terça-feira, 6 de agosto de 2013

Awás lutam contra a destruição dos madeireiros no que restou da Floresta Amazônica do Maranhão



Awás lutam contra a destruição dos madeireiros no que restou da Floresta Amazônica do Maranhão

Considerados um dos últimos povos caçadores e coletores, eles tentam sobreviver à ação criminosa dos desmatadores


RIO - No pouco que resta de Floresta Amazônica no Maranhão, vive o povo Awá, conhecido como “o mais ameaçado do planeta”. São pouco mais de 400 pessoas, cercadas de municípios que dependem da extração da madeira. Os Awá falam guajá, do tronco Tupi. Só alguns sabem um pouco de português. Eles são um dos últimos povos apenas caçadores e coletores. Vivem da floresta e pela floresta. O GLOBO esteve lá junto com o fotógrafo Sebastião Salgado para registrar o cotidiano desses índios poucos conhecidos e a dramática situação que os cerca.

A terra já foi demarcada, homologada e registrada com 116.582 hectares. Todas as contestações judiciais foram consideradas improcedentes. Ela está dentro da Reserva Biológica do Gurupi, criada pelo presidente Jânio Quadros em 1961, e que tem o mais alto nível de proteção ambiental. Mesmo assim lá estão os grileiros e os madeireiros derrubando a floresta e encurralando os índios. Essa área da Amazônia é única, porque é a porta de entrada da floresta, e algumas espécies só existem lá.





Os Awá fugiram do contato com os brancos por quase 500 anos. Chegaram a ser chamados de “índios invisíveis”. Foram contatados só a partir de 1979, e alguns indivíduos permanecem fugindo. Vivem o momento mais decisivo de sua sobrevivência. A Justiça ordenou a desocupação da terra pelos não índios, e a Funai terá que cumprir essa ordem nos próximos meses.
A ligação dos Awá com a floresta é ainda maior do que a de outros índios. Num discurso em guajá, um dos líderes da Aldeia Juriti, Piraima’á avisou:
— Os madeireiros estão matando as árvores. Vão matar os Awá. Eu vou enfrentar os madeireiros. Eu tenho coragem.

O Exército desembarcou na região com 700 homens, numa operação com o Ibama, para reprimir o ataque à floresta e a produção de maconha em terras indígenas e encontrou abundantes provas do crime de desmatamento. É o que conta essa reportagem que tem o privilégio de ter imagens do maior fotógrafo do mundo: Sebastião Salgado, que passou três semanas com os índios, por dias longe da aldeia e dentro da floresta.




Sobreviver com coragem 

Considerados um dos últimos povos caçadores e coletores do planeta, os poucos mais de 400 Awá que povoam o que restou da Floresta Amazônica no Maranhão vivem o momento mais decisivo de sua sobrevivência: impedir que grileiros, posseiros e madeireiros destruam o seu mais valioso bem. É das árvores e da mata densa situadas na Reserva Biológica do Gurupi, de onde tiram o seu alimento, a sua certeza de amanhã poderem garantir a continuação de seu povo, de sua gente. Eles não querem nada mais do que a garantia do governo federal de que não terão o seu terrítório devastado pela ganância do homem branco, que avança a passos largos em busca de madeira nobre. 

Apesar de sua terra já estar demarcada, homologada e registrada com 116.582 hectares pela União, eles enfrentam uma ameaça real de assistir à destruição da floresta da qual são tão dependentes e de onde tiram o sustento de seus filhos. Ainda que a Justiça já tenha determinada a retirada desses 'intrusos' ou não índios, como define a Funai, os Awá temem pela própria sorte, se afirmam em sua coragem e não vacilam quando veem sua resistência em xeque. "Não temos medo. Vamos resistir", dizem em discursos emocionados.



A repórter Míriam Leitão, a convite do renomado fotógrafo Sebastião Salgado, viajou até a Aldeia Juriti e pôde comprovar como os Awá vivem essa dramática expectativa. Neste ambiente especial, que complementa a série de reportagens publicadas na edição dominical de O GLOBO, o leitor poderá saber mais do cotidiano dos chamados 'índios invisíveis', como vivem, e como reverenciam a sua sagrada cultura.





