terça-feira, 30 de julho de 2013

Carta aberta à Assessoria de Imprensa Força Tarefa

Há 2 semanas, venho recebendo emails de uma assessoria de imprensa, a Força Tarefa, que representa 4 empresas do agronegócio: Atanor, Dow AgroSciences, Milenia, Nufarm.

A mesma assessoria me escreveu em 3 ocasiões me colocando à vontade para divulgar material interno produzido por eles sobre a segurança no consumo de um determinado herbicida, o 2,4-D. Diga-se em honra da Fora Tarefa, o tom usado sempre foi cordial, apesar de um pouco insistente na minha opinião.

Antes de emitir minha posição sobre o herbicida 2,4-D, o que vou fazer publicamente abaixo, ratifico o que já é lugar comum aqui: o blog é amador, gratuito e nunca me rendeu um centavo. As parcerias que formei foram por prazer e nunca houve a menor pretensão de detratar ou mesmo me autopromover, tanto que de minha vida pessoal quase nada aparece.



O texto daqui do blog que deu origem ao contato inicial da Força Tarefa é o "Greenwashing é isso aí: Monsanto e Syngenta recebem o Nobel da Agricultura", que sequer ficou entre os 10 mais lidos quando de sua publicação. O blog e sua autora têm todo direito de ter uma opinião contrária ou não à qualquer pessoa, produto, empresa ou instituição, desde que a mesma seja emitida respeitando os limites legais da ética e do bom senso. 

Todo o artigo publicado originalmente aqui no blog foi criado a partir de outras reportagens divulgadas em sites maiores e estabelecidos na mídia convencional. Assim como eu, outros blogs amadores divulgaram sem qualquer constrangimento a mesma reportagem que informa e critica abertamente a premiação da Monsanto e Syngenta.

Quando do contato inicial da Força Tarefa, estranhei e contactei os outros blogs que divulgaram a matéria inicialmente publicada pela Adital, "Quando se premia aos que geram fome", e para minha surpresa nenhum havia sido contactado pela assessoria de imprensa, além desse blog pessoal.
Para entender o que estava acontecendo, já que no email de ontem da Força Tarefa, notei que outros 3 funcionários seguiam copiados abertamente, resolvi então fazer uma pesquisa rápida na minha fonte original , a Adital.

Mais uma vez percebi que a Adital tampouco enaltece qualquer benefício que o herbicida possa trazer ou divulga qualquer material da Força Tarefa, como o que recebi nos emails enviados pela assessoria de imprensa. Evidenciando que não tenho nada pessoal contra o staff da Força tarefa ou os clientes que representa, deixo linkado abaixo os 2 artigos mais recentes da Adital onde o herbicida 2,4-D é citado:

Via Campesina: Globalização da luta contra os Agrotóxicos (que propõe a Agroecologia como o caminho comum, porque respeita o agricultor e garante a soberania alimentar)


Adital - "A transgenia está mudando para pior a realidade agrícola brasileira" (Entrevista com Leonardo Melgarejo engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade de Santa Catarina - UFSC. É membro do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - Incra, no Rio Grande do Sul)
"Nela (entrevista) questiona o que chama de "decisões polêmicas” tomadas pelo colegiado que tem a finalidade de prestar apoio técnico ao governo federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança relativa aos Organismos Geneticamente Modificados - OGM. De acordo com ele, entre os temas em pauta estava o sigilo sobre informações referente "à performance agronômica das lavouras transgênicas”. Ele explica: "Há um entendimento, entre os membros da maioria, de que até mesmo as informações sobre o rendimento das lavouras transgênicas devem ser mantidas em sigilo. Aliás, o entendimento é de que todas as informações obtidas nos ensaios de campo devem ser sigilosas. Há dois anos isso não era assim. De lá para cá, na opinião da minoria crescem as evidências de efeitos colaterais e, ao mesmo tempo, crescem os receios - das empresas - de que ocorra divulgação destes efeitos. Possivelmente, as campanhas de marketing seriam prejudicadas pelas evidências de campo caso isso se tornasse de conhecimento público. Assim, algumas empresas pedem sigilo sobre todos ou quase todos os resultados de boa parte de seus estudos. Alegam que o registro de novas cultivares só será possível na medida em que todas as informações sobre estas cultivares sejam sigilosas, desconhecidas, completamente inéditas”.

