terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Na Jureia: a marcação no GPS do manguezal do rio Guaraú foi o melhor

De tudo que eu fiz na Jureia, sair rio Guaraú acima no barquinho de motor de popa, marcando os pontos escolhidos no GPS, foi o que mais gostei.
Primeiro por ser na água e em movimento e também por exigir exatidão e precisão. Depois, no computador, o mapa delineia-se perfeitamente, toda a equipe sente orgulho.
O mapeamento vai facilitar o lado mais feio do trabalho executado em áreas de proteção e preservação: acessar os pontos onde caçadores escondem armas, pescadores camuflam redes, etc.

Quando o monitor ambiental perguntou se estava achando difícil, tendo dificuldades com o GPS, o balanço da embarcação improvisada, o sol inclemente nas nossas cabeças e afins, até eu me surpreendi com minha resposta "Não, nasci para isso". E ante o espanto daqueles homens curtidos pelo sol e sal, que saem a campo de colete a prova de bala numa área proibida à população em geral, mas onde clandestinos aparecem para catar caranguejo, tranquilizei todo mundo "Não se preocupem comigo, estou em casa".
Esta aí uma coisa que faria todos os dias da minha vida, medição em campo.

O mangue fechado muito além da área permitida ao turismo, em muitas áreas foi necessário abrir o caminho a braço em pé no barquinho, não me assustou. Parecia um episódio antigo de Arquivo X, quando pesquisadores desaparecem misteriosamente no meio do nada, provavelmente devorados por um crocodilo imenso que só vive ali e a única evidência é obviamente a pranchetinha com o ponto do GPS anotado... Mas, brincadeiras à parte, foi ótimo, não aconteceu nada, todos os 3 tripulantes chegaram alegres no ponto de partida horas depois um pouco desidratados, mas com aquela sensação deliciosa de dever cumprido e tempo bem empregado.
Minhas costas e ombros descascaram, o protetor solar não aguentou, mas valeu muito a pena.
Foram 3 tardes de trabalho que vou lembrar para o resto da vida.


Você percebe que está no lugar certo quando um guarda parque te manda aferir um ponto e você ouve como resposta "Aqui é o Barranco do Jo-jo". E ninguém sabe quem foi o Jo-jo ou mesmo se existe um barranco mangue adentro a partir daquela curva do rio.



O lírio do brejo, lindo em flor, com cheiro de jasmim e dama da noite, um campo florido no meio do manguezal de água salobra:





















Hibiscus Permanbucensis, flor tão comum aqui no R.J. também. Sobrevive bem à dureza do manguezal no verão e ainda proporciona variedade de cor. Seu Marcos, monitor ambiental, ensina a voltar em setembro, na primavera, quando as orquídeas e bromélias da Mata Atlântica florescem ao mesmo tempo.





Outro ponto de marcação, a ponte de pedra. A ponte da época do Império, que era usada para atravessar aquelas terras do sem fim, mas que foi substituída pelo telégrafo. A ponte cortava o mangue desde a mata ciliar, tudo fincado em base de ferro, bases estas que até hoje estão enferrujando por lá.
E uma das avenidas principais da cidadezinha mais próxima chama-se justamente Av. do Telégrafo.



Um depósito de barcos numa clareira no meio do mangue.




Um porto improvisado, da época em que os barcos vinham ao mangue de Santos buscar as bananas cultivadas pelos caiçaras.



Risofora mangue, imensa, parece que vai levantar e sair andando a qualquer momento.



A "pata do elefante".




Para entrar e sair de um lugar desses, muitas vezes só abrindo caminho no braço.




E tendo que desatolar quando fica raso demais.



O último ponto a ser marcado, o objetivo final dessa empreitada toda: a bifurcação do Seu Avelino


Seu Avelino era um antigo morador do mangue, caiçara. Vivia completamente isolado numa casinha a 40 minutos desse ponto. Detalhe, para chegar nesse ponto específico de bifurcação, como um "trevo" no meio do manguezal, foram outras 2hrs desde a foz do rio.

A bifurcação do Seu Avelino propriamente dita, já mapeada no GPS, um braço que se abre no veio principal e só se entra em barco a remo.


O manguezal é um mundo, é o berçário do oceano, de uma beleza majestosa e incomparável. Todo brasileiro deveria ter pelo menos uma oportunidade de conhecer isso tudo. A foto que não fiz e agora me arrependo, um guará ameaçado de extinção sobrevoou nossas cabeças em seu tom de rosa inconfundível.


Mais informação:

3 comentários:

Virgilio Moura disse...

Oi Carol,
Dá uma olhada nesta notícia vai te interessar, http://www.gabeira.com.br/wordpress/2012/02/italia-condena-amianto-e-eternit/
beijos

Mami's disse...

Querida Carol,

Li seu texto inteirinho e fiquei com saudade do dia que passei na praia de Guaraú (moro em Praia Grande).

O lugar é lindo mesmo.

Fiz um passeio de barco, parecido com esse, num rio em Itanhaém.

É extraordinário mesmo ver tanta diversidade num só lugar.

Parabéns pelo trabalho.

Abração

Du Carmo

www.demaeparafilhas.blogspot.com

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Virgílio, adorei a dica do Gabeira.

Oi Du Carmo, não conheci Itanhaém, um dos guarda-parques é de lá, adora o local. O mais legal dos passeios turísticos de escuna é o banho na praia do mangue, quando todos mergulham nesses igarapés.

Abs em todos,
Carol