terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Por uma infância sustentável

Eu não tenho filhos, mas convivo com muita gente que teve e vejo como é mais difícil implementar práticas sustentáveis em casas com crianças. As crianças são naturalmente mais permeáveis e tendem a incorporar melhor as práticas de reciclagem e educação ambiental, mas ao mesmo tempo, a propaganda estimula ao consumo desenfreado e está levando uma geração de brasileiros à obesidade precoce, principalmente em tempos de pais cumprindo jornada tripla e refeições prontas-lanches rápidos. É complicado e uma briga desigual.

Nas postagens sobre o Natal e a Festa Junina sustentável (ambas linkadas abaixo), você encontra muitas sugestões de atividades que substituem a ida ao shopping para comprar o presente, além de presentes e brindes sustentáveis e toda uma proposta assistencial que justifique as festas.

O mais importante é entender que se você passa o final de semana na frente da tv comendo biscoito de pacote, seu filho muito provavelmente repetirá seu exemplo. E essas atitudes, muitas vezes inconscientes, vão desde a escolha do animal de estimação, à reciclagem do lixo, envolvimento de todos da família em alguma atividade voluntária ou mesmo a construção do cardápio semanal servido no jantar.

O filme "Muito além do peso" trata das questões alimentares e deve ser assistido por todos, inclusive àqueles que como eu não têm filhos. É uma epidemia, um problema social que envolve todo mundo.

"Os dados são alarmantes: 56% das crianças brasileiras com menos de um ano bebem refrigerante – até mesmo em mamadeira. Um pacote de biscoito recheado equivale a oito pães franceses. Em cada cinco crianças obesas, quatro serão obesas no futuro. A maior parte das crianças brasileiras passa mais tempo em frente à televisão do que na escola. Redes de fast-food, em suas informações nutricionais, trocam a palavra “açúcar” por “carboidrato”.

Obesidade e sobrepeso carregam com elas outras doenças muito graves, que só víamos em adultos até então: diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer, doenças do coração, pulmão, entre outros.  É preciso sacudir as pessoas em relação a esse assunto. Os pais sabem que seu filho está com colesterol alto, mas acreditam que vai passar, que sempre vai acontecer a fase do estirão. Muitos acreditam que a genética é a grande vilã e que seus esforços de alimentar seus filhos serão em vão. Poucos sabem que o fator genético ocupa somente 10% dos casos e que a obesidade e o sobrepeso podem também ser domados com uma reeducação alimentar”."

Fonte: Canal Ibase, A maior epidemia infantil da história





O Instituto Akatu, uma instituição séria e que dispensa apresentações, desenvolve um excelente trabalho on line no site Akatu Mirim, interativo e explicando em lay out de game de onde vem-para onde vai o celular, a garrafinha de água, a lata de refrigerante, etc.
A própria cartilha do Akatu desenvolvida em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, “Consumismo infantil: na contramão da sustentabilidade” pode ser baixada gratuitamente e tanto o site interativo quanto a cartilha servem como excelente material didático para crianças de todas as idades.



O outro lado da moeda:

Para que um modelo de produção injusto e insustentável se mantenha, não são apenas as crianças ricas as afetadas, as pobres pagam uma conta ainda mais cara, em desnutrição, baixos índices de escolaridade, trabalho escravo-insalubre, prostituição infantil e claro, nenhum acesso ao consumo dos produtos anunciados nos canais da tv.

Uma forma inteligente de mostrar que nem todas as crianças têm acesso às mesmas oportunidades é apresentar o excelente trabalho do Repórter Brasil na página Meia Infância, com as estatísticas, histórias e fotos de crianças indígenas prostituídas, trabalhando em carvoarias, matadouros e canaviais de todo país.


