Sou mergulhadora há metade da minha vida. Tenho 36 anos e, ao fazer 18, ganhei de presente de aniversário um curso de mergulho. Novinha, única mulher da turma, encarei o curso com prazer, viajei sozinha com os marmanjos para o final de semana de provas práticas em Angra dos Reis, não caí em nenhuma das muitas cantadas e ainda tive a nota mais alta da turma. Eu era danada.
Todo mundo pede (ou sonha em pedir) um carro, eu queria aprender a mergulhar.
Tirei carteira de motorista e nunca usei, venceu em 1999 e não voltei a renovar, já meu certificado internacional como mergulhadora nunca saiu da minha carteira, levei comigo onde fui ao longo desses anos.
Jacques Cousteau sempre foi um ídolo, cresci viajando sem sair do lugar com seus documentários.
As pessoas que não mergulham, não sabem, nem imaginam da importância de Jacques Cousteau na divulgação e proteção dos oceanos. Não fosse por ele ter "inventado" o equipamento de mergulho autônomo, até hoje os respiradores seriam conectados à embarcação - como é o dos astronautas.
A "garrafa" que todo mergulhador carrega nas costas é invenção (ou descoberta) de Cousteau.
Seu neto, Philippe Cousteau Jr. já havia aparecido em vídeo aqui no blog, falando justamente do vazamento de petróleo no Golfo do México, veja na postagem "BP controla vazamento no Golfo do México e os vídeos da Fundação Cousteau no local".
Então, quando recebi o convite acima, aceitei na mesma hora.
Cheguei 10 minutos mais cedo ao local agendado com roupa de trabalho formal, salto alto e maquiagem leve. Cara de reunião com cliente.
Falaram em "coletiva de imprensa", outros jornalistas foram chegando e eu meio sem saber o porquê de estar ali com tanta coisa fervendo em plena Rio+20.
Sentei e comecei a puxar papo com os jornalistas que representavam os outros blogs, todos profissionais trocando seus cartões de blogs que vivem de produtos-serviços licenciados e anunciantes, na verdade portais ou canais de comunicação de sites comerciais.
As meninas do Química Sustentável, o único blog amador além do meu, chegaram. Amadoras e Técnicas em Química de Petróleo e Polímeros. Fiquei à vontade, assim como eu (que trabalho embarcada), elas não se deslumbrariam com a foto de alguém com as mãos sujas de óleo no vazamento do Golfo do México, mesmo sendo um Cousteau.
Na véspera, na Cúpula do Povos no Aterro, havia assistido à debate na Tenda do Greenpeace justamente sobre os Impactos ambientais do pré-sal, onde um dos especialistas convidados havia justamente informado que só em 2010, foram registrados mais de 1.000 pequenos vazamentos.
Eu falo um pouco sobre o assunto em uma postagem antiga daqui, "Para entender o vazamento da Chevron", que tenta modestamente desmistificar essa histeria popular a cada vazamento.
Então Philippe Cousteau Jr. chegou com sua finíssima estampa e charme de jovem executivo.
Fui esperando um francês, um homem do mar, e me deparei com um simpático californiano technicolor.
Acostumada que estou ao mundo corporativo, o fato dele ser a "CNN fellow" deixou meu senso crítico em dia. Melhor assim, fosse alguém como Jean Reno e eu não teria ouvido uma única palavra.
Se era uma coletiva de imprensa e eu um dos poucos especialistas presentes, nada mais justo do que perguntar algo específico que exija um mínimo de conhecimento técnico. Fiz 2 perguntas padrão, sobre os impactos ambientais de fazendas eólicas offshore num mundo que quer se ver livre do óleo e como casar os interesses em alimentar uma população com pescado diante da extinção dos cardumes, quando a própria OMS sugere aumentar o consumo de peixe.
Nada que descabele alguém sem diploma em Oceanografia e Biologia. Eu mesma comecei a escrever esse blog antes de entrar para o curso de Engenharia, era apenas uma Técnica em Segurança no Trabalho com outra faculdade trancada, de Economia.
As respostas de Philippe Cousteau Jr. foram bem embasadas, mas presas ao lugar comum da zona de conforto, andaram em círculo falando dos desafios de consumo num mundo cada vez mais cheio de gente, etc. Ambas fugiram de apresentar uma alternativa real aos 2 problemas, que são justamente na área de atuação dele.
Lamentei profundamente presenciar os jornalistas presentes fazerem perguntas tão superficiais como a relação dele com o avô famoso, como enxergava a Rio+20, etc.
Como debocha com propriedade Danilo Gentili (publicitário, humorista, escritor, cartunista, repórter e empresário), é o "jornalismo do Fantástico, só pergunta porrada: qual seu prato favorito, que músicas costuma escutar?"...
Na véspera, também assistira na Cúpula, dessa vez na tenda da Arena Sócio Ambiental, ao nosso Ministro da Pesca, Senador pelo RJ, Marcelo Crivella falar justamente da importância social e ambiental de incluir o pescado na merenda escolar e rancho das Forças Armadas, já que o consumo de carne bovina além de insustentável torna os pecuaristas, já milionários, ainda mais ricos e empobrece os piscicultores, nos lembrando da devastação da Amazônia para o pasto e de que o boi consome 25kgs de ração para engordar apenas 1kg e as tilápias, só consomem de 1,2kgs a 1,5kgs para ganhar o mesmo 1kg de peso.
Não defendo consumo diário de protéina animal e tampouco faço campanha por Marcelo Crivella, mas para quem começou a carreira política como Pastor eleito pela bancada evangélica, o mesmo fez uma excelente apresentação diante de platéia muito mais exigente do que a da coletiva de imprensa da CNN, criticou a política do Governo que reprenta de subsídios aos pequenos produtores e foi até aplaudido.
