sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Hidrelétricas brasileiras




“Para dar ordens à natureza é preciso saber obedecer-lhe.”, Francis Bacon

Eu sou radicalmente contra a construção de hidrelétricas de grande porte, especialmente no Brasil, onde há um imenso potencial solar e um aquecedor solar de baixo custo pode ser construído por uma  única pessoa em 1 dia de trabalho ao custo de R$35,00.
Os aquecedores solares de baixo custo são de patente livre e deveriam estar sendo ensinados nas escolas de todo país, sua difusão seria mais revolucionária em termos de qualidade de vida do que a difusão do soro caseiro ou mesmo a implementação de uma reforma agrária.
Para ver como e onde fazer seu aquecedor solar de baixo custo, leia a postagem "A casa sustentável é mais barata - parte 15 (aquecedor solar de baixo custo)", onde essa blogueira modesta põe a mão na massa e faz sua própria placa.



Hidrelétricas de grande porte são absurdas, já que devastam áreas nativas inteiras, deslocam populações que vivem daquela terra, destroem a biodiversidade natural antes mesmo que possamos estudá-la e identificar todas as espécies, além do maior problema em primeira instância: se as árvores são os maiores captores de CO2, afogá-las com o intuito de gerar energia "limpa" não parece uma alternativa muito inteligente.
A única hidrelétrica sustentável que tive o prazer de conhecer, foi numa ecovila ashram, Goura Vrindrávana. A hidrelétrica de pequeno porte não derrubou uma árvore sequer para ser construída e com sua energia realmente limpa iluminava um vale e ainda alimentava uma pequena fábrica de frutas orgânicas desidratadas, a subsistência da comunidade autogerida.
Para ler sobre essa experiência inesquecível, clique na postagem "Goura Vrindrávana".

O grande problema da engenharia de grande porte está justamente no fato de sua rápida obsolescência. A obra grandiosa de hoje, em 10 anos, não terá mais a menor utilidade e pior, o impacto ambiental que veio como efeito colateral, leva muito mais tempo para ser minimizado e em muitos casos, o quadro é irrecuperável.

E quem financia isso é o BNDES, nunca é demais lembrar.



Movimento Xingu Vivo para sempre: Hidrelétricas não geram energia "limpa"
Ato em Belém denuncia o caos e a destruição causados pela construção de barragens.
Danos irreversíveis ao meio ambiente; destruição de povos e culturas; tráfico humano; exploração sexual; trabalho escravo; produção de gases que intensificam o efeitu estufa; corrupção; cooptação; aumento de casos de violência; enriquecimento de poucos e miséria para muitos: todas essas (e outras) mazelas estão presentes nos processos de construção de grandes barragens.

Todas estão presentes em Belo Monte.


A hora de repensar os reservatórios de hidrelétricas
Hoje em dia, há um bom potencial energético de futuras usinas com lagos de tamanho médio, com boa possibilidade de mitigação de eventuais transtornos ambientais ou para populações da área.
Se determinada obra poderá afetar a vida econômica de uma centena de pessoas, por exemplo, há alternativas imensamente mais baratas de resolver a questão, do que interromper a obra ou comprometer sua eficácia energética. Por exemplo, providenciar uma renda vitalícia às famílias afetadas, que seja mais do que ganham atualmente. Ou providenciar sua mudança para outra região, similar.
Órgãos ambientais poderão se condoer do fato das famílias trocarem o dia a dia da pesca por uma renda mensal vitalícia. Mas será que, consultadas, elas recusariam essa troca? Na outra ponta estão 190 milhões de brasileiros que necessitam da energia como fator não apenas de segurança como de promoção social. Não se trata de ganha-ganha mas de um ganha-perde.
E não se trata de tirar os direitos dos indígenas ou habitantes da selva, mas de negociar compensações e propor mudanças defensáveis, negociadas e, sob supervisão de todas as ONGs ambientais.

Hidrelétricas na Amazônia: desenvolvimento para quem?
Os danos sociais e ambientais – para não falar das questões éticas e nem da corrupção – que as grandes obras de infraestrutura provocam na Amazônia já foram plenamente demonstrados por muitos pesquisadores e jornalistas, assim como também já foi comprovado que os efeitos benéficos desses empreendimentos não se localizam na região, isto é, as promessas de desenvolvimento e oportunidades são cumpridas a muitos quilômetros de distância, às vezes, em outros países e continentes. Na região ficam apenas os royalties (a maior parte dos impostos é desonerada pelo governo federal), o passivo ambiental, alguns empregos disputados por hordas de imigrantes e muita miséria e violência. Esse é um efeito perverso, mas não fortuito. A transferência de matéria-prima e energia da Amazônia para outros lugares faz parte de um projeto colonizador gestado na ditadura militar (1964-1985), que define a região como provedora de recursos para o Brasil – e somente isso. Infelizmente, finda a ditadura há quase 30 anos, esta ainda é a visão que prevalece nos círculos de poder mais importantes de Brasília.


As instituições do governo federal responsáveis pelo planejamento, pelo financiamento e pela execução das grandes obras conhecem muito bem esse processo de socialização dos prejuízos. Sabem o que ocorre com os municípios que abrigam tais obras, os efeitos nefastos sobre os sistemas locais de saúde e educação, sobre os preços e a moradia, sobre o transporte, sobre a estrutura fundiária, sobre os modos de vida, sobre a floresta, os animais e os rios. Isto tudo já foi documentado, mas parece não fazer parte ou não importar para o governo que planeja e os empreendedores que constroem. Exemplo atual são os bilhões investidos pelo governo federal na construção da primeira usina do rio Xingu, sem a necessária contrapartida em gastos sociais e ambientais. Ou sem o fortalecimento – em igual proporção – de instituições fundamentais para a governança da região, como a Funasa, o Ibama, a Funai e a Polícia Federal. Ou, ainda, sem uma visão estratégica do planejamento regional e sem a aplicação de recursos – também em igual proporção – em pesquisa científica e tecnológica relevante para a conservação e o desenvolvimento da região. Apesar da distância que separa o governo dos generais e o atual governo democrático do Brasil, em termos de política energética, parece não haver diferenças significativas entre o ano de 1975, quando a UHE Tucuruí começou a ser erguida, e o de 2012, início das obras de Belo Monte. O que mudou foi o discurso politicamente correto de sustentabilidade, mas que se revela sempre como retórica frente às ações concretas.

Estudo vê erros ambientais em setor elétrico do Brasil


Políticas energéticas mal planejadas e sob a influência de grupos econômicos nacionais e estrangeiros. Enorme quantidade de energia desperdiçada nas linhas de transmissão. Necessidade de superar noções de usinas hidrelétricas como fonte de energia limpa, barata e renovável. Gigantesco potencial de energia eólica e solar menosprezado.

Essas são as principais conclusões de um estudo sobre o setor elétrico sob o prisma da sustentabilidade lançado ontem em São Paulo.
Elaborado por um coletivo de ONGs e membros da academia brasileira, os artigos trazem uma visão crítica sobre a política energética brasileira, amplamente baseada em grandes usinas hidrelétricas, e trazem propostas sobre alternativas para garantir o futuro energético do país.

"O estudo indica que é plenamente possível para o Brasil alcançar a segurança energética com uma vigorosa política de eficiência e de expansão da oferta a partir das fontes alternativas como a eólica, a biomassa (os resíduos agrícolas, particularmente o bagaço da cana-de-açúcar), a energia solar, e mesmo as pequenas centrais hidrelétricas, se os projetos considerarem de forma adequada as populações ribeirinhas atingidas", diz Célio Bermann, professor do Instituto de Energia Elétrica da USP e autor de um dos artigos.

Cerca de 77% da matriz elétrica brasileira é de fonte hidrelétrica e o governo planeja a construção de dezenas de grandes e pequenas hidrelétricas nos próximos anos na região amazônica.
Segundo o estudo, é enganosa a ideia que a energia hidrelétrica é uma fonte de energia limpa. No complexo Belo Monte/Babaquara, no rio Xingu, seriam necessários até 41 anos para se chegar a um saldo positivo em termos de emissões de gases de efeito estufa. Devido à flutuação no nível da água do rio, é esperada uma variação de 23 m no reservatório de Babaquara a cada ano. Quando atingir o nível mínimo, a vegetação herbácea, de fácil decomposição, cresceria rapidamente no reservatório. Quando o nível de água subisse, a vegetação decomposta produziria grandes quantidades de metano.

