terça-feira, 23 de outubro de 2012

Boteco, o filme

Esse blog adora um botequim, eles já apareceram aqui em várias postagens como a do Guia Carioca do Slow Food.
O brasileiro nem percebe, tão incorporados estão os botequins ao nosso dia a dia, mas o boteco é a nossa maior herança gastronômica. É o primo pobre da taverna europeia, é o armazém de secos e molhados que colocou umas mesinhas para os clientes bebericarem o vinho de barril com uns tremoços e azeitonas vendidos a granel. Saiu o vinho de pipa e entrou a caninha de alambique, ganhamos todos.

Muito bacana, 200 anos após a saída corte imperial, ver que há tanta influência nordestina e mineira brigando ombro a ombro com os bolinhos de bacalhau e salsichões alemães, com tantos petiscos elaborados em panelas de barro e pedra sabão, servidos em telhas e cuias, valorizando as comidas "menos nobres" como bucho, rins, raízes, feijões e pimentas frescas.

O primeiro lugar onde comi inhame e provei cachaça foi num bar do Rio, Academia da Cachaça, minha mãe não comprava dos dois, considerados sem refinamento na época. Muitos anos depois, vi minha geração resgatar essas tradições e valorizar lugares como a Feira de São Cristóvão, igualmente esquecido.

Boteco de verdade é cultura e de acordo com o documentarista Ivan Dias, português de nascimento, estão em extinção sob risco de virarem bares da moda, que imitam justamente os velhos botequins com seus móveis de madeira, paredes de azulejo e culinária típica. Uma pena.

São Paulo é uma cidade basicamente italiana, com alguns guetos orientais e árabes, mas a influência italiana fala mais alto do que todas as outras, mesmo sendo muito cosmopolita. Talvez o paulista nem perceba, mas, apesar de falar português, sua alma é mais italiana do que portuguesa.

No Rio, por ter sido sede do Império e residência da Família Real, a história é outra, a influência portuguesa é tanta na cidade que, assim, como os paulistas, tampouco percebemos a colonização que se estende das pedras (portuguesas) do calçamento ao estilo colonial (português) de todas as nossas construções tombadas. Os bairros mais bonitos do Rio são justamente aqueles cheios de sobradinhos em estilo colonial, como Lisboa.

A comida portuguesa se encontra de todas as formas pela cidade, desde o boteco mais pé sujo com suas moelas e dobradinhas expostas em vitrines quentes ao restaurante mais sofisticado e caro da cidade, o Antiquarius, um restaurante basicamente português.

A Cadeg, nosso Mercado Municipal, em Benfica, bairro de subúrbio que, junto com São Cristóvão, é justamente reduto da colônia portuguesa que veio para cá trabalhar nas feiras livres e levantaram a Cadeg pela necessidade de distribuição das hortaliças, é um pólo onde se come bem e barato.

E o prato tradicional da cidade não poderia ser outro a não ser a Feijoada, encontrada em todos os nossos muitos botequins e restaurantes populares. Junto com o Cozido, que em alguns lugares ainda é servido com seu nome original “Cozido à portuguesa” ou “Cozido a alentejana”, é a minha comida favorita entre todas.



Resistência portuguesa

Filme trás drama de botequins portugueses, pressionados pelos bares da moda e a dificuldade de se reinventarem.

Os botequins portugueses estão perdendo espaço para bares da moda e podem estar com os dias contados. A conclusão é do diretor português Ivan Dias, que passou semanas no Rio filmando o documentário “Boteco”. O foco do filme são os bares de portugueses na cidade.

“Não é um filme sobre comida. A comida é apenas um canal”, conta Ivan. “Contamos a história da imigração portuguesa para o Brasil através de seus botequins”, diz.  Ivan teme que, em alguns anos, os botequins fiquem “tão na moda” que passem a ser caros, luxuosos.
“Vamos tentar fazer com que não seja assim”, diz. “Uma parte da história de Portugal seria perdida. Uma parte da história do Brasil também”.

Para o filme foram selecionados 11 botecos. Os critérios foram seus proprietários, a comida e a marca forte do lugar. Apesar de todos serem portugueses, são bem diferentes entre si. “A única coisa que os une é o bolinho de bacalhau”, diz.

Botecos portugueses moderninhos ou com donos brasileiros também ficaram fora da lista. Só entraram aqueles que ainda pertencem aos seus donos originais ou a seus descendentes. “Tem muito botequim com nome português que hoje é de cearense”, conta Ivan.

Os botequins do filme são chamados por ele de “botecos da resistência”, já que os modismos roubaram o espaço das casas portuguesas tradicionais. Para Ivan, seus donos não querem nem saberiam se reinventar. “A vida deles é aquilo. É gente que trabalhou a vida toda e não sabe fazer mais nada, mesmo com dinheiro no bolso.”




A lista TOP10 de Ivan Dias:

Vinte e Oito, Rua Barão de São Felix 28 (Gamboa)
Melhor pedida: Cabrito – “Seria um ótimo cabrito mesmo em um restaurante de ótimos padrões em Portugal”, diz Ivan Dias.

