quinta-feira, 3 de maio de 2012

Então a sobrinha tetraneta do Major Daemon foi puxar samba e trabalhar na Zona Portuária

Esse blog é Carnavalesco, divulga o Guia do Carnaval de rua carioca com dicas sustentáveis para curtir a festa e até pede fundos ao seu bloco mais presente, os Embaixadores da Folia.
É um blog Carnavalesco e fã de longa data da Zona Portuária. As postagens por aqui andam um pouco atrasadas, mas corro atrás desse prejuízo e procuro manter a casa em ordem.

Eu havia acabado de chegar da Jureia e, na sexta de Carnaval, fui a uma entrevista de emprego e contratada por uma empresa de navegação localizada justamente na Zona Portuária. O samba comendo solto nas ruas do Rio e eu seríssima de vestido preto abaixo do joelho, cabelo preso em coque, salto alto e cara de entrevista. Estava feliz, é claro, por centenas de razões, mas trabalhar com navegação também era um sonho antigo.

A quem interessar, a história da viagem à Jureia é longa, rendeu um mundo de posts, mas começa na postagem Se precisarem de mim, estou na Jureia. E sobre os embarques em plataforma, falo dessa experiência em outras postagens daqui, como Para entender o vazamento da Chevron, Eu queria trabalhar com sustentabilidade e tem até umas fotos minhas embarcada toda catita ralando debaixo de sol justamente numa postagem da Jureia, Na Jureia: trabalho de peão.

As pessoas pensam que quem trabalha embarcado em plataforma entende de navegação e funcionamento de porto-estaleiro. Não entende nada, quem embarca vai de helicóptero à plataforma já no meio do mar, é outro mundo. Uma plataforma, FPSO, sonda e afins não passam de uma planta industrial em alto mar. Quem embarca em navio de apoio, como rebocador e sísmico, ainda entende um pouquinho, mas não se compara à escola que é uma empresa de navegação.

Mas hoje não vou escrever sobre esse novo trabalho com navegação ou dos embarques antigos, vou contar do samba, que rendeu e foi muito, muito gostoso.
Eu tinha chegado da Jureia, havia sido contratada para um emprego bacana, estava feliz e liguei para um amigo carnavalesco, sambista de carterinha, Silvio Camarão, que por coincidência, comentou a postagem linkada acima do Morro da Conceição e já foi personagem em outra, A casa sustentável é mais barata - parte 07 (pallets e reels). O Camarão coordenava um projeto social justamente na Zona Portuária, no local mais bacana de lá, o bucólico Morro da Conceição, onde mora com a família. Nesse projeto, aprendeu mosaico e, reaproveitando um reel (carretel de madeira comum para cabos de porto), o transformou numa linda mesa para sua casa.
A gente se conheceu na Escola Técnica de Segurança no Trabalho, ele é que nem eu, baixinho e invocado, mas ficamos amigos e foi ele quem me mostrou uma rua da Zona Portuária com nome de um parente meu já falecido, o Major Daemon, acidentado numa aterrissagem complicada onde foi decapitado pela hélice do avião. O Camarão trabalhava no Cais do Porto e queria ser Técnico em Segurança por lá, eu trabalhava na Petrobrás e queria trabalhar embarcada. Nós dois atingimos nossos objetivos profissionais e já embarcada, uma das minhas muitas funções foi exatamente a de Agente de pouso e decolagem de helicópteros, não permitindo que ninguém passasse na frente da aeronave e fosse decapitado como meu tio tataravô.

Olho vivo: em helicóptero ou qualquer aeronave com hélice aparente, o grande risco é a frente e a traseira, só se entra e sai pelas laterais. Pior, em passeio turísticos, as empresas não fazem nem um briefing de segurança, é tudo encarado como lazer e já há histórico de gente escalpelada nessa brincadeira.


A família Daemon é cheia de honras militares, minha mãe contou algumas histórias, o próprio pai dela (meu avô, que não conheci) também foi militar. Mas, depois da Ditadura, ninguém mais dava bola e eu não fazia nem ideia onde se situava a tal Rua Major Daemon.
Então no meio do Carnaval, eu lembrei do Camarão, daquele lugar bacana que tem até essa rua e fui lá dar um confere. Bati na porta da casa dele trajando biquini, short, chinelo e chapéu dos Embaixadores da Folia (comprei para ajudar o bloco a sair). Camarão me olhou e adiantou "Toma uma camiseta do nosso bloco de presente, Carol".
Coitado, deve ter ficado com medo da patroa encrencar com amiga tão à vontade...
Tudo bobagem. D. Carla, com quem tem 3 meninos, é ótima, simpatia em pessoa e porta-bandeira do bloco local, Escorrega mas não cai, presidido pelo próprio Camarão.

