terça-feira, 30 de julho de 2013

Carta aberta à Assessoria de Imprensa Força Tarefa

Há 2 semanas, venho recebendo emails de uma assessoria de imprensa, a Força Tarefa, que representa 4 empresas do agronegócio: Atanor, Dow AgroSciences, Milenia, Nufarm.

A mesma assessoria me escreveu em 3 ocasiões me colocando à vontade para divulgar material interno produzido por eles sobre a segurança no consumo de um determinado herbicida, o 2,4-D. Diga-se em honra da Fora Tarefa, o tom usado sempre foi cordial, apesar de um pouco insistente na minha opinião.

Antes de emitir minha posição sobre o herbicida 2,4-D, o que vou fazer publicamente abaixo, ratifico o que já é lugar comum aqui: o blog é amador, gratuito e nunca me rendeu um centavo. As parcerias que formei foram por prazer e nunca houve a menor pretensão de detratar ou mesmo me autopromover, tanto que de minha vida pessoal quase nada aparece.



O texto daqui do blog que deu origem ao contato inicial da Força Tarefa é o "Greenwashing é isso aí: Monsanto e Syngenta recebem o Nobel da Agricultura", que sequer ficou entre os 10 mais lidos quando de sua publicação. O blog e sua autora têm todo direito de ter uma opinião contrária ou não à qualquer pessoa, produto, empresa ou instituição, desde que a mesma seja emitida respeitando os limites legais da ética e do bom senso. 

Todo o artigo publicado originalmente aqui no blog foi criado a partir de outras reportagens divulgadas em sites maiores e estabelecidos na mídia convencional. Assim como eu, outros blogs amadores divulgaram sem qualquer constrangimento a mesma reportagem que informa e critica abertamente a premiação da Monsanto e Syngenta.

Quando do contato inicial da Força Tarefa, estranhei e contactei os outros blogs que divulgaram a matéria inicialmente publicada pela Adital, "Quando se premia aos que geram fome", e para minha surpresa nenhum havia sido contactado pela assessoria de imprensa, além desse blog pessoal.
Para entender o que estava acontecendo, já que no email de ontem da Força Tarefa, notei que outros 3 funcionários seguiam copiados abertamente, resolvi então fazer uma pesquisa rápida na minha fonte original , a Adital.

Mais uma vez percebi que a Adital tampouco enaltece qualquer benefício que o herbicida possa trazer ou divulga qualquer material da Força Tarefa, como o que recebi nos emails enviados pela assessoria de imprensa. Evidenciando que não tenho nada pessoal contra o staff da Força tarefa ou os clientes que representa, deixo linkado abaixo os 2 artigos mais recentes da Adital onde o herbicida 2,4-D é citado:

Via Campesina: Globalização da luta contra os Agrotóxicos (que propõe a Agroecologia como o caminho comum, porque respeita o agricultor e garante a soberania alimentar)


Adital - "A transgenia está mudando para pior a realidade agrícola brasileira" (Entrevista com Leonardo Melgarejo engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade de Santa Catarina - UFSC. É membro do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - Incra, no Rio Grande do Sul)
"Nela (entrevista) questiona o que chama de "decisões polêmicas” tomadas pelo colegiado que tem a finalidade de prestar apoio técnico ao governo federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança relativa aos Organismos Geneticamente Modificados - OGM. De acordo com ele, entre os temas em pauta estava o sigilo sobre informações referente "à performance agronômica das lavouras transgênicas”. Ele explica: "Há um entendimento, entre os membros da maioria, de que até mesmo as informações sobre o rendimento das lavouras transgênicas devem ser mantidas em sigilo. Aliás, o entendimento é de que todas as informações obtidas nos ensaios de campo devem ser sigilosas. Há dois anos isso não era assim. De lá para cá, na opinião da minoria crescem as evidências de efeitos colaterais e, ao mesmo tempo, crescem os receios - das empresas - de que ocorra divulgação destes efeitos. Possivelmente, as campanhas de marketing seriam prejudicadas pelas evidências de campo caso isso se tornasse de conhecimento público. Assim, algumas empresas pedem sigilo sobre todos ou quase todos os resultados de boa parte de seus estudos. Alegam que o registro de novas cultivares só será possível na medida em que todas as informações sobre estas cultivares sejam sigilosas, desconhecidas, completamente inéditas”.