Varnhagem, Praça Varnhagem 14ª (Tijuca)
Melhor pedida: Feijoada ou rabada – “A feijoada de Dona Natalina é maravilhosa e o Guilherme Studart, do Rio Botequim, é freguês.

Pavão Azul, Rua Hilário de Gouveia 71 (Copacabana) - consta do Guia Slow Food
Melhor pedida: Pataniscas – “As donas, Vera e Beth, conservaram a maneira tradicional de se fazer pataniscas de bacalhau. São tão boas quanto as de Portugal.”

Temporal, Mercado São Pedro (Niterói)
Melhor pedida: Peixe frito
“Você compra o peixe no Mercado de Peixe, lá em Niterói, e frita no Temporal. Não tem ciência. O Manuel pega o peixe, mete na panela e fica lá, acompanhando da sua cervejinha e do seu cigarrinho”.

Tasca do Edgar, Rua Mário Portela 16 (Laranjeiras)
Melhor pedida: Pastel ou rabada com agrião
“A rabada é maravilhosa e o dono, Seu Edgar, é um dos poucos portugueses que não torce pelo Vasco. No boteco dele tem uma bandeira do Fluminense enorme.”

Bar Brotinho, Rua Garibaldi 13 (Tijuca)
Melhor pedida: Sardinha frita
“Ninguém conhece o lugar como Bar Brotinho. É o bar da Dona Maria”, continua Ivan Dias. “Aos 92 anos, ela conta sobre sua vinda de barco para o Brasil, como criou os filhos... com o português de Portugal exatamente igual, como se estivesse na aldeia dela.”

Jobi, Av. Ataulfo de Paiva 1.166 (Leblon)
Melhor pedida: Empada
“A fama de rabugento do português é só uma forma de encarar o cliente malandro carioca”, diz Ivan, que costuma ver “sorrisos esparramados” no botafoguense Narciso, um dos donos do botequim.

Bar do Ferreira, Rua João Lira 148 (Leblon)
Melhor pedida: As piadas do Ferreira
“Tem vários petiscos: croquete, bolinho de aipim. São bons, mas o grande diferencial são as piadas que o Ferreira conta.”

Gruta de Santo Antônio, Rua Silva Jardim 148 (Niterói) - consta do Guia Slow Food
Melhor pedida: Pataniscas
“A patanisca é diferente, com uma posta de bacalhau.”

Paz e Amor, Rua Garcia D´Ávila 173 (Ipanema)
Melhor pedida: Cozido
“É um ponto de encontro de trabalhadores e moradores da Zona Sul, que sentam juntos para comer o cozido ou o PF”, completa Ivan Dias.






Cachaça orgânica é ainda melhor do que a convencional, principalmente no dia seguinte.
Dica de quem reconhece de longe uma boa "branquinha": cachaça boa não tem cheiro de álcool gel, mas de caldo de cana e tampouco deve "arder na descida" . Cachaça boa não escorre líquida pelo copo, deixa uma marca oleosa nas paredes do vidro, já que não é de base alcóolica.
Se te abrirem uma garrafa com rótulo "original de Salinas, MG" e vc sentir cheiro de etanol, fuja porque "batizaram" essa garrafa. Se você ainda tiver coragem de provar, vai ver que "desce rasgando" e te mata de dor de cabeça no dia seguinte.
Leia melhor sobre Vinhos orgânicos e biodinâmicos e também sobre a Ypioca, cachaçaria certificada, que secou uma lagoa de reserva indígena. Para fazer seus drinks favoritos, vá na postagem "Eu bebo sim!"



As fotos acima, que tiram qualquer um de casa, são das caipirinhas do site oficial da Academia da Cachaça.
Peça a sua com melado ou rapadura e fique de consciência limpa - a caipirinha que leva o nome da casa é feita de limão galego e já vale a visita.


A primeira imagem é do balcão da Adéga Pérola, meu boteco favorito entre todos, em Copacabana e indicado pelo Guia Slow Food Carioca como um lugar onde tudo é bom.
A segunda é do inacreditável Bar do Bode Cheiroso, ao lado da minha casa no Maracanã, onde estou morando atualmente. A comida é ótima, tipicamente portuguesa de botequim, lota na hora do almoço com os funcionários de empresas sérias do bairro. E claro que eles têm uma imensa foto pendurada na parede do bode em questão.



Mais informação:
Eu bebo sim!
Compras a granel
Guia Slow Food para Cariocas
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Slow Food, vegetarianos, desmatamento e a indústria da soja
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2 comentários:

Marilia disse...

Que interessante tema para fazer um documentário! Os botecos são realmente ricos em história e cultura e espero que não sumam do cenário brasileiro.
Abs,
Marília

Antonio Alexandre Silva Neto disse...

Oi Carol,
Preciso de seu auxílio:
Você tem o cógigo "Poderá também gostar de:" e logo abaixo vem cinco colunas de gravuras com links de ppostagens que recomendamos.

Tentei copiar os códigos e inserir meus links mas não deu certo.

Poderia me ajudar nisso?

Grato.