Na Cúpula se vaiava, tirava a roupa, apitava e levantava cartaz - o couro comeu para todo mundo que levantou e expressou uma opinião. Nem Leonardo Boff escapou à tanta democracia e liberdade de expressão. Estou para fazer uma postagem exclusiva sobre a Cúpula, foi imperdível e, assim que concluir, linko tudo.
Ao final da coletiva, que prefiro chamar de bate-papo, já que não havia direito à réplica-tréplica e tampouco tradutor para traduzir as repostas aos próprios jornalistas - o que não foi problema para mim, mas para muitos dos presentes - sentamos sem a CNN para a boa conversa em off e, até essa que vos fala levantar a bola, ninguém havia se tocado do óbvio: a produção da CNN havia usado os blogueiros para divulgar o programa e assim, atingir o público alvo, jovens interessados em ambientalismo.
Algumas moças se ofenderam, disseram que por serem jornalistas estavam cumprindo seu papel e que aquilo era sim uma coletiva de imprensa, que caberia a eles escrever com imparcialidade o que acharam das respostas dadas. Outra defendeu que bons textos são escritos por jornalistas, se escritos por especialistas, ninguém entenderia...O grupo dividiu, uma turma lembrou que faltou tradutor, outros lamentaram não poder questionar as respostas e apenas anotar tudo sem piar, etc.
Eu não sou jornalista, tampouco faria uma faculdade de Comunicação Social, mas ninguém precisa de diploma para perceber quando está sendo usado para fazer matéria paga de graça.
Como disse acima, ainda não tenho diploma em nada e falo de minha modesta formação pela escola da vida com os peões que conheci em algumas postagens daqui, "Eu queria trabalhar com sustentabilidade", "Na Juréia, trabalho de peão" e "Vistoriando 3 navios indianos no Cais do Porto".
A propósito, ninguém precisa mais de qualquer diploma para exercer o nobre ofício de jornalista, segundo Súmula do próprio Supremo Tribunal Federal, exatamente para que especialistas de todas as áreas (com ou sem diploma, como catadores e parteiras) possam escrever artigos em suas searas e assim, o nível da informação melhorar e atingir todas as camadas da sociedade.
Mas já que os presentes encararam o curso convencional de 4 anos, poderiam ter um pouquinho mais de senso crítico, mesmo diante da CNN. E, caso cogitem a hipótese de seguir pela linha ambiental, devem se especializar como sabiamente fez Philippe Cousteau Jr. e André Trigueiro, ou Miriam Leitão na área econômica entre muitos exemplos bem sucedidos.
Senti um pouco de pena e vergonha alheia ao ver jornalistas deslumbrados, achando "bacana" e "legal" ele ter defendido valores familiares, inclusão de mulheres de comunidades nativas no processo de desenvolvimento sustentável e falar que nos faltam heróis, entre outros clichês politicamente corretos.
Em tempo, não nos faltam heróis, nós os temos de sobra. Todo produtor orgânico é um herói, assim como qualquer brasileiro que viva com salário mínimo, catador, mãe solteira que trabalhe de doméstica...
Ontem mesmo saiu no site da Anistia Internacional que somos o país com o maior número de ativistas assassinados na última década.
Não saí do bate-papo/coletiva de imprensa com qualquer impressão ruim acerca do jornalista e ambientalista Philippe Cousteau Jr., muito pelo contrário. Coerente, articulado, seguro e muito elegante e bem informado, não se aprofundou mas não disse bobagem, o que é esperado de alguém que carrega a tradição desse sobrenome, mas que trabalha para a CNN.
Assim como seus colegas brasileiros, ele também luta por um espaço na mídia, não está fácil para ninguém. Mas ao contrário de muitos, entende de verdade do que está falando e já compreendeu as regras do jogo.
Vale a pena dar uma chance ao seu programa, mas também é de notar que blogs, inicialmente criados para ser a imprensa livre e sem papel, estão sendo manipulados justamente por quem deveriam fazer oposição.
Mais informação:
Levante sua voz
Ativistas assassinados
Sarcasmo pouco é bobagem
Arte na carroça do catador de lixo
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O lado B da energia eólica em larga escala
A Anistia Internacional e a sustentabilidade
Finning - Até quando teremos esse absurdo?
O mar não está para peixe: Slow Fish ou O fim da linha




4 comentários:
Oi, Carol
muito interessante este teu post, bom saber o que está acontecendo aí no Rio bem de pertinho!
Bj,
Marília
Eu não morro de amores pelos Cousteau. Anos atrás, o avô vivo, comentava-se de tratamento inadequado a alguns animais que estavam em "estudo". Ninguém é perfeito.
E vamos acompanhar de pertinho Rio 20. Vamos analisar os tratados assinados!! E ver quem respeita!!!
E Carol, você acha grita exagerada os vazamentos de óleo? Mesmo pequenos? Acho inadmissível. Mesmo que seja por uma única sardinha morta.
Abs.
Ana - Araça
PS - Elegante e charmosa nas fotos!
Oi pessoal, feliz por ver gente de longe por aqui.
Na verdade, não concordo com vazamento nenhum. Mas o que me deixa pasma é ver pessoas chocadas com vazamentos. Compram carros, só faltam plastificar a casa toda e depois se surpreendem...
bjs
Agradecemos por mencionar o blog Química Sustentável. Ficamos muito contentes em saber que existem pessoas do mesmo ramo que o nosso falando sobre sustentabilidade e acima de tudo se importanto com este assunto.
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