Após vencer a desconfiança dos índios, ouve-se o desabafo: ‘Quero ficar na minha casa’

ALDEIA JURITI, TERRA AWÁ, MARANHÃO - Os índios chegaram, alguns vestidos só com seus adornos e carregando arco e flecha, e ficaram em pé em frente à casa. Muitos estavam gripados. Nós nos aproximamos e Sebastião Salgado tentou explicar, com a ajuda de Patriolino, coordenador do posto da Funai no Juriti, e José Pedro, outro sertanista, que falam um pouco de Guajá, por que estávamos lá. Falei também. Disse que escreveria para outros saberem o que acontecia. Era o começo do segundo dia, e a nossa chance de quebrar o gelo. Eles ficaram em silêncio quando paramos de falar. Depois, Piraíma’á começou a falar, e sua voz foi se elevando, eloquente. Depois, seu filho, Jui’í falou. O resto da tribo repetia algumas frases. Tudo foi traduzido depois por Uirá Garcia. O antropólogo não havia chegado, mas lhe enviei arquivo sonoro.

Trechos dos discursos são suficientes para se entender o que sentem:
— Estamos bravos com os brancos (não indígenas). Eles estão na floresta e isso me deixa realmente zangado. Por que eles estão tirando as árvores? Eles mexem na mata, aqui, ali, em todo lugar. Os madeireiros fazem isso. Assim eles vão nos matar, vão matar meus filhos. Assim os madeireiros vão matar todos os nossos parentes. A casa dos brancos já está toda desmatada. A minha casa é a floresta. Quero ficar na minha casa. Na floresta. É dela que eu vivo, e lá eu vou andar, vou caçar e pescar. Eles, os madeireiros, estão matando as árvores, estão matando os Awá.

A voz de Piraíma’á subia de tom, quase aos gritos, às vezes. De vez em quando, ouvia-se uma única palavra em português: “madeireiro”. Era possível se emocionar, mesmo sem saber a língua. Os outros índios, às vezes, se levantavam, inquietos. Depois ouviam em silêncio. Piraíma’á continuou:
— A minha área está cheia de fazendas de gado. Os madeireiros estão matando as árvores. Uma árvore dura, muito dura e grande, e eles conseguem derrubar. Eu vou enfrentar esses brancos madeireiros. Eu tenho coragem. Estou aqui e vou brigar com eles. A minha casa é aqui, a casa dos brancos é bem longe. É na cidade. A minha casa é aqui na floresta. Eu tenho coragem. Vou resistir. Eu não tenho medo, não.

Ele ficou em silêncio, os demais índios, quietos. Juí’í saiu, tirou as roupas que usava, voltou apenas com adornos da tribo e se sentou ao lado do pai e da mãe. Eles não têm um chefe, mas Piraima’á é a liderança mais forte. Seu filho é o líder dos jovens. E Juí’í começou a falar:
—Eu sou Awá-guajá. Não sou outro tipo de índio, não. Há outros parecidos com os brancos, ficam perto dos brancos. Eu sou da floresta mesmo. Eu fico na floresta. A floresta me dá minha comida. Pergunto para o meu irmão: irmão, por que os brancos não param de matar as árvores? Eles têm lanterna, munição, espingardas. Eu não tenho nada. Eu sou Awá-guajá de verdade. Agora na seca, a floresta está cheia de madeireiros. Eles ficam na floresta. Eles matam as árvores e vendem elas. Eu não tenho medo, vou ficar.
Ao fim, Sebastião falou suavemente. Agradeceu e contou que ficaríamos com eles, que iríamos para a floresta com eles. Pediu que nos mostrassem a mata, as belezas, os perigos. Principalmente, que mostrassem quem eram eles.
— Queremos saber o que é ser Awá. Povo bonito sô, povo bravo. Queremos ver isso. Por favor nos mostrem — disse ele. E foi traduzido.

