quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Na Jureia: o mercado de peixes da colônia de pescadores de Peruíbe


É uma pena que a cidade de Peruíbe traga um estigma pejorativo de "balneário de farofeiro", eu adorei tudo, o comércio é excelente, com todos os bancos, hipermercados e lojas de departamento daqui do Rio, aliado ao clima de cidade pequena e praiana.

Na postagem sobre a boa comida baiana de beira de estrada, faço uma menção à mania local de pintar tudo de azul, dos muros à edificações inteiras. Acredito que seja a presença inconsciente do mar na vida dessas pessoas. Peruíbe, que em tupiguarani significa "rio de tubarões", fica a 1hr e meia da Jureia, é a cidade mais próxima do alojamento, era para lá que corria sempre que precisava de alguma coisa, mesmo que fosse apenas para ficar um pouco sozinha.


Um dos lugares mais interessantes é o mercado de peixe da colônia de pescadores, sempre cheio e muito limpo. A colônia é forte como um sindicato e permite que os moradores tirem seus registros de pesca e navegação a um preço muito mais baixo do que o cobrado normalmente. Muitos Guarda-Parques e monitores ambientais tiraram seus registros de Mestre Arraes assim.
Seguem as fotos abaixo.

São Pedro, o único pescador entre os apóstolos, abençoando todo mundo:






Polvo, lula, camarão, manjubinha, sardinha, salmão, cação, caranguejo, mexilhão, etc:










A posta de cação inteira (sem limpar e "desossar") parece que está viva, dá até para imaginar o nado serpenteado ao som da trilha sonora de "Tubarão":




O rio, que corta a cidade e deságua na praia, tem o deck dos pescadores exatamente atrás dos boxes do mercado, os plásticos coloridos extendidos no pier estão secando com as redes após serem limpos:





Não faço apologia ao bolinho de bacalhau (nem à moqueca), mas tirei uma tarde para ver o comércio de uma comunidade que sobrevive da pesca, os caiçaras. Independente da sua escolha alimentar, toda cultura tradicional tem que ser respeitada.
Acredito que toda receita possa ser adaptada, a moqueca de banana da terra com palmito de açaí e pupunha é inclusive mais gostosa do que as de peixe, mas antes de partir para qualquer variação, o ser humano tem que comer o que está disponível.


Para entender as questões de overfishing e o extermínio dos cardumes e comunidades pesqueiras tradicionais, leia mais:
O mar não está para peixe: Slow Fish ou o fim da linha
Tubalhau, o bacalhau de tubarão protegido por lei e pescado em Fernando de Noronha


Mais informação:

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Na Jureia: caldos e chips

Combina muito.
Em geral, se toma caldo com pão. Eu não sou muito adepta, acho que incha. Dilata o estômago.
Um dia, lendo o blog da Syl, vi que ela tomou um caldo de abóbora por cima de uns chips de inhame, se não me engano. Adorei a ideia.

No alojamento, ganhamos uma espécie de "cesta básica" da Fundação Florestal. Com ítens perecíveis e não perecíveis, como: arroz, feijão, macarrão, polpa de tomate, frango congelado, carne congelada, farinha, açúcar, sal, etc.

Eu adoro caldo, alimenta muito, é barato e quase todo mundo gosta. A vantagem de se fazer um bom caldo é que os ingredientes rendem muito mais do que servidos separadamente, as pessoas ingerem mais legumes e menos carne, além de proporcionar uma digestão muito mais rápida do que um prato convencional.
Basta observar que com 1 único peito de frango, se faz uma panela grande de canja de galinha. Se o mesmo peito de frango fosse servido com os outros ingredientes da canja, arroz e cenoura, em prato feito, o rendimento seria muito menor e a digestão mais lenta. Além de uma imensa vantagem, no caldo todas as partes não nobres das carnes podem ser aproveitadas e o mesmo se aplica à vegetais que não estejam estalando de frescos. E todos os caldos tradicionais podem ser feitos sem qualquer derivado animal, cabe ao freguês escolher o que vai colocar no seu caldeirão.