Um dos artigos do estudo trata das perdas de energia no sistema elétrico brasileiro. O Brasil atualmente desperdiça 15,4% de sua oferta total de energia.
Em comparação, o Chile tem perdas totais de 5,6%, o Peru de 9,3% e a Argentina de 9,9%. Segundo relatório do TCU, tal desperdício tem impacto direto na tarifa ao consumidor.
O ministério de Minas e Energia, por meio de sua assessoria, diz que as perdas de energia elétrica são elevadas devido a alta participação da energia hidráulica na matriz elétrica, às dimensões continentais do país e ao aumento da geração longe dos centros consumidores. Isso "impõe ao Brasil condições de distribuição de energia elétrica complexas e distintas dos demais países"



Governo planeja 34 novas usinas hidrelétricas até 2021, sendo 15 delas na Amazônia Legal
Para se discutir o futuro das hidrelétricas é preciso também discutir o padrão de consumo de energia no país e o gerenciamento da oferta. Dois estudos recém-lançados por organizações não governamentais (ONGs) apontam caminhos. “É preciso quebrar o paradigma de grandes hidrelétricas”, diz o professor Paulo Henrique de Mello Sant’Ana, da Universidade Federal do ABC (UFABC), coordenador de um estudo patrocinado pela WWF-Brasil.

Sant’Ana lembra que países como a Dinamarca têm 30% de sua energia gerada pelos ventos e que a Alemanha, com muito menos sol que o Brasil, já é o terceiro país do mundo em energia solar, atrás de China e Estados Unidos. “No lugar de expandir a oferta, temos de aprender a gerenciar a demanda. Estamos diante de uma revolução energética, e o Brasil não está olhando para frente”, diz. Para o professor, alternativas para reduzir o ritmo frenético de construção de novas usinas estão em programas capazes de mudar o padrão de consumo.

Ponto frágil – Dados da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava) mostram que 8% da energia produzida no Brasil se destinam apenas ao chuveiro elétrico. Isso corresponde a 15 mil MW no horário de pico, entre 17h e 22h.

Segundo a Abrava, cada metro quadrado de coletor solar instalado para aquecer água pode evitar 56 metros quadrados de área inundada por hidrelétricas. No estudo “O Setor Elétrico Brasileiro e a Sustentabilidade no Século 21″, patrocinado por cinco ONGs, incluindo o Greenpeace, o consultor em planejamento energético Roberto Kishinami afirma que o país precisa urgentemente planejar o aumento de sua eficiência econômica.

Ele lembra que a eficiência energética dos motores elétricos de uso industrial passou de 39,8% em 1984 para 47,1% em 2004. Segundo ele, um programa que reunisse os fabricantes de motores e instituições de pesquisa poderia, a curto prazo, promover a troca dos equipamentos antigos por outros com maior eficiência, reduzindo o custo e a necessidade de uso de energia nas indústrias, que respondem por metade do consumo total.

“A política brasileira é de gerar e distribuir energia no atacado, mas a tendência é descentralizar. O uso da energia solar é descentralizado, por domicílio ou empreendimento”, explica Marcelo Mesquita, especialista em gestão de energia e consultor da Abrava.

O consultor chama atenção ainda pelo fato de as hidrelétricas receberem investimentos de R$ 190 bilhões e os programas de eficiência energética alcançarem no máximo R$ 10 bilhões no período. Os investimentos em usinas eólicas e de biomassa receberam do PAC apenas R$ 9,7 bilhões.

Ao optar por produzir energia na Amazônia, distante dos centros de consumo, o País tem de investir mais em linhas de transmissão. Só em interligações e para usar a energia a ser gerada pelas usinas de Belo Monte, Teles Pires e Tapajós (a ser licitada em 2013) estão revistos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) investimentos de R$ 37,4 bilhões. A distância tende a agravar as perdas do sistema.


34 novas usinas hidrelétricas, em construção ou planejadas, vão alagar área equivalente a dez capitais
Novas hidrelétricas vão alagar área equivalente a dez capitais – Uma área de 6.456 quilômetros quadrados deverá ficar debaixo d”água para permitir a geração de energia por 34 novas usinas hidrelétricas em construção ou planejadas para os próximos dez anos. O alagamento necessário para desengavetar todos esses projetos equivale ao território somado de dez capitais brasileiras – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Recife e Maceió. 

Para o diretor da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, Roberto Smeraldi, a maior falha do planejamento no setor elétrico é insistir em não atacar as altas perdas técnicas – estimadas em cerca de 20% – das linhas de transmissão, antes de expandir o parque gerador. Ele se diz preocupado com o fato de que o impacto indireto das últimas hidrelétricas de grande porte, como o desmatamento e a ocupação urbana desordenada, tem sido de oito a dez vezes o tamanho dos reservatórios. “Cada caso é um caso, obviamente depende do nível de antropização (ocupação humana) que já existe e da infraestrutura disponível, mas precisamos entender que o impacto vai muito além da área alagada”, afirma.


De 23 novas hidrelétricas planejadas na Amazônia, 7 serão erguidas em áreas intocadas
Usina no coração da floresta – O governo planeja instalar na Amazônia pelo menos 23 novas hidrelétricas, além das seis já em construção na região. Segundo levantamento do GLOBO, ao todo, essas 29 hidrelétricas vão gerar 38.292 MW, quase metade dos 78.909 MW produzidos pelas 201 usinas hidrelétricas em operação hoje no país. Sete delas, como as das bacias do Tapajós e do Jamanxim, serão feitas no coração da Amazônia, em áreas de floresta contínua praticamente intocadas. Outras estão em áreas remanescentes importantes de floresta amazônica, como o conjunto de sete hidrelétricas planejadas nos rios Aripuanã e Roosevelt, no Mosaico de Apuí, com impacto direto em 12 unidades de conservação de proteção integral e terras indígenas. A região, ao Sul do Amazonas, foi considerada de prioridade extremamente alta para conservação pelo Ministério do Meio Ambiente, em 2006 

- A Amazônia é a bola da vez, e é necessário se antecipar aos problemas, não pedir desculpas pelo já feito. É preciso ter princípios adequados à lógica da região. Na Amazônia, a questão ambiental se sobrepõe a todos os fatores. Não dá para fazer uma usina atrás da outra – diz João Gilberto Lotufo, diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), que acaba de finalizar o Plano Estratégico de Recursos Hídricos dos Afluentes da margem direita do Rio Amazonas. 

Para o biólogo Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Brasil deve buscar novos caminhos: - É preciso repensar a lógica para, no futuro, não se arrepender de ter acabado com os rios da Amazônia. É mais barato fazer um plano de redução do consumo. No Brasil, 5% do gasto são de chuveiro elétrico – diz o biólogo.