Bloco de Carnaval é um patrimônio nacional, os brasileiros que juntam seus esforços e recursos para manter a nossa tradição de Carnaval de rua, deveriam receber uma medalha de honra ao mérito por serviços prestados à cultura nacional.
Durante anos, o Carnaval de rua do Rio desapareceu e ficou restrito a poucos blocos. Carnaval virou sinônimo de desfile na Sapucaí e baile fechado para turistas com fantasias caras. Graças ao espírito carnavalesco de pessoas simples, hoje o Rio tem o maior Carnaval de rua do país e o bloco mais antigo em atividade, o Cordão do Bola Preta, consegue arrastar quase 3 milhões de foliões numa festa gratuita e genuinamente brasileira. Três milhões de pessoas é a população de países como Israel, Panamá, Costa Rica, Uruguai, Líbano e Armênia.
Já imaginou essa gente toda feliz brincando livremente pela rua?

O carro de som do Escorrega mas não cai demorou 3 horas para chegar, o motorista pegou um engarrafamento causado por ruas fechadas (para passagem de outros blocos) e o Escorrega só foi sair no final da tarde. Eu estava morta de cansaço e ao olhar aquele carro de som, pedi ao Camarão para ir em cima por pura preguiça, àquela altura do campeonato não aguentava mais ir atrás de nada. Só fiquei esperando por amizade e pela camiseta de presente, seria desrespeito partir antes.
Carla me deu uns panfletos com a letra do samba para jogar do alto para o povo e eu subi achando que ia finalmente descansar um pouco.

Estava iludida, foi subir no carro e uma senhora muito séria olhou para mim estendendo um microfone, fez a pergunta definitiva "Você puxa?"
Essa é o tipo de situação em que ninguém pode amarelar, eu que nunca cantei nem em chuveiro, respondi com muita convicção que puxava (o samba enredo do bloco) e de microfone em punho tive que mostrar serviço.

Fiquei apavorada no início, mas a verdade é que poucas coisas são mais gostosas do que puxar samba em alto de carro de som. Se essas cantoras de Axé são tão bem humoradas, é porque se divertem muito, aquilo lava a alma da gente. Você se acaba, grita aquele "Aiii" arranhado que todo sambista faz, o povo acena, te manda beijo, agita camiseta que nem no Maracanã. É um barato, um dos grandes momentos da vida de uma pessoa.

A turma do bloco me olhou com certa desconfiança no início, mas foi só o samba começar e eu cantar todas as letras direitinho, que ficou tudo numa boa.

A música sempre fez parte da minha vida, quem for leitor mais atento, observou que muitas postagens levaram como títulos algo relacionado à música, como Breakfast in AméricaVocê já foi ao Brejal? Então vá!O Rio de Janeiro das águas de março, Apareceu a Margarida...
Eu gostava e entendia, mas não era um mundo que me deixasse com vontade de entrar e fazer parte. Na minha casa mesmo, eu era a única que não tocava nenhum instrumento. Até é claro, ir puxar samba na Rua Major Daemon. O que nem o rock progressivo e a bossa nova conseguiram, o samba formatou.
Está aí uma coisa que eu seria, sambista.

Se seu bairro não tem bloco, organize um logo. O aluguel do carro de som fica em menos de R$1.000,00 e essa quantia pode ser levantada com a venda informal das camisetas do bloco. Com a vantagem de nem todo bloco precisar de carro, basta uma turma animada que se organize para escrever um samba e arrumar uma bateria improvisada.

E viva o Carnaval de rua da Zona Portuária!


A letra do samba enredo do Escorrega mas não cai, Carnaval de 2012:



A Rua Major Daemon, impossível não passar pela placa e pensar "Valeu, vô, tô me acabando!"


Camarão puxando o samba de chapeuzinho de malandro, a senhora ao lado dele tem a voz mais bonita que Tereza Cristina, um timbre digno de Dalva de Oliveira. Solou vários trechos, ficamos em silêncio para só a voz dela aparecer. Ocupada, puxou o samba do Escorrega, mas também estava agendada para outros 2 blocos.