É verdade que lavouras tolerantes a herbicidas trazem, inicialmente, facilidades técnicas. Trazem de fato simplificações ao processo de gestão, que são importantes e facilitam o trabalho do agricultor. Assim como é verdade que plantas inseticidas, que matam as lagartas que tentam mastigar suas folhas, durante algum tempo permitem economizar em inseticidas e facilitam o controle de determinados insetos. Mas isso só tem se mostrado válido no curto prazo. No médio prazo, o que tem sido observado é o oposto: há uma necessidade de uso de agrotóxicos mais fortes e mais tóxicos, com maior frequência e em maior intensidade, ampliando os custos e reduzindo a rentabilidade das lavouras. Para que se tenha ideia: segundo a imprensa, nesta safra, com o ataque de lagartas que deveriam ser controladas pelas lavoura Bt, o custo de produção da soja, na Bahia, passou de US$ 100 para US$ 200 por hectare. No caso do algodão, os gastos passaram de US$ 400 para US$ 800 por hectare (Valor Econômico, 12-03-2013). Segundo a imprensa, agricultores que até 2012 usavam 70 ml do inseticida Prêmio, da DuPont (produto mais recomendado e utilizado na região), com expectativa de restringir em 90% a população da Helicoverpa, lagarta que deveria ser morta no contato com plantas Bt, nesta safra, mesmo utilizando 150 ml, obtiveram resultados de apenas 70%. Os prejuízos, na Bahia, são estimados em R$ 2 bilhões.
Os resultados concretos mostram que, de forma geral, é possível afirmar que a transgenia tem oferecido para alguns, durante algum tempo, facilidades de manejo em função da homogeneização de processos decisórios relacionados ao controle de herbicidas e de algumas pragas. Porém, isso tem reflexos muito severos para os demais envolvidos. E mesmo para os que se beneficiam no curto prazo, os resultados de médio e longo prazo não permitem otimismo. Vejamos: a agricultura brasileira se vê diante da ampliação de custos produtivos e percebe uma alteração no tamanho mínimo viável para lavouras tecnificadas de milho, soja e algodão. Com isso, pequenos estabelecimentos se tornam inviáveis, o que resulta em aceleração da exclusão de pequenos produtores. Isso significa que, na prática, a transgenia tem acelerado uma espécie de reforma agrária às avessas no rural brasileiro. A expansão das lavouras transgênicas também acelera a simplificação das matrizes produtivas regionais.

Círculo vicioso
Ao reduzir o número de produtores e o leque de produtos ofertados, a expansão da monocultura e o avanço das lavouras transgênicas provocam um círculo vicioso, que amplia as dificuldades de permanência das famílias no campo. Perceba: exigindo economia de escala e sendo deletéria para a agricultura familiar, esta tecnologia leva à redução da população rural e acaba inviabilizando a prestação de serviços que são fundamentais para a vida no campo. As escolas, os postos de saúde, as linhas de coleta de leite se tornam inviáveis quando a população se faz rarefeita. Então, é possível afirmar que a expansão dos transgênicos se associa à tendência de fragilização do tecido social necessário para a permanência do homem no campo. Além de reforçar o esvaziamento do campo e refrear o avanço de políticas que apostam em processos de desenvolvimento rural, "com gente”, a transgenia ameaça a qualidade de vida dos que permanecem no campo, ampliando o volume de agrotóxicos utilizados. Tanto é que o Brasil se tornou o país que mais usa agrotóxicos no mundo. Para o agronegócio não é ruim: sugere um maior volume de negócios, permitindo mapear uma expansão do PIB e da contribuição do setor para a economia nacional.
Mas isso não é do interesse da sociedade, sob o ponto de vista da maioria da população. Não apenas porque contraria o senso comum, mas também porque reforça um círculo vicioso. O maior volume de agrotóxicos, além dos problemas de saúde, está provocando o surgimento de plantas tolerantes a herbicidas, demandando expansão no uso de venenos. E não é apenas isso: o maior uso de venenos se associa à necessidade de venenos mais perigosos. Perceba: os primeiros transgênicos liberados no Brasil eram resistentes ao Roundup, um herbicida à base de glifosato, que é classificado pela Anvisa como sendo de baixa toxicidade. Ele está comprovadamente associado à presença de alguns tipos de câncer, a problemas reprodutivos e neurotóxicos, entre outros, mas é classificado como de baixa toxicidade. Pois os transgênicos em avaliação pela CTNBio, atualmente, e que substituirão aqueles primeiros, que já não funcionam bem, serão tolerantes ao 2,4-D. E este é de alta toxicidade. Possivelmente, em breve estará sendo aplicado de avião, talvez em milhões de hectares. Podemos esperar que este veneno caia apenas sobre as lavouras? É importante observar que uma planta, que não morre quando toma um banho de veneno com ação hormonal, carregará consigo parte daquele veneno. Será consumida com resíduos do veneno. Por que os transgênicos tolerantes ao glifosato estão sendo substituídos? Porque a natureza produziu plantas que já não morrem quando aquele veneno é aplicado sobre elas."