Eles nos olharam intensamente e saíram. Ficamos sem saber se aquilo era uma concordância. Os dias mostraram que sim. Saímos primeiro com as crianças. Elas exibiram suas brincadeiras no Rio Caru. Durante duas horas, brincaram e Sebastião fotografou com paciência, cantando, baixinho, velhas músicas brasileiras. “Meu primeiro amor, foi como uma flor que desabrochou...” Ele canta para se concentrar.
O barulho da mata, a algazarra das crianças, uma índia que pescava do outro lado com seus filhos, a chegada de Amerytxiá, saindo do meio da floresta com seu cajado, foram acentuando a magia do momento e confirmando o cenário de um paraíso, que sabíamos estar sitiado.

No outro dia, fomos numa caminhada com os homens na mata. Eles reduziram o ritmo em que andam, mas para nós era um passo exigente. Os sons das araras e outros pássaros, eles usando só seus adornos, aquela caminhada batida, as árvores altas da floresta, tudo nos levava para o mundo deles. Houve um dia em que os jovens e crianças apareceram na casa da Funai. A maioria só olhou e sorriu, falando uma ou outra palavra. Pedi a Jui’í uma conversa longa e gravada, em português. Ele concordou e voltou a falar que os madeireiros estavam em todos os lugares. Primeiro, chegam os motoqueiros e marcam as árvores; depois, vêm os que cortam.
—Eu vi madeireiro. Eu estava escondido. Madeireiro tem arma pesada mesmo. É perigoso mesmo. Eles têm força, mas nós tem coragem também. Tem zoada de trator aí dentro, na cabeceira da Água Preta tem muita madeira marcada. Eu estou escutando zoada de trator.

Perguntei o que queria para o filho dele, que está para nascer. Ele disse que apenas a terra e a floresta. Ele é um dos poucos que já saiu de lá. Fez uma viagem para outra aldeia Awá para procurar alguma moça para casar. Achou Xikapiõ, nome de passarinho, e a trouxe com a mãe viúva e um irmão. Viajou uma vez com a Funai para Brasília. E tudo o que se lembrou, quando perguntei se tinha achado a cidade bonita, é que viu muita madeira na estrada. Jui’í me contou da sua vida e crenças. Disse que seu segundo pai é Uirahó. Entre eles formam-se duplas de amigos de infância que compartilham tudo, e um vira o segundo pai dos filhos do outro.



Tropas do Exército desembarcam na reserva
Não conseguiu me dizer em que idade eles viram guerreiros (Quando fica bravo, é guerreiro”). Cantou a música que o jovem guerreiro canta antes da primeira caça. O canto é para “subir ao céu” e pedir ajuda para achar a caça. Ele contou de um jeito engraçado a conversa com o ser celestial, que chamou de Tupã. Achou que eu não entenderia a ideia dos Karauaras.
— Nós fala: rapaz bota aí uma anta, bota animal para nós. A criança está chorando. E ele responde: ah, pois está, vou liberar um para vocês.

Ele contou que a caça está assustada por causa do barulho dos tratores, dos cortes de madeira, e está mais difícil caçar. Contou também que, de vez em quando, ouvem reprimenda no céu.
— Eles dizem: rapaz, tu é ruim demais. Deixa madeireiro entrar na tua área e roubar madeira. Aí, nasce filhotinho e morre tudo de fome.

Sebastião ficou mais duas semanas. Foi para dentro da mata e passou dias e noites com eles, vivendo com eles, da maneira tradicional. Voltou convencido dos riscos que correm:
— Eles são o povo mais ameaçado. Andei com eles, vi o sofrimento deles vendo as árvores marcadas, ou derrubadas.

Na semana seguinte, o Exército chegou lá com tropas, armas, blindados, parte de uma operação com o Ibama: a Hileia Pátria, para combater desmatamento e implantação de maconha.
— A chegada do Exército mudou todos os dados da região. Chegaram com um aparato considerável. Eles têm 700 homens, uma enorme quantidade de caminhões, blindados e estão muito armados. Além do problema da madeira, estão combatendo as plantações de maconha em terra indígena e, em parte, nas terras dos Awá. Na floresta, quando você tira as toras, criam-se as condições ideais para plantar maconha — contou Sebastião, antes de voltar a Paris.