Abastecimento de energia advindos de Projetos Hidroelétricos depende da conservação de Florestas Tropicais
Uma pesquisa publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, mostra que a conservação das florestas da Bacia do Rio Amazonas aumentarão a quantidade de eletricidade gerada por projetos hidrelétricos na região. O estudo é o primeiro a quantificar o impacto da cobertura florestal regional sobre a produção de energia elétrica. Seus resultados revelam que as florestas tropicais são mais cruciais do que se imaginava no processo de formação de chuvas que impulsionam os fluxos fluviais, e que por fim produzem energia em áreas tropicais. A pesquisa mostra que, se o desmatamento continuar aumentando na Amazônia, as projeções de energia para uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo – a Belo Monte, no Brasil – diminuirão em um terço.
“Nosso estudo mostra que os grandes avanços alcançados pelo Brasil no sentido de reduzir o desmatamento da Amazônia estão de fato ajudando a garantir o abastecimento de energia no país”, diz Claudia Stickler, a autora principal do estudo, e cientista do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – Programa Internacional (IPAM-IP). “Mas esses esforços devem continuar lado a lado com a conservação no âmbito regional.”
A potencial perda de capacidade de produção devido ao desmatamento regional pode vir a dificultar os esforços brasileiros para suprir a lacuna pendente de energia elétrica no país. Mais especificamente, o estudo mostra que se o desmatamento não for controlado na Amazônia, a energia fornecida pela hidrelétrica de Belo Monte no Brasil – projetada para ser a terceira maior hidrelétrica do mundo – será reduzida em 30% abaixo das estimativas atuais do setor, um total equivalente ao consumo de energia de quatro milhões de brasileiros.
“Estes resultados são extremamente importantes para o planejamento energético a longo prazo”, explica um dos autores do estudo, o climatologista Marcos Costa da Universidade Federal de Viçosa no Brasil. “Estamos investindo bilhões de dólares em usinas hidrelétricas em todo o mundo. Quanto mais florestas em pé, mais água teremos nos rios, e mais energia elétrica poderemos gerar a partir desses projetos.”
Combinando suas especialidades em hidrologia, ecologia, ciência do uso da terra, climatologia e economia, os pesquisadores modelaram a produção de energia em diferentes níveis de desmatamento na Bacia do Rio Amazonas. Os cenários com mais florestas também produziram mais energia. Com os níveis atuais de desmatamento na região, os resultados mostram que a precipitação é cerca de 6 a 7% abaixo do que seria caso houvesse uma cobertura florestal total. E com a perda de 40% de florestas tropicais antecipada por alguns até 2050, a precipitação seria entre 11 e 15% mais baixa, resultando assim em 35 a 40% menos energia.
Expansão hidrelétrica em florestas tropicais mundiais
Temos agora fortes evidências de que a capacidade brasileira de gerar eletricidade depende da conservação das florestas”, diz o co-autor Daniel Nepstad, Diretor Executivo do IPAM-IP “Esses resultados não são importantes apenas para o Brasil – a cobertura florestal pode afetar a produção de energia em áreas tropicais úmidas em toda a Amazônia, assim como na África e Sudeste da Ásia ”
Áreas com florestas tropicais tendem a ter grandes quantidades de chuva, tornando-as locais privilegiados para projetos hidrelétricos que se aproveitam dos altos fluxos fluviais para gerar eletricidade. O Banco Mundial estima que a energia hidrelétrica não explorada nestas áreas é quase quatro vezes maior do que a capacidade já estabelecida na Europa e América do Norte – e grande parte deste potencial se encontra no coração das florestas tropicais.
“O Brasil, Peru, Colômbia, Congo, Vietnã e Malásia estão se voltando para a ‘energia verde’ produzida por hidrelétricas para atender as demandas de suas economias em crescimento”, diz Nepstad.
“O problema é que os projetistas de usinas normalmente ignoram os efeitos do desmatamento futuro. Ou, quando isso é levado em consideração, eles presumem que o desmatamento vai aumentar a quantidade de água que flui para as represas “, explica Stickler. “Quando nós incorporamos os efeitos do desmatamento no âmbito regional, nossos resultados mostraram exatamente o contrário.”
Os cientistas pedem que os responsáveis pelo planejamento de projetos de energia considerem estes resultados – e o impacto das mudanças na cobertura florestal – ao analisarem a viabilidade de projetos hidrelétricos. Eles também pedem que os tomadores de decisões políticas prestem atenção aos custos de energia associados aos esforços de desenvolvimento como a derrubada de florestas para construção de novas estradas e fazendas. E em contrapartida, que sejam considerados os benefícios energéticos gerados através de programas de apoio a agricultores e pecuaristas a fim de se reduzir o desmatamento.
“Nos últimos anos, o Brasil progrediu muito na luta contra o desmatamento, alcançando a diminuição das taxas de desflorestamento em 24% comparadas a média histórica”, diz Nepstad. “Mas estes números estão começando a subir de novo, e isso deveria gerar a preocupação de todos. Acabar com o desmatamento deve ser visto também como uma questão nacional de segurança energética”.
“Nós mostramos que as políticas que maximizam a conservação também maximizam a geração de energia. Isso não é algo apenas conceitual, temos números que comprovam isto”, acrescenta Costa. “Esta descoberta me dá esperança. O desenvolvimento sustentável não é apenas possível, mas alcançável.“




Hidrelétricas podem afetar sistema hidrológico do Pantanal
O projeto de construção de mais 87 Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) na Bacia do Alto Paraguai, em discussão atualmente, pode afetar a conectividade do planalto – onde nasce o Rio Paraguai e seus afluentes – e a planície inundada do Pantanal – por onde as águas desses rios escoam –, dificultando o fluxo migratório de peixes e outras espécies aquáticas e semiaquáticas pelo sistema hidrológico.
De acordo com José Sabino, professor da Universidade Anhanguera-Uniderp, o impacto das PCHs já existentes na região da Bacia do Alto Paraguai não são tão grandes porque, em geral, baseiam-se em uma tecnologia denominada “a fio d’água” – que dispensa a necessidade de manter grandes reservatórios de água.
A somatória das cerca de 30 PCHs existentes com as 87 planejadas, no entanto, pode impactar a hidrologia e a conectividade das águas do planalto e da planície da Bacia do Alto Paraguai e dificultar processos migratórios de espécies de peixes do Pantanal, alertou o especialista.
“A criação dessas PCHs pode causar a quebra de conectividade hidrológica de populações e de processos migratórios reprodutivos, como a piracema, de algumas espécies de peixes”, disse Sabino.
“Isso também poderá ter impactos nos hábitats de espécies aquáticas ou semiaquáticas”, reiterou Walfrido Moraes Tomas, pesquisador do Centro de Pesquisa Agropecuária do Pantanal (CPAP) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). De acordo com o pesquisador, o Pantanal é uma das áreas úmidas mais ricas em espécies do mundo, distribuídas de forma abundante, mas não homogênea, pela planície pantaneira.
Alguns dos últimos levantamentos de espécies apontaram que o bioma possui 269 espécies de peixes, 44 de anfíbios, 127 de répteis, 582 de aves e 152 de mamíferos.

Pesquisa cataloga 165 espécies de plantas medicinais, em Roraima

Há pouco estudo fitossociológico sobre estas espécies, diz pesquisador. Levantamento foi realizado no município de Caracaraí, sul do estado.

Plantas curativas para doenças do corpo e da alma foram catalogadas na pesquisa do professor mestre Tiago Monteiro Condé, do curso de Engenharia Florestal da Universidade Estadual de Roraima (UERR). No recolhimento de dados, que durou dois anos, foi feito o levantamento fitossociológico de espécies da flora do município de Caracaraí, sul do estado.
De acordo com o pesquisador, das 165 plantas registradas, algumas já são de uso conhecido na medicina alternativa. As espécies contêm químicas que ajudam a curar pessoas. Segundo ele, a rica composição da flora botânica foi encontrada sob o manejo florestal em Caracaraí.
"Quando me refiro à cura de doençasdo corpo e da alma é em razão de a substância da planta poder tratar o psíquico do doente, como a depressão", explica Condé.
Para o pesquisador, há ainda o desconhecimento em relação às espécies da região que compõem a flora botânica do sul de Roraima. "Há pouco levantamento fitossociológico sobre isso. Devemos conhecer esse potencial para podermos usar com sabedoria", diz.
Das 165 plantas estudadas, algumas estão catalogadas no herbário do Instituto de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Segundo o pesquisador será necessário fazer um conferência para saber se há espécies novas. "Se fizéssemos um levantamento, possivelmente, encontraríamos plantas desconhecidas", afirma.
Condé ressaltou ainda, que vai buscar parcerias com o objetivo de colocar em prática estudos científicos das plantas colhidas em sua pesquisa.
"Junto com alguns professores vamos levar às espécies para laboratórios. Firmamos parcerias com a Universidade de São Paulo e o Instituto Butantan, para isolarmos algumas plantas, fazermos a pesquisa científica e apontarmos as curas".
De acordo com ele,  estudos assim são vitais, em razão das florestas estarem sofrendo modificações estruturais provenientes de desmatamentos, construções de vicinais ligadas a assentamentos de reforma agrária e extração de madeira sem critério.
O pesquisador antecipou que vai formalizar sua tese de doutorado na flora do Anauá, no município de Rorainópolis. O trabalho de coletas foi realizado em conjunto com o pesquisador doutor Helio Tonini, da Embrapa, em Roraima.