A posição desse blog amador e gratuito sobre uso de defensivos, pesticidas, herbicidas e agrotóxicos em geral é a mesma desde 2009, quando do seu lançamento: não deve ser usado nunca, jamais e em hipótese alguma. Para suportar minha posição, sempre tive o cuidado e a ética de embasar as publicações feitas com artigos onde os maiores especialistas do país emitiam a mesma opinião, como o fez acima o Dr. Leonardo Melgarejo, além de centenas de outros especialistas, como a Prêmio Nobel, Dra Vandana Shiva, Dra. Elaine Azevedo, Dra. Neice Muller Xavier Faria, Leonardo Boff, Frei Beto, Silvio Tendler, Marie Monique Robin e até a Dra. Rachel Carlson, já falecida.


O vídeo abaixo, retirado diretamente do site da Força Tarefa evidencia exatamente o que acabei de colocar, o aplicador do agrotóxico usa equipamento de proteção individual (EPI) completo para não entrar em contato com a toxidade do produto, além de trazer na íntegra o texto que transcrevo fidedignamente:

"O uso adequado das tecnologias de aplicação e do Equipamento de Proteção Individual (EPI) é imprescindível para garantir eficácia e segurança humana e ambiental na utilização de defensivos agrícolas. O conhecimento das condições ambientais e das causas da deriva (desvio de trajetória que impede que gotas produzidas atinjam o alvo correto) é fundamental para ajudar agricultores e operadores a optarem por aplicações seguras e eficientes."




Encerro deixando disponível em sinal de boa fé e antes de tudo, por acreditar na liberdade de expressão, ainda que vinda de fonte com posição contrária a minha, o material de divulgação da assessoria de imprensa Força Tarefa que recebi nos emails enviados por eles. 
Eu li com imparcialidade, como acredito que tudo deva ser lido e ouvido, e também acho válido que todos que se interessem por agroecologia também o leiam para que assim, tenhamos todos ainda mais informação para embasar e fundamentar a defesa da agricultura orgânica e familiar em sistema agroecológico e agroflorestal:





Mais informação:
“O veneno está na mesa 1 e 2”, de Silvio Tendler e Wladimir Pomar
"O mundo segundo a Monsanto", filme e livro de Marie Monique Robin
O mito do agrobusiness: agronegócio perde em eficácia para agricultura familiar
Tudo que você queria saber sobre orgânicos, mas não tinha uma nutricionista para peguntar - entrevista com Dra. Elaine Azevedo
10 empresas controlam 85% dos alimentos, livro "Geopolítica da fome do sociólogo suíço Jean Ziegler, ex-relator especial para o Direito à Alimentação das Nações Unidas (ONU)
"Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos", entrevista com a maior especialista do país na área: Dra. Maria José Guazzelli, engenheira agrônoma, formada pela Faculdade de Agronomia da UFRGS, e na década de 1980, participou na elaboração da Lei dos Agrotóxicos do Rio Grande do Sul (Lei 7747/82). Ela é coautora do livro Agropecuária sem veneno, tradutora dos livros Plantas doentes pelo uso de agrotóxicos - Teoria da trofobiose, de Francis Chaboussou; Agroecologia, de Stephen Gliessman, Nanotecnologia - Os riscos da tecnologia do futuro, do Grupo ETC, e Roleta genética - Riscos documentados dos alimentos transgênicos sobre a saúde, de Jeffrey Smith.

Incidentes com Tubarões em Recife


Incidentes com Tubarões em Recife
O que se pode fazer?

Mais uma vez, o triste episódio da morte de uma menina de 18 anos, provocada pelo ataque de um tubarão em Recife, leva o tema às manchetes dos jornais e programas jornalísticos e suscita os mais variados comentários e discussões acerca do que se pode e o que se deve fazer, como o fechamento das praias e proibição do banho de mar, a colocação de redes ou telas de proteção e a captura de tubarões com fins de monitoramento e pesquisa.

Apesar de estarmos carecas de saber que foi o próprio homem quem provocou tudo isso, ao remodelar o litoral de Suape ao seu bel prazer no início da década de 1990, e que teremos que conviver com suas consequências __ e a maior interação entre homem e tubarão, prevalecente fator causador dos incidentes, é a principal delas __, medidas precisam ser tomadas a fim de minimizar incidentes e mortes. Sobre isso não há dúvida. Mas fazer o que?