Foram dias intensos, em que vimos uma cultura indígena milagrosamente conservada, nos restos de uma floresta sitiada pelo crime, em que conversei com agentes da cadeia do desmatamento e com posseiros, em que o Exército desembarcou na área conflagrada. Vários funcionários da Funai que ficam lá já foram ameaçados de morte. Segundo Maria Augusta Assirati, a presidente interina da Funai, nos próximos meses será feita a “desintrusão”. O chefe dessa operação de desocupação, Hélio Sotero, acha que a tensão aumentará:
—O momento mais tenso foi o da construção da Base de Proteção e Controle de Acesso ( o galpão onde dormimos antes de chegar à aldeia). Mas em agosto os trabalhos de retirada começarão. A partir daí, só Deus sabe.


Audição acima dos padrões comuns permite ouvir som da devastação a quilômetros

ALDEIA JURITI, TERRA AWÁ, MARANHÃO - Bonitos, como são os povos Tupi, com os mesmos traços finos, a pele morena, cabelos fartos e negros, é fácil reconhecer, ao olhar, os Awá, que são parte da gente brasileira. O choque é a barreira da língua. O idioma que falam na Aldeia Juriti soa completamente distante de tudo que é familiar. E poucos falam algum português.

Não estamos preparados no Brasil para encontrar em outros brasileiros a barreira da língua. Causa uma sensação estranha de queda de um dos mitos. Sabemos que há outros idiomas, os especialistas dizem que são 180. Mesmo assim, a barreira, quando aparece, desconcerta.

A maioria dos índios já fala português, mas fomos para uma tribo que no conceito da Funai é de “índio isolado ou recém- contatado”.

Desde a manhã que chegamos na casa da Funai, no Juriti, eles apareciam, vindos de sua aldeia, apenas nos olhavam e retribuíam os sorrisos. Chegavam em grupos. Às vezes, crianças. Depois, dois velhos: Karamatxa’á — que só foi contatado em 1997, quando apareceu perdido e desorientado, numa fazenda — e Mutuhurum entraram na sala da casa da Funai e, sentados no banco da mesa, nos olharam em silêncio por um longo tempo. Tínhamos sido advertidos a não ir à aldeia sem o convite deles. No fim da tarde, algumas mulheres vieram, sentaram-se nos bancos que contornam uma árvore e me olharam fixamente. Saí da varanda e me sentei perto delas em silêncio. Elas, imediatamente, foram embora com seus filhos. A barreira parecia intransponível.
Por isso, foi com um certo alívio que ouvi à noite, de um jovem, a primeira frase em português, apesar do forte sotaque:
— Eu sou Awá, eu sou índio mesmo.
Eu lavava louça na pia da cozinha do posto, quando ele se aproximou com crianças.
— Sim, sei que você é índio mesmo, mas há outros índios.
— Índio não vende madeira. Índio defende mata.
— Qual o seu nome?
— Jui’í ( pronuncia-se iuii.)
— O que quer dizer?
— Pau no mato.

Perguntei os nomes das outras crianças e o significado. A resposta era sempre “pau no mato”. É que eles põem nas crianças nomes de árvores da floresta. Miminiawá, uma menina de 8 anos, tem o peso de carregar o nome dado em guajá para maçaranduba, uma das árvores mais cobiçadas pelos madeireiros.


Em 1979, os primeiros contatos
Os Awá foram chamados de “os índios invisíveis”. Fugiram de nós por quase 500 anos, desenvolvendo uma tecnologia sofisticada de ver sem ser visto e de sobreviver com o que a floresta pode dar. São caçadores e coletores. Um dos últimos povos assim. Evitaram o máximo que puderam o momento em que estão agora. 