Animais silvestres morrem afogados no lago da Usina, consórcio construtor diz que foram apenas cerca de 500

Os pioneiros da Amazônia descobriram a alguns anos que não era mais permitido matar animais silvestres para comer. Alguns foram parar no presídio Urso Branco por fazer um “guizado de paca”. O Ibama e o  Instituto Chico Mendes possuem zelosos fiscais que correm atrás de criança com estilingue na mão. Mas parecem cegos, surdos e mudos em relação a supostos crimes ambientais em relação ao Consórcio Construtor da Usina Santo Antônio.
Já foi denunciado um “bota-fora” que jogou milhares de toneladas de entulhos da obra no leito do Rio Madeira. Uma clara demonstração da falta de planejamento foi vista com a abertura das comportas e o “banzeiro” provocado, que derrubou barrancos, destruiu casas, expulsou ribeirinhos e levou até um centenário patrimônio histórico para o fundo do rio.
Desta vez, chega ao Rondoniaovivo mais uma denúncia contra a Usina Santo Antônio. Um cidadão procurou o "seu Jornal Eletrônico" e reportou que trabalhava até fevereiro deste ano numa empresa contratada pela “Santo António” para resgatar animais ilhados com o inicio do enchimento do lago da Usina.  São alguns milhares de hectares de selva amazônica que está afundando para  produzir energia elétrica para o sul/sudeste do Brasil.
Neste trabalho de resgate, foi detectado que em alguns locais, o socorro demorou a chegar. Segundo o ex-funcionário, principalmente nas ilhas do Rio Madeira, o extermínio foi em massa, com a morte de Tatus, Pacas, Cotias e outros animais silvestres. E ali mesmo apodreceram. O fedor de carniça ia longe segundo o trabalhador da empresa contratada.O mais chocante da história é que o contrato com a empresa YKS que fazia o resgate foi cancelado, sem ter sido finalizado o trabalho. É difícil mensurar o tamanho da carnificina provocada pela “Santo Antônio”. 
Procurado pela reportagem, o grupo empresarial disse em nota que realmente houve mortes, mas foram apenas 459 animais silvestres. Este quantitativo, no caso de moradores locais daria prisão perpétua para um “comedor de tracajá”. O cidadão que entregou fotos e vídeo, disse que antes de procurar o Rondoniaovivoesteve em três emissoras de televisão da capital e nenhuma  se “interessou” pela pauta.  
Confira nota do Consórcio abaixo:
O Programa de Resgate de Fauna da Santo Antônio Energia, previsto no Projeto Básico Ambiental da concessionária, antecedeu todas as etapas de construção da UHE Santo Antônio e a formação do reservatório.
Durante as fases de enchimento do reservatório (de 16 de setembro de 2011 a 23 de janeiro deste ano)  e do rescaldo ( trabalho de resgate mais detalhado, que durou até 3 de março, pós- período de enchimento do reservatório,) foram encontrados pelas equipes de resgate 25.517 animais na região de influência da Usina Hidrelétrica Santo Antônio.
Deste total de animais resgatados, 24.952 indivíduos (que correspondem a 97,7%) foram devolvidos saudáveis ao meio ambiente, 0,17% foram encaminhados para extração de veneno, 0,2% continuam em tratamento médico veterinário e 1,8% vieram a óbito. Alguns animais mortos foram encaminhados para universidades para serem utilizados como material de ensino e pesquisa, outros foram recolhidos e levados para local apropriado
Participaram das operações de resgate e rescaldo mais de 100 profissionais entre veterinários, biólogos, tratadores, auxiliares e equipe de apoio. A estrutura para os trabalhos envolveu 32 barcos e dois pontos de apoio com ambulatório para atendimento médico veterinário, mini-centro de estudos e viveiros. Os profissionais contaram também com a estrutura do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), o maior do país, construído pela Santo Antônio Energia no campus da Unir.
 Em nenhum momento as ações do Programa de Resgate de Fauna da empresa foram suspensas. No dia 3 de março as ações foram concluídas com 97,7% de sucesso na reintrodução de animais ao meio ambiente. A partir dessa data a Santo Antônio Energia iniciou com equipe própria o monitoramento e eventual resgate na área do reservatório. Todas as atividades foram e continuam sendo acompanhadas pelo Ibama por meio de relatórios periódicos e visitas de auditoria em campo.

Espécie rara de sapo impede construção de hidrelétrica no RS
O pequeno sapo-de-barriga-vermelha tem impedido a construção de uma hidrelétrica no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul. O anfíbio é endêmico da região e os especialistas temem que as mudanças ambientais causadas pelas obras possam levar a espécie à extinção.
O projeto de construção da barragem existe há cinco anos e foi idealizado pouco tempo depois que o sapinho, que mede menos de cinco centímetros, foi descoberto. De acordo com os pesquisadores que estudam as características e hábitos do anfíbio, a espécie reside em uma área muito pequena, de apenas 700 metros, que está localizada às margens do Rio Forqueta.
O fato de ser uma comunidade muito pequena, localizada em uma área bastante restrita, torna-os ainda mais frágeis e suscetíveis à extinção causada pelas alterações humanas, conforme explicado por Márcio Borges Martins, pesquisador do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em declaração ao G1.
A previsão era de que as obras de construção da barragem tivessem início ainda neste mês. No entanto, o projeto está parado em consequência do pedido feito pelos estudiosos e por ambientalistas que buscam a preservação do sapo-de-barriga-vermelha.
Mesmo que a empresa responsável pelo projeto se defenda dizendo que especialistas acompanharão de perto o desenvolvimento dos animais durante a obra, a situação ainda é bastante frágil. Para Samuel Renner, biólogo da Universidade do Vale do Taquari, qualquer impacto, por menor que seja, poderá significar a extinção da espécie.
Por ser um sapo que existe apenas nesta pequena área do Rio Grande do Sul, a sua preservação gera imenso interesse nas autoridades locais.

Embrapa e UFRJ pesquisam cura para doenças na biodiversidade brasileira
Respostas para muitas doenças podem ser encontradas na biodiversidade brasileira. Para tentar descobri-las, pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), testam plantas de vários biomas. Alguns exemplares já se mostraram eficazes contra bactérias e fungos causadores de infecções.
O coordenador do projeto no Rio, o químico Humberto Ribeiro Bizzo estuda as propriedades de espécies de plantas em laboratório desde 2012. Neste período, constatou que a sacaca (planta de origem amazônica) deu resultados positivos contra uma bactéria que é encontrada em infecções em hospitais e contra a candidíase, doença predominante em mulheres.
“Nossa orientação é achar novas substâncias ou novos extratos que tenham atividade contra bactérias ou fungos ou com alguma resistência a antibióticos ou, então, contra doenças, como é o caso da candidíase, que afeta grande parte da população em países quentes e úmidos”, explicou Ribeiro Buzzo. Segundo ele, esse é um dos primeiros passos para criar medicamentos.
“Terminada a pesquisa, pegaremos as plantas que têm atividade no laboratório e aumentaremos esses testes para verificar se os extratos são tóxicos na concentração utilizada e se têm atividade em cobaia”, disse. O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).




Organizações e movimentos sociais manifestam repúdio às ações de espionagem realizadas pelo Consórcio Construtor de Belo Monte e pela ABIN ao Movimento Xingu Vivo para Sempre
Organizações e movimentos sociais manifestam repúdio às ações de espionagem realizadas pelo Consórcio Construtor de Belo Monte (CCBM) e pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) ao Movimento Xingu Vivo para Sempre.
Na manhã de domingo, 24 de fevereiro, quando finalizava seu planejamento anual em Altamira (PA), o Movimento Xingu Vivo para Sempre detectou que um dos participantes, recém integrado ao movimento, estava gravando a reunião com uma caneta espiã. Em depoimento divulgado pelo Xingu Vivo, o rapaz confessou ser contratado pelo CCBM, responsável pelas obras da usina, para levantar informações sobre lideranças e atividades do Xingu Vivo1. O espião também relatou que este material seria analisado pela inteligência da CCBM, e que, para isso, contaria com a participação da ABIN. Em tempos de Comissão da Verdade e na qualidade de organizações e movimentos de promoção e defesa dos direitos humanos, condenamos profundamente essas iniciativas que remontam os tempos sombrios da ditadura.
A construção da Usina Hidrelétrica (UHE) Belo Monte está afundada em escândalos e denúncias de violação de direitos. Em 2011, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) outorgou medidas cautelares sobre a obra. Foi requerido ao Estado Brasileiro que observasse requisitos mínimos para a proteção dos povos indígenas e comunidades afetadas. No mesmo ano, porém, o IBAMA concedeu a Licença de Instalação, em total inobservância às medidas cautelares, sem a realização de processos de consulta e sem a obtenção do consentimento prévio, livre e informado das comunidades indígenas e ribeirinhas diretamente afetadas. Além disso, no estado brasileiro, existem 63 ações pendentes contestando a UHE de Belo Monte e as violações decorrentes do empreendimento.
No inicio de fevereiro deste ano, quatorze mulheres – entre elas uma adolescente de dezesseis anos – foram resgatadas, em condições análogas à escravidão, de uma boate que funcionava na área declarada de interesse público para a construção da UHE Belo Monte. O mesmo trabalhador do CCBM flagrado espionando a reunião do Movimento Xingu Vivo para Sempre trabalhou ainda como agente infiltrado nos canteiros de obra da usina, em novembro de 2012, para detectar lideranças operárias que poderiam organizar greves. O resultado da ação de espionagem foram cinco trabalhadores presos e outros 80 demitidos.
Exigimos que a denúncia de espionagem seja investigada imediatamente e lembramos que este não é o primeiro escândalo envolvendo espionagem e criminalização daqueles que se posicionam contrários à construção da UHE Belo Monte. Em 2011 tornou-se público um relatório da ABIN com uma lista de ONG’s internacionais divergentes ao projeto, assim como ao longo dos anos militantes do Movimento Xingu Vivo foram alvo de telefonemas e visitas depessoas se identificando como membros da ABIN.
Este episódio é mais uma prova incontestável das violações de direitos humanos que ocorrem no processo de construção da usina. Comprova o lamentável processo de criminalização dos movimentos sociais executado pelo CCBM com a cumplicidade e financiamento da União. A usina de Belo Monte já foi beneficiada com dois empréstimos pontes do BNDES que viabilizaram o inicio das obras e já se comprometeu a financiar um total de R$ 22,5 bilhões, o maior empréstimo da história do banco.
Exigimos esclarecimentos sobre a participação da ABIN no caso de espionagem.
Abaixo a criminalização e espionagem aos movimentos sociais!
Lutar não é crime!
Pare Belo Monte! Justiça Já!
Assinam:Amigos da Terra BrasilAmazon WatchCentro de Referência em Direitos Humanos da Universidade Federal da Paraíba (CRDH – UFPB)Comissão Justiça e Paz/PAComissão Pastoral da TerraConferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB N2)Conselho Indigenista Missionário (CIMI)Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)Dignitatis – Assessoria Técnica PopularInstituto Mais DemocraciaInstituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS)Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER)Justiça GlobalJustiça nos TrilhosMandato do Deputado Federal Chico Alencar (PSOL/RJ)Movimento dos Trabalhadores Sem TerraPlataforma DhescaSociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH)Terra de Direitos






