terça-feira, 3 de julho de 2012

RIO+20: o Cais do Porto



Foi a melhor opção para o sábado, quando metade da cidade rumou para a Cúpula dos Povos.

O Cais do Porto, lugar que adoro e mostro fotos em outra postagem daqui do blog “Vistoriando 3 navios indianos no Cais do Porto”, durante a RIO+20 assumiu um caráter mais oficial do que o Aterro do Flamengo, onde a Cúpula dos Povos dominou o cenário.

Normalmente aqui no Rio, o Riocentro é o grande pavilhão de exposições e feiras. Como o Riocentro havia virado o quartel general do Comitê, a escolha do Cais para a ExpoSustentável e para os maravilhosos stands do Ministério da Saúde, Meio Ambiente e Ciência e Tecnologia foi uma escolha acertada. Melhor assim, o Cais é perto de minha casa e o Riocentro há quase 2hrs de trânsito.

No domingo, tudo lotou e a única opção foi mesmo ficar em casa. A fila da badalada exposição do Forte de Copacabana, Humanidades, chegava em Ipanema 4 quarteirões adiante. Fui e voltei sem saber do que se tratava, parei para um sorvete pela metade do caminho e não me arrependi.


Sábado, no Cais do Porto – o que rolou de bom:

Mauro Lerer, da Sociedade do Sol - Solarize, Daniele da Permario e João, da Ciclo e autor de “2012, Tempo de Mudança” fizeram uma ótima apresentação sobre o projeto desenvolvido por eles, RIO+20 RIO+Verde, no Complexo do Alemão, comunidade carente aqui no Rio. O projeto, que contou com parceria de Pedro Paulo Dinis do Grupo Pão de Açúcar e o Verdejar (citado no guia carioca do Slow Food justamente pelas hortas urbanas no Alemão), capacitou à população local em construir seus Aquecedores Solares de Baixo Custo (ASBC) e reflorestar em Sistema Agroflorestal as áreas de encosta degradadas.

Já produzem orgânicos que estão sendo consumidos pela população local com apoio do Grupo Pão de Açúcar, que paga 1 salário mínimo a um rapaz em liberdade condicional para que a horta seja bem cuidada.



Havia assistido a essa apresentação 2 dias antes, no teatro do Mam durante a abertura da Cúpula dos Povos no Aterro, com a presença do Diretor do Jardim Botânico de Brasília, mas fui de novo por ter gostado muito.

Uma frase do João me convenceu “O Sistema Agroflorestal implementa espécies frutíferas, que trazem os animais de volta. O reflorestamento padrão só contempla 5 espécies, nenhuma frutífera, o que poderia ser uma agrofloresta vira uma área de desova de cadáveres e pelo menos assim, as pessoas da comunidade podem comer o que se produz localmente, não precisam comprar o que vem de outros estados”.

Grande fã que sou da Sociedade do Sol - Solarize, já fiz a oficina deles do ASBC e conto essas experiência nas postagens “A casa sustentável é mais barata - parte 15 (Aquecedor Solar de Baixo Custo a R$35,00)” e “O projeto de aquecimento solar da Mangueira” e "Aquecedor Solar de baixo custo: faça o seu em casa". Mauro Lerer e Hans Rauschmayer são tão queridos, que permitiram que eu passasse 1 semana com eles em outros 2 projetos em Cieps cariocas, o que me levou a passar um fim de semana com a Permario... posto tudo assim que encerrar as postagens da RIO+20.




Não fiquei na fila do Rainbow Warrior, 2hrs em pé no sol para conhecer um barco não é exatamente o que eu considero um bom programa. Logo para quem trabalha embarcado e já é obrigado a permanecer semanas em navios.

