segunda-feira, 21 de maio de 2012

Trabalhando no Porto e vistoriando 3 navios indianos

Na sexta-feira de Carnaval, fui a uma entrevista de emprego e logo depois do feriado, comecei a trabalhar em empresa de navegação no Rio de Janeiro.
É bom, na verdade foi o trabalho mais interessante que eu já tive.
Eu embarcava nos navios atracados no Porto do Rio ou no fundeio (ancorados) na Baía de Guanabara e podia voltar para dormir em casa, ao contrário de quando se trabalha embarcado em plataforma de petróleo, que você trabalha por turno.
Trabalhar em empresa de navegação é bom, porque você trabalha no escritório, mas também trabalha no Porto. Você embarca, mas vai de lancha pela Baía de Guanabara, dorme em casa e não precisa ficar apodrecendo no aeroporto de Macaé para passar semanas enfurnado em plataforma.
Estando no navio, almoça-se à bordo, mas nos dias seguintes, você vai escolher o restaurante que quiser dos próximos ao escritório.

Nunca imaginei, mas existe uma dignidade muito maior nas empresas de navegação do que em qualquer empresa de petróleo que eu conheci.
É como se você voltasse um pouco no tempo e visse de perto a relação de respeito entre as pessoas que dividem o teto e confiam entre si. Há casos de navios infestados com sarna, taifeiros estrangeiros com sífilis, motim por causa de comida, marinheiro tentando fugir pelo Porto porque acha que está com gonorréia contraída no Porto anterior onde a embarcação atracou. Só falta o escorbuto para que a gente se sinta mesmo numa história de Marco Polo.
Pude realizar um sonho muito antigo, navegar à noite na Baía de Guanabara e passar bem debaixo do vão central da Ponte Rio Niterói, no escuro com a lua cheia e as luzes do Rio de Janeiro à nossa frente. É uma imagem inesquecível, um cartão postal ainda não fotografado por ninguém.

O código de ética e essa mesma ética que permeia todas as relações interpessoais é muito mais forte e claramente definido. Em navegação, ninguém se faz de desentendido, as coisas são aquilo dali ou não são nada.

Todo mundo deveria viver embarcado pelo menos por 1 semana de sua vida, é a maior lição de sustentabilidade que um ser humano pode ter. Quando você dá a descarga, abre a torneira ou joga o lixo na lixeira, acha que seus dejetos se desintegram magicamente e que a água (como todos os recursos) brota por geração espontânea. Em alto mar, confinado e isolado, a pessoa entende que a água doce é escassa, que a comida tem que ser dividida, aproveitada e economizada. Os dejetos têm que ser tratados antes de lançar ao mar, ao contrário da maioria das cidades brasileiras. E o lixo vai se acomodando no convés, embalado e lacrado, mas acomodado na área de convívio - como são os lixões para muitas pessoas à margem da coleta seletiva. A embarcação é um microcosmo do nosso planeta, a gente não tem para onde correr.

Pena que eu tenha saído justamente para voltar a trabalhar embarcada em petroleiras, sinto falta do meu emprego anterior, havia mais decência.
Paciência, se eu trabalho no Centro do Rio, não chego na faculdade nem depois da aula ter acabado. Se embarco, perco metade das aulas, mas consigo abono das faltas por estar embarcada.

Sobre a comida à bordo capitaneada justamente por hindus:
Os mergulhadores adoravam uma piadinha de hemorróida em virtude do excesso de pimenta e condimentos, como açafrão, curry, páprica e outros mil coloridos.
Tudo bobagem, eu encarava numa boa, confesso que cheguei a cuspir fogo algumas vezes, mas ao ver aquelas travessas imensas de legumes amarelinhos de açafrão, o arroz cozido com cravos (da Índia) inteiros, as lentilhas avermelhadas e o chapati com ghee, eu caía dentro feliz da vida.
Os marmanjos passavam e comentavam "Não é que a menina tá comendo com gosto..."
Sendo a única mulher a bordo, coma de tudo, não entre numa de "fazer um miojinho". Não sendo, coma também, sempre vale pela experiência.
Francamente - ajoelhou, tem que rezar.

Deixo as fotos dessa experiência profissional única e extremamente ensolarada e colorida:










Deus é onipotente e onipresente, mas apresenta muitas formas:




Essa que vos fala, como qualquer preposto de SMS, acompanhando a dedetização convencional exigida pela ANVISA a qualquer embarcação que atraque no Brasil:



Vindo da Ponta da Areia, em Niteroi, pela Baía de Guanabara:







A Ponte Rio-Niterói e a Ilha Fiscal vistos de dentro da lancha:




No Porto de Vitória (ES), a vista é linda, pena que quem projetou e planejou o aterro não contava com o peso dos containners e hoje, a carga não pode ficar armazenada no Cais:






A galera, boas praças, raro encontrar um marujo cretino. Engraçado anotar isso, mas em todos os meus empregos de campo, foi na peãozada em quem eu realmente pude confiar.






Para dedetizar em casa ou no sítio, sem a química que a ANVISA exige à plantas industriais:
Controle de pragas e pesticidas biodegradáveis para uso doméstico
A casa sustentável é mais barata - parte 12 (faxina e controle de pragas)

 


Mais informação:
Na Jureia: trabalho de peão
"Eu queria trabalhar com sustentabilidade"
Para entender o vazamento da Chevron no Rio de Janeiro
Na Jureia: a marcação no GPS do manguezal do rio Guaraú foi o melhor
Então a sobrinha tetraneta do Major Daemon foi puxar samba e trabalhar na Zona Portuária

2 comentários:

Nai disse...

Poxa Carol... É uma pena. Lembro do post anterior quando relatou que havia passado na seleção. Estava feliz por ter conseguido o emprego novo. Mas a vida sempre nos impõe escolhas. Sucesso na "nova" jornada.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Obrigada :-)