“O rio Tapajós não se divide e o povo Munduruku também não”
Em carta, indígenas denunciam arbitrariedades e pedem o fim da Operação Tapajós. O Movimento dos Atingidos por Barragens, que acompanha de perto os desdobramentos da ação militar, reafirma a aliança com os Mundurukus e receia conflitos também com comunidades ribeirinhas
Em uma atitude inédita, que surpreendeu povos indígenas e outras organizações que lutam contra a construção das hidrelétricas no Tapajós, único grande rio da Amazônia que ainda não tem barragens, o Governo Federal enviou cerca de 250 membros da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da Força Nacional de Segurança Pública com o apoio logístico do Exército Brasileiro para garantir os estudos de impacto ambiental da Usina Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós.
A Operação Tapajós, como está sendo chamada, foi possível depois do decreto 7.957 assinado pela presidência da república em 12 de março de 2013, que instituiu o Gabinete Permanente de Gestão Integrada para a Proteção do Meio Ambiente (GGI-MA), regulamentou a atuação das Forças Armadas na proteção ambiental e apontou a funções da Força de Nacional Segurança Pública no que se refere à segurança do meio ambiente.
Na última quinta-feira, 28 de março, em pleno feriado da Semana Santa, o destacamento deslocou-se para próximo do território indígena Munduruku, mais precisamente da aldeia Sawré Maybu, que poderá ser alagada caso a barragem seja construída. Os Mundurukus já anunciaram que são contra a construção das hidrelétricas, mas estão em processo de negociação com o Governo Federal sobre como será feita a consulta prévia prevista na Resolução 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Embora feita sob bastante sigilo, relatos de moradores da região dizem que a chegada da Operação Tapajós no Buburé, comunidade ribeirinha ameaçada por barragem, era digna de preparação para uma guerra, com policiais em formação e fortemente armados. Os principais locais de acesso a aldeia ficaram vigiados sendo feito revistas, registro fotográfico, interrogatórios e escoltas arbitrárias. No meio da tarde do mesmo dia, um helicóptero do Exército Brasileiro sobrevoou várias vezes a aldeia Sawré Maybu causando pânico nos indígenas.
 Juarez Saw Munduku, cacique da aldeia, conta que “eles passaram meia hora parados querendo pousar. Eles estão pensando que ia assustar a comunidade, viam a comunidade correr de um lado pro outro”. Ele afirma que ficou surpreso quando soube da operação em visita dos técnicos da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), já que existe um processo de negociação sobre a consulta que previa uma reunião no dia 10 de abril em Jacareacanga.
“Nós não somos bandidos para fazerem isto. Eles chegaram, botaram a gente na parede, humilhando, sem a gente poder sair pra canto nenhum, o pessoal assustado. Pra nós é muito preocupante. A comunidade estava assustada com isto. Eles não deveriam trazer a Força Nacional para fazer estas pesquisas. A gente está aqui pra dialogar com eles”, afirma. Ele teme que esta operação termine como a última comandada pela Polícia Federal que resultou na morte do indígena Adenilson Kirixi, na Aldeia Teles Pires.
Carta denuncia autoritarismo e intimidação
Em repúdio a Operação Tapajós, os Munduruku divulgaram uma “Carta à Justiça, para o Governo e para a Sociedade Mundial e os Povos Indígenas” onde denunciam as arbitrariedades cometidas e a quebra do acordo sobre a consulta prévia coordenado pela Secretaria Geral da Presidência da República.
Afirmam que estão “sendo humilhados e ameaçados pela Operação” e que as “Forças Armadas estão espalhadas sobre o rio Tapajós, sobre a Transamazônica e nossos territórios, intimidando e ameaçando as pessoas, impedindo de navegar pelos nossos rios e circularmos livremente pelas estradas nas terras e aldeias. Não podemos pescar. Trabalhar, tomar banho no rio, caçar, andar livremente e viver nossa vida...O governo está em nossas terras como bandidos, invadindo sem avisar os nossos rios e territórios para destruir o rio Tapajós e explorar nossas riquezas”.
Também exigem a saída imediata dos militares de seu território e reafirmam a unidade dos indígenas Munduruku contra a construção das barragens dizendo que “o governo esta tentando dividir o povo Munduruku para destruir o rio Tapajós. Mas o rio Tapajós não se divide e o povo Munduruku também não se divide”, afirmam.
Ribeirinhos também se sentem intimidados
Thiago Alves, membro da direção estadual do MAB no Pará, e que esteve na aldeia Sawré Maybu na sexta e no sábado (29 e 30) acompanhando os desdobramentos da ação, afirma que toda a região está assustada, inclusive aquelas que até hoje, pela organização, não deixaram que os estudos avançassem.
“A comunidade de Pimental está com medo. Pela resistência nós impedimos que fossem feitos perfurações dentro da comunidade. E agora com a presença da Força Nacional tememos que sejamos obrigados, pela força, a deixar as pesquisas avançarem e isto pode acabar em conflito”, confirma o ribeirinho Luiz Lima, militante do MAB e ameaçado pela barragem de São Luiz do Tapajós.
“O MAB reforça a aliança com os Mundurukus na luta contra esta arbitrariedade que mostra claramente como este projeto de desenvolvimento é uma farsa e não representa qualquer melhoria na vida das populações. É hora de fortalecer a organização popular e consolidar uma aliança cada vez mais forte entre indígenas, ribeirinhos, pescadores e toda população, pois não podemos nos intimidar”, conclui.



Índios Mundukuru sequestram biólogos da Eletrobrás
Índios Munduruku mantêm como reféns, desde a tarde de ontem (21), em Jacareacanga, no Pará, três biólogos que prestavam serviços à Eletrobras no estado. Os funcionários estavam na região do Tapajós fazendo estudos de fauna e flora para o licenciamento socioambiental de um possível aproveitamento a ser feito na região de Jatobá para o Complexo Hidrelétrico de Tapajós. A estatal informou que nenhum dos locais visitados pelos pesquisadores é terra indígena. De acordo com a Secretaria-Geral da Presidência da República, sete técnicos serão enviados ainda na noite de hoje (22) a Itaituba, cidade a cerca de 150 quilômetros de Jacareacanga, para negociar com as lideranças indígenas. Entre as demandas apresentadas está a interrupção dos estudos do empreendimento, até que seja feita consulta à comunidade. 


