quarta-feira, 4 de julho de 2012

RIO+20: de trazer na bolsa e na barriga

Todo peixe morre pela boca, senão a nossa a de outro peixe ainda maior.

Apesar de nascida numa família muito consumista, eu nunca fui ligada em compras, não frequento shopping, não ligo para moda e me acostumei a viajar sempre com o mínimo de bagagem possível, até por força do trabalho. Quem trabalha embarcado em plataforma, só pode levar no bagageiro do helicóptero 10kgs de bagagem, independente do turno. Minhas primeiras escalas eram de 35 dias em alto mar (com 35 de descanso em terra), eu tinha que sobreviver mais de 1 mês com a mala que caberia num bagageiro do avião, aquela menorzinha. Nessa bagagem de 10kgs, tem que constar além das suas roupas, todos os produtos de higiene pessoal e, no meu caso, o notebook. O único sapato que eu levava, era o par de tênis que estava calçada.
Para muita gente era um sofrimento, para mim foi super normal. Tão normal que em mais de 3 anos de blog, já devo ter falado sobre tudo por aqui, menos moda. Em 800 postagens, você vai encontrar 2 abordando a quantidade de água usada para produzir 1 único jeans e em outra, a de agrotóxicos para produzir algodão suficiente para produzir 1 única camiseta, mas a moda  verde mesmo nunca me entusiasmou, assim como a tão falada economia verde.

A bagagem perfeita é feita para durar 1 semana, depois a gente só repete o que trouxe. Aprendi também a ler ebooks e ouvir mp3, fundamental para quem não pode carregar peso.
A vantagem da plataforma é poder passar o dia de macacão e bota, que ficam por lá, mas a desvantagem é que não rola uma "grocery" para comprar mais xampu caso o seu acabe ou tenha esquecido de levar.
Sempre achei deselegante, provinciano até, pessoas que viajam com malas imensas - tão feio quanto uma mulher de maquiagem carregada e jóias pesadas. Na minha opinião, o viajante descolado carrega pouca tralha e a elegância se reflete em poucas roupas, boas e de corte perfeito, para durar.

Como aliás sempre foi, um terno de alfaiate era um patrimônio familiar, que se herdava inclusive. O alfaiate era quase um membro da família, indicação valiosíssima.
Assim como os médicos que nos atendiam desde criança e conheciam seus pacientes de verdade, sabiam de todo histórico familiar, porque também atenderam primos ou até nossos pais. Até os consultórios eram herdados, senão pelo filho do próprio, por um aluno pupilo que se destacou.
Hoje, os médicos recebem R$24,00 por consulta pela tabela do plano de saúde, atendem um mundo de gente para não passar fome e os ternos são chineses em microfibra ou feitos por bolivianos mantidos em regime de escrevidão num buraco qualquer de Osasco. E o corte ainda por cima é uma porcaria. Um lixo.
O design pode salvar o mundo, tanto em termos estéticos quanto ambientais.


O que me motiva a comprar e me anima a abrir minha carteira, é compra boa, que justifique o deslize.
A maioria das minhas roupas é de brechó por inúmeras razões, além das ambientais. O preço é muito melhor, as roupas são realmente de qualidade e eu não ligo de não estar usando o modelo exposto na vitrine de uma loja badalada - na verdade, a roupa do brechó já esteve na mesma vitrine, só que há algum tempo.
Se vivemos num mundo industrial cuja premissa básica é a obsolescência programada, o natural é que as roupas atuais durem menos do que as antigas, então comprar uma roupa de brechó não é só reciclagem e reúso, mas economia em ambos os aspectos: financeiros e ambientais.


Uma das muitas coisas boas da Cúpula dos Povos foram as Redes de Economia Solidária, a chance de comprar direto de quem produz em fair trade artigos orgânicos ou socialmente responsáveis.
Para quem entra e sai do shopping sem sacolas, foi o equivalente a uma ida a Miami. Comprei tudo o que me deu vontade, sem culpa.