Com acuidade auditiva acima de qualquer padrão humano, ouvem sons a quilômetros de distância. Movem-se flexíveis e silenciosos na mata, sobem nas enormes árvores amazônicas em segundos, como se escorregassem para cima, com a ajuda apenas de um círculo de cipó nos pés. Seus adornos são braceletes e cocares pequenos de penas de tucano, as iakãtá, e um pequeno laço amarrado ao prepúcio. Assim se sentem vestidos. As mulheres usam uma saia de tucum. Andar com eles na floresta é uma experiência forte, de admiração da agilidade dos movimentos dos corpos com músculos definidos. E a inusitada sensação de ter voltado no tempo.

Em 1979, foram feitos os primeiros contatos, tendo como resultado a tragédia de sempre: morte em grande escala, por doença. Os que ficaram foram levados para aldeias. Visitamos a mais isolada, a do Juriti, onde vivem os que têm menos contato.

Há mais duas aldeias na Terra Indígena Caru: Awá e Tiracambu. E uma quarta, de nome Cocal, na TI Alto Turiaçu. Nessas outras terras vivem também índios Ka’apor e Guajajaras.
Mesmo espalhados por quatro pontos, ainda há indivíduos da mesma etnia fugindo. Há tempos vêm sendo achados vestígios deles nas terras Caru e Arariboia. Numa expedição que terminou em julho foram seguidas essas pistas.

— Foram encontrados vestígios irrefutáveis da presença de isolados em dois pontos nas terras Arariboia e Caru. Não há dúvida de que são Awá. A política não é forçar o contato, mas atuar só quando estão em risco, e os Awá estão em extremo perigo, ameaçados de morte pela extração de madeira — diz Carlos Travassos, coordenador de Índios Isolados e de Recém-Contatados da Funai, um jovem de 33 anos, que se dispõe para a luta pelos índios com a paixão que o pai, ex-presidente da UNE Luís Travassos, exibia nos comícios de 68 contra a ditadura militar.

A chegada à aldeia tinha sido uma epopeia. Saímos de Brasília quinta-feira de manhã e chegamos no sábado. O longo caminho ficou maior pelos obstáculos da estrada de terra numa parte do caminho, que piorava no trecho final, no qual não podíamos nos aventurar à noite.

No primeiro dia, tínhamos ficado em São Luís, onde gastamos a tarde para comprar o que precisaríamos. Alguns ficariam uma semana, mas Sebastião Salgado e Jacques Barthelemy, seu assistente, ficariam três. A compra tinha que ser detalhada e cuidadosa. Qualquer esquecimento não poderia ser reparado. Felizmente, Sebastião assumiu o comando no supermercado com orientações precisas.

No segundo dia fomos vencendo a distância de todas as cidades da estrada asfaltada e superando o trecho de chão até uma base da Funai construída recentemente no alto de uma colina, já na Terra Indígena Awá. É um galpão onde se prepara a estratégia de defesa da terra e da floresta. Lá dormimos nas redes e, na manhã seguinte, fizemos o último e mais difícil trecho. Eram inacreditáveis 18 quilômetros. As Picapes dançavam e agarravam na estrada ainda encharcada pela temporada de chuvas que acabara de chegar ao fim. Os carros ameaçavam capotar. Parávamos para os homens, com a enxada, aplainarem um pouco o terreno e seguirmos adiante. Depois, uma caminhada de uma hora pela floresta. Tudo superado, chegamos. Já era o fim da manhã do terceiro dia.


Este é o momento decisivo para os Awá e para o que resta de Amazônia no Maranhão. Demarcada, homologada, registrada e com todas as contestações judiciais julgadas improcedentes, a terra Awá terá agora a “desintrusão”: retirada dos não índios. Nesse momento é que os grileiros e madeireiros atacam com mais força, como se fosse um fim de festa, uma queima de estoques. Esse ataque está abrindo feridas na floresta, e 30% da mata já foi abatida. Em todas as conversas eles passaram a mesma mensagem:
— Os madeireiros estão aqui. Estamos ouvindo o ronco dos tratores agora, estão derrubando a floresta.
Eles insistiam em tom aflito que ouviam — o que nossos ouvidos nem desconfiavam — e apontavam para várias direções; a sensação era de estar encurralado pelos madeireiros. Os dias seguintes mostrariam que não era apenas uma sensação.