É verdade que lavouras tolerantes a herbicidas trazem, inicialmente, facilidades técnicas. Trazem de fato simplificações ao processo de gestão, que são importantes e facilitam o trabalho do agricultor. Assim como é verdade que plantas inseticidas, que matam as lagartas que tentam mastigar suas folhas, durante algum tempo permitem economizar em inseticidas e facilitam o controle de determinados insetos. Mas isso só tem se mostrado válido no curto prazo. No médio prazo, o que tem sido observado é o oposto: há uma necessidade de uso de agrotóxicos mais fortes e mais tóxicos, com maior frequência e em maior intensidade, ampliando os custos e reduzindo a rentabilidade das lavouras. Para que se tenha ideia: segundo a imprensa, nesta safra, com o ataque de lagartas que deveriam ser controladas pelas lavoura Bt, o custo de produção da soja, na Bahia, passou de US$ 100 para US$ 200 por hectare. No caso do algodão, os gastos passaram de US$ 400 para US$ 800 por hectare (Valor Econômico, 12-03-2013). Segundo a imprensa, agricultores que até 2012 usavam 70 ml do inseticida Prêmio, da DuPont (produto mais recomendado e utilizado na região), com expectativa de restringir em 90% a população da Helicoverpa, lagarta que deveria ser morta no contato com plantas Bt, nesta safra, mesmo utilizando 150 ml, obtiveram resultados de apenas 70%. Os prejuízos, na Bahia, são estimados em R$ 2 bilhões.
Os resultados concretos mostram que, de forma geral, é possível afirmar que a transgenia tem oferecido para alguns, durante algum tempo, facilidades de manejo em função da homogeneização de processos decisórios relacionados ao controle de herbicidas e de algumas pragas. Porém, isso tem reflexos muito severos para os demais envolvidos. E mesmo para os que se beneficiam no curto prazo, os resultados de médio e longo prazo não permitem otimismo. Vejamos: a agricultura brasileira se vê diante da ampliação de custos produtivos e percebe uma alteração no tamanho mínimo viável para lavouras tecnificadas de milho, soja e algodão. Com isso, pequenos estabelecimentos se tornam inviáveis, o que resulta em aceleração da exclusão de pequenos produtores. Isso significa que, na prática, a transgenia tem acelerado uma espécie de reforma agrária às avessas no rural brasileiro. A expansão das lavouras transgênicas também acelera a simplificação das matrizes produtivas regionais.

Círculo vicioso
Ao reduzir o número de produtores e o leque de produtos ofertados, a expansão da monocultura e o avanço das lavouras transgênicas provocam um círculo vicioso, que amplia as dificuldades de permanência das famílias no campo. Perceba: exigindo economia de escala e sendo deletéria para a agricultura familiar, esta tecnologia leva à redução da população rural e acaba inviabilizando a prestação de serviços que são fundamentais para a vida no campo. As escolas, os postos de saúde, as linhas de coleta de leite se tornam inviáveis quando a população se faz rarefeita. Então, é possível afirmar que a expansão dos transgênicos se associa à tendência de fragilização do tecido social necessário para a permanência do homem no campo. Além de reforçar o esvaziamento do campo e refrear o avanço de políticas que apostam em processos de desenvolvimento rural, "com gente”, a transgenia ameaça a qualidade de vida dos que permanecem no campo, ampliando o volume de agrotóxicos utilizados. Tanto é que o Brasil se tornou o país que mais usa agrotóxicos no mundo. Para o agronegócio não é ruim: sugere um maior volume de negócios, permitindo mapear uma expansão do PIB e da contribuição do setor para a economia nacional.
Mas isso não é do interesse da sociedade, sob o ponto de vista da maioria da população. Não apenas porque contraria o senso comum, mas também porque reforça um círculo vicioso. O maior volume de agrotóxicos, além dos problemas de saúde, está provocando o surgimento de plantas tolerantes a herbicidas, demandando expansão no uso de venenos. E não é apenas isso: o maior uso de venenos se associa à necessidade de venenos mais perigosos. Perceba: os primeiros transgênicos liberados no Brasil eram resistentes ao Roundup, um herbicida à base de glifosato, que é classificado pela Anvisa como sendo de baixa toxicidade. Ele está comprovadamente associado à presença de alguns tipos de câncer, a problemas reprodutivos e neurotóxicos, entre outros, mas é classificado como de baixa toxicidade. Pois os transgênicos em avaliação pela CTNBio, atualmente, e que substituirão aqueles primeiros, que já não funcionam bem, serão tolerantes ao 2,4-D. E este é de alta toxicidade. Possivelmente, em breve estará sendo aplicado de avião, talvez em milhões de hectares. Podemos esperar que este veneno caia apenas sobre as lavouras? É importante observar que uma planta, que não morre quando toma um banho de veneno com ação hormonal, carregará consigo parte daquele veneno. Será consumida com resíduos do veneno. Por que os transgênicos tolerantes ao glifosato estão sendo substituídos? Porque a natureza produziu plantas que já não morrem quando aquele veneno é aplicado sobre elas."