Estudo vai medir níveis de mercúrio em peixes e leite materno de moradoras da Amazônia

Um estudo envolvendo diversas universidades brasileiras e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) vai coletar informações para medir a quantidade de mercúrio presente em peixes dos rios amazônicos e também no leite materno das moradoras da região. A pesquisa é financiada pela Energia Sustentável do Brasil, responsável pela construção da usina de Jirau, em Rondônia. A empresa quer, com este novo método, monitorar as águas dos rios para saber se existem impactos da construção e operação de usinas hidrelétricas nos níveis de mercúrio na água.


Esperança volta com bebê avá-canoeiro
Minaçu (GO) - Os olhos apertados e amendoados de Paxeo, de 1 ano, refletem o resquício de uma etnia que já foi composta por mais de duas mil almas, no cerrado brasileiro, onde era conhecida como “a tribo invisível”, por sua capacidade de se esconder nas árvores. Já os olhos de Matxa, de 73 anos, a matriarca da aldeia, não podem mais ver esse sopro de esperança de perpetuação da comunidade que salvou do extermínio. Mas, mesmo que não estivesse cega por um glaucoma que resistiu a duas operações, sua percepção da vida permaneceria turva pela situação de miséria e impotência de sua aldeia nos últimos 20 anos, cerceada pela burocracia e lentidão da máquina pública, que deveria tornar viável a expansão daqueles sobreviventes, não só física, mas também cultural.

Desde 1992, os avás-canoeiros ficaram reduzidos a seis pessoas em uma reserva entre Minaçu e Colinas do Sul (GO) — outros dez avás perderam sua identidade cultural vivendo com caiapós e javaés na Ilha do Bananal (TO). Os índios goianos foram realocados pela construção da usina hidrelétrica de Serra da Mesa, em 1996, quando pareciam fadados ao desaparecimento, até que — com auxílio de programas específicos dos empreendedores da usina, Furnas e CPFL — Niwatima, de 24 anos, conheceu e se casou com o índio tapirapé Kapitomy’i, de 26 anos, relação da qual nasceu Avá-canoeiro Paxeo Tapirapé, em 28 de janeiro de 2012.

Funai não encontra relatórios de convênios
Há 17 anos, repórteres do GLOBO estiveram na aldeia mostrando a vida e as perspectivas de sobrevivência de Nakwatxa, hoje com 63 anos, Iawi, de 53, Tuia, de 43, e Thrumak, de 26, além de Matxa e Niwatima, que na época se chamava Putdjawa. Ali começava, de fato, um convênio entre Furnas e CPFL com a Fundação Nacional do Índio (Funai) que previa US$ 2 milhões para a proteção da reserva e o desenvolvimento da comunidade. Entre 1996 e o nascimento de Paxeo, foram investidos no território de 38 mil hectares — mais do que duas vezes a área de Niterói — R$ 6,9 milhões, resultado do convênio, da transferência de royalties pelo uso da água na hidrelétrica e da compra de terras para recompor parte da reserva que foi alagada em 10% do território. Esses recursos tornaram conhecida essa — que é uma das menores etnias do Brasil — como a mais rica de todas. Mas tantos milhões não tiraram os avás-canoeiros de uma vida que beira a miséria. Pior do que isso. Após o fim do convênio em 2002, os índios passaram a ter uma condição de dependência extrema do apoio externo, chegando a mendigar por cestas básicas junto ao povo vizinho à aldeia e à cidade de Minaçu.
Apesar da esperança de perpetuação genética com o nascimento de Paxeo, elementos da cultura avá-canoeiro permanecem adormecidos naquele grupo depois de anos de influência dos brancos e da ineficiência dos projetos socioambientais. Não deu resultado, por exemplo, o projeto para definição de uma ortografia da língua dos avás, uma ramificação do tupi-guarani. Sem isso, a língua tende ao desaparecimento, uma vez que Niwatima e Kapitomy’i já se falam em português. Além disso, de 1992 a 2002, os índios receberam periodicamente cestas básicas especiais, o que, segundo antropólogos, ajudou a reduzir o seu ímpeto à busca ou cultivo do alimento. Com o fim do convênio, não faltaram apenas alimentos, mas também ficaram prejudicados outros tipos de assistências, como a médica.

Indagada, a Funai não conseguiu encontrar os relatórios de balanço do convênio assinado em 1992, sem o qual a avaliação sobre os investimentos ou mesmo a confirmação de que eles chegaram de fato à aldeia fica impossível. A Funai explica que a busca não foi bem-sucedida por causa da recente alteração de seu comando, que ocorreu há quase um ano, e da transferência de documentos da atual sede em Brasília para outra onde os servidores ainda vão se instalar. A olhos nus, porém, fica clara a precariedade na aplicação de diversos programas previstos em 1992, sob responsabilidade da Funai.
— Eles passaram fome com dinheiro em caixa — reconhece Egipson Correia, técnico indigenista da Funai responsável pela aldeia.
As cestas básicas e a perda de tradições inibiram os índios de matar a fome com hábitos alimentares antes tradicionais. Niwatima e Iawi, por exemplo, comem atualmente morcegos e tatus — pratos comuns na comunidade até o contato com o branco — com a mesma frequência que um cidadão de classe média come lagosta no Brasil, ou seja, raramente. E, neste caso, não é por falta de oferta, uma vez que morcegos enfileiram-se no teto da cabana de alvenaria de um cômodo, onde os moradores espalham-se por suas redes.
Maria Augusta Assirati, diretora de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai, diz que nos últimos anos, sobretudo após a Constituição de 1988, há uma tentativa de aperfeiçoamento do Estado para promover a reprodução não só física, mas cultural de etnias indígenas.
— O Estado vem em um esforço de aperfeiçoar processos, com um diálogo mais aberto entre os atores envolvidos, mas ainda há necessidade de avanços — reconhece.

Apesar de Convênio, educação não ocorreu
Na ocasião do primeiro convênio, diz o indigenista Correia, os índios não foram ouvidos, por exemplo, sobre o local onde foi instalada a barraca de alvenaria com água encanada, mas com esgoto precário e sem luz, onde vivem hoje. Entre os 38 mil hectares de reserva disponível, a aldeia foi instalada pela Funai em um vale cercado de montanhas por todos os lados. Considerado o histórico de massacre dos avás-canoeiros, que quase desapareceram em conflitos com bandeirantes e garimpeiros no passado, a falta de um horizonte acaba levando os moradores a um estado de alerta constante e a uma necessidade de superar colinas para explorar a reserva.
— Aqui só dá milho pequenininho — disse Iawi, reclamando do local da casa.
Entre os milhões de reais reservados para os índios, mas que parecem não ter atravessado a porteira da reserva, estão recursos para educação. Hoje, só Niwatima sabe ler. Seu irmão, Thrumak, aprendeu matemática no convívio com brancos. Segundo Furnas, em 2001, foi feito um convênio com a Universidade Federal de Goiás com professoras que ensinavam os índios. “No período de um ano não foi constatado qualquer resultado para os índios, Funai ou Furnas. Por essa razão, a Funai solicitou a não renovação do convênio, bem como ainda não apresentou nova proposta para educação dos índios”, informa Furnas.
— Fazer das quatro pessoas que restaram de uma tribo objeto de uma proteção indigenista com verbas milionárias é uma forma bizarra de preservação e até uma forma de violência, porque desconsidera aspectos importantes da vida deles. Essa sociedade, que vive em situação de cativeiro, passou a ser dirigida por tutores — disse Cristhian Teófilo da Silva, professor de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), que defendeu tese de doutorado sobre o grupo.


Avás-canoeiros: cacique sem tratamento para câncer

Iawi, cacique da tribo avás-canoeiros, que tem apenas oito integrantes e vive no interior de Goiás, está gravemente doente em decorrência de um câncer. Desde que foram retirados de sua região de origem para a construção da hidrelétrica Serra da Mesa, há 19 anos, os sobreviventes dessa etnia receberam mais de R$ 10 milhões em compensações financeiras de Furnas, responsável pela usina. Mas a burocracia federal impede o cacique — que liderou a comunidade ao longo desse tempo — de ter acesso aos recursos necessários ao seu tratamento.