Outras moças puxando o samba na Av. Rio Branco que todos sonhamos: vazia!


Carla, linda com a fantasia de porta-bandeira feita por ela, se desviando das obras do novo Museu da Zona Portuária, que promete ser auto-suficiente energeticamente.


Eu e Camarão no alto do carro, missão cumprida.







O Morro da Conceição em fotos minhas feitas no dia da festa da Padroeira, Nossa Senhora da Conceição.

O Morro é o máximo, marco original da fundação da cidade, um lugar com uma vista privilegiada para a Baía de Guanabara e Cais do Porto, a arquitetura colonial totalmente preservada e o melhor, protegido da especulação imobiliária que devastou o Centro do RJ. É importante entender que existiam 4 morros no Centro da Cidade, o da Conceição, de São Bento (ao lado, propriedade do Mosteiro), de Santo Antonio (propriedade do Convento) e do Castelo (cuja derrubada já rendeu até filme). O Morro da Conceição, até por ser isolado geograficamente, é o único que continua mantendo as origens, a tradição do samba, sem favelizar-se numa região complicada como toda zona portuária tende a ser, o ambiente é familiar e a comunidade unida.

A única coisa difícil no Morro é visitar e não sentir vontade de comprar uma casinha daquelas para ficar perto do Bloco e do trabalho, ver aquela região toda revitalizada, transformada numa zona boêmia (como vem sendo feito com a Lapa) e principalmente torcer por aquelas crianças capoeiristas e percussionistas que brincam pela rua a poucos metros do caos urbano. 





















Mais informação:
O mar de lixo do Carnaval baiano
Fui à Saara e acabei saindo no jornal
Como se faz uma fantasia de passista
Carnaval sustentável: seu animal não é palhaço
Trabalhando no Porto e vistoriando 3 navios indianos
Comendo a ração que vende - parte 02: as bobinas do Camarão
Tudo para um Carnaval sustentável e o melhor Guia de Carnaval de rua do país

5 comentários:

Anônimo disse...

Carol, obrigado por tudo. O Escorrega lhe agradece pela grande força de última hora. Pois são atitudes como essas que o Escorrega precisa que aconteça com a maioria de nossos moradores. E estou justamente repassando sua matéria a alguns amigos que sempre estiveram de uma forma ou de outra tocando o bloco com maior carinho e dedicação. Mas infelizmente, continua sendo pouco para fazer deste bloco, mais um importante símbolo cultural de nossa região.

Apesar de ficar feliz em ver sua atitude mesmo você sendo de fora da Comunidade, também não deixo de ficar frustrado com isso. Afinal, quem vem de fora acaba dando um gas bacana, suprindo às vezes grande maioria de nossos moradores.

Não sei se você lembra no desfile, quando eu divulguei em público sobre minha saída do bloco. E isso eu não volto atrás. Portanto, torço para que pessoas da comunidade, principalmente os fundadores se inspire com sua empolgação e dê o gas que esteja faltando pra dar o devido seguimento com o bloco. E assim, fica o meu recado, não da forma que eu gostaria, mas, aproveito o momento oportuno.
Grato a você Carol, e espero que o Escorrega faça jus ao nome... Escorrega Mas Não Cai.

Gostaria de esclarecer mais coisas à todos e quem sabe convencer alguém que leve o bloco a diante, mas estou me atrasando ao trabalho, e fica somente isso como informação. Caso alguém queira conversar melhor depois, fico a disposição.


Bjos e abraços a todos,

Silvio Camarão

Anônimo disse...

Carol, menina, que privilégio! Nunca mais vi ou participei de blocos de rua. O último foi em Salvador e foi traumático: nunca tomei tanta porrada. Parabéns pelo emprego, sucesso. Devia postar fotinho de vestido e salto!!!! E cabelos, arrumadinhos??? baton e tudo??
Só vendo.
Bjs
Ana - Araça

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Ana, bloco aqui no Rio é mais tranquilo. Vai ver que é por isso que em Salvador vendem abadá, pq depois da corda, só Deus sabe...

Mas vc tá certa, preciso sim postar foto minha decente. Todas até agora, foram em situações muito informais.

Bjs

Anônimo disse...

Carol, não foi crítica, hem, darling, mas realmente suas fotos são "mão na massa", mas sempre boas.
Bjs
Ana - Araça

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Eu levei numa boa, não esquenta, não.
Beijinho