Vamos aos comes e compras:

O badalado HareBurguer, em soja com ingredientes chiques como tomates seco, shiitake, chedar, pesto, castanha de caju, rúcula e o que mais você imaginar. Já conhecia da Praia de Ipanema. É bom, mas é soja - garante seu simpático criador que é orgânica, melhor assim.
Falafel também recheia bem hamburguer, torço para que eles adotem.

A pizza integral de 4 queijos e o quiche folhado (integral) de cenoura estavam muito bons:







O vício, a porção com 10 pães de queijo orgânicos, grandes e quentinhos a R$7,00. Deliciosos mesmo para quem não é louco por pão de queijo, como eu, que nunca comprei no mercado ou fiz em casa só para mim.
Perguntei quem eram os fornecedores e não souberam me informar.
Dias depois, em Santa Tereza, bairro do Rio, descobri serem da Cultivar, citada no Guia Slow Food como loja de produtos orgânicos e glúten free.



A grande pedida gelada: o sorvete de jucaí, o fruto da palmeira juçara da Mata Atlântica, mais doce e ácido do que o açaí amazonense, não tem o gosto de terra do segundo. Em alguns dias, misturaram à grumixama, outra fruta nativa da Mata Atlântica. A receita básica do sorvete: polpa de juçaí orgânico, água, mel orgânico e inhame cozido para dar ponto. Vi fazerem na hora na sorveteira industrial, entra líquido e sai cremoso de parar em pé.
Tomei 1 por dia no final da tarde, cada copo cheio a R$5,00, não precisava de jantar ao voltar para casa.
Para conhecer o projeto de manejo das frutas da Mata Atlântica, vá no site da RBMA - negócios da Mata Atlântica.



O picolé da Saint Luiger, só no primeiro dia, mas fez sucesso, certificadíssimo em graviola ou cupuaçu:



Para provar e depois fazer em casa, como a gente desse blog, que compra tudo à granel ou na Feira Orgânica, não consome muita embalagem e ainda economiza. Não provei, já conheço, mas acho ótimo estar ali para introduzir as pessoas em novos sabores. Na barraca do Circuito de Feiras Orgânicas  Cariocas.



O luxo, a barraca da Feira Agroecológica da UFRJ em parceria ao Maré de Sabores, a cooperativa de mulheres da Favela da Maré que produz delícias caseiras com o que cultivam orgânicamente, citadas no Guia Slow Food carioca.
Explicavam orgulhosas seus produtos.





O melhor stand, Cicloambiental - a "arara" de roupas são 2 escadas invertidas em pallets presas com borboletas metálicas, tábuas viram prateleiras e um cabo de vassoura serrado, o cabideiro. Para fazer em casa igualzinho. As camisetas são em algodão orgânico, pet reciclado, bambu e materias corretos, as bolsas em couro vegetal. Gostei de tudo.




Colchas em tapeçaria bordada no algodão cru, do Cerrado, cada uma a partir de R$500,00 e vestidos em renda de bilro nordestina, a R$1.900,00. Adorei, mas não comprei.








Emborrachados vegetais da Amazônia, aguentam frio e calor. Servem como protetores de panelas e pirex. De R$15,00 (os menores, tamanho de base de panela de 2lts.) a R$150,00 (os imensos, acomodam baixelas inteiras). Comprei 2 de R$20,00, para as panelas de barro.

Para conhecer os encauchutados, visite o site do Poloprobio






O sisal da caatinga, já existe pelo país todo. Ainda bem. Não comprei por não ter como carregar um tapete, mas o preço estava bom.
Para ver outros produtos, veja o site da Bodega, na Agendha.org












Não comprei os bombons de cupuaçu e a castanha do Pará orgânica no stand da Cooperacre com a Associação de Mulheres Cantinho da Amazônia, sou filha de paraense, cresci comendo essas coisas. Tampouco comprei o pinhão,  ginseng e erva mate dos representantes dos Pampas, pareciam ótimos e estavam a preços justos, mas deixo os links: Ecoserra, Amauta e ASPAG

Preferi levar as novidades do Cerrado e da Caatinga que só conheço de ler no Come-se de Neide Rigo.

