Contou ainda que o feijão guandu, vendido por ele, se faz como o fradinho, al dente e em salada, que fica bom com frango desfiado e vinagrete de tomate e cebola. Uma salada para comer com pão quentinho.

Que maravilha, agora é subir a Rua das Laranjeiras, 5 minutos a partir do Largo do Machado, parar e perguntar "O que é de Seropédica?" para comprar muita fruta boa e barata em fair trade.


As carambolas, que viraram 5 litros de refresco em kefir de água, e o feijão guandu, que vai ficar para uma próxima vez:



Os sapotis, que mais parecem cocos africanos para enfeite de mesa, mas surpreendem:



As jaboticabas de casca fina em vizinhança aos morangos hidropônicos, que eu nem olhei:




A primeira descrição oficial do Brasil foi feita por um português, Pero Vaz de Caminha, e retrata isso daqui como "uma terra em que se plantando, tudo dá".


A comilança continua em:
Come-se pelas ruas da Tijuca
Seu Roberto continua vendendo frutas que ninguém come mais em Laranjeiras
Outras frutas que ninguém come mais: jenipapo chocolate, graviolas, jabuticabas, seriguela e cana canaiana



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