terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Na Jureia: trabalho de peão

Eu adoro trabalho braçal, é a minha terapia. Aliás qualquer atividade em que se deva "pegar pesado" me relaxa profundamente. Como moro sozinha numa casa de 4 andares com 3 cães e uso imensas panelas em ferro e barro, estou sempre em movimento e tendo que fazer muito trabalho doméstico, o que me deixa ótima diga-se de passagem.

Aqui na Jureia, o trabalho é de educação ambiental e quase me enlouqueceu na primeira semana. Com o tempo, fui arrumando outras coisas para fazer, como cozinhar, brincar com o cachorro, ir ao supermercado por todos, correr na sede (a 40min) para escrever o blog, "roubar" alguma coisinha na horta caseira atrás da casa, varrer o alojamento diariamente, lavar a louça de todos no café da manhã, etc.
Não é masoquismo ou necessidade de aceitação, é excesso de energia mesmo. Nem sou criatura das mais simpáticas e aqui, confirmei algo que já desconfiava dos meus tempos de embarcada: além de adorar trabalho pesado (em grande parte pelo esgotamento físico que se segue), também sou capaz de passar o dia inteiro sem emitir uma única palavra, o que por sua vez deve enlouquecer meus pares, que tentam puxar papo e se deparam com uma pergunta do tipo "Quer alguma coisa para ler também?".
Tempo ocioso para mim serve para isso, ler. O que não deixa de ser outra forma de se manter ativo, em silêncio.

Mas vamos ao que interessa, o trabalho de peão.
Primeiro, antes que a patrulha ideológica acadêmica se manifeste (eles nunca se aposentam). Eu sou peão, de canteiro de obras e plataforma e, na qualidade de peão, acho ridículo alguém que nunca caiou um muro, vir com um discurso teórico acerca do operariado e que o termo "peão" seria pejorativo, etc.

Usar o termo "peão" não é pejorativo. Sempre que um chato se manifesta, lembro de Dona Gabriela Leite - ex-aluna de Filosofia da USP, que largou tudo aos 22 anos para ser prostituta. Hoje, já senhora, lançou com enorme sucesso o livro "Filha, mãe, avó e puta", que virou até peça homônima no teatro.
Adorei a verdade nessa afirmação, ela não usou o termo profissional "prostituta", "garota de programa" como anda na moda, ou "meretriz" como fariam os mais antigos. Sequer foi politicamente correta ao se autodefinir "profissional do sexo", como por sinal o fazem muitos travestis. Essa senhora disse em alto e bom som o que deve ter ouvido a vida toda, sem eufemismos. E ninguém tem nada com isso.

Mas como eu nunca cobrei para fazer sexo, sempre pude me dar de graça e espontaneamente, volto à peãozada, que é mais a minha área. Fomos nós, peões, que criamos os termos "rádio-peão" (para a fofoca em off sobre a equipe), "prato de peão" (dispensa explicação) e obviamente para "trabalho de peão".
Eu falo exatamente sobre minha experiência em campo na postagem "Eu queria trabalhar com sustentabilidade", onde menciono que o que sei, foi aprendido justamente com a peãozada, a qual muito modestamente me incluo. Essa história de cunhar o termo "peão" já havia rendido aqui no blog, quando uma engenheira muito cheia dos títulos, mas que trabalha com pesquisa (não deve meter a mão na massa), veio com esse papo justamente nos cometários de outra postagem, "Reciclagem de Edifícios". Ainda bem que não rendeu.
E eu não tenho nada contra engenheiros, tanto que prestei vestibular justamente para Engenharia, aos 34 anos e passei em primeiro lugar.

Lembrando sempre do grande Joãozinho Trinta, recém falecido: "Quem gosta de miséria (alheia) é intelectual, pobre gosta é de luxo". E o intelectual Carlos Eduardo Novaes endossa e chancela que os intelectuais adoram teorizar sobre o proletariado, a qual não fazem parte.

Seguem as minhas fotos fazendo trabalho de peão, usando uma camiseta com a Frida Kahlo (outra que nunca deu a mínima para as convenções sociais) e felicíssima da vida na Jureia:

Primeiro, tem que carregar ladeira abaixo as toras já marcadas com o pirógrafo - a roupa me engordou, mas era para sujar de tinta, e o pirógrafo queimou minha mão toda, fiquei com a mão direita "laranja" durante 1 semana, mas aprendi a consertar a resistência e o eletrodo:



Depois, você senta no chão da garagem (antes, verifica as cobras que se entocaiam por ali) e com a ajuda de um pau-gabarito, começa a pintura com tinta dissolvida em gasolina e a mesma gasolina vai servir de removedor para sua pele:



A garagem, onde o trabalho foi executado, com o trator novo, lindão:



Outra foto, com o boné inseparável, a melhor coisa num lugar desses, você acorda e nem precisa pentear o cabelo... Aqui, como nas plataformas, consigo ficar 2 semanas sem pentear o cabelo, uma liberdade total comparada aos anos de economista de multinacional (onde acordava diariamente meia hora mais cedo para fazer "escova" e necrosei um nervo do pé andando de salto):




Esse peão que vos fala, não é lambão, o trabalho ficou limpinho:





Um visitante inesperado nas mesmas placas de sinalização de trilha:






Eu venci em áreas muito masculinas, fui assistente de Diretor financeiro aos 21 anos, conheci Presidente do Banco Central, Ministro da Fazenda e muitos banqueiros e CEO´s. Anos depois, fui à campo e trabalhei em plataforma, cais do porto e canteiro de obra. Mesmo como fotógrafa amadora, muitas vezes, eu fui a única mulher cobrindo um evento. Cansei de ser a única mulher e nem sempre foi fácil.
Muitas vezes, eu usei o machismo a meu favor, não nego, aproveitei minha suposta beleza e juventude, explorei quem não sabe dizer não para mulher, manipulei chefe para levar o projeto em detrimento de um colega melhor preparado "afinal nenhuma mulher nunca é promovida" e não me orgulho de também ter jogado sujo. Mas sabe o que é ainda mais difícil do que as cantadas, as piadinhas sobre pilotar fogão, uma equipe inteira silenciar quando você entra na sala e até o fato de TODAS as suas ideias serem piores do que a de qualquer outro homem? Ver que colegas mulheres te derrubam pelas suas costas!