As 5 castanhas do Cerrado: pequi, garoba, babaçu, baru e macauba. Comprei azeite de licuri, sabonete de babaçu, creme de pequi e castanha de baru.







A que não levei para casa: macaúba em sabão, já havia ganho um sabão da Biotech no Cais do Porto.
Para conhecer os produtos do Cerrado, visite os sites da Central do Cerrado e Empório do Cerrado






Mas levei as geleias de Maracujá da Caatinga, Umbu e Hibisco. Maravilhosas, as de umbu e maracujá já estão abertas na foto. Estou comendo com tapioca recheada de queijo da Canastra, vendido por um vizinho.
A de hibiscus congelei.













O açafrão da terra de Urucuia, cultivado em Agricultura Familiar.










O pequi em creme, para fazer patê, risoto e farofa, e a farofa já pronta de farinha de mandioca com pequi e alho. Na segunda foto, a castanha de Baru, boa para farofa também, no maravilhoso catálogo de produtos do Cerrado da PPP-ECOS distribuído farta e gratuitamente.
Custo total dos produtos do Cerrado: R$70,00 - mais barato do que no mercado.







Para colecionar: Bordados de Natividade (RJ) e braceletes em palha dourada do Cerrado, R$5,00 cada pulseira - parece um tribal tatuado no braço - junto com o catálogo de Talentos do Brasil, com todos os expositores.





Para moças em idade fértil: abiosorventes da Ecovila Morada da Floresta, na ecobag cortesia da coletiva do Philippe Cousteau:




Para desfilar por aí: vestido de costureira de bairro em tecido bom e enrugadinho, mas silkado à mão pela própria na cooperativa de costureiras cariocas - não é estampado nem pintado à mão. Por R$40,00.
Havia disponível muita roupa linda de cooperativa ou empresas de tecidos ecológicos, comprei justo a que não tem site. Contato da costureira, Pietra: (21) 2590-2097 / 9452-6025 / 8472-4069
Na postagem da Cúpula, trago os contatos das outras.




Não faz a minha cabeça:


Venda de chope ao lado do quiosque de sorvetes certificados da Mata Atlântica e pães de queijo orgânicos. Não pelo chope, que eu tomo os meus de vez em quando, é sempre a questão da hidropirataria das fábricas de cerveja, que ninguém comenta.
Se é para vender álcool, nada contra, mas que seja divulgando as boas cachaças artesanais em caipirinha de limão galego com melado, os grupos de cervejaria caseira ou os vinhos biodinâmicos e premiados do Vale do Loire.
Com direito à degustação, é claro.



Ecodesign caríssimo. Não curto, acho descabido.
Quem acompanha esse blog modesto e amador, já deve ter notado que, salvo poucas exceções, procuro não divulgar produtos sustentáveis de última geração. Não é por aí. Prefiro falar sobre como é bom viver sem precisar de nada disso ou em como aprender a fazer o que preciso, comprando de forma mais justa quando realmente necessário.

O fato de uma peça ser única e assinada, não a torna cara.
Um trabalho manual e anônimo, como a tapeçaria ou a renda de bilro são caros, porque levaram muito mais tempo e técnica (transmitida oralmente) para serem desenvolvidos. Paga-se pela mão de obra do artesão.
O design pode salvar o mundo, mas precisa ser para todos, até para ser realmente considerado sustentável.
A pergunta que não sai da minha cabeça: o artista leva essa grana toda ou a maior fatia fica mesmo com quem revende?

