segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Todos cobaias: o mito da eficiência em transgenia

As questões abaixo tratam do problema dos trangênicos sob a ótica da saúde humana, que é importantísima. Levanto ainda outros problemas trazido pelos GMO hoje largamente incorporados na alimentação humana:
Todo transgênico é um flagelo sócio-ambiental, porque vincula a produção de sementes à agroindútria e não ao fazendeiro, o tornando cliente de uma semente que não se reproduz e pior, só vinga se cultivada com o agrotóxico produzido justamente pela mesma empresa, uma venda casada como outra qualquer - e proibida pelo Código Civil, que não regulamenta o cultivo, mas as transações comerciais, onde essa prática deveria se enquadrar.
Vou ainda mais longe, se um produtor rural decidir ficar à margem e cultivar suas próprias sementes, como seu antepassados fizeram por 10.000 anos, seu cultivo também será afetado pela polinização dos pássaros que não reconhecem cercas e pela água contaminada dos lençói freáticos.
Somos todos cobaias de uma tecnologia que não favorece à ninguém, exceto à monocultura da agroindústria, que leva pequenos produtores à falência, devasta biomas inteiros, polui nossas nascentes de água e ainda aumenta a favelização e desemprego nos grandes centro.
A transgenia é mais do que uma questão ambiental ou sanitária, é um flagelo social.


O fim da dúvida

Pela primeira vez na história foi realizado um estudo completo e de longo prazo para avaliar o efeito que um transgênico e um agrotóxico podem provocar sobre a saúde pública. Os resultados são alarmantes.


O transgênico testado foi o milho NK603, tolerante à aplicação do herbicida Roundup (característica presente em mais de 80% dos transgênicos alimentícios plantados no mundo), e o agrotóxico avaliado foi o próprio Roundup, o herbicida mais utilizado no planeta – ambos de propriedade da Monsanto. O milho em questão foi autorizado no Brasil em 2008 e está amplamente disseminado nas lavouras e alimentos industrializados, e o Roundup é também largamente utilizado em lavouras brasileiras, sobretudo as transgênicas.

O estudo foi realizado ao longo de 2 anos com 200 ratos de laboratório, nos quais foram avaliados mais de 100 parâmetros. Eles foram alimentados de três maneiras distintas: apenas com milho NK603, com milho NK603 tratado com Roundup e com milho não modificado geneticamente tratado com Roundup. As doses de milho transgênico (a partir de 11%) e de glifosato (0,1 ppb na água) utilizadas na dieta dos animais foram equivalentes àquelas a que está exposta a população norte-americana em sua alimentação cotidiana.

Os resultados revelam uma mortalidade mais alta e frequente quando se consome esses dois produtos, com efeitos hormonais não lineares e relacionados ao sexo. As fêmeas desenvolveram numerosos e significantes tumores mamários, além de problemas hipofisários e renais. Os machos morreram, em sua maioria, de graves deficiências crônicas hepato-renais.

O estudo, realizado pela equipe do professor Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen, na França, foi publicado ontem (19/09) em uma das mais importantes revistas científicas internacionais de toxicologia alimentar, a Food and Chemical Toxicology.


Segundo reportagem da AFP, Séralini afirmou que "O primeiro rato macho alimentado com OGM morreu um ano antes do rato indicador (que não se alimentou com OGM), enquanto a primeira fêmea, oito meses antes. No 17º mês foram observados cinco vezes mais machos mortos alimentados com 11% de milho (OGM)", explica o cientista. Os tumores aparecem nos machos até 600 dias antes de surgirem nos ratos indicadores (na pele e nos rins). No caso das fêmeas (tumores nas glândulas mamárias), aparecem, em média, 94 dias antes naquelas alimentadas com transgênicos.

O artigo da Food and Chemical Toxicology mostra imagens de ratos com tumores maiores do que bolas de pingue-pongue. As fotos também podem ser vistas em algumas das reportagens citadas ao final deste texto.
Séralini também explicou à AFP que "Com uma pequena dose de Roundup, que corresponde à quantidade que se pode encontrar na Bretanha (norte da França) durante a época em que se espalha este produto, são observados 2,5 vezes mais tumores mamários do que é normal".

De acordo com Séralini, os efeitos do milho NK603 só haviam sido analisados até agora em períodos de até três meses. No Brasil, a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) autoriza o plantio, a comercialização e o consumo de produtos transgênicos com base em estudos de curto prazo, apresentados pelas próprias empresas demandantes do registro.

O pesquisador informou ainda que esta é a primeira vez que o herbicida Roundup foi analisado em longo prazo. Até agora, somente seu princípio ativo (sem seus coadjuvantes) havia sido analisado durante mais de seis meses.

Um dado importante sobre esse estudo é que os pesquisadores trabalharam quase que na clandestinidade. Temendo a reação das empresas multinacionais sementeiras, suas mensagens eram criptografadas e não se falava ao telefone sobre o assunto. As sementes de milho, que são patenteadas, foram adquiridas através de uma escola agrícola canadense, plantadas, e o milho colhido foi então “importado” pelo porto francês de Le Havre para a fabricação dos croquetes que seriam servidos aos ratos.

A história e os resultados desse experimento foram descritos em um livro, de autoria do próprio Séralini, que será publicado na França em 26 de setembro sob o título “Tous Cobayes !” (Todos Cobaias!). Simultaneamente, será lançado um documentário, adaptado a partir do livro e dirigido por Jean-Paul Jaud.

Esse estudo coloca um fim à dúvida sobre os riscos que os alimentos transgênicos representam para a saúde da população e revela, de forma chocante, a frouxidão das agências sanitárias e de biossegurança em várias partes do mundo responsáveis pela avaliação e autorização desses produtos.

