domingo, 25 de agosto de 2013

Flores não são verdes


"Pede-se não enviar flores", preceito judaico para evitar o culto aos mortos e nos lembrar que pobres e ricos são iguais diante de Deus, de nada nos adianta um funeral chique


Todas as grandes revoluções da Era Moderna foram simbolizadas por flores. O símbolo do Socialismo inclusive é uma rosa vermelha. O que talvez explique o porque da logo do PSOL ser um sol e não uma flor, justamente para simbolizar algo diferente.
Não sou socialista nem eleitora do PSOL, o blog é voltado para autogestão, foi só um exemplo.




Mas observe que a Revolução Portuguesa que derrubou o regime ditatorial salazarista é a Revolução dos Cravos e que os movimentos democráticos no Oriente Médio foram denominados Primavera Árabe e a presença da flor entre os manifestantes também foi percebida. Como os manifestantes do que já está sendo chamado de Outono Brasileiro, ou a Revolução dos 20 centavos, também contou com a presença de manifestantes eternizando o clichê de oferecer flores à tropa de choque.






















O hábito de ter flores disponíveis começou com os funerais da antiguidade, para que o cheiro das plantas aromáticas afastasse os animais que, atraídos pelo cheiro dos cadáveres, pudessem desenterrar os corpos. Hoje, ganhamos flores quando nascemos, casamos, concluímos alguma etapa e até morremos. Mas ninguém observa que o ato singelo de chegar com um lindo buquê-arranjo não tem nada de bucólico, que na verdade a flor é mais um dos muitos produtos da agroindústria, que toda flor ornamental é cultivada com agrotóxico que poluiu os lençóis freáticos do entorno, consumiu água e energia naquelas estufas imensas e ainda combustível fóssil na logística de transporte.

A flor de Holambra emite mais CO2 do que as bananas produzidas organicamente no seu estado.
Mesmo que seja criado um programa de cultivo de flores orgânicas, cultivadas sem pesticida, quanto de água uma dúzia de rosas consome para virar um arranjo que dura 1 semana no vaso (trocando a água diariamente)?
Segundo o site GardenWeb, para produtores domésticos entusiastas, um único arbusto demanda 7 galões semanais. Um galão corresponde a 3,78 litros.

Segundo a US EPA (Agência Governamental de Proteção Ambiental), só os norte-americanos, que inventaram a concepção de subúrbio ajardinado, gastam diariamente 10.000 galões (ou 37.800 litros) de água potável irrigando seus gramados com sprinklers mesmo em dia de chuva. E deixa como sugestão muitas práticas sugeridas nesse blog modesto, como captar água da chuva, reduzir os pesticidas que poluem os lençóis, plantar hortas urbanas e o maior número possível de árvores que ajudem na captura dessa água pluvial, além é claro de adotar a irrigação por gotejamento, uma técnica israelense desenvolvida numa terra seca.

Mas o brasileiro encara a questão como um efeito colateral de um mercado que ainda pode crescer e Holambra segue como a capital nacional da produção de flores borrifadas com pesticida, transportadas de caminhão até a gôndola do supermercado mais próximo, onde é vendida bem baratinho, afinal ninguém está computando os custos indiretos de esgotamento das nascentes de água e contaminação dos lençóis freáticos, além da perda de área para agricultura familiar e do estímulo ao desenvolvimento de sementes geneticamente alteradas para termos sempre flores cada vez maiores, mais coloridas e resistentes a tudo em qualquer época do ano.

Da mesma forma que toda bebida pronta é crime de hidropirataria, já que só a Coca-Cola consome 37 litros de água para cada litro de refrigerante vendido, todo buquê de flores ornamentais também é hidropirataria.

Mas não sempre existiram flores na natureza? Sim, é claro. Só a flor da abóbora, a cambuquira, contém 4 vezes mais cálcio do que a mesma quantidade de leite e dá o ano todo, leia sobre na postagem Abóbora - mil receitas . Mas não é linda como uma tulipa azul nem uma rosa colombiana. É flor da roça, e do mato. Como a flor de laranjeiras, da macieira, do pessegueiro, ameixeira e até da cereja, que tem festas em homenagem no Brasil, Japão e Bulgária, que fazem a Festa da Cerejeira anualmente
Só um "probleminha": floradas ocorrem uma vez ao ano, na Primavera.


Em tese, quase toda planta dá flor. Até o cactus, que nos presenteia com o famoso Mandacaru cantado por Luis Gonzaga no "Xote das Meninas":

"Mandacaru
Quando fulora na seca
É o sinal que a chuva chega
No sertão
Toda menina que enjôa
Da boneca
É sinal que o amor
Já chegou no coração..."



Flores em vaso? Realmente consomem menos água do que as flores ornamentais de buquê e arranjo. Uma dúzia de rosas demanda um vaso de 3 litros de água trocada diariamente, em contrapartida o vasinho de margaridas-azaléias só precisa ser regado 2 vezes por semana com 1 copinho de 200ml a cada rega, já que a terra mantém a água e ainda a transforma em nutrientes para a planta, que dura muito mais. Mas já que você foi em frente e comprou um vaso com terra, será que não seria mais interessante presentear com um vaso de alecrim, que perfuma a casa toda e ainda é comestível? Que tal manjericão, lavanda, hortelã, poejo e camomila, que é uma flor amarelinha e singela? Se for um vaso maior, ainda comporta um pequeno limoeiro, amoras, pimentas e até espécies menores de abacaxis.

