terça-feira, 23 de julho de 2013

Nos 20 anos da Chacina da Candelária: Procura-se Aparecida e Dalila Ribeiro da Silva



O Thiago é um amigo muito querido, foi meu vizinho de rua nas 2 vezes anteriores em que morei no Maracanã. O conheci quando fui voluntária na Basílica de Santa Terezinha junto ao grupo que distribuía sanduíches à moradores de rua.
O grupo acabou logo depois da minha mudança para o Flamengo, mas eu adorava aquela atividade, um bando de jovens andando de madrugada pelas ruas do bairro ou indo de carro ao Cais do Porto. Depois, saíamos em grupo para uma pizza.
Eu comecei essa atividade no Natal de 2006, na noite do dia 24, quando quis passar uma Noite de Natal um pouco diferente e conto a experiência na postagem do Natal Sustentável linkada abaixo. Recomendo, melhor do que ficar se empanturrando de comida na frente da tv com parentes e agregados que só se encontram uma vez por ano.

Enfim, o Thiago era do grupo e ficamos amigos, de todos do grupo, ele era o meu xodó. Voltei a morar no bairro e cruzei com a mãe dele na rua. Peguei o celular, que havia perdido e marcamos de nos encontrar no dia das eleições, ele ia ser mesário numa escola pública do bairro.

Vinha com ele pela rua e pedi "Vamos roubar uma porta antiga que está abandonada na calçada?"
Topou, até porque não é um "roubo" exatamente, nem um "furto". Fizemos antecipadamente o serviço da Companhia de Limpeza Pública, a Comlurb.

Aqui na Tijuca tem muita casa antiga, algumas com mais de 100 anos e, de vez em quando, encontram-se raridades largadas na calçada. Portas, janelas, até móveis antigos de casas que estão sendo reformadas. Quando reformaram uma casa na minha rua, vi essa porta largada na calçada e morri de pena.
Esse blog adora material de demolição, há uma postagem específica e vou deixar o link abaixo também.

Mas a porta era pesadíssima e eu nem consegui arrastar. Com o Thiago meus problemas acabaram!
Ele carregou a porta como quem carrega uma prancha de surf, foi uma humilhação.



Sentamos para conversar num bar do bairro e, já sabendo que ele era adotado, ouvi uma história de arrepiar.
Como disse, sabia que ele havia sido adotado, conhecia a mãe adotiva da Paróquia e também sabia em quais circunstâncias a adoção havia ocorrido: Thiago é um dos sobreviventes da chacina da Candelária, que hoje faz 20 anos - com todos os condenados pelo crime em liberdade.
Mas nem tudo isso se compara ao que ele ainda me contaria no nosso reencontro.

Thiago e seu irmão, Paulo, foram sequestrados pelo pai biológico. Pela história que ouvi, o pai já tinha problemas de adaptação social e um possível histórico de alcoolismo, havia saído de casa e sumido diversas vezes. Em uma das aparições, levou os filhos com ele, deixando para trás a filha mulher, Dalila.
Conta Thiago que cresceu numa casa na beira de um lago no interior de Minas e que, quando o sol se punha, o lago ficava vermelho. Não lembra em qual cidade nasceu, nem quando. Só lembra de ter sido levado aos 5 anos por esse pai que os deixou na casa de um irmão em Belo Horizonte. Para sumir no mundo de novo.
Do pai, Thiago não teve mais notícias, mas lembra de ter fugido com o irmão da casa desse tio e, como o irmão de 7 anos, terem vindo não se sabe como para o Rio de Janeiro.
Dormiam na rua com outros meninos e uma noite, na porta de uma igreja, um padre abriu e chamou apenas os dois, Thiago e Paulo, para dormirem na sacristia naquela noite. Fazia frio e aparentemente ambos eram os mais novos do grupo.
Foi a noite da chacina que entraria para a história do país. Thiago e Paulo se salvaram "como que por milagre".
Meses ou semanas depois, ambos não lembram ao certo, uma moça cruzou com eles na rua e, simpatizando com aquelas duas crianças, fez o que todos nós já pensamos um dia, mas nunca tivemos coragem: levou ambos para um abrigo onde tinha contatos e sabia que seriam bem tratados.