Pensando nisso, deixo mais 2 dicas de presentes que podem ser comprados no comércio convencional, além das muitas já listadas no Natal Sustentável, seguem:


O site de minha velha amiga Ana Carolina Trotta, Replay Brechó Virtual - com roupinhas, fantasias e muitos jogos infanto-juvenis, tudo em segunda mão e ótimo estado. Eu mesma ando de olho num "War" vendido por lá!
Ana Carolina e todos de nossa turma fomos sortudos, tivemos infância sem internet, íamos ao colégio de bicicleta e refrigerante era coisa servida só nos finais de semana.
O Replay tem página no Face: https://www.facebook.com/ReplayBrecho


As muitas lojas desse país que vendem produtos produzidos de forma justa, em cooperativa incluindo pessoas à margem do mercado de trabalho, reaproveitando material reciclável e fomentando todo o comércio "justo" tão em moda no exterior - mas que não emplaca nesse país louco por uma quinquilharia chinesa.


Katia Metello, leitora desse site, foi à luta e está fazendo sua parte com uma lojinha em Itaipava, região serrana do Rio.
Olha que linda a loja dela, Atelier O Quarto dos Sonhos, e como a proposta de trabalho é bacana:





"Em 1996 minha primeira filha a caminho, eu queria algo especial para o quartinho dela, que tivesse personalidade. Eu queria fugir dos bordados à máquina, resgatando o "feito à mão pela vovó" e nada de tons pastéis. Por isso pedi a minha mãe que costurasse algumas peças e assim surgiu o Atelier O Quarto dos Sonhos. Eu e minha mãe bolávamos para amigas e familiares os quartos dos bebês e logo depois das crianças já crescidas. Assim íamos acompanhando o desenvolvimento dos "nossos" bebês. Fugindo sempre dos temas já batidos e do tradicional rosa e azul, tudo aqui era desenhado à mão para cada cliente. É possível realizar qualquer sonho, como incluir o mascote da família, o time do pai, o desenho do irmãozinho, o tio rockeiro e tudo mais que imaginar! A experiência de mãe que eu ganhei com duas meninas e todas as clientes virou uma base que passo para todas as mães iniciantes - é possível decorar, reaproveitando móveis, reciclando o que se tem, dando um up no vizu, sem acabar com tutu - brincadeira a parte - é nossa consciência de fazer parte do mundo e fazer o bem, ajudar as pessoas e com transparência. Já cansei de dizer: "não compra meu edredon de berço pois a sua casa é quente demais, não vai usar nunca!" Crescemos pelo boca-a-boca das clientes e da confiança que depositavam em nós. Já tive cliente que no terceiro quarto conosco só ligou para avisar que estava grávida e para nós bolarmos tudo pra ela, diferente do que já existia, a única exigência. Crescer também significa aumentar a produção, mas sem cair a qualidade. Temos horror a essa coisa massificada de produção que explora e definha as pessoas. Eu queria pagar direito, tratar bem e ter boas pessoas por perto. Então busquei pessoas com dons de bordar, costurar e tricotar, mas que possuem dificuldades para o trabalho, como deficientes, ou com filhos deficientes, senhoras aposentadas, ou donas-de-cada que moram em locais de acesso difícil. Fui mostrando o trabalho e encomendando, ensinando a elas e elas a mim. Hoje muitas mãos estão comigo junto, e sei que posso contar com elas sempre, pro que der e vier. Tem gente até de uma igrejinha lá do sul do país bordando pra gente. Somos uma família e amamos o que fazemos. Esse trabalho prazeroso e lindo deu a muitas delas vontade de viver e um dinheiro a mais que ajuda sempre. E faço questão de pagar adiantado e sempre acima do mercado, para valorizar o que elas fazem com tanto amor, para nós. Eu e minha mãe continuamos a fazer de tudo- desenhos, corte, costura, atendimento e bordar. E estamos felizes por mais essa etapa de ter o atelier e a loja em Itaipava. Ela é toda azul, como um sonho no céu. E quem entra lá fica nas nuvens! Me sinto uma previlegiada de poder fazer o que se ama, ajudar as pessoas e ao planeta de alguma forma. Durmo com sorriso na boca todos os dias por isso! E agradeço a todas as pessoas que me proporcionam esse sorriso- minha mãe, as parceiras artesãs, as clientes e a minha família, que sempre me apoiou em tudo. Obrigada!!!"