“Caso esse indígena venha a óbito, a sobrevivência dessa etnia poderá entrar num risco maior do que já se encontra”, escreveu, em 28 de maio, a presidente interina da Fundação Nacional do Índio (Funai), Maria Augusta Assirati, em ofício à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ligada ao Ministério da Saúde, no qual tenta evitar a eventual “morosidade que o tratamento venha a ter”, colocando à disposição recursos do convênio da Funai para custear o tratamento, um expediente extraordinário.
Com 53 anos, Iawi é o principal responsável pela sobrevivência dos avás-canoeiros em Minaçu, onde vivem também Nakwatxa, de 63 anos, Matxa, 73, Tuia, 43, Thrumak, 26, Niwatima, 24, e seu filho Paxeo, de 1 ano, além de Kapitomy’i, índio da etnia tapirapé de 26 anos, pai de Paxeo. Com um português pobre, ele é o interlocutor da comunidade com o mundo externo, o articulador e até o cozinheiro.
Sem prestação de contas
Os avás-canoeiros deveriam ter recebido R$ 6,9 milhões a partir de 1992 pelo primeiro convênio original entre Furnas e Funai. Com base na Lei de Acesso à Informação, O GLOBO solicitou acesso “aos balanços e extratos financeiros do convênio 10.323/92”, firmado entre a fundação e empresa. Na pasta entregue pela Funai, com mais de 200 páginas, há indicações de depósitos feitos por Furnas referentes ao convênio, mas nenhuma indicação de onde foram gastos os recursos. Não existe balanço ou prestação de contas em todos esses anos, ou, pelo menos, não a que a sede da Funai, em Brasília, tenha acesso. A reportagem do GLOBO esteve na aldeia em fevereiro e não notou sinal de que esses recursos tenham beneficiado significativamente o grupo.
Em 20 de maio, foi diagnosticado um linfoma marginal no baço e anemia hemolítica no índio Iawi. No dia 25 de maio, após muitas tosses, um raio X realizado no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG) revelou infiltrações no seu pulmão, para o que foi prescrito azitromicina. Após a retirada do baço, a equipe médica recomendou quimioterapia com o remédio rituximabe, que foi indicado à presidente Dilma Rousseff e ao ator Reinaldo Gianecchini, quando tiveram leucoses, tipo de câncer similar ao de Iawi. Mas o medicamento não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).
Medicamento custa R$ 43 mil
Iawi, que deveria ter acesso aos milhões destinados à tribo, não conseguiu dar início ao tratamento contra o câncer por falta de recursos para a compra do medicamento. O tratamento custa entre R$ 43.128 e R$ 52.961, dependendo do número de doses necessárias.
Conforme assinalou Maria Augusta no ofício à Sesai em maio, o Estado brasileiro tem o papel de garantir a sobrevivência da etnia avá-canoeira. Assim, o governo agora corre contra o tempo para restabelecer a saúde do cacique Iawi. Para assegurar a Iawi um tratamento especial, a Funai pressiona a Sesai (do Ministério da Saúde), que, por sua vez, pressiona o Hospital das Clínicas, que é ligado ao Ministério da Educação. O esforço chegou a incomodar a equipe de hematologistas do HC da UFG.
— Para nós, não interessa a língua que fala ou o rosto que tem. Aqui no hospital são todos iguais e vamos oferecer o máximo que pudermos dentro de nossas competências — disse José Garcia Neto, diretor geral do hospital.
Se não bastasse esse jogo de empurra entre órgãos do governo federal, a Sesai apelou para uma alternativa ainda mais heterodoxa: a Justiça. Segundo informe da coordenação de acompanhamento das ações de saúde da Funai do dia 14 de junho, a Sesai havia iniciado processo junto ao Ministério Público para assegurar o tratamento do cacique avá-canoeiro no HC-UFG. O Ministério Público pode conseguir liminares que obriguem o hospital a fornecer os medicamentos, mas a Justiça não costuma indicar a origem dos recursos gastos no tratamento.
Na segunda-feira deverá ocorrer uma nova reunião entre representantes da Sesai e da Funai sobre a situação de Iawi Avá-Canoeiro, que poderá ser levado a Brasília para tratamento. A Funai também considera contratar um plano de saúde privado para os avás-canoeiros terem um tratamento diferenciado ao do sistema público.


Norte Energia não paga terras e demole casa de agricultora de 69 anos
Na última semana, a Norte Energia demoliu a casa da agricultora Maria do Socorro de Oliveira, de 69 anos, deixando a idosa, seus seis netos, um bisneto e um filho adotivo de poucos meses sem moradia. Dona Maria, proprietária de dois lotes (200 hectares) na região conhecida como Travessão do Cenec, onde cultiva 4,3 mil pés de cacau (além de banana, caju, laranja e outras frutas), foi desapropriada à revelia e o valor da terra, estipulado pela empresa  em R$ 300 mil, foi depositado em juízo. A Justiça, no entanto, negou o acesso ao recurso.
O caso de dona Maria é mais um dos graves problemas fundiários causados pelo avanço de Belo Monte na região de Altamira. Segundo a agricultora, a Norte Energia, responsável pela obra da hidrelétrica, realizou uma série de intervenções no travessão onde mora, abrindo uma estrada, derrubando sua cerca, retirando piçarro (substrato de solo para fazer estrada) sem autorização de sua área, e por fim sub-avaliou o valor de sua produção de cacau, argumentando que as plantas eram nativas e não tinham valor de mercado. “Meu cacau fica longe da casa em uma ribanceira, e eles falaram que é nativo e não vale nada, o que não é verdade. Tenho um certificado da Ceplac (Comissão Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira) comprovando isso. Mas a Norte Energia disse que só pagava R$ 12 pelo pé de cacau, enquanto pros vizinhos pagou R$ 90. Então não aceitei os R$ 300 que eles queriam dar nas minhas terras”, explica.
A partir da negativa da agricultora de aceitar a oferta da empresa, a Defensoria Pública impetrou uma ação na Justiça pedindo a reavaliação da área. Imediatamente, a Norte Energia entrou com outra ação, com pedido de liminar, de desapropriação compulsória, aceita pela Justiça. Os R$ 300 mil foram depositados em juízo.
Novo recurso da Defensoria requereu então que a empresa fosse impedida de alterar a área antes da tramitação final das ações e da conclusão da nova vistoria, mas na última semana, aproveitando a ausência da agricultora, que estava em Altamira por questões de saúde, a empresa demoliu sua casa. “Quando cheguei na minha terra vi a casa toda destruída, minhas plantinhas jogadas, coisa mais triste. Agora não tenho pra onde ir”, diz dona Maria.
De acordo com a defensora pública Andréia Barreto, a destruição da casa e demais intervenções da empresa na terra da agricultora são extremamente graves porque podem interferir nos resultados  nova vistoria, que aguarda apenas a liberação de verbas para o auditor. “Qualquer mudança nas benfeitorias ou na terra pode alterar o valor a ser recebido. Como exigir pagamento por uma casa que não está mais lá, que foi destruída?”, questiona a defensora, que enviou nova reclamação à Justiça Federal em Brasília esta semana.


Além de não ter onde morar com seus netos, dona Maria também foi impedida pela Justiça de sacar o dinheiro depositado em juízo em sua conta. Segundo a defensora Andréia Barreto, o juiz federal Sergio Wolney de Oliveira Guedes impediu o acesso ao recurso argumentando que a área da agricultora estaria em litígio, uma vez que a União ainda não teria regularizado seu imóvel, ocupado há 23 anos.
“Minha mãe era saudável, nunca teve problema de saúde, mas agora está com profunda depressão, pressão alta. Passa o dia chorando, ou dopada. Agora, ela está sem casa e sem dinheiro. O que será dela?”, questiona Ormazete de Oliveira, filha da agricultora.