A posição desse blog amador e gratuito sobre uso de defensivos, pesticidas, herbicidas e agrotóxicos em geral é a mesma desde 2009, quando do seu lançamento: não deve ser usado nunca, jamais e em hipótese alguma. Para suportar minha posição, sempre tive o cuidado e a ética de embasar as publicações feitas com artigos onde os maiores especialistas do país emitiam a mesma opinião, como o fez acima o Dr. Leonardo Melgarejo, além de centenas de outros especialistas, como a Prêmio Nobel, Dra Vandana Shiva, Dra. Elaine Azevedo, Dra. Neice Muller Xavier Faria, Leonardo Boff, Frei Beto, Silvio Tendler, Marie Monique Robin e até a Dra. Rachel Carlson, já falecida.


O vídeo abaixo, retirado diretamente do site da Força Tarefa evidencia exatamente o que acabei de colocar, o aplicador do agrotóxico usa equipamento de proteção individual (EPI) completo para não entrar em contato com a toxidade do produto, além de trazer na íntegra o texto que transcrevo fidedignamente:

"O uso adequado das tecnologias de aplicação e do Equipamento de Proteção Individual (EPI) é imprescindível para garantir eficácia e segurança humana e ambiental na utilização de defensivos agrícolas. O conhecimento das condições ambientais e das causas da deriva (desvio de trajetória que impede que gotas produzidas atinjam o alvo correto) é fundamental para ajudar agricultores e operadores a optarem por aplicações seguras e eficientes."




Encerro deixando disponível em sinal de boa fé e antes de tudo, por acreditar na liberdade de expressão, ainda que vinda de fonte com posição contrária a minha, o material de divulgação da assessoria de imprensa Força Tarefa que recebi nos emails enviados por eles. 
Eu li com imparcialidade, como acredito que tudo deva ser lido e ouvido, e também acho válido que todos que se interessem por agroecologia também o leiam para que assim, tenhamos todos ainda mais informação para embasar e fundamentar a defesa da agricultura orgânica e familiar em sistema agroecológico e agroflorestal:





Mais informação:
“O veneno está na mesa 1 e 2”, de Silvio Tendler e Wladimir Pomar
"O mundo segundo a Monsanto", filme e livro de Marie Monique Robin
O mito do agrobusiness: agronegócio perde em eficácia para agricultura familiar
Tudo que você queria saber sobre orgânicos, mas não tinha uma nutricionista para peguntar - entrevista com Dra. Elaine Azevedo
10 empresas controlam 85% dos alimentos, livro "Geopolítica da fome do sociólogo suíço Jean Ziegler, ex-relator especial para o Direito à Alimentação das Nações Unidas (ONU)
"Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos", entrevista com a maior especialista do país na área: Dra. Maria José Guazzelli, engenheira agrônoma, formada pela Faculdade de Agronomia da UFRGS, e na década de 1980, participou na elaboração da Lei dos Agrotóxicos do Rio Grande do Sul (Lei 7747/82). Ela é coautora do livro Agropecuária sem veneno, tradutora dos livros Plantas doentes pelo uso de agrotóxicos - Teoria da trofobiose, de Francis Chaboussou; Agroecologia, de Stephen Gliessman, Nanotecnologia - Os riscos da tecnologia do futuro, do Grupo ETC, e Roleta genética - Riscos documentados dos alimentos transgênicos sobre a saúde, de Jeffrey Smith.

2 comentários:

SHANERRAI disse...

Herbicida, quer dizer que mata as ervas. Já na bíblia ao sexto dia quando Deus criou o homem ele diz : De toda a erva do campo. . . isso será seu alimento. Conclusão, Herbicida é pecado, e contra a vida, é causador de destruição de alimentos. Pronto falei bem do Herbicida ou não?

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Vc falou a verdade, o problema é que é muito difícil falar bem de um herbicida.