Na Jureia, eu cozinhei 2 caldos: canja (que eu prefiro com batata doce e hortelã) e caldo verde de batata baroa (substituindo a batata inglesa, é mais saboroso e saudável). Ambos ficaram muito bons e as receitas estão disponíveis na postagem exclusiva sobre caldos linkada abaixo.

As cambuquiras da horta caseira de molho em água com vinagre para matar as larvas, esperando a canja ficar pronta:



Eu normalmente não cozinho em panela de teflon e alumínio, tampouco usaria arroz branco, carnes e vegetais não orgânicos ou mesmo óleo de soja, mas viajando vale tudo:



O canja no copo, ainda não havia prato fundo no alojamento, com as cambuquiras da horta caseira por cima:




Repare que no caldo verde só foram usadas 2 linguiças calabresas, 3 batatas baroas e 1 maço pequeno de couve. Custo total: R$5,00


A couve, metade fatiada e metade inteira (para bater no liquidificador):


Variei e fiz à moda de Cozido: refogando uma cabeça de alho espremido e cozinhando junto a carne com os legumes, nesse caso a baroa.


Depois de tudo refogado, basta cobrir com água e deixar ferver até a batata estar bem macia.



Não fotografei o resto, deu preguiça, mas não tem muita ciência.
Assim que a batata cozinhar, retire todas as batatas com uma escumadeira e bata no liquidificador com parte do caldo. Junte então a metade da couve não fatiada, rasgue algumas folhas maiores para facilitar. Leve tudo de volta à panela e deixe ferver por 5 minutos. Antes de servir, apague o fogo e junte a couve crua e fatiada, tampe a panela e deixe cozinhar apenas no bafo por outros 5 minutos. Prove o sal e sirva.
Fez muito sucesso.


Os chips foram comprados no mercadinho local e também combinaram bem com os caldos.




Tendo cheiro verde, manjericão, hortelã, alecrim, tomilho ou coentro a mão, não dispense. Fatie seus verdinhos frescos bem fininho e junte ao seu caldo depois do fogo apagado, como eu fiz com a metade fatiada da couve. As folinhas cozinham levemente sem ficarem murchas ou marrons, mantendo assim os nutrientes, perfume e sabor. Folha fresca é verde, se escurecer amarga.


As receitas:
Soja é desnecessário
Na Jureia: a horta caseira
Panela velha é que faz comida boa
Carnes orgânicas, o quê e como comer
Arroz branco, integral, transgênicos e temperos prontos
Sopas que amamos, para passar longe da comida de doente
Caldos, a tradição alimentar para muita gente e pouco recurso


Mais informação:
Se precisarem de mim, estou na Jureia

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Na Jureia: ovos de tubarão bambu e Oceanos de Jaques Perrin


Onde encontrar?
No Aquário de Peruíbe, onde se exibe o melhor documentário de vida marinha que já assisti, "Oceanos" de Jaques Perrin (com link do youtube).


Não aproveite o ensejo para montar um aquário. Aquários, salvo àqueles para espécies em extinção que precisam de reprodução assistida em cativeiro, são tão perversos quanto manter passarinhos em gaiolas.
E, palavra de quem já teve um, os peixes morrem numa proporção muito maior do que no seu habitat natural. Se gosta de aquários (eu adoro), monte um de plantas aquáticas - o visual é incrível, dá muito menos trabalho e os peixes agradecem.