Adolescente é resgatada de prostíbulo em Belo Monte
Menina de 16 anos foge de boate onde polícia encontrou 15 mulheres em situação de cárcere privado e regime de escravidão. Caso pode ser caracterizado ainda como tráfico de pessoas
A Polícia Civil de Altamira, no Pará, encontrou 14 mulheres e uma travesti em regime de escravidão e cárcere privado em um prostíbulo localizado em área limítrofe de um dos canteiros de obras da hidrelétrica de Belo Monte. A operação foi realizada na noite desta quarta-feira, 13, após denúncia de uma garota de 16 anos, que conseguiu fugir. A adolescente procurou a conselheira do Conselho Tutelar, Lucenilda Lima, que acionou a polícia.
De acordo com o delegado Rodrigo Spessato, que comandou a operação, as mulheres, de idade entre 18 e 20 anos – além da jovem de 16, todas provenientes dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – eram confinadas em pequenos quartos sem janelas e ventilação, com apenas uma cama de casal, e havia cadeados do lado de fora das portas. Em depoimentos ao delegado, as vítimas afirmaram que podiam ir à cidade de Altamira uma vez por semana, por uma hora, mas eram vigiadas pelos funcionários da boate.
Além da situação de cárcere privado, a polícia encontrou no local um caderno onde eram anotadas as dívidas das meninas, como gastos com passagens, alimentos e vestimentas, além de “multas” por motivos diversos.
Ameaça de morte
Após a ação, a policia civil resgatou, além da adolescente, quatro  meninas e uma travesti. Segundo Lucenilda, do Conselho Tutelar, as demais disseram ter muito medo de retaliações, uma vez que o dono da boate teria ameaçado seus familiares que moram no Sul. Em entrevista à reportagem, uma das jovens resgatadas contou que, assim que a adolescente de 16 anos conseguiu fugir, o gerente a seguiu com uma arma.
“Já de cara fizemos uma dívida de R$ 13 mil por conta das passagens [valor cobrado do grupo]. Aí temos que comprar roupas, cada vestido é quase R$ 200, e tudo fica anotado no caderninho pra gente ir pagando a dívida. E tem também a multa, qualquer coisa que a gente faz leva multa, que também fica anotada no caderno. Depois de cada cliente, a gente dava o dinheiro para o dono da boate pra pagar as nossas dívidas, eu nunca ganhei nenhum dinheiro para mim”, explica a garota.“Ele saiu atrás dela armado e disse que não custava matar uma, que ninguém ficaria sabendo”, afirma a garota, que tem 18 anos. Procedente de Joaçaba, no interior de Santa Catarina, ela conta que lá trabalhava em uma boate cuja cafetina era “sócia” do dono da boate no Pará. “Viemos em nove lá de Joaçaba. Falaram para a gente que seria muito bom trabalhar em Belo Monte, que a gente ganharia até R$ 14 mil por mês, mas quando chegamos não era nada disso”, conta.
“De comida, tinha almoço e janta. Se você estava trabalhando na hora do almoço, tinha que esperar a janta. Se desse muita fome, a gente tinha que comprar um lanche. O gerente da boate dizia que a gente só poderia sair depois de pagar todas as dívidas, e que nem adiantava reclamar porque ninguém ia nos ajudar, ele era amigo da justiça e nunca ninguém ia fazer nada contra ele. Mas ele disse que se a gente falasse, eles iam atrás dos nossos filhos e parentes lá no Sul.”Sobre as condições às quais foram submetidas na boate, ela conta que morava com outras três meninas em um pequeno quarto muito quente, e que realmente não tinha permissão de sair do local. “Eles ligavam o ar condicionado só por uma hora. A gente tinha que trabalhar 24 horas por dia; quando tinha cliente, tinha que atender”, afirma.
Belo Monte
Sobre os clientes, ela conta que eram exclusivamente trabalhadores de Belo Monte. “Eram operários, eram gerentes, tinha de tudo. Todo mundo que trabalha na obra vinha na boate”, explicou.
O delegado Rodrigo Spessato diz não saber se o prostíbulo está dentro ou fora dos limites do canteiro de obras. A conselheira Lucenilda Lima relata, no entanto, que para chegar à boate foi preciso atravessar o canteiro de Pimental, um dos principais da usina. “Foi uma burocracia na entrada para a gente conseguir passar. E lá mesmo toda hora passavam os carros e tratores de Belo Monte, então eu considero que a boate está na área da usina”.
Na ação, a polícia civil efetuou a prisão de dois funcionários da boate, mas não encontrou o proprietário. Segundo Spessato, além de exploração sexual de menor, cárcere privado e regime de escravidão, o caso poderá ser caracterizado como tráfico de pessoas, e os responsáveis pelo prostíbulo, processados por estes crimes.
Como o canteiro de Pimental fica no município de Vitória do Xingu, o caso está sendo apurado pela delegacia dessa cidade. O delegado local chegou a Altamira na manhã desta quinta-feira para tomar os depoimentos das vítimas e dos dois funcionários presos, e voltará à boate ainda esta tarde em uma nova ação para fechar o estabelecimento e resgatar 10 mulheres que permaneceram no local*.

Reservas indígenas são muito eficazes para proteger a floresta Amazônica, afirma estudo


Muitos ainda pensam que conceder grandes extensões de terras para povos indígenas pode levar ao desmatamento, pois temem que os índios tentem lucrar vendendo para outras pessoas o acesso à região para que sejam instaladas madeireiras ou garimpos.
Porém, um estudo publicado nesta semana no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences aponta que entre todos os modelos de proteção florestal, a criação de reservas indígenas está no topo como um dos mais eficazes, junto com o estabelecimento de parques nacionais.
“Esta é a grande surpresa do nosso estudo, as terras indígenas desempenham um papel muito bom em reduzir o desmatamento em áreas de grande pressão. Muitos acreditam que dar autonomia e direitos de grandes extensões de terras aos povos indígenas na Amazônia pode levar à exploração dos recursos naturais. Mas o que demonstramos, baseados nas evidências atuais, é que tal temor é equivocado”, afirmou Arun Agrawal, da Universidade de Michigan e um dos autores do estudo.
Para chegar a tal conclusão, os pesquisadores, entre eles o brasileiro Britaldo Soares Filho da Universidade de Minas Gerais, analisaram dados de 292 regiões protegidas na Amazônia brasileira, buscando os diferentes impactos do desmatamento em três tipos áreas: parques nacionais, reservas indígenas e áreas de exploração sustentável.
Segundo eles, as reservas indígenas e os parques consistentemente evitam mais desmatamento do que as chamadas áreas de uso sustentável, mesmo quando estão localizados em partes do país onde a pressão pela destruição da floresta são maiores.
Os pesquisadores apontam que a ampliação do número de reservas biológicas e indígenas é um dos principais fatores por trás dos recentes números de queda de desmatamento no Brasil.
“Análises anteriores sugeriam que a proteção severa, que não permite a exploração dos recursos naturais, seria tão controversa que era pouco provável que fosse implementada onde as pressões pelo desmatamento são altas, como perto de cidades ou em terras de grande valor para a agricultura. Mas o que temos observado é que o governo brasileiro está fazendo justamente isso”, declarou o coautor Christoph Nolte.



Não estranhe a ausência dos Guarani Kaiowa nessa postagem, foi proposital. Eles já aparecem nesse blog há muitos anos, por causa de outras brigas: A sombra de um delírio verde - a luta dos Guarani Kaiowá para não perder suas terras para a monocultura do etanol

E na postagem sobre a Anistia Internacional: A Anistia Internacional e a Sustentabilidade
Aproximadamente 80 membros do grupo indígena Guarani Kaiowá Y’poí no Brasil estão sendo ameaçados por homens armados contratados por fazendeiros locais. Eles estão impedidos de deixar seu acampamento, resultando na impossibilidade de acesso à água, comida, educação e saúde.

Leia também: Greenwashing é isso aí: Monsanto e Syngenta recebem o Nobel da Agricultura
CANAL IBASE: Há situações de fome extrema no Brasil hoje que podem ser exemplificadas como uma escolha política?
MENEZES: Sim. Os indígenas são exemplo disso. A não demarcação de terras indígenas é um fator que leva à morte. Não olhar para isso é uma escolha do poder público, porque, embora esse fenômeno seja pouco falado, milhares pessoas, especialmente crianças, morrem de inanição na beira de estradas. Isso ocorre por falta de terra, pois etnias foram expulsas de seus territórios. O caso dos Guarani-Kaiowa (que veio à tona ano passado após a divulgação de uma carta anunciando um suicídio coletivo) é um exemplo disso. A Justiça leva seu tempo, mas enquanto isso não se define as pessoas morrem.





A Munduruku Indian child stands near police as Amazon Indians from different tribes occupy the main construction site of the Belo Monte hydroelectric dam in Vitoria do Xingu, near Altamira in Para State. Indians from various tribes returned to force the suspension for the second time in a month, of the dam projected to become the world's third largest in energy production, opposing it for its impact on the environment and their livelihoods. 
Picture: Lunae Parracho/Reuters. 
Fonte: Telegraph.co.uk



As imagens vêm de fontes variadas: os dois primeiros infográficos (com lâmpadas) são do Greenpeace, os demais (com mapas) são do território livre da internet e a última foto é da Reuters.



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Um comentário:

Anônimo disse...

é por isso que uma cambada de peixes e invertebrados de água doce estão ameaçados... o exagero do tamanho que são essas usinas, e a quantidade de água que muda de curso nos rios.