Com informações de:
EXCLUSIF. Oui, les OGM sont des poisons ! – Le Novel Observateur, 19/09/2012.

Referência do artigo:
"Long term toxicity of a Roundup herbicide and a Roundup-tolerant genetically modified maize". Food and Chemical Toxicology, Séralini G.E. et al. 2012.




Confira abaixo a entrevista com Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural, e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade de Santa Catarina – UFSC. É membro do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra, no Rio Grande do Sul.

Soja transgênica Intacta RR2 Pro. A ampliação dos transgênicos no Brasil. Entrevista com Leonardo Melgarejo 


“Não entendo como o conhecimento científico possa ser colocado antes a serviço das justificativas do que de críticas aos argumentos das empresas”, lamenta o engenheiro agrônomo. 


soja transgênica Intacta RR2 Pro, que causou polêmica entre os produtores do Mato Grosso, incorpora um novo trangene e resiste “a banhos de herbicidas à base de glifosato, como também carrega, em todas suas células, uma toxina que não está presente na soja convencional”, diz o engenheiro agrônomo, Leonardo Melgarejo, à IHU On-Line em entrevista concedida por e-mail. Para ele, a crítica dos produtores à Monsanto, por comercializar o produto antes da aprovação do mercado chinês, é “coerente”. “Os produtores se preocupam com a contaminação das cargas destinadas à exportação, que poderiam ser rejeitadas pelo maior mercado consumidor da soja brasileira. As implicações seriam enormes, pois, uma vez liberado o plantio, a contaminação seria inevitável”, salienta.
De acordo com Melgarejo, a Intacta RR2 Pro promete reduzir o uso de inseticidas e combater lagartas que “prejudicam” a produção. Entretanto, esclarece, “o que costuma ocorrer é que os insetos-alvo terminam adquirindo resistência, e, mesmo antes disso, outros insetos que eram pragas secundárias crescem em importância, exigindo tratamentos químicos que antes não eram realizados”. Representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA na CTNBio, o agrônomo ressalta que “não há sequer um acompanhamento” de plantio transgênico e não transgênico. “Dispomos apenas de estimativas com base na comercialização de sementes, que ocultam dados relativos ao contrabando e ao uso de sementes próprias”. E dispara: “Ademais, o milho e a soja entram em praticamente todas as cadeias de alimentos processados. A única maneira de assegurar ausência ou pelo menos redução no consumo de transgênicos, isso na alimentação de qualquer família, reside na aproximação com redes de produtores orgânicos”.
Leonardo Melgarejo é engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural, e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade de Santa Catarina – UFSC. É membro do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra, no Rio Grande do Sul.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais as características da soja transgênica Intacta RR2 Pro? O que a
diferencia das demais variedades transgênicas? 
Leonardo Melgarejo – Ela incorpora um novo transgene, que gera toxinas que matam lagartas. Esta produção de toxinas (tecnologia BT) se soma à tolerância ao glifosato (tecnologia HT), característica apresentada pela soja RR. Isso significa que a soja RR2 não apenas resiste a banhos de herbicidas à base de glifosato, como também carrega, em todas suas células, uma toxina que não está presente na soja convencional.


IHU On-Line – Recentemente a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) criticou a Monsanto por comercializar sua nova variedade transgênica de soja, a Intacta RR2 Pro, antes da liberação para importação pela China. Como vê essa crítica?
Leonardo Melgarejo – Trata-se de posição coerente com os riscos de mercado. Os produtores se preocupam com a contaminação das cargas destinadas à exportação, que poderiam ser rejeitadas pelo maior mercado consumidor da soja brasileira. As implicações seriam enormes, pois, uma vez liberado o plantio, a contaminação seria inevitável. A utilização das mesmas máquinas para colheita, secagem e transporte fatalmente misturaria os grãos levando à sua recusa em alguns dos portos de chegada. Isso seria especialmente grave no caso do mercado chinês. A China, que é o principal comprador da soja brasileira, ainda não se posicionou quanto à proteína tóxica Cry1Ac, presente nesta soja, e até o momento não demonstra interesse em adquirir a soja RR2. Portanto, ela não seria aceita. Temos precedentes de devolução de produtos contaminados pelo mercado chinês, portanto seria temerário correr riscos em situação de tamanha relevância.


Por este motivo, os agricultores pressionaram a Monsanto, que informou desistir da venda de sementes enquanto a soja RR2 apresentar este quadro de rejeição pelo mercado chinês. As preocupações dos agricultores são mais do que fundamentadas, porque os impactos socioeconômicos, no caso de comprometimento daquele mercado, seriam enormes.
Aliás, já aconteceu fato semelhante com o arroz LL, tolerante ao herbicida glufosinato de amônio. Quando ele estava prestes a ser aprovado pela CTNBio, as principais organizações dos orizicultores pressionaram a Bayer em função de riscos de mercado. Como a contaminação seria inevitável e os consumidores europeus rejeitariam o produto, perderíamos alternativas para escoamento de safras. Naquela ocasião, a Bayer cedeu e solicitou que o processo fosse retirado da pauta das reuniões da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, antes de qualquer deliberação.
No caso da soja RR2, a Monsanto preferiu obter a aprovação da CTNBio, multiplicar as sementes, e agora se vê instada a atender os reclamos dos agricultores brasileiros. Terá que destruir ou exportar as sementes, talvez para algum país onde a classe produtora se mostre mais afoita.
Chama atenção o fato de que nestes dois casos foram as empresas que decidiram se atenderiam ou não aos imperativos de ordem socioeconômica associados à produção e comercialização dos organismos geneticamente modificados. Infelizmente, a CTNBio não leva em conta estes aspectos em suas decisões. Embora se trate de assunto relativo à soberania nacional, os riscos de prejuízos de curto e médio prazo, decorrentes do comprometimento de mercados, têm ficado nas mãos das empresas. No Brasil, as avaliações de impactos socioeconômicos deveriam ser realizadas pelo Conselho Nacional de Biossegurança – CNBS, conselho de ministros responsável por decidir sobre a conveniência e oportunidade de liberar comercialmente organismos geneticamente modificados, após parecer da CTNBio, que focaliza apenas questões de biorrisco. Infelizmente, o CNBS não tem se reunido e não existem avaliações fundamentadas que examinem as implicações socioeconômicas do plantio de transgênicos aprovados pela CTNBio.

