sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Na Jureia: os cães e as biroscas


O que mais se encontra por aqui são cães abandonados, parte o meu coração ao meio. A cultura local nem imagina a castração como uma opção viável à saúde pública, sentem pena do cão "perder a diversão". Você senta para conversar com um local e ouve como resposta "Não deve dar mais cria, já foram 8 na primeira ninhada e agora, na segunda, só nasceu um, morto."
Eu silencio e fico sem saber o que fazer com tantos cães vagando pelas ruas e estradas, magros, fedidos e mal tratados. Bons animais, fortes e que dariam a melhor de todas as companhias - um deles já está "morando" na varanda do alojamento feminino, demos comida e água e ele ficou por ali, dorme no capacho e nos segue abanando o rabo, trago fotos dele em outra postagem, o "Alegria" merece exclusividade. Hoje cedo, pulou em cima de mim, quando saí para a sede, exatamente como um animal de estimação faria. Morri de saudades das minhas 3 meninas, que deixei no Rio.

O cão das fotos acima e abaixo, Sheik, foi uma certa paixão à primeira vista, imenso e de profundos olhos verdes, tem a pata maior do que o meu pé e a orelha do tamanho da minha mão. Ele é tão grande e bobo, estabanado, que nem faz ideia do próprio tamanho e força. Ainda é filhote com menos de 1 aninho. Um querido, imenso e fedorento, mas pelo menos tem dono, o proprietário do botequim em frente ao alojamento, do outro lado da estrada.



Outro xodozinho, bebê e pretinho, sendo transportado junto com mudas de bananeira num carrinho de mão:



Tigrado, bebê e com um gêmeo para completar, quase do tamanho do meu pé, de chamego numa birosca local:



De coleira e muito perdido, abandonado na rodoviária de Peruíbe (1hr e 30min da Estação Ecológica da Jureia):



Abandonados na Cachoeira do Paraíso (dentro da Estação da Jureia) e adotados pelos caiçaras que exploram os bares locais, cheios de carrapato e comendo restos:




Sobem trilha mato acima e ficam esperando pela gente:



O mais querido do grupo, encontrado perdido numa praia deserta, cego de um olho e cheio de carrapatos imensos (do tamanho de azeitonas, achei tratar-se de verrugas), carinhoso e treinado, nos acompanhou por 3 praias mata acima e sumiu no mato atrás de um lagarto:


Comigo numa praia, cão de companhia, sentava quando o grupo parava:





O cão da casa, viralata adotado informalmente por todos, o Alegria.





Atente que em 1800, havia somente 20 raças de cães. Durante a 1ª Guerra Mundial já eram 70 e hoje são cerca de 400 raças diferentes. Em 100 anos, reduzimos o cérebro do buldogue, encurtamos as patas do salsicha e turbinamos as orelhas do bassê. Essas mudanças deixaram sequelas: um em cada quatro cães sofre de alguma doença genética e eles têm mais câncer do que os humanos.
Nós criamos essas raças por vaidade, como um resquício nazista numa sociedade supostamente perfeita do ponto de vista genético.




Depois de cachorro abandonado, o que mais você encontra por essas bandas é birosca. O povo daqui bebe direitinho, nisso ninguém fica devendo.
A tradição local é o cambuci, uma frutinha agreste que, quando misturada à cachaça (ou etanol, depende da boa vontade do peão), rende uma infusão muito apreciada localmente.
Eu encarei o cambuci, ou a infusão dele em suposta pinga, e asseguro que "desce rasgando".

Mas vamos aos botecos locais e suas iguarias, que esse blog modesto é muito fã de boteco e boa cachaça, fatos já propalados em outras postagens, como: "Boteco, o filme", "Vinhos orgânicos e biodinâmicos", "Caldos: a tradição alimentar para muita gente e pouco recurso" e "Eu bebo sim!".


Já tomou Schweppes com catuaba? Nem eu, mas querendo provar, já sabe onde encontrar.


O caldo de cana é limpo, como deve ser e muito gostoso, me serviram de cortesia um dia enquanto trabalhava, estava geladinho.


Mania deles, largar esses quartzos brutos e caríssimos pelos cantos. Não voltei a ver igual em lugar nenhum.




















E um cliente habituée chamegando um filhotinho que dias depois seria levado num carrinho de mão cheio de mudas de bananas, a foto desse transporte informal está mais acima.



O melhor pastel da região, de bambu com queijo. O de palmito é feito com o palmito plantado pelo próprio dono, no quintal. Ficam na estrada para Barra do Una, vou falar mais de lá em outra postagem, é sensacional.



O mais próximo do alojamento:



Como eu moro na cidade com o metro quadrado mais caro do país, com áreas onde o metro quadrado pode atingir até R$50.000,00, liguei do meu celular e perguntei o valor desse terreno de 2.000 metros quadrados. O preço de venda: R$16.000,00.
Tem alguma coisa errada com o mercado imobiliário carioca.




O Kantinho do céu merece entrar para o Guiness, nunca vi um estabelecimento com tantos filhotes de vira lata largados. Na postagem sobre os cães locais, tem foto de um filhote deles brincando com meu tênis.





O melhor bar de todos: Ponto Xis, na ida para a cachoeira



Surpresa agradabilícima, um ikebana em cada mesa, feitos com as flores nativas da Mata Atlântica que dão pelo jardim da propriedade.



Salteira frita, um peixe local, sem espinhas e firme.


O famoso "cambuci" curtindo em vidro, ao lado de outras infusões como abacaxi com cravo, gengibre, barbatimão, canela e o que mais a imaginação mandar. Essa variedade toda, só vi mesmo no Ponto Xis.


A dona, cozinha no forno a lenha do lado de fora da casa, cuida dos netos e atende a todos, na maior simpatia.


Nas hrs ociosas, faz tear manual, na mesa que estiver vaga.




Mas o melhor no Ponto Xis não é a salteira nem a pinga, mas o "geladinho", sorvete caseiro vendido em saquinhos. O deles é feito com suco de fruta mesmo, grosso e pedaçudo. Os de manga, goiaba e coco são deliciosos.




Com ou sem cambuci, catuaba ou seja lá o que for: Se beber, não dirija.



Os vira-latas castrados daqui de casa:
Olímpia
Margarida
Pipa



Mais informação:
Se precisarem de mim, estou na Jureia
Castre seu gato: 1 único casal gera até 60.000 descendentes em 1 década
Castre seu cão: 1 único casal gera até 80.000.000 de descendentes em 1 década

2 comentários:

Mariana MT disse...

Eu adoro a Barra do Una. O Carambore foi a primeira praia que acampei com meu marido assim que nos conhecemos. E a Desertinha é o que eu poderia chamar de paraíso particular aqui do litoral sul. Essas suas postagens sobre a Juréia só me instigaram a voltar o mais rápido possível para este lugar...Mas com a cachorrada e os filhos, essa tarefa é um tanto quanto difícil...em breve, pelo menos, um bate volta...Aproveite, como eu sei que já está fazendo, por mim...

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Vc conhece tudo! Estou para falar exclusivamente da Barra do Una, que lugar incrível...
E a praia do Caramborê tb é linda :-)))