Fim da floresta os impedirá de virar ‘Karauaras’, seres que habitam o mundo após a morte

ALDEIA JURITI, TERRA AWÁ, MARANHÃO - Para os Awá, a tragédia do desmatamento atinge a terra e o céu. A perda da floresta é mais que o fim do mundo. É o fim do que está por vir após a morte. O desmatamento ameaça a vida que eles têm e a que um dia terão quando forem “Karauaras”, os seres nos quais os ex-vivos se transformam. Na sua explicação do mundo, os mortos vão para um outro patamar, onde também é a floresta. Lá, eles se transformam em seres duplos: são humanos, mas também parte da floresta e vivem dela. O desmatamento não daria só uma fome aqui, para os vivos, mas uma fome celeste
Essa explicação quem dá é Uirá Garcia, antropólogo da Unicamp. Há seis anos, ele estuda os Awá, aprendeu a língua deles e viveu com eles. Andar com Uirá pela aldeia de Juriti, uma saborosa experiência, começou pelo ponto que mais me intrigava. Meio afastada de tudo, no interior da floresta, vive, sozinha, uma velha, muito velha. É um espanto ir andando e encontrá-la só. Com os cabelos brancos e um rosto enrugado de uma idade muito avançada, é difícil imaginar que ela viva longe de todos numa casa sem paredes no meio da floresta.

Pelo nome que me disseram antes, eu entendi que ela se chamava Amerytxiá. Mas Uirá escreveu o nome em duas versões: Am˜ypirawãj ou Amã Pirawãe. Amarrada em duas árvores, ela colocou sua rede tecida de tucum ou tucumã. É uma fibra difícil de tirar e de tecer, mas é uma rede resistente na qual pode dormir uma família. Ao lado, debaixo de outra árvore, ela faz o fogo, onde assava uma abóbora.

Uirá vai explicando a casa dela (Taperi) e, ao mesmo tempo, falando para ela em guajá quem eu era e o que ele estava me explicando. Numa caminhada dias antes, havia encontrado a casa dela. A cena foi tão inesperada que eu parei. Ela, sentada no chão, fez um gesto delicado que eu seguisse adiante na caminhada e não parasse. Perguntei depois a um dos índios, Uirahó, por que ela morava só no meio da floresta, e não na aldeia. Ele me disse que ela achava a aldeia quente demais. Uirahó foi criado por ela após ter sido encontrado na floresta com a mãe muito doente. Levado para esse grupo, foi adotado por ela, junto com seus irmãos. Ela é mãe e avó de grande parte da aldeia. Mas prefere viver da maneira mais tradicional possível.

Quando Uirá contou a ela quem eu era e o que estava fazendo lá, ela disse com uma voz suave e doce: “Katu, Katu”. Quer dizer, obrigada ou tudo bem. Quando Uirá falou da sua rede, ela disse que encontrou a palmeira há muito tempo e teceu a rede. O antropólogo foi recebido com alegria pelos índios. A entrevista de duas horas que fiz com ele foi andando na aldeia, indo a cada grupo de casas, conversando com moradores. Durante a entrevista, sempre que chegava um dos índios ele parava, conversava com a pessoa, e traduzia o que estávamos falando. Assim, ele delicadamente evitava que o índio se sentisse objeto de estudo.

Com a ajuda dele, se pode ver melhor os sinais do que é mais tradicional e do que já é mudança na vida do grupo. A casa sem paredes dos mais velhos, em oposição à casa de pau a pique das novas gerações. Tudo faz mais sentido, quando explicado por Uirá.