reportagem do Globo sobre o Rainbow Warrior fala maravilhas em sustentabilidade. Acredito piamente que todas as boas práticas ambientais citadas sejam executadas, mas deixo bem claro que não são exclusivas ao navio do Greenpeace, todo navio deve reciclar o lixo, dessalinizar água, tratar o esgoto antes de lançar ao mar, etc. É lei e, se não obedecer, a Anvisa lacra e autua a embarcação ainda no Porto - o Comandante tem que manter todos os registros de acordo com a IMO, Marpol e Normam e esses registros estão sempre disponíveis no passadiço para o caso de ter que responder criminalmente - sai mais barato andar na linha.
Falo melhor sobre essas questões específicas justamente na postagem sobre meu antigo emprego “Vistoriando 3 navios indianos no Cais do Porto”, onde comento o que deve ter levado ao estranhamento do repórter: trabalhar embarcado é a maior lição de sustentabilidade que alguém pode receber, você não tem para onde correr e depende do seu vizinho. Quem mora-trabalha em edifício equivoca-se ao acreditar que seus dejetos evaporam magicamente e que a comida vem do supermercado.
As pessoas se iludem achando que o lixo, as fezes e a poluição são jogados fora. Nada disso, nós jogamos tudo é para dentro. E agora, esses resíduos acumulados se voltam contra nós.


Puxei um dos gringos do Greenpeace num canto e, acostumada aos petroleiros, perguntei porque o mastro da embarcação é tão alto, o gringo (que orientava os voluntários) respondeu o óbvio: “porque velejamos e precisamos de velas grandes para aproveitar o vento ao máximo”. Não resisti e perguntei se havia algum motor de propulsão a óleo, ou solar, eólico, etc. Disse que não, que apenas velejavam, mas que usavam sim um pouco de diesel na sala de máquinas. Imagino que para os geradores.
Explicou não usarem tecnologias modernas e limpas, como a solar, por falta de legislação aprovando, quando já existem embarcações autossuficientes energeticamente. Talvez as embarcações autossuficientes, apesar do mesmo calado, não saiam da faixa costeira e o gerador a diesel ainda seja uma exigência de segurança. Ou as mesmas também tenham gerador a diesel para uma emergência.





Pela primeira vez vi para onde vai o dinheiro dos meus impostos, se a ideia era mostrar que o Governo sabe falar de sustentabilidade, nossas autoridades finalmente marcaram um gol. O imenso stand do Ministério da Ciência e Tecnologia inteirinho construído em pallet reaproveitado – ótimo gancho no Cais do Porto, onde tantos pallets apodrecem na chuva.





Os programas governamentais de fomento à construção sustentável, pela captação de águas pluviais e irrigação por gotejamento:


Gostou? Faz em casa, é fácil:
A casa sustentável é mais barata - parte 07 (pallets e reels)
A casa sustentável é mais barata - parte 06 (captação de águas pluviais)
A casa sustentável é mais barata - parte 11 (irrigação por gotejamento)




O Espaço Biomas do Brasil com uma sala para Imersão Amazônica e a maravilhosa exposição de fotos por Bioma brasileiro, o fotógrafo da National Grographic, Luciano Candisani, citado igualmente no Planeta Sustentável:






O arroz vermelho pantaneiro já andou por aqui numa postagem exclusiva sobre arroz: Arroz: branco, integral, transgênico e temperos prontos - eu compro dele à granel e biodinâmico, a melhor coisa.





O stand da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro em parceria com o 6º Ofício de Registros de Títulos e Documentos, instruindo à população sobre como adquirir a posse de suas terras e lembrando que a moradia é um direito.
Comunidades como o Cantagalo e Vale Encantado, citado no Guia do Slow Food carioca como exemplo de resgate em cultivos locais, foram beneficiadas com a posse de suas terras.
Para conhecer mais sobre esse programa, visite o site do Instituto Novo Brasil pelo Carimbo Solidário.
Observe que tanto no Vale da Esperança, quanto no Complexo do Alemão a questão da agricultura familiar passa pela posse da terra.

Territórios Digitais, conectando o Brasil Rural através das Casas Digitais, importante: quem decide se deve ou não ter uma casa digital é a própria comunidade, o Governo só entra com a infra.


