terça-feira, 25 de junho de 2013

Comendo a ração que vende - parte 08: os móveis de Angela Freitas

A série de postagens "A casa sustentável é mais barata", que até agora estendeu-se por 18 assuntos diferentes e é provavelmente a mais popular aqui no blog, começou após uma leitora muito presente reclamar que construções e reformas sustentáveis são mais caras do que as convencionais. Fiquei surpresa porque a ideia é ser justamente o contrário, além de mais barato financeiramente, ser mais acessível e reaproveitando materiais de refugo preferencialmente.

A série começou com o que eu chamei de "básico de sobrevivência", um apanhado geral de sugestões para tornar qualquer construção ou reforma mais barata e sustentável, curiosamente iniciava e encerrava tratando de móveis:

"01. Você não precisa comprar móveis caríssimos e assinados, produzidos em MDF oriundo de madeira reflorestada. O reflorestamento de eucalipto é um mito que devasta às áreas remanescentes de mata atlântica. Reciclagem é um tripé apoiado em pelo menos 3 conceitos: recusar, reutilizar e só então reciclar. 
Compre móveis de segunda mão, em madeira de lei, nas centenas de lojas, feiras de rua, antiquários de todo o país e até em sites de leilão. Você terá um móvel melhor, mais resistente e que já consumiu sua cota de madeira, água e combustível fóssil na logística de transporte. 
Aproveite para comprar as louças (inglesas), copos (de cristal), talheres (de prata), objetos de decoração, itens de colecionador, obras de arte e afins nesses locais - os vendedores sempre dão desconto.


Para encerrar, eu não tenho nada contra o badalado ecodesign, mas faço do mesmo uma opção de luxo para ocasiões especiais, até porque acredito que a sustentabilidade tem que ser para todos. Se você pode pagar o triplo do valor do sofá das Casas Bahia num sofá em ecodesign assinado e peça única, vá em frente, as peças são lindas e a vida é uma só (até que provem o contrário). Mas sustentável mesmo é o sofá da casa da vovó depois de reformado, lembre-se antes de passar o cartão na loja."


Então, quando uma amiga querida de papo ao telefone, perguntou como quem não quer nada se eu não me sentiria ofendida em "herdar" uns móveis que ela estava pensando em se desfazer, e sim arrumei mais um pretexto para visitá-la.

Angela é uma querida amiga tijucana desde minha primeira moradia no bairro, há 7 anos. Na época, Angela, que é mãe de 2 rapazes, dizia ter 3 filhotas postiças: eu, Alessandra e Ana Carolina.
Alessandra casou-se, teve um lindo menino e foi morar no Mato Grosso do Sul, terra de seu marido. Ana Carolina, baiana de nascimento, voltou para a Bahia como também era seu sonho. E eu ainda voltaria a morar aqui na Tijuca em outras 2 ocasiões, sempre mantendo contato com Angela, a primeira conhecida com quem cruzei na rua dessa última volta à Tijuca.
Angela me viu na fila de uma loja com as pernas salpicadas de azul, eu estava pintando os caixotes de feira que virariam a minha mesinha de cabeceira e, rindo, ficou surpresa com esse meu lado "peão", que ela não conhecia.

Os móveis da Angela, que eu herdei:

Um sofá de 2 lugares com a estrutura toda em madeira maciça, pesado e antigo, estava rasgado e, segundo Angela, havia sofrido miséria nas mãos (e pés) dos filhos dela em criança.





O armário de madeira para guardar louça ou roupa de cama que todo mundo sonha ter, feito pelo avô dela no início do século passado. Seus filhos também aprontaram nesse armário, até figurinha colada tinha. Não deu para salvar, estava comprometido por cupins.

A mesinha de apoio com tampo removível para compartimento auxiliar, no quarto guarda jóias e objetos pessoais, já na copa pode manter talheres à mão e servir de apoiador. Continua nesse estado deplorável, 2 marceneiros diferentes me deram o cano e não apareceram após marcar horário.

Se alguém souber de um bom marceneiro de confiança e cumpridor de horários e também tiver um armário resistente em madeira sem uso, eu continuo precisando de ambos, armário e marceneiro.