IHU On-Line – Desde quando e por que essa nova variedade transgênica foi aceita no Brasil?
Leonardo Melgarejo – Os interesses se associam aos pacotes tecnológicos desenvolvidos pelas empresas, que detêm os mercados de sementes transgênicas e dos agrotóxicos a elas associados. No caso desta soja, a novidade se resume a uma promessa de redução no uso de inseticidas para combate a algumas lagartas. Entretanto, o que costuma ocorrer é que os insetos-alvo terminam adquirindo resistência, e, mesmo antes disso, outros insetos que eram pragas secundárias crescem em importância, exigindo tratamentos químicos que antes não eram realizados. A aprovação desta soja ocorreu em agosto de 2010, conforme pode ser verificado no parecer técnico 2542/2010 da CTNBio. A aprovação ocorreu contrariando opiniões dos representantes do Ministério da Saúde, do Ministério do Meio Ambiente e doMinistério do Desenvolvimento Agrário. Também votaram contra representantes da Agricultura Familiar e dos Consumidores. Portanto, resta interpretar que esta soja foi liberada porque atendia às expectativas e opiniões da maior parte dos membros da CTNBio, em que pese a resistência de ministérios e outros representantes especificamente preocupados com a saúde humana e ambiental. Agora se revela que os interesses socioeconômicos, desconsiderados naquela votação da CTNBio, não apenas se mostram ameaçados como justificam esta reação de parte dos produtores.

IHU On-Line – Como os países que importam soja do Brasil se posicionam diante da produção transgênica brasileira?
Leonardo Melgarejo – O Brasil perdeu seu momento na história quando aceitou o fato consumado da contaminação de nossas safras, e agravou nossa dependência das grandes sementeiras transnacionais quando, posteriormente, optou por políticas agrícolas que apoiam – com recursos públicos – a pesquisa e a produção da soja, do milho e do algodão transgênicos. Não ganhamos em produtividade; estes produtos não são desenhados para isso. No máximo eles reduzem as perdas sob ataque pesado de insetos controlados pelas toxinas, no caso das tecnologias HT. Não reduzimos problemas ambientais. Tornamo-nos os maiores consumidores globais de agrotóxicos. Mas seguramente perdemos a condição de ditar preços no mercado internacional, circunstância que ocorreria caso dispuséssemos de safras não transgênicas.


IHU On-Line – O que justifica a ampliação de transgênicos no Brasil? Por que, diferentemente de outros países do mundo, o Brasil aceita a transgenia com facilidade?
Leonardo Melgarejo – No Brasil, como na Índia, existem dois movimentos. De um lado, temos o desaparecimento de sementes não transgênicas. As grandes empresas compram as pequenas, e as sementes tradicionais somem dos mercados. Os vendedores recebem comissões por volume vendido e, como as sementes transgênicas custam mais caro, isso estimula o interesse pessoal dos balconistas.


Além disso, é fato que os agricultores que trabalham em grande escala percebem facilidades no uso de tecnologias que uniformizam os tratos culturais. A agricultura se torna menos complexa quando se utiliza um mesmo tipo de herbicida em toda a área cultivada, sem preocupações com riscos de queimar a cultura principal. Da mesma forma, a ideia de que as plantas carregam dentro de si um inseticida é muito atraente. Supostamente existirão reduções na aplicação de agroquímicos, haverá proteção ambiental, e os consumidores não serão afetados.
Estudos
Infelizmente, essas suposições não são confirmadas. De um lado, os estudos são insuficientes, muitas vezes não se sustentam sequer nos próprios dados. A maior parte dos documentos apresentados para a CTNBio foi elaborada pelas empresas, provém de seus relatórios técnicos, internos, não publicados. Portanto, não existem avaliações independentes, o que permite dúvidas quanto aos resultados, posto que só são conhecidos aqueles que reforçam os interesses comerciais dos proponentes destas tecnologias. Além disso, praticamente inexistem estudos de longo prazo e, mais grave ainda, os estudos de toxicologia e de nutrição animal são realizados com base em grãos sobre os quais não foram aplicados os agrotóxicos que deram razão de existir àquelas sementes transgênicas. Em outras palavras, os testes nutricionais realizados com a soja RR, com a soja RR2 e com todos os demais organismos geneticamente modificados, criados para sobreviver a banhos de glifosato, foram realizados na ausência do glifosato. Isso, que jamais ocorre em lavouras e que, portanto, não acontece com os grãos destinados ao consumo, é a regra nos laboratórios que realizam os testes de segurança alimentar e nutricional. Além disso, tais testes são de curto prazo, realizando apenas avaliações de intoxicação aguda.
Os únicos estudos de longo prazo a que se tem notícia foram realizados na Áustria, com camundongos, e na França, com ratos. Ambos, na presença dos herbicidas, mostraram problemas hormonais graves, com impactos sobre rins e fígado, com emergência de tumores malignos, redução na fertilidade, entre outros. Por que isso é assim? Porque a maior parte dos membros da CTNBio considera suficiente e adequado que assim seja. Porque no Brasil as decisões de liberação se dão por maioria simples, em contexto onde a maior parte dos votantes não parece ter dúvidas relevantes quanto à segurança destas tecnologias, ou pelo menos entende que todas suas dúvidas são apaziguadas pelas informações contidas nos processos.