O stand do Departamento de Living Design da PUC-Rio, ao ar livre e em bambu. Destaque para a bambucicleta e para as técnicas de uso do barro na conservação de alimentos:




Os móveis e bancos em papelão prensado, biodecompõe em 2 meses:





A anchoíta do Instituto de Oceanografia da FURG, que já está sendo usada na merenda escolar em substituição ao atum e sardinha, ameaçados e por vezes endefeso.
A Anchoíta saiu na Revista Época em reportagem sobre o enlatado verde da RIO+20.



O jardim vertical da Favo Verde com base em fibra de coco:



Os mais do que necessários adesivos recicláveis da Adespec, adesivos são lixo cinza e não reciclam normalmente, leia mais em "Lixo Cinza" e "O mito da embalagem sustentável: manual básico de reciclagem"



O barco escolar das crianças ribeirinhas da Amazônia, movido à energia solar com sua placa fotovoltaica, no stand da Ideal em parceria com a America do sol:



O brinde da Biotechnos, um sabão para limpeza feito a partir de gordura animal reaproveitada e os livrinhos de cordel com temática ambiental do Instituto Nacional do Semiárido.



O container da Novociclo e o pessoal da Revistaecoturismo

As bicicletas elétricas e demais engenhocas, incluindo um ventilador com base em madeira, cuja engrenagem não esquenta, da Ecostart Mobilidade Sustentável

Achado: um folder da Bread Houses Network perdido e largado num stand abandonado, cuja missão é capacitar comunidades pobres a fazer seu pão em casa, economizando na renda familiar e resgatando a tradição do pão doméstico.
Não conhecia a ideia, mas me lembrou Neide Rigo e seus amigos padeiros franceses lá no Senegal aproveitando as farinhas locais e capacitando as mulheres senegalesas em seus trajes multicoloridos.

Instituto Cabruca, cabrucando o futuro e cooperativando as comunidades do cacau cabruca.

A parceria do Cempre com o SESCOOP , nos informando de quase todas as cooperativas desse país continental onde o trabalho informal é a regra.

O Grupo de Estudos em Agrobiodiversidade (GEA) com parcerias do Via Campesina , ASPTA e Terra de Direitos

A sugestão de uso de cal+cloro ou cravo da Índia batido com água no combate à dengue no stand do INPA, soluções caseiras e baratas.




Cultivando Água Boa
Nunca pensei que pudesse falar bem de uma hidrelétrica de grande porte, mas acontece.
Na véspera, na Cúpula, assistira à apresentação de Leonardo Boff sobre a Carta da Terra. Ao final, Boff chama ao palco um amigo, Nelton Miguel Friedrich, Diretor de Coordenação do Complexo de Itaipu. A apresentação dele foi impressionante e vai entrar na postagem da Cúpula dos Povos.
Mas, o stand de Itaipu estava mesmo é no Cais do Porto, então eu só pude ver do que ele falava, em outro lugar e no dia seguinte.

Criado em 2003, muito após a construção de Itaipu, as ações do Cultivando Água Boa envolvem parcerias institucionais, não governamentais, com setores dos movimentos sociais, com agricultores, pescadores, catadores, suinocultores, assentados, indígenas e instituições de ensino e pesquisa. O caráter plural e diversificado do Cultivando Água Boa garante a gestão compartilhada dos cuidados com o meio ambiente e com o ser humano e aponta para um caminho de esperança na construção coletiva de um lugar ambientalmente correto para se viver.

Recuperaram a mata ciliar, desenvolvem manejo e criação de animais ameaçados de extinção, promovem coletivos sociais que preservam a identidade indígena, mantém a piscicultura em suas águas, estimularam a agricultura familiar no entorno e desenvolvem plantio de espécies fitoterápicas, cujo uso pelos postos de saúde locais, reduziu em 27% o consumo de medicamentos convencionais:




O secador de ervas medicinais, guaco, hortelã, espinheira santa... Um armário cheirosíssimo:



Co-geração de energia através do metano gerado pelos suínos dos pequenos produtores, o biogás armazenado alimenta a Estação de tratamento local. O pequeno produtor não é apenas autossuficiente energeticamente, mas também vendedor de commodities energéticas. As fezes, antes descartadas nos rios para contaminar lençóis freáticos e poços artesianos (matando crianças de diarréia), tornam-se fonte de energia limpa e renda:



O pessoal da Nova Guarda Consultoria, empresa voltada exclusivamente ao Carnaval carioca. Fui recebida por um rapaz jovem e muito simpático, falou maravilhas da Vila Isabel. Ouvi com atenção, samba é assunto que muito me interessa - se não me viu puxando samba na Zona Portuária, vá na postagem “Então a sobrinha tetraneta do Major Daemon foi trabalhar e puxar samba na Zona Portuária”.
Defendem que os desfiles das Escolas de Samba podem ser mais sustentáveis, a começar pela reciclagem do material usado nos barracões, tratamentos dos efluentes gerados e até como reverter em renda às comunidades carentes.
Perguntei pelas penas de animais e fui informada de que a Vila já é a única escola de samba do Rio a só comprar de fornecedores sulafricanos que não matam os animais para arrancar suas penas.
Fiquei inteiramente arrepiada, imaginando a dor dos animais vivos ao ter pena por pena arrancada e muito sério, o rapaz me explicou que os outros criadores matam o animal antes. Disse que a Nova Guarda era a favor de abrir a discussão para o uso de materiais alternativos às penas, aliando esse conhecimento à criatividade dos carnavalescos, mas que o que pode ser feito hoje em dia é reaproveitar as penas ao máximo. Mostrou a fantasia de penas pretas do stand, que já foram brancas, amarelas, azuis, verdes, vermelhas, roxas e só então tingidas de preto muitos carnavais depois.
Na foto abaixo, o que parece uma pena com estampa de onça, é um tecido endurecido.




A sacola biobioplástica compostável da Biomater
Esqueça tudo o que você sabe sobre plásticos oxibiodegradáveis. Está tudo errado.
Sr. João Carlos, simpatia em pessoa, me deu uma aula:
Plásticos oxibiodegradáveis são tóxicos, pois levam inclusão de metais pesados para estabilização do polímero. Ao se oxibiodegradarem liberam os metais e nos intoxicam por inalação, intoxicam ao solo e água, se tiverem sido enterrados.
O único plástico realmente verde é o compostável de acordo com as normas da ABNT NBR 15.448 , europeia EM 13.432 e americana ASTMD 6400.

As certificações abaixo:


Perguntei a ele se eram de milho transgênico e ele me explicou que existe um pacto entre os fabricantes sérios de não usar nenhum cultivo transgênico. Torci o nariz e ele não perdeu tempo, me mostrou que faz suas sacolas com mandioca orgânica e certificada pelo ECOCERT:


E a sacola é ótima, ele me deu uma, muito resistente. Pedi para ele segurar uma ponta e puxei da outra, a sacola nem se mexeu. Não esgarça nem rasga.
Em tempo, sacolas plásticas, sejam em petróleo ou mandioca orgânica, são apenas um paliativo. Leve sempre sua ecobag ou acondicione tudo em caixas de papelão na mala do carro.





4 comentários:

Anônimo disse...

Agora entendo porque você acha a profissão de secretária deplorável...
Acho que as áreas envolvidas e que desenvolvem trabalho relativo ao meio ambiente têm obrigação de incluir a sobrevivência dos animais encontrando alternativas que prescindam deles. Penas em fantasias é crueldade, pura diversão. Absurdo!
Ana - Araça

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Não fala assim, vai...
Não acho deplorável, só detestei qdo exerci. Não era a minha...
Mas respeito profundamente quem executa, secretárias são operárias como cozinheiras, professoras, técnicas de plataforma...

bjs :-)

Marilia disse...

Carol,
assisti ao vídeo e achei fantástico o que estão fazendo! Nossa, muito legal ver tudo o que está acontecendo. Fico muito feliz de estares compartilhando com a gente.
Tomei a liberdade de citar o teu blog no meu para recomendar que assistam ao vídeo tb!
Beijo,
Marília

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Marília, fica à vontade.
Feliz Aniversário :-)


Pessoal, havia esquecido 2 iniciativas, a Adespec e Favo verde, já incluí as duas. Maravilhosas tb.