Para saber mais sobre o convívio humano com as outras espécies do planeta:
Gaiolas vazias
A Libertação Animal
Zoológicos x Reservas
O nascimento da revolução pela colher
Equitação, hipismo e charretes são insustentáveis
Odeio Rodeio: fonte de muito sofrimento e prejuízo aos cofres públicos




Mais informação:
Se precisarem de mim, estou na Jureia
Tubalhau, o contrassenso de Fernando de Noronha

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Na Jureia: os Guarda-Parques e a doação de sangue para a esposa de um deles

Eles são os grandes personagens dessa viagem.
Sabem muito, de tudo, da vida principalmente. São ótimos, de muita simplicidade e praticidade. Não deu para fotografar todo mundo, fica para a próxima.

Seguem aqueles que mantém a casa em ordem:


Seu Edvaldo, bom de papo.



Seu "Sacola", gente boa. O apelido se deve ao seu primeiro "emprego", entregador de marmita, chegava com as sacolas cheias e o povo anunciava "chegou o sacola".



Alessandro Coelho não é Guarda-Parque, começou como voluntário e no meio do Programa, já havia sido contratado como Monitor Ambiental. Faz 2 faculdades e, junto com a companheira, é dono de sex shop virtual, afinal "ninguém entende de sexo como coelhos."
Para comprar na sex shop virtual da família Coelho, vá no site da Rabbit´s Sex Shop, é compra segura e tem de tudo!



Seu Basílio, pai de 4 meninas, que ele cria sozinho. Muito sensível, perguntou meu signo. Respondi e ele na maior naturalidade: "sou pisciano, mais sentimental". Me atravessava pelo rio Guaraú quando fiquei hospedada no núcleo Arpoador. De poucas palavras, dizia sempre "Quem fala demais, dá bom dia à cavalo".








Seu Ilísio, a figuraça. É Ilísio com "I" mesmo. E me ensinou uma expressão ótima: "Abre o olho, estão se fazendo de morto para jantar o coveiro".



Noeli, não é Guarda-Parque, mas é casada com um (Seu Miguel) e mantém o alojamento em ordem, além de fazer uma comidinha deliciosa.



Salário de um Guarda Parque pelo último concurso? O mínimo.





Eu sou doadora regular, uma das minhas avós teve câncer e precisava de doações regulares. Eu era a única da família habilitada e as doações foram frequentes durante muitos anos. Mesmo após o falecimento de minha avó, mantive o hábito e continuei doando sangue regularmente.
Não custa nada, faz bem à saúde e mantém os bancos abastecidos. Espero nunca vir a precisar do estoque deles, mas faço a minha parte com enorme prazer.

A esposa de um Guarda Parque aposentado, Seu Leopoldo, está doente e precisou de doações de sangue para repor no banco de sangue em Santos, onde se trata.
Fomos em comitiva, um grupo de mais de 10 pessoas, passamos o dia nesse trajeto de ir e vir, além da espera no hemocentro.
Os colegas de profissão de Seu Leopoldo não podem doar, todos já tiveram alguma doença restritiva, como: malária, febre amarela, doença de chagas ou hepatite.

Eu não conhecia Santos, achei muito bonito, parecido com Niterói aqui no R.J.

Aline e Samuel, estagiária e funcionário da Fundação Florestal, doando sangue antes de mim.








Quando chegamos de volta, paramos para o melhor pão de queijo recheado de Peruíbe. Delícia, caiu bem e de vez em quando um pouco de catupiry e doce de leite, não matam ninguém.











Mais informação:
Na Jureia: trabalho de peão
Se precisarem de mim, estou na Jureia

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Na Jureia: a marcação no GPS do manguezal do rio Guaraú foi o melhor

De tudo que eu fiz na Jureia, sair rio Guaraú acima no barquinho de motor de popa, marcando os pontos escolhidos no GPS, foi o que mais gostei.
Primeiro por ser na água e em movimento e também por exigir exatidão e precisão. Depois, no computador, o mapa delineia-se perfeitamente, toda a equipe sente orgulho.
O mapeamento vai facilitar o lado mais feio do trabalho executado em áreas de proteção e preservação: acessar os pontos onde caçadores escondem armas, pescadores camuflam redes, etc.