IHU On-Line – É possível estimar o percentual de alimentos brasileiros que são transgênicos?
Leonardo Melgarejo – Não. Não há sequer um acompanhamento de plantio, discriminando as áreas cultivadas com sementes transgênicas e não transgênicas. O IBGE não está preparado para isso. Dispomos apenas de estimativas com base na comercialização de sementes, que ocultam dados relativos ao contrabando e ao uso de sementes próprias.


Ademais, o milho e a soja entram em praticamente todas as cadeias de alimentos processados. A única maneira de assegurar ausência ou, pelo menos, redução no consumo de transgênicos, isso na alimentação de qualquer família, reside na aproximação com redes de produtores orgânicos. Porém, dificilmente isto será alcançado para todos os itens de consumo, dado que estas redes e cadeias de produtos “limpos” não contemplam o universo de itens alimentares.

IHU On-Line – Como acontece hoje a produção e exportação de grãos e alimentos transgênicos e não transgênicos? Há alguma divisão na produção?
Leonardo Melgarejo – Não há separação, excetuados exemplos de algumas cadeias de produção orgânica ou mesmo de produção convencional destinada a mercados específicos, não necessariamente para exportação. Como regra geral, não há segregação de cadeias produtivas. Os mecanismos envolvidos estabelecem tamanha convergência em pontos de estrangulamento, como máquinas e equipamentos alugados para colheita, secagem e transportes, que os grãos fatalmente acabam se misturando. Todos consomem transgênicos, com exceção daqueles que buscam cadeias específicas de produção orgânica ou de produção convencional não geneticamente modificada.


IHU On-Line – Como a lei de biossegurança tem sido aplicada diante dos novos produtos transgênicos? Como a questão da segurança é abordada diante da apresentação de novas variedades transgênicas?
Leonardo Melgarejo – Nossa lei de biossegurança é boa. Seus pressupostos deveriam permitir resultados muito satisfatórios. Entretanto, as preocupações quanto aos resultados que vimos obtendo são mais do que justificadas.


Explico melhor. A lei prevê que as empresas devem constituir Comissões Internas de Biossegurança, com corpo técnico especializado, e que estas CIBios devem apresentar estudos para a avaliação e deliberação da CTNBio. A CTNBio é composta por doutores, especialistas nos temas de biossegurança, que avaliam estudos apresentados pelas CIBios e deliberam por maioria quanto aos riscos de impactos ao ambiente e à saúde humana e animal para cada organismo geneticamente modificado. Em havendo motivo, os membros da CTNBiopodem solicitar novos estudos, até que quaisquer dúvidas sejam sanadas. Esta condição se reflete em “pedidos de diligência”, em que os membros votam argumentos dos relatores que se consideram insatisfeitos com as informações contidas nos processos.
Os 27 membros da CTNBio representam a perspectiva de vários ministérios, da comunidade científica, da defesa do consumidor, do meio ambiente e da agricultura familiar, de maneira a garantir representatividade para todos os interesses envolvidos. Após a deliberação daCTNBio, a lei prevê que haveria intervenção do Conselho de Ministros. Portanto, o Conselho Nacional de Biossegurança – CNBS deliberaria, em última instância, pela conveniência e oportunidade de ratificar decisões aprovação para liberação tomadas pela CTNBio.
Pedidos de diligência
Entretanto, o que se observa é que pedidos de diligência apresentados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, pelo Ministério do Meio Ambiente – MMA, pelos representantes dos consumidores e dos agricultores familiares tendem a ser rejeitados, com base nos votos da maioria. Aliás, isso acontece mesmo em casos onde os pedidos de diligência ou os pedidos para rejeição da liberação comercial apontam estudos não apresentados no processo, em que pese previstos nas normas da CTNBio. Isso ocorreu no processo da soja RR2 e em muitos outros que foram liberados para plantio comercial no Brasil sem apresentação de estudos de longo prazo, de estudos plurigeracionais, de estudos com animais em gestação, entre outros. Trata-se de algo grave, pois os seres em formação são os mais frágeis, os mais sujeitos a alterações em rotas metabólicas. Portanto, são aqueles onde os problemas podem exigir tempo de maturação que excede os prazos observados nos estudos contidos nos processos, que raramente excedem os 42 dias.
Além disso, os estudos apresentados pelas Comissões Internas de Biossegurança – CIBios, como já referido, são efetuados sob o controle exclusivo das empresas, raramente são publicados na literatura especializada, e ainda costumam ocultar os dados básicos. Via de regra, são apresentadas médias que embutem elementos de distorção com impacto sobre a dispersão dos resultados. Com a ampliação na variância dos resultados, impulsionada pelo uso de diferentes dosagens de diferentes agroquímicos, os testes de diferença de média tendem a mostrar similaridade que facilita a aceitação de “igualdades” entre as plantas transgênicas e não transgênicas. Quando, ainda assim, os testes mostram diferenças estatísticas significativas, a influência dos diferentes locais e práticas de manejo conduzidas onde os plantios são realizados permitem argumentar pela confusão e superposição entre os efeitos dos tratamentos e os efeitos do ambiente, permitindo argumentar por sua não significância biológica.
Por último, observa-se omissão do Conselho de Ministros, que abdica de sua obrigação de realizar avaliações de ordem socioeconômica, endossando as decisões da CTNBio. Como a maioria dos membros da CTNBio rejeita argumentos que examinam os riscos e os impactos socioeconômicos, surgem situações como as observadas no caso do Arroz LL e da soja RR2, onde os agricultores se mobilizam, em desespero, para evitar prejuízos à economia nacional. Não parece estranho que decisões associadas à nossa soberania sejam tomadas pelas empresas? Não parece grave que os agricultores recorram a quem detém a tecnologia das sementes geneticamente modificadas e que pode, eventualmente, resolver prejudicar o mercado de alguns ofertantes para beneficiar o de outros?
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Leonardo Melgarejo – Sim. Os processos decisórios que ocorrem na CTNBio são todos previsíveis. A composição daquela comissão e sua prática permitem segurança para os demandantes. Os pedidos serão aprovados e o histórico mostra inexistência de rejeição a qualquer pedido de liberação comercial. Isso se dá, na opinião da maioria, porque “quando os processos vão para votação, todas as dúvidas foram resolvidas”. Esta não tem sido a opinião da minoria. Entretanto, houve muitas aprovações unânimes.