— Eles fazem um ritual de tocaia na seca para encontrar os que já morreram no que eles chamam de céu. O mundo tem vários patamares. E eles sobem nesse outro patamar, onde os mortos vivem como um novo humano celeste. Esses seres, os Karauaras, são duplos: meio humanos, mas seres da floresta. Há o Karauara Bacaba, por exemplo, uma árvore. Ou o que é Mocoró, uma pomba. Esses seres são caçadores magníficos, caçam melhor que os humanos e são especializados. Cada um caça um tipo de animal. A floresta está acabando e, para eles, isso significa a ameaça de uma fome aqui, e uma fome celeste. Tem um devir, depois da morte — da mesma forma que para nós existe —, mas que para eles pode acabar, se não houver floresta; o universo deles desmorona com o desmatamento. É como se você fosse morrer e, além disso, o mundo para o qual você acredita que vai não fosse existir mais — explica Uirá. “Tem Awá fugindo até hoje”

Os Awá são seres florestais em tudo. Sabem a dieta de cada animal que depois, um dia, caçarão. Creem que há uma relação complexa entre os animais e os outros seres da floresta. Eles caçam, o que para um conservacionista poderia parecer agressão à natureza, mas o fazem com os cuidados da preservação das espécies. É delas que vivem. A maior parte desse grupo mora em casas de pau a pique reunidas em círculo, mas cada família nuclear, com a sua casa. Isso que a Funai chama de aldeia, eles chamam de “Funai”. Eles foram nômades, não entendiam o conceito do que vivem agora. No meio, há uma área coberta, sem paredes, de convivência, e um jirau onde há sempre uma caça assando e defumando. A caça é dividida entre as famílias.

— Eles gostam de novidades, então os mais novos foram adaptando suas casas, mas tudo isso é muito recente para eles, porque nunca foram de parar em lugar algum.
Fomos depois para uma outra casa, também ao estilo tradicional, sem paredes. Lá estava outro dos mais antigos da tribo, Pirama´á. Ele estava em uma rede com uma criança brincando. Eu já tinha visto outros pais com crianças no colo, brincando ou deitados em rede. Uirá explicou que é comum. O pai participa intensamente do cuidado da criança.

— O mundo deles está mudando em tempo real. O contato com essa aldeia começou em 1980. Aqui há pessoas contatadas em 1996 e 1997. Por isso, esse conceito de aldeia é novo. Eles sempre andaram pela floresta, em grupos de, no máximo, três famílias. E vivendo radicalmente da floresta. Escolheram fugir do contato com os brancos. Passaram quase todo o século XX numa rota de fuga, mais fundo na floresta. Ouvi vários relatos, inclusive daquela senhora que vimos, de que o pai fugiu a vida inteira. Tem Awá fugindo até hoje, mesmo sendo isso aqui o que resta de floresta no Maranhão — disse Uirá.

Os sinais da vida antiga se misturam com os de mudança. Mas o idioma permanece vivo. As crianças aprendem guajá como primeira língua. As mulheres falam algumas palavras de português. Poucos são bilíngues. Numa medição feita por Uirá e uma linguista, num nível de zero a cinco de domínio da língua, o jovem Jui’í, que consegue falar as frases mais elaboradas, está no nível três. É o máximo a que se chegou, mas um nível bem intermediário. Quando viviam na floresta, eles tinham o conceito de Harakwa, território. É como se a floresta fosse repartida e cada família ou grupo de famílias ficasse com um pedaço. Para entrar no território de outro, os Awá emitiam sons de assovios para dizer que estavam chegando. Hoje, estão em aldeia, pela primeira vez em sua história, ainda que se saiba de outros que ainda não aceitaram a nova.


—Eles estão vivendo um momento muito dramático. Durante muito tempo fugiram. Apareciam os brancos e eles fugiam. Só que agora eles não têm mais para onde correr, tudo o que eles têm está aqui — diz Uirá.
Anoitecia quando saímos da aldeia de volta ao posto da Funai. Ficou claro que tudo o que eles têm, para a vida e para depois da morte, é a floresta que restou. Por isso falam com tanta aflição sobre o desmatamento. Uirá é uma palavra que em guajá quer dizer tronco. Mas Uirá não é índio. É negro. O pai, Januário Garcia, é do movimento negro e colocou no filho um nome indígena. E Uirá, por coincidência, tem dedicado sua vida acadêmica — fez doutorado na USP — a entender a vida de um grupo indígena que está no momento mais frágil da sua história.


Mais fotos do Sebastião Salgado com os Awás:

 





 








 


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