Quando o monitor ambiental perguntou se estava achando difícil, tendo dificuldades com o GPS, o balanço da embarcação improvisada, o sol inclemente nas nossas cabeças e afins, até eu me surpreendi com minha resposta "Não, nasci para isso". E ante o espanto daqueles homens curtidos pelo sol e sal, que saem a campo de colete a prova de bala numa área proibida à população em geral, mas onde clandestinos aparecem para catar caranguejo, tranquilizei todo mundo "Não se preocupem comigo, estou em casa".
Esta aí uma coisa que faria todos os dias da minha vida, medição em campo.

O mangue fechado muito além da área permitida ao turismo, em muitas áreas foi necessário abrir o caminho a braço em pé no barquinho, não me assustou. Parecia um episódio antigo de Arquivo X, quando pesquisadores desaparecem misteriosamente no meio do nada, provavelmente devorados por um crocodilo imenso que só vive ali e a única evidência é obviamente a pranchetinha com o ponto do GPS anotado... Mas, brincadeiras à parte, foi ótimo, não aconteceu nada, todos os 3 tripulantes chegaram alegres no ponto de partida horas depois um pouco desidratados, mas com aquela sensação deliciosa de dever cumprido e tempo bem empregado.
Minhas costas e ombros descascaram, o protetor solar não aguentou, mas valeu muito a pena.
Foram 3 tardes de trabalho que vou lembrar para o resto da vida.


Você percebe que está no lugar certo quando um guarda parque te manda aferir um ponto e você ouve como resposta "Aqui é o Barranco do Jo-jo". E ninguém sabe quem foi o Jo-jo ou mesmo se existe um barranco mangue adentro a partir daquela curva do rio.



O lírio do brejo, lindo em flor, com cheiro de jasmim e dama da noite, um campo florido no meio do manguezal de água salobra:





















Hibiscus Permanbucensis, flor tão comum aqui no R.J. também. Sobrevive bem à dureza do manguezal no verão e ainda proporciona variedade de cor. Seu Marcos, monitor ambiental, ensina a voltar em setembro, na primavera, quando as orquídeas e bromélias da Mata Atlântica florescem ao mesmo tempo.





Outro ponto de marcação, a ponte de pedra. A ponte da época do Império, que era usada para atravessar aquelas terras do sem fim, mas que foi substituída pelo telégrafo. A ponte cortava o mangue desde a mata ciliar, tudo fincado em base de ferro, bases estas que até hoje estão enferrujando por lá.
E uma das avenidas principais da cidadezinha mais próxima chama-se justamente Av. do Telégrafo.



Um depósito de barcos numa clareira no meio do mangue.




Um porto improvisado, da época em que os barcos vinham ao mangue de Santos buscar as bananas cultivadas pelos caiçaras.



Risofora mangue, imensa, parece que vai levantar e sair andando a qualquer momento.



A "pata do elefante".




Para entrar e sair de um lugar desses, muitas vezes só abrindo caminho no braço.




E tendo que desatolar quando fica raso demais.



O último ponto a ser marcado, o objetivo final dessa empreitada toda: a bifurcação do Seu Avelino


Seu Avelino era um antigo morador do mangue, caiçara. Vivia completamente isolado numa casinha a 40 minutos desse ponto. Detalhe, para chegar nesse ponto específico de bifurcação, como um "trevo" no meio do manguezal, foram outras 2hrs desde a foz do rio.

A bifurcação do Seu Avelino propriamente dita, já mapeada no GPS, um braço que se abre no veio principal e só se entra em barco a remo.


O manguezal é um mundo, é o berçário do oceano, de uma beleza majestosa e incomparável. Todo brasileiro deveria ter pelo menos uma oportunidade de conhecer isso tudo. A foto que não fiz e agora me arrependo, um guará ameaçado de extinção sobrevoou nossas cabeças em seu tom de rosa inconfundível.


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