A unanimidade observada em alguns casos de aprovação, assim como a inexistência de rejeições por maioria, mostra que o radicalismo está incrustrado no grupo dos que não possuem dúvidas relativamente à eficácia e a segurança destas tecnologias, no grupo da maioria. Aliás, é possível mapear os votos. Os argumentos apresentados pelos representantes do Ministério da Saúde, do Ministério do Meio Ambiente, sempre são rejeitados por determinados membros. Basta olhar a degravação das reuniões para constatar este fato. Esta espécie de “contaminação” do argumento em função de sua origem, independentemente de sua substância, não deve ser visto como algo que compromete a própria CTNBio?
Os que possuem dúvidas, os que gostariam de mais estudos, os que gostariam de ver os resultados publicados em revistas científicas, os que gostariam de maior transparência e independência nos processos, estes são minoria. Particularmente, faço parte deste grupo. Representando o MDA, tenho dúvidas. Não entendo como a CTNBio possa aprovar a liberação de produtos transgênicos sem apresentação dos estudos previstos, não entendo como as questões socioeconômicas possam ser desconsideradas, não entendo como membros da CTNBio possam se esforçar em defender as tecnologias, quando deviam duvidar delas. Não entendo como o conhecimento científico possa ser colocado antes a serviço das justificativas do que de críticas aos argumentos das empresas.
E minhas preocupações aumentam enormemente quando percebo esforços e interesses no sentido de ampliar o sigilo sobre o que se passa na CTNBio. Entendo que os riscos são grandes, que as avaliações de biossegurança são insuficientes, mas espero estar errado. Espero que a maioria tenha razão, que os estudos não apresentados sejam desnecessários, que a ausência de avaliações independentes não comprometa decisões baseadas em relatórios das empresas, que as movimentações dos agricultores sejam suficientes para resguardar interesses nacionais e que, no futuro, o desinteresse da sociedade sobre este tema não reverta em problemas insolúveis.




Para baixar o dossiê da ABRASCO II: Agrotóxicos, saúde, ambiente e sustentabilidade





Leia também na Revista "Ciência Hoje": "Brasil, paraíso do agrotóxico"

O Brasil é a lixeira tóxica do planeta. Desde 2008 o país é o maior consumidor global de insumos químicos para agricultura. Mas diante dos números sedutores na balança comercial, discutir os aspectos negativos desse modelo agrário virou um tabu. No artigo de capa da CH deste mês, veja como a nossa economia agroexportadora insiste em se reafirmar, ainda que acompanhada por temerosas dívidas sociais e ambientais






E assista: Monsanto: "Ameaça dos transgênicos"







Mais informação:

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

"Carne & Osso" e "Moendo Gente": como a carne chega na bandeja de isopor do mercado

"Moendo Gente" é mais do que o site de um documentário, é uma organização resultante de anos de pesquisa e investigação sobre a realidade das condições de trabalho nos frigoríficos brasileiros. O filme "Carne Osso", abaixo, quando tive o prazer e privilégio de assistir à premiére na presença dos diretores e médico do INSS consultado, que à premiére ratificou sua posição no filme:

Quando acreditamos que a Reforma da Previdência deve ser feita sacrificando aposentadorias e pensões, não sabemos que as indústrias, que contam com isenção fiscal por serem cogeradoras de empregos, são na verdade as maiores responsáveis pelo rombo do INSS, já que contribuem financeiramente com uma parte muito menor do que seus efeitos colaterais: as aposentadorias por invalidez e lesões degenerativas que nós, os contribuintes e respectivamente futuros aposentados e pensionistas, temos que arcar.

Nós pagamos 2 vezes por esse flagelo social, no curto prazo, quando arcamos com o prejuízo direto e a longo prazo, quando temos nossos benefícios reduzidos para manter esse sistema destruidor e que se retroalimenta com nossos 5 meses anuais de salário pago em tributos.







É claro que perguntei se algum dos entrevistados havia parado de consumir os produtos que os aleijavam, a carne, e apenas 1 senhora havia se predisposto a mudar sua alimentação. Os demais comiam a carne-frango do único empregador local, o frigorífico que os invalida e ninguém se prontificava a começar uma produção mais justa de carne ou frango em cidades basicamente rurais.