Educação, esclarecimento e prevenção da população – O trabalho realizado pelo Governo de Pernambuco, através do Cemit(Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões), desde 2004, com a implantação de campanhas de esclarecimento, distribuição de folderes educativos e a colocação de placas de alerta e prevenção nas praias, foi muito bem executado e surtiu o efeito esperado __ orientou surfistas e banhistas para evitar locais e horários de maior risco real e diminuiu efetivamente o número de incidentes com tubarões.

Entretanto, por mais que se esclareça e alerte, as pessoas (em especial os adolescentes) têm uma natural tendência a achar que com elas nada acontecerá. Para esses casos, não há medida mais eficaz do que estar preparado para dar o atendimento imediato e correto à vítima resgatada.

Qualidade e eficiência do primeiro-socorro à vítima – Os bombeiros guarda-vidas brasileiros estão entre os melhores no resgate e atendimento aos afogados. Fato inquestionável. E seus pares pernambucanos são, além disso, verdadeiros heróis ao se colocarem, sem hesitação, em risco pessoal para resgatar a vítima de ataque que está prestes a se afogar, como fez o soldado Figueiredo no caso da menina de 18 anos.

Afirmo, categoricamente, que é muito raro um tubarão atacar o ser humano com fins de alimentação. Mais de 90% dos ataques no mundo todo, inclusive em Recife, ocorrem por erro de identificação visual. Uma única mordida investigatória. Assim, caso a vítima não seja resgatada a tempo, a morte se dará por afogamento secundário advindo do choque hipovolêmico provocado pela hemorragia.

Então, se o resgate é apropriado, o que falta? Faltam equipamentos adequados (e treinamento especializado) para executar um eficiente primeiro-socorro e uma rápida remoção, fundamentais em muitos casos para definir se a vítima sobreviverá após ser resgata (tirada da água).

Essa, entre outras razões, explica por que o índice de fatalidade dos ataques de tubarões em Recife é o mais alto do mundo; 40%, enquanto a média internacional é 13%. Mesmo na África do Sul, a chamada “Costa dos Tubarões”, onde o grande tubarão branco está entre as espécies envolvidas nos incidentes, a taxa de fatalidade é de apenas 12%.

Tomemos o exemplo do estado da Flórida que, apesar de ter quase dez vezes mais incidentes com tubarões do que o estado de Pernambuco, apresenta somente 1% de fatalidade. É isso mesmo. Não escrevi errado. SOMENTE 1% de fatalidade. Lá, os guarda-vidas são alta e constantemente treinados para aplicar de forma correta e eficiente os primeiros-socorros nas vítimas de ataque de tubarão. E, para isso, tem à disposição uma caixa com os mais modernos insumos e equipamentos médicos. Enquanto dão o primeiro atendimento já na areia, imediatamente após o resgate, para conter a hemorragia e estabilizar as funções básicas, um helicóptero pousa ao lado e leva a vítima rapidamente para o hospital mais próximo.

Fechamento das praias e proibição do banho de mar – Todos sabem, há muitos anos, que não há risco de incidentes com tubarões nas áreas protegidas pelos arrecifes naturais (e são muitos). E sabem também que existem épocas do ano e horas do dia em que o banho de mar e as práticas esportivas devem ser evitadas nas áreas desprotegidas por representar maior risco de incidente. Além disso, há dezenas de placas de alerta nas praias sinalizando as áreas de maior perigo.

O número de mortes por atropelamento em Recife (como em todas as grandes cidades) é infinitamente maior. Mas ninguém, em sã consciência, decide fechar as ruas e proibir os pedestres de atravessá-las. Cabe ao estado, tanto no caso dos atropelamentos quanto na questão dos tubarões (como já vem fazendo), promover campanhas de educação, esclarecimento e alerta para que os cidadãos e turistas tenham consciência, discernimento e responsabilidade em seus atos.

A menina morta no ataque de tubarão foi avisada dos riscos por um bombeiro guarda-vidas e mesmo assim decidiu banhar-se na área desprotegida da praia de Boa Viagem. Mais do que isso, impossível.




Colocação de redes ou telas de proteção – Implantar essa medida de proteção tem o seguinte significado: para termos o livre arbítrio de não respeitar as regras e avisos acima descritos sacrificaremos milhares de animais marinhos inocentes todos os anos.

Redes ou telas de proteção, como demonstram