O abrigo de Santa Isabel é uma Instituição instalada há anos aqui na Tijuca, Thiago e Paulo cresceriam lá até serem formalmente adotados por essa moça (hoje uma senhora), Dona Maria Isabel, que mudou a vida deles. Suas datas de aniversário foram definidas pelo juiz, já que ambos não tinham documentos e eram jovens demais para lembrar de suas datas de nascimento. Lembram dos tempos de orfanato com carinho, contam que deixaram muitos funcionários de cabelo branco de tanto que aprontavam, mas que todos sempre foram muito carinhosos com eles.

Thiago e Paulo cresceram, Paulo é pai, Thiago é meu amigo dos tempos de Grupo Vicentino e logo que vim para a Tijuca de volta, fomos tomar esse chope depois de roubar uma porta abandonada. Foi então que minha ficha caiu: Mas a Candelária é uma Igreja de rua, localizada num canteiro central no meio da principal avenida do Centro, não tem infraestrutura de casa paroquial como outras igrejas maiores e mais reservadas, deve fechar à noite.
Thiago olhou para mim e como quem diz "Ah Hã!", me conta que em adulto, voltou à Candelária e procurou por esse padre que salvara a vida dele e do irmão. Foi bem recebido pelo atual pároco responsável, que avisou que nunca um padre havia dormido lá, que a igreja era trancada à noite e que o padre que ele descrevia, em traje franciscano com capuz, não era da ordem administradora. Disse que não havia ninguém na Candelária na noite do Massacre como nunca há em noite alguma. Enfim, que a história dele não fazia sentido numa visão racional. Mas sorrindo, completou que certos mistérios devem ser aceitos.

Thiago então começou sua busca pela mãe e irmã e, sabendo seus nomes, procurou por todas as Aparecidas e Dalilas Ribeiro da Silva em redes sociais como o Facebook, sites de entidades que apoiam parentes de desaparecidos, etc.
Todas as mulheres responderam educadamente, mas nenhuma era a que procurava.

Então, eu uso esse blog para tentar ajudar alguém com problemas maiores do que os meus: Se você conhece alguma Aparecida ou Dalila Ribeiro da Silva, avise que seus filhos e irmãos respectivamente, Thiago e Paulo, as procuram há muitos anos sem sucesso.

Paulo eu não conheço, sei que já é pai, mas Thiago é velho amigo, tem boa índole. Prestativo, quebrou mil galhos quando me mudei sozinha para uma casa com escadas na companhia de 3 cães.
Vai fazer 7 anos que nos conhecemos, era um garoto das ruas do bairro. Hoje, mora sozinho dividindo apartamento com amigos, namorador e orgulhoso de suas conquistas.

Pendurando as persianas da sala daqui de casa logo nos primeiros meses (e me salvando de um sol da tarde inclemente), as paredes ainda sem a pintura branca.




Na parede desse boteco do bairro onde ouvi essa história inacreditável, é claro que a gente batucou e cantarolou na mesma hora em que descobri esse cartaz pavoroso. Mas não fomos expulsos, o bar estava vazio e os garçons não deram a mínima.



Sobre a Chacina da Candelária:
Página Oficial no Wikipedia 

A lista dos mortos:
  • Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos
  • Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos
  • Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos
  • Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos
  • "Gambazinho", 17 anos
  • Leandro Santos da Conceição, 17 anos
  • Paulo José da Silva, 18 anos
  • Marcos Antônio Alves da Silva, 20 anos

A história de outro sobrevivente:



Os links:
Natal sustentável
A casa sustentável é mais barata - parte 03 (material de demolição)

4 comentários:

Joyce disse...

Gente, que história, arrepiei!

Anônimo disse...

Oi Carol! sempre leio seu blog, até já fiz varias receitas (ótimas) suas de bolos, mas nunca tinha comentado. Que história linda essa! Fiquei muito emocionada e trouxe um raio de sol para um dia de pouca fé. Espero muito que os "meninos" reencontrem a mãe, com certeza eles têm São Francisco do lado para ajudar ;) Beijos
Ananda

Vik disse...

Me arrepiei com o mistério do padre..

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

O mais importante: passem a bola adiante. Alguém deve conhecer essas duas mulheres. Tem que conhecer, não é possível.