Leia mais:


Quem trabalha em um frigorífico se depara diariamente com uma série de riscos que a maior parte das pessoas sequer imagina. Exposição constante a facas, serras e outros instrumentos cortantes; realização de movimentos repetitivos que podem gerar graves lesões e doenças; pressão psicológica para dar conta do alucinado ritmo de produção; jornadas exaustivas até mesmo aos sábados; ambiente asfixiante e, obviamente, frio – muito frio.



No Brasil, os danos à saúde gerados no abate e no processamento de carnes destoam da média dos demais segmentos econômicos. São elevados os índices de traumatismos, tendinites, queimaduras e até mesmo de transtornos mentais. Para enfrentar tais problemas, é urgente reprojetar tarefas, introduzir pausas e, em alguns casos, diminuir o ritmo das linhas de produção. Medidas que, no entanto, esbarram em resistências de indústrias do setor.
Em 2012, a ONG Repórter Brasil investigou a fundo as condições impostas aos funcionários dos três maiores frigoríficos brasileiros: Brasil Foods (BRF), JBS e Marfrig. O resultado, apresentado nessa reportagem digital, mostra exemplos típicos da realidade descrita acima. São dezenas de unidades industriais condenadas na Justiça, interditadas, multadas ou processadas por graves problemas na organização do trabalho (mais detalhes no mapa da home page).
Essas três empresas comandam o vertiginoso crescimento de uma indústria nacional que, nos últimos anos, invadiu restaurantes e supermercados em todos os continentes. Contaminando, dessa forma, milhões de refeições mundo afora com o indigesto cotidiano de trabalho na indústria brasileira da carne.
Por isso mesmo, também foram investigados os elos que ligam BRF, JBS e Marfrig às maiores redes mundiais de fast-food e aos dez maiores varejistas globais com atuação no setor alimentício (segundo auditoria Deloitte). As informações aqui apresentadas, baseadas em relacionamentos comerciais identificados nos anos de 2011 e 2012, mostram como tais empresas distribuem a carne brasileira em dezenas de países. Em alguns casos, importando peças bovinas, suínas e de aves diretamente do Brasil. Em outros, vendendo produtos de subsidiárias internacionais dos três frigoríficos – que, por sua vez, processam matéria-prima oriunda de abatedouros brasileiros. Além disso, foram mapeados outros fabricantes de alimentos, importadores de proteína animal da BRF, JBS e Marfrig, e que têm seus itens vendidos por grandes redes de supermercados.
A reportagem também mostra clientes de empresas europeias, asiáticas e norte-americanas adquiridas em anos recentes pelos três gigantes brasileiros da carne, mas que não necessariamente utilizam carne do Brasil em suas linhas de produção. Um alerta importante, em tempos de crescente globalização dessa indústria, para mostrar como os parceiros comerciais dos grupos BRF, JBS e Marfrig, independentemente da origem do produto, podem estar financiando uma rede de negócios associada ao adoecimento e à incapacidade de milhares de trabalhadores.
Os frigoríficos, varejistas e redes de fast food citados foram convidados a se pronunciar sobre os problemas encontrados. A reportagem traz o posicionamento daqueles que quiseram se manifestar.
Moendo Gente dá continuidade à pesquisa da Repórter Brasil iniciada para a realização do premiado documentário “Carne Osso – O Trabalho em Frigoríficos“, vencedor de festivais dentro e fora do país.
Estatísticas oficiais, avaliações de especialistas e de autoridades competentes mostram que trabalhar em frigorífico é, comprovadamente, uma atividade de risco.

Brasil Foods, JBS e Marfrig são os três principais vencedores de uma indústria que, nos últimos dez anos, literalmente ganhou o mundo. O Brasil tornou-se, nesse período, o maior exportador global de frango e carne bovina. E ainda almeja voos mais altos. Até 2020, segundo a expectativa do governo federal, mais de 45% desses dois mercados devem ser abocanhados pelos produtos “made in Brazil”.
Para alcançar tais resultados, o país viu praticamente dobrar, desde 2001, a quantidade de animais abatidos pela sua indústria frigorífica. Temos hoje o quinto maior contingente planetário de pessoas (194 milhões), mas, ainda assim, os homens são menos abundantes no território nacional do que os bois e as vacas (209 milhões de cabeças), e apenas uma fração da população total de frangos (superior a um bilhão).
Para estar hoje em mais de 150 países, a carne brasileira beneficia-se da recente formação de multinacionais verde-amarelas encabeçadas pelos três grupos frigoríficos citados (todos eles entre os 20 maiores exportadores do Brasil). Apesar de graves problemas trabalhistas em suas fábricas, essas empresas se valem de parcerias internacionais com gigantes do varejo e da indústria alimentícia. Além, é claro, de crucial apoio financeiro do Estado.





Selecionado para o Festival "É Tudo Verdade", documentário alia imagens impactantes a depoimentos que caracterizam o duro cotidiano do trabalho nos frigoríficos brasileiros de abate de aves, bovinos e suínos

Quem trabalha em um frigorífico se depara diariamente com uma série de riscos que a maior parte das pessoas sequer imagina. Exposição constante a facas, serras e outros instrumentos cortantes; realização de movimentos repetitivos que podem gerar graves lesões e doenças; pressão psicológica para dar conta do alucinado ritmo de produção; jornadas exaustivas até mesmo aos sábados; ambiente asfixiante e, obviamente, frio - muito frio.

Esse é o duro cotidiano de trabalho nos frigoríficos brasileiros de abate de aves, bovinos e suínos que o documentário "Carne Osso" traz à tona. Ao longo de dois anos, a equipe da ONG Repórter Brasil percorreu diversos pontos nas regiões Sul e Centro-Oeste à procura de histórias de vida que pudessem ilustrar esses problemas.