Não é clichê, o machismo no ambiente de trabalho começa nas mulheres, nas solteiras detonando as mães, nas casadas comentando das liberadas, na chefe que ferra a estagiária gostosa, na postura de arrumar um gringo, em topar cantada de chefe, em entregar a cabeça de quem fez teste do sofá, em alimentar a rádio corredor entre outras tantas preciosidades, até em ajudar a reconhecer os gays, que estão na deles. E não custa lembrar, os caras mais nojentos adoram isso tudo, riem da arquibancada e torcem até para rolar puxada de cabelo.

Eu sempre venci o machismo sendo correta e discreta, mas encarando de frente os que tentavam me derrubar. Fazer um bom trabalho, chegar cedo-sair tarde, não ficar de fofoca no cafezinho, fazer trabalhos que ninguém queria, assumir minhas muitas falhas e claro, investir em mim, foram as minhas armas.
Saber falar grosso e não deixar fio solto também ajudou.
Mas no fundo, a verdade é que não tem chefe, homem ou mulher, que não goste de funcionário (homem ou mulher) sério e esforçado. Se você fizer chacota, o mundo vai te ridicularizar também.

Dica amiga: Saia dos guetos femininos e enfrente a tropa. Gente bem resolvida não fala mal dos outros e um trabalho bem feito acaba sempre aparecendo, até porque se você for boa mesmo, teu chefe homem compra tua briga para você não pular fora, ele precisa mais dessa mulher que pega no pesado do que dos 10 marmanjos falando do jogo de ontem (ou da recepcionista novinha).
E nem custa lembrar que homem tem muito mais medo de mulher do que a gente deles.




Deixo outras imagens, nos meus tempos de embarcada e de cabelo curtinho, já que a água dessalinizada acabou com meu cabelo, usando EPI errado (mangas curtas já estavam proibidas), mas igualmente feliz descarregando um guindaste por 8 horas debaixo de um sol inclemente.




Reparou que eu sou a única mulher da operação? As outras mulheres da embarcação sempre davam um jeitinho de fugir da atividade de supply, depois não adianta falar em direitos iguais...
E por que cortar o cabelão com tantos tratamentos disponíveis no cabeleireiro?
Porque os tais tratamentos me custariam R$500,00 mensais e o corte foi uma dose única de R$20,00 no barbeiro antiguinho da minha rua. Sim, no barbeiro, daqueles com cadeironas antigas e um senhor de jaleco branco discutindo futebol com os clientes, enquanto tira um pente plástico barato do bolso do tal jaleco.
Atitude típica de peão.







Mais informação:
Se precisarem de mim, estou na Jureia

As panelas daqui de casa:
Panela velha é que faz comida boa

Os cães:
Olimpia
Margarida
Pipa

Se acha livros caros, baixe de graça ou compre em sebos, mas trate de ler mais:
75 livros sobre sustentabilidade
Biblioteca online básica sobre Permacultura, bioconstrução e agroecologia

8 comentários:

Anônimo disse...

Carol, vc é demais! Sou sua fã incondicional! Hahahaha

Beijo!

Kenia Bahr

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Tb sou tua fã, Kenia. Teu blog é muito bom e vc sempre manda bem nos comentários.
Bjs ;-)

Virgilio Moura disse...

Adorei o seu Peões e Putas, tinha reparado nesse silêncio e pra quem não te conhece desses silêncios, se pergunta "está chateada", "não atendi direito ao telefone, quando ela me ligou", enfim! estarei voltando ao Rio em abril, e agora que sei alguma coisa mais pessoal sobre voce, irei ligar com mais confiança. Bjs

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Cara, que horror... Tô me sentindo um monstro.
Nos vemos em abril, sem falta, pode ligar - vou ficar super feliz :-)

Anônimo disse...

Carol, até que pra peão você tá bem ajeitadinha, decotão fazendo sucesso no meio, heim, menina...
Se morasse em Araçariguama, com essa postura, digamos de trabalhadora braçal, na certa iam de tachar de "pouco feminina", provavelmente "não gosta da fruta", como acontece comigo que vivo meio esculhambada por força das atividades junto à bicharada. Fazer o quê.
Bjs

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

É só uma camiseta larga, não tem decote e nunca me tacharam de nada, não.
Obrigada pelo "ajeitadinha", tá valendo.
Boa sorte aí em Araçariguama.

Mariana MT disse...

Assim que comecei a ler o primeiro parágrfo, lembrei na hora da frase do Joãozinho, que vc citou logo abaixo, rs.

Todas as pessoas que trabalham pesadamente durante o dia, dignamente deitam a noite e não nem ânimo para ficar pensando em besteira. A cama quente é a maior benção para quem de fato trabalhou o dia inteiro...


Adorei...

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Amém!