Particularmente sempre preferi sofás grandes, retos e modernos em tom neutro, sem estampa. Mas um sofá retrô pede uma excentricidade, uma cor mais forte ou estampa com personalidade para ficar com aspecto alegre e moderno e não com a cara da vovó, o retrô revisitado. Como não gosto de nenhum florido, principalmente colorido, escolhi uns hibiscus havaianos, que não me lembram flor mas praia e, nesse caso parecem ter sido rabiscados a nanquim.

O estofador falou maravilhas do sofá da Angela, que eu fiz bem em ficar com ele, que um móvel antigo e resistente dura uma vida toda e eu só voltaria a ter despesas se quisesse trocar o estofado. Como todo mundo, esse estofador reclamou muito da má qualidade de tudo que compra atualmente, diz que os sofás atuais são imensos e leves por terem a estrutura em madeira de sarrafo, a mesma usada para fazer caixotinhos de feira, que não há estrutura reforçada e, como muita gente já desconfiava, parecem projetados para durar o tempo exato de um crediário. Assim que se termina de pagar, já está na hora de comprar um novo...

Se também não entende porque móveis, eletrodomésticos e até as roupas atuais duram menos do que as antigas, as postagens sobre eletrodomésticos retrô tratam exatamente desse equívoco industrial, a obsolescência programada, uma ferramenta de processo criada com um único fim: fazer o consumidor comprar mais e sempre.



Consumir consciente é um processo: você recusa a compra de um móvel novo e, com isso, recusa a produção que envolve madeira não certificada de um produto descartável. O fabricante produz no mínimo um sofá novo a menos, reduzindo então o consumo de outros recursos naturais, como água, energia, combustível no transporte, etc. O sofá velho que você vai levar no lugar desse novo, que você deixou de comprar, iria para o aterro sanitário, se houver um na sua cidade - geralmente é um lixão a céu aberto. Então, além de reduzir o desmatamento e a obsolescência programada, você também está reduzindo o lixo urbano. Indo ainda mais longe, se você comprou seu móvel de segunda mão num brechó ou antiquariato, o que houve também foi um estímulo ao comércio pequeno e de bairro, que funciona em grande parte na base da troca e nem desconfia da existência desses grandes fornecedores de madeira, tecido, cola, ferragem, que podem até empregar crianças ou poluir nascentes de água numa reserva indígena por precisar produzir em larga escala.

O estofador que me atendeu, parecia um sujeito decente, que mantém um pequeno negócio de bairro há anos no mesmo ponto e me deu desconto e umas almofadas de brinde, que eu não ganharia numa megaloja. E são essas megalojas, que vendem coisas novas que não duram nada, que estão expulsando o comércio tradicional e informal das grandes cidades, catapultando os preços dos aluguéis, descaracterizando as ruas e nos deixando sem opção de escolha.
Até o frete desses móveis foi ecológico, como moramos próxima uma da outra, não usou veículo motorizado, mas uma carroça puxada por um catador de papelão, devidamente pago pelo serviço.






Angela Freitas, querida por todos, vindo ver como aquele sofá velho ficou novo após uma reforma. As paredes da sala já pintadas de branco, por mim. Ficou boquiaberta com a reforma e contou que os filhos tampouco acreditavam tratar-se do mesmo móvel na foto enviada por torpedo via celular. Por ter adorado tanto, não resisti à chegada dela e enviei o torpedo na véspera. 

Angela tem uma agência de turismo voltada para a terceira idade, a Vem com a gente.







Mais informação:
Shopping dos Antiquários
Comendo a ração que vende - parte 06: ventiladores vintage
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A casa sustentável é mais barata - parte 03 (material de demolição)
A casa sustentável é mais barata - parte 05 (eletrodomésticos vintage)
Comendo a ração que vende - parte 01: mesinha de cabeceira em caixote de feira
Comendo a ração que vende - parte 11: dos móveis que eu catei, restaurei e pintei

2 comentários:

Victória disse...

Adorei, ficou lindo :)
Teu blog é uma grande inspiração para mim, continue com este trabalho!

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Obrigada, Victória.
Vc é muito gentil.