O filme alia imagens impactantes a depoimentos que caracterizam uma triste realidade que deve ser encarada com a devida seriedade pela iniciativa privada, pela sociedade civil e pelo poder público.

Selecionado para o Festival "É Tudo Verdade", "Carne Osso" concorre na competição brasileira de longas e médias metragens. O filme será exibido nos dias 2 (às 21h) e 3 (às 13h) de abril, no Cine Unibanco Arteplex (Sala 6) - Praia de Botafogo, 316, Rio de Janeiro (RJ). Em São Paulo (SP), às exibições estão marcadas para 4 (às 21h) e 5 (às 13h) de abril, no Cine Livraria Cultura (Sala 1), no Conjunto Nacional, na Av. Paulista, 2073. A entrada é gratuita.

Danos físicos e psicológicos
"Cerca de 80% do público atendido aqui na região é de frigoríficos. Ainda é um pouco difícil porque o círculo vicioso já foi criado. O trabalhador adoece e vem pro INSS. Ele não consegue retornar, ele fica aqui. E as empresas vão contratando outras pessoas. Então já se criou um círculo que agora para desfazer não é tão rápido e fácil"
Juliana Varandas, terapeuta ocupacional do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) de Chapecó (SC)

As estatísticas impressionam. De acordo com o Ministério da Previdência Social, um funcionário de um frigorífico de bovinos tem três vezes mais chances de sofrer um traumatismo de cabeça ou de abdômen do que o empregado de qualquer outro segmento econômico. Já o risco de uma pessoa de uma linha de desossa de frango desenvolver uma tendinite, por exemplo, é 743% superior ao de que qualquer outro trabalhador. E os problemas não são apenas físicos. O índice de depressão entre os funcionários de frigoríficos de aves é três vezes maior que o da média de toda a população economicamente ativa do Brasil.

Ritmo frenético
"A gente começou desossando três coxas e meia. Depois, nos 11 anos que eu fique lá, cada vez eles exigiam mais. Quando saí, eu já desossava sete coxas por minuto"
Valdirene Gonçalves da Silva, ex-funcionária de frigorífico

Em alguns frigoríficos de aves, chegam a passar mais de 3 mil frangos por hora pela "nória" - a esteira em que circulam os animais. Há trabalhadores que fazem até 18 movimentos com uma faca para desossar uma peça de coxa e sobrecoxa, em apenas 15 segundos. Isso representa uma carga de esforço três vezes superior ao limite estipulado pelos especialistas em saúde do trabalho.

Reclamações curiosas
"Tu não tem liberdade pra tu ir no banheiro. Tu não pode ir sem pedir ordem pro supervisor teu, pro encarregado teu. Isso aí é cruel lá dentro. Tanto que tem gente que até louco fica"
Adelar Putton, ex-funcionário de frigorífico

Muitos trabalhadores se queixam também de restrições de menor importância – pelo menos, aparentemente. Por exemplo: o funcionário só pode ir ao banheiro com permissão do supervisor e em um tempo bastante curto, coisa de poucos minutos. Também são tolhidas aquelas conversinhas paralelas que possam diminuir o ritmo de trabalho.

Problemas com a Justiça
"O trabalho é o local em que o empregado vai encontrar a vida, não é o local para encontrar a morte, doenças e mutilações. E isso no Brasil, infelizmente, continua sendo uma questão séria"
Sebastião Geraldo de Oliveira, desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª região (TRT-3)

Nas regiões em que estão instaladas as indústrias frigoríficas, boa parte dos processos que correm na Justiça do Trabalho diz respeito a essas empresas. Em cidades como Chapecó, no oeste de Santa Catarina, as ações movidas por trabalhadores contras essas companhias respondem por mais da metade dos processos.

Pujança econômica
"Esse é um problema de interesse do conjunto da sociedade, não é só de um setor. O Estado tem que se posicionar. Não se pode fazer de forma tão impune ações que levam ao adoecimento e à incapacidade tantos trabalhadores"
Maria das Graças Hoefel, médica e pesquisadora

O Brasil é simplesmente o maior exportador de proteína animal do mundo. O chamado "Complexo Carnes" ocupa o terceiro lugar no pódio do agronegócio nacional, atrás apenas da soja e do açúcar/etanol. Em 2010, as vendas externas superaram US$ 13 bilhões. No total, o setor emprega diretamente 750 mil pessoas. Vale lembrar que muitos desses frigoríficos se transformaram em gigantes no mercado mundial com dinheiro do governo via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) -o principal banco de fomento da economia brasileira.

Melhorar é possível
"Basicamente, é conscientizar essas empresas para reprojetar essas tarefas. Introduzir pausas, para que exista uma recomposição dos tecidos dos membros superiores, da coluna. Em algumas vai ter que ter diminuição de ritmo de produção. Nós estamos hoje chegando só no diagnóstico do setor. Mas as empresas ainda refratárias a esse diagnóstico"
Paulo Cervo, auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE)

Não é difícil diminuir a incidência de problemas no ambiente de trabalho de um frigorífico. Reduzir a jornada de trabalho, adotar um rodízio de tarefas, diminuir o ritmo da linha de produção e realizar pausas mais frequentes e mais longas são algumas medidas possíveis. Falta apenas que as empresas se conscientizem disso.