Estamos no Shopping Valley- Est. União Indústria 9200 -lj6a (em frente a papelaria) - Itaipava
seg a sex - 10 as 17h - sáb. das 10 as 14h - (21)82723268



E pense também que você não está sozinho nessa, a reportagem e manifestação linkados abaixo, não me deixam mentir:


Ministério do Meio Ambiente reúne várias instâncias do governo para discutir o consumismo infantil

RIO — Era uma vez... Reescrever a história da sociedade do século XXI dentro de um modelo economicamente equilibrado, socialmente mais justo e ambientalmente correto, tudo isso a partir das crianças. O objetivo ambicioso está no capítulo final de um projeto que começou com a publicação da cartilha “Consumismo infantil: na contramão da sustentabilidade”, lançada este mês, e que ganhará corpo, em janeiro, com a formação de um Grupo de Trabalho Interministerial que se debruçará sobre o tema. Capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), o grupo contará, a princípio, com a participação dos ministérios da Educação e da Saúde e das secretarias de Direitos Humanos e do Consumidor. A ideia é coordenar ações e trabalhar questões que vão da obesidade infantil ao descarte de lixo, do compartilhamento de brinquedos à publicidade infantil.

— A importância do tema é óbvia, mas vem sendo tratada de maneira isolada pelos ministérios. O da Saúde trabalha no combate à obesidade infantil, com acordos para redução de sódio nos alimentos, por exemplo; o MEC trabalha no ensino fundamental educação para alimentação saudável; a Secretaria de Direitos Humanos, políticas afirmativas pelo bem estar da criança e contra o uso abusivo da propaganda e por aí vai. O que queremos com o grupo é trabalhar de maneira estruturada, com integração — explica Samyra Crespo, secretaria de Articulação Institucional do MMA.

Geração Rio 92 já é mais sustentável
Na avaliação de Samyra, o tema sustentabilidade ganhou uma aderência muito grande nas políticas públicas com a Rio+20. E apesar do desafio ser enorme, diz ela, é visível o avanço que houve da geração da primeira conferência do meio ambiente, a Rio 92, pra cá:
— A população adulta, que discutiu esse tema nos bancos escolares, hoje tem outra sensibilidade em relação às questões ambientais. Mas o tema ainda é um pouco quebra-cabeça para essas pessoas, que se preocupam com a natureza, mas como agem dentro de casa? Queremos é aproximar as realidades e deixar esse cidadão mais íntegro.
Angélica Goulart, secretária nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, destaca que o olhar especial sobre a infância se dá pela possibilidade que esse período representa de real mudança de cultura:
— Família, sociedade, governo têm potencial de contribuir para essa transformação em direção a um mundo melhor. Educação em direitos humanos é um tripé para alcançar uma sociedade mais sustentável. Como ter respeito à natureza se não respeito às outras pessoas? É preciso consumir com a mesma responsabilidade com a qual a gente se relaciona com as coisas da natureza, os bens e as pessoas. Não podemos permitir a naturalização da violência entendida como uso inadequado do poder do mais forte contra o mais fraco, seja físico ou simbólico.
Angélica destaca que as crianças já têm uma sabedoria natural:
Elas estão muito mais abertas ao mundo, prestam mais atenção e observam as regras, afinal elas são chamadas o tempo todo a fazê-lo. Se durante a infância propiciamos uma experiência viva nessa direção, teremos adultos mais sensíveis, mais respeitosos .
Para Ana Wilheim, diretora executiva do Instituto Akatu — pelo Consumo Consciente, a formação de um grupo de trabalho sobre “Consumismo infantil” é de extrema importância:
No geral, as políticas públicas fragmentam as crianças. É preciso tratá-las de forma integral com vistas às necessidades que têm e considerando que elas estão em desenvolvimento. E o consumo tem sido fonte de uma ansiedade pelo “ter” que nunca se satisfaz e se reflete na obesidade, em doenças psíquicas. É na escola, na convivência do coletivo, que se resgata valores como compartilhar, trocar e estimular o criativo. E a criança acaba contaminando o adulto. A questão é que o modelo atual não está trazendo felicidade, mas doença.
Juliana Pereira, secretária Nacional do Consumidor (Senacon), pretende oferecer a esse cidadão engajado em práticas conscientes a possibilidade de exercê-las, exigindo do mercado as condições para tanto:
Todo cidadão está num contexto social. Estamos num momento de ampliação do acesso, em que é preciso construir consciência desse consumo e exigir do mercado que ofereça possibilidade para que o consumidor exerça esse engajamento.
Coordenadora de mobilização do Instituto Alana, Gabriela Vuolo, diz que a recém-lançada cartilha “Consumismo infantil: na contramão da sustentabilidade”, do qual o instituto é coautor, foi o primeiro passo na direção do trabalho do grupo interministerial. O texto tem como objetivo orientar pais e educadores a aplicar conceitos no dia a dia das crianças que freiem excessos e hábitos poucos saudáveis:
O consumismo não é um problema de um motivo só. Os pais têm um papel importante de estabelecer limites e dar exemplos, para não levar os filhos a uma lógica consumista sem perceber. A publicidade também tem um papel muito importante nesse contexto. Pesquisas mostram que até 12 anos de idade as crianças não diferenciam a publicidade da programação. Essa vulnerabilidade tem que ser respeitada.

Publicidade é tema a ser debatido
O impacto da publicidade na vida da criança é o tema de um estudo que a Senacon está fazendo em parceria com a Unesco, revela Juliana:
— A Senacon tem o compromisso de levar esse debate tecnicamente e há mais de um ano firmou parceria com a Unesco e passou a realizar uma análise científica e acadêmica desse impacto, com os maiores especialistas no tema. Além disso, estamos fazendo pesquisa de campo e estudo de várias regulações mundo afora. Quando estiver pronto, vamos abrir a discussão com a sociedade e a indústria será chamada.

Um estudo técnico é justamente o que defende o vice-presidente da Associação Brasileira de Anunciantes (ABA) Rafael Sampaio, usando como exemplo o que foi feito na Inglaterra sobre obesidade. Ele concorda que a publicidade é um dos temas a serem discutidos quando se fala de consumismo infantil. Mas discorda da forma como esse debate tem sido feito:
— O que temos hoje é um embate, cada um defende a sua posição. Como a publicidade é uma coisa fácil de controlar, querem começar a tratar o problema por ela. Se as soluções não são geradas de maneira coletiva, não funcionam — diz Sampaio, destacando que o consumismo está no gene humano — Vivemos 15 mil anos de escassez, o que quer dizer que o acúmulo era uma questão de sobrevivência. Somos descendentes destes que conseguiram acumular e sobreviver. A questão do excesso é recente, não tem um século. Viraram a chave da sociedade da escassez para o excesso e ela não estava preparada para enfrentar isso. A genética diz que a felicidade é ter mais. Esse será um processo demorado. É preciso uma mudança na psique humana.


Mais informação: site oficial Akatu



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2 comentários:

Anne disse...

Carol, estou consumindo seu blog ha dias, que maravilha de conteúdo! Gostaria de compartilhar com você, em especial nessa postagem, o conteúdo de um movimento que participo - o Infância Livre de Consumismo.
Sou blogueira e mãe de dois meninos. Estou cada vez mais preocupada com as questões alarmantes do impacto do consumismo na nossa vida, e em total processo de transformação.
Em casa, na vida, com os meninos...
Seu blog é uma inspiração!
Um beijo

www.infancialivredeconsumismo.com

www.superduper.com.br

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi Anne, parabéns, vi que vc curte muitos blogs interessantes. Apareça sempre, tenho q te visitar com mais calma tb!
Abs :-)