Um dos melhores livros sobre sustentabilidade que já li, O mundo é o que você come, explica que a raiz de todos os problemas ambientais está na produção alimentar e esses problemas derivam de um único comportamento: querer comer coisas que não são locais e sazonais. O livro inclusive poderia ser definido em uma única frase "Não está na época". Antigamente ouvia-se muito dela nas feiras, hoje temos de tudo o ano todo e é exatamente essa cultura de forçar cultivos que está sobrecarregando o meio ambiente. A época da florada das bromélias e orquídeas da Mata Atlântica é na Primavera, obedecendo a um ciclo natural. 

O que as pessoas em geral precisam entender é que a flor não é um fim, é o meio do processo produtivo que antecede ao fruto. A função da flor é a polinização para produção de mais frutos e não ornamentar vasos e coroas de cemitério. 
Logo, se você visitou um sítio e, sentindo-se em Woodstock, arrancou uma flor para enfeitar os cabelos, você reduziu o número de chances daquele local receber a visita de uma abelha e foi contra o primeiro mandamento do turista consciente: "só tirar fotos, só deixar pegadas e só trazer lembranças".
Arrancar flores, assim como comprá-las, não é sustentável. 



Holambra ganha Polo Tecnológico de Sementes

Município tradicionalmente de vocação agrícola, situado no interior do estado de São Paulo, Holambra já é reconhecida nacionalmente por sua produção de flores e plantas ornamentais. Agora, a cidade, que anualmente recebe milhares de visitantes para conferir as novidades e tendências de mercado na Hortitec, a maior Feira de Horticultura da America Latina, acaba de se sedimentar como um Polo Tecnológico voltado à pesquisa de sementes.


Mercado brasileiro de flores deve crescer 15% na comparação com 2011


Desde 2006, o segmento tem registrado taxas de crescimento entre 15% e 17% e emprega, atualmente, 194 mil pessoas. Para este ano, o instituto espera que o setor cresça, em média, 15%, na comparação com 2011, movimentando R$ 4,5 bilhões.

"Podemos dobrar o volume de consumo per capita [brasileiro]", estima. Ele aponta que, embora o Sul e o Sudeste sejam os maiores consumidores, houve um aumento significativo nas outras regiões. "Norte, Nordeste e Centro-Oeste são as que mais crescem. A gente não tem ainda um número de quanto isso representa, mas pela sondagem com os produtores, a gente sabe que está ampliando bastante", explica.

Além do poder de compra do brasileiro, o presidente destaca outros fatores que contribuíram para o desenvolvimento do setor, como aumento dos pontos de venda e durabilidade do produto. "Todos os supermercados vendem flores e plantas hoje em dia". Além disso, para ele, os produtores estão mais preocupados em agradar ao consumidor nacional. "Ninguém está preocupado em exportar, porque o custo é alto."


Participam da feira 170 produtores, que vão expor mais de 2 mil variedades de plantas, até 23 de setembro. Durante quase um mês, devem ser vendidas cerca de 800 mil unidades de flores. "Nesse período, devem ser injetadas na economia de Holambra, R$ 20 milhões, incluindo toda a infraestrutura turística", estima o coordenador.

Fernandes destaca como uma das novidades da Expoflora deste ano a super miniorquídea, planta desenvolvida com o cruzamento de variedades diferentes, que resultou em flores que medem, no máximo, 4 centímetros



Capacitação: um caminho para o crescimento do setor de floricultura

A Capacitação Tecnológica em Flores e Plantas Ornamentais traz uma nova visão do que é floricultura, diferente da que temos aqui, até pela falta de tecnologias para cultivo e manejo. Atualmente temos no Senar os cursos de Jardinagem, Plantas Ornamentais e Terrário. A partir deles e do conhecimento adquirido na capacitação tecnológica, acredito que vamos conseguir formatar e implantar novas turmas para os produtores de Pernambuco", explica Silvana Faria de Araújo, instrutora de Jardinagem no Senar em Pernambuco. 



Para fazer o dever de casa no Facebook: Grow Food, Not Lawns (cultive hortas-comida e não jardins- gramados)



Para doar as flores de casamentos e recepções dos que insistem num hábito sem muito sentido: Ong Flor da Idade - doação de flores de eventos para asilos de idosos

{Flor da Idade} Doação Dany e Thales from Lenito Ribeiro on Vimeo.




Mais informação:
Jóias são insustentáveis
Cemitérios e enterros sustentáveis
Algumas hortas urbanas pelo mundo
Incensos e Aromatizadores de ambiente não são sustentáveis
A casa sustentável é mais barata - parte 06 (captação de águas pluviais)
A casa sustentável é mais barata - parte 11 (irrigação por gotejamento)
Biblioteca online básica sobre Permacultura, bioconstrução e agroecologia
Embrulho para presente em papel jornal, decorando com galho de cedro e tsuru em origami. ou um furoshiki com retalhos de tecido que permite mil montagens, até para embalar garrafas.

2 comentários:

Valéria disse...

No apartamento onde moro os vasos são de tomateiros, alecrim, manjericão, capim santo, morangueiro, limão, rúcula, batata e pra não dizer que não há flores tem capuchinha (que dá uma folha deliciosa).
Acho uma tremenda perda de espaço os jardins com gramados e flores estrategicamente plantadas para o vislumbre, daria uma horta tão linda e saborosa.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Mandou muito bem, Valéria. Assino embaixo do que escreveu.