Ficha técnica - Carne Osso
Duração: 65 minutos
Direção: Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros
Roteiro e edição: Caio Cavechini
Fotografia: Lucas Barreto
Pesquisa: André Campos e Carlos Juliano Barros
Produção Executiva: Maurício Hashizume
Realização: Repórter Brasil, 2011





Exibições - É Tudo Verdade  (entrada gratuita)

Rio de Janeiro (RJ)
2 de abril - 21h
3 de abril - 13h
Cine Unibanco Arteplex (Sala 6)
Praia de Botafogo, 316

São Paulo (SP)
4 de abril - 21h
5 de abril - 13h
Cine Livraria Cultura (Sala 1)
Conjunto Nacional, na Av. Paulista, 2073


Fonte: Reporter Brasil


Observação minha (Carol), que fui na premiére do documentário e ouvi o depoimento do médico do INSS, que orientou os jovens diretores do filme:
Quando acreditamos que a Reforma da Previdência deve ser feita sacrificando aposentadorias e pensões, não sabemos que as indústrias, que contam com isenção fiscal por serem cogeradoras de empregos, são na verdade as maiores responsáveis pelo rombo do INSS, já que contribuem financeiramente com uma parte muito menor do que seus efeitos colaterais: as aposentadorias por invalidez e lesões degenerativas que nós, os contribuintes e respectivamente futuros aposentados e pensionistas, temos que arcar.


Nós pagamos 2 vezes por esse flagelo social, no curto prazo, quando arcamos com o prejuízo direto e a longo prazo, quando temos nossos benefícios reduzidos para manter esse sistema destruidor e que se retroalimenta com nossos 5 meses anuais de salário pago em tributos.


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terça-feira, 11 de setembro de 2012

Crise faz gregos criarem sociedades alternativas do século 21

Na palestra que assisti durante a Rio+20 sobre o projeto do Complexo do Alemão, ouvi que a Favela já era uma Ecovila e que as técnicas de permacultura estariam então sendo melhor assimiladas por essas pessoas do que pelos moradores bem sucedidos do asfalto, pouco dispostos a sair de sua zona de conforto.



Jovens de país afundado em dificuldades fundam comunidade baseada em princípios de sustentabilidade.

Sem perspectivas, em um país afundado na pior crise de sua história recente, jovens da Grécia estão recomeçando as vidas em sociedades alternativas baseadas em princípios radicais de sustentabilidade.

A comunidade Free and Real (Livre e Real, em tradução literal), a sigla em inglês para Freedom of Resources for Everyone, Respect, Equality, Awareness and Learning (Liberdade de Recursos para Todos, Respeito, Igualdade e Aprendizado - também em tradução literal), foi fundada há dois anos no sopé do monte Telaithrion, na paradisíaca ilha de Evia, por quatro jovens de Atenas.

Hoje, ela conta com dez moradores em tempo integral e mais de cem que passam parte do ano no local.Um dos fundadores do movimento, o webdesigner Apostolos Sianos, afirma que abriu mão do emprego e de comodidades da sociedade moderna.

Os moradores da sociedade alternativa não têm acesso à rede grega de eletricidade, moram em cabanas comunitárias que eles mesmos construíram e comem a comida que produzem no local.O excedente da produção é trocado no vilarejo mais próximo por produtos de que necessitem."O que outros viram como a crise econômica global, vimos como crise de civilização", afirmou Sianos.

'Tudo em crise'Para ele, tudo parecia em crise: o sistema de saúde, o meio ambiente, a educação.A semente da ideia foi lançada em um fórum da internet em 2008, mas cresceu até sair do mundo virtual para o real."Quando tomei a decisão de abandonar a cidade e morar neste pedaço de terra, fiquei um pouco nervoso. Mas agora não consigo me imaginar naquele estilo de vida outra vez."Nos últimos meses, com o agravamento da crise grega, o estilo de vida alternativa proposto por Sianos vem atraindo cada vez mais interessados.

O esvaziamento das cidades, em um êxodo rumo ao campo, vem sendo registrado em várias regiões. Muitos agora procuram o Free and Real para se aconselhar sobre técnicas de vida sustentáveis e de agricultura orgânica.

"A crise financeira grega está dando uma enorme oportunidade às pessoas para verem que o sistema em que vivem não está funcionando, então podem começar a procurar alternativas", afirmou Sianos.Andonis Karantinakis é uma dessas pessoas. Morador da quarta maior cidade da Grécia, Heraklion, ele se considera uma "trabalhador inseguro".Desde que se formou em turismo, trabalhou em bares, restaurantes, lojas, segurança de aeroporto e até como ajudante arqueológico. Sempre temporariamente e nunca com garantias formais.Em 2010, Sklavenitis e outros amigos desempregados formaram a primeira Associação dos Desempregados, com o objetivo de lutar por melhores condições de emprego e apoio psicológico àqueles que sofrem com o desemprego.

DesempregoAtualmente, a Grécia paga seguro desemprego de 350 euros (por volta de R$ 870) por mês, durante 12 meses, para quem está com as contribuições em dia.Com passeatas e protestos, a associação exige transporte gratuito para desempregados e descontos nas contas de luz e telefone.O grupo também distribui cestas básicas para famílias em dificuldades.

O diretor da associação, Nikos Karantinakis, é um dos que necessita do auxílio - já que o pouco que produzem no jardim não é suficiente para alimentar a família inteira - pai, mãe e noiva.Desde a fundação da primeira associação de desempregados, na ilha de Creta, iniciativas semelhantes surgiram em todo o país, nas metrópoles gregas Atenas, Tessalônica e Patras."Se o governo não nos ajuda, temos que lutar", afirma Karantinakis. 


Fonte: Estadão

Site sobre o Free and Real com vídeo sobre o projeto e mais informação: Free and Real, Greece: Koyaanisqatsi





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