A Sustentabilidade de verdade consiste em oferecer transporte público de qualidade a pessoas que morem perto do ambiente de trabalho e não em vender 1 carro elétrico para cada brasileiro passar 2hrs preso no engarrafamento. 











Os jovens da rede pública de ensino, dando um show de falta de educação, ganharam lanche cortesia e laragaram tudo de qualquer maneira, desperdiçando comida e os folders caros que receberam nas barracas. Pior, a equipe da limpeza sem orientação, juntava tudo numa grande caçamba. O maior evento de sustentabilidade da década e o lixo não era reciclado.








Coisas boas da vida, sentar ao lado de uma estrangeira e, na cordialidade comum em Seminários, conversar amenidades. Lá pelo meio do seminário, tomo coragem e pergunto o que é aquela "pimentinha" que ela leva à boca o tempo todo.
Educada e simpática, me explicou ser uma berry popular no país dela, Gojibar, riquíssima em antioxidantes, imagino pela cor que tenha betacaroteno e licopeno. Me ofereceu, aceitei e provei uma. Tinha sementinhas como as do morango no interior e gosto residual levemente amarguinho. Ao contrário do que eu esperava, nada de acidez ou mesmo doçura.
Aqui no Brasil, atende por Gojiberry e já tem até blog, o gojiberrybrasil.
Curiosidade: a gojiberry é chinesa, mas a moça e seu pacote devem ser mesmo é dinamarqueses.

Em retribuição, ofereci a banana passa que carregava na bolsa, comprada na barraca da própria cooperativa por módicos R$5,00 o pacote. Um lanche melhor e mais barato do que barrinhas de cereal.
"Dried banana", expliquei. Ela já conhecia, disse adorar, pegou uma, agradeceu e comeu fazendo cara de quem se refestela.
Curiosidade: a banana não é uma fruta nativa do Brasil, foi introduzida pelos portugueses que trouxeram da Índia as primeiras mudas de caravela, como a manga.  Não por um acaso, um dos primeiros nomes oficiais do país foi "Índias Ocidentais", o clima é parecido.
Fruta nativa do Brasil tem nome indígena, como cupuaçu, açaí, umbu, grumixama, taperebá, cajá...







Mais informação:
Pinhão
Cupuaçu
Pão de queijo
Limão galego
Boteco, o filme
Compras a granel
Soja é desnecessário
Leite de castanha do Pará
Falafel, kibe e abará de acarajé
Vinhos orgânicos e biodinâmicos
Mel de abelhas x melado de cana
As frutas que ninguém come mais
Ecodesign: A casa sustentável é mais barata
A casa sustentável é mais barata - parte 07 (pallets e reels)
A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível


8 comentários:

Paula Calixto disse...

Que tortura aquela pizza!!!! Rsrsrsrs...

Marilia disse...

ADOREI esta feira!
Tb não sigo a moda, visto o que me dá na telha eé confortável.
Achei incrível a variedade de sabores e cores. Adoro aquele sabonete de babaçu!
Fico feliz em ver a juçara sendo consumida aí. Trabalhei com os produtores em Maquiné, RS, que a colhem.
Muito interessante ver td isso aqui!
Beijo,
Marília

bedroom ideas disse...

Hello
Superb publish! This is the form of info that ought to be discussed over the internet.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Foi tão bom e barato pessoal... Até hoje, estou curtindo as coisas, valeu a pena.

Anônimo disse...

Isso é ter um dia zen.
Abs.
Ana - Araça

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

O passeio durou 1 semana, mais barato e justo do que 1 dia de shopping :-)))

Anônimo disse...

Oi Carol!!

Adorei passear pela "feira" sob seu olhar.E concordo plenamente sob sua avaliação sobre os valores das peças de "design sustentável".Se é sustentavel deveria ser mais acessível...

Abç.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi, é por aí mesmo, sustentabilidade tem que ser para todo mundo. Senão, não é sustentável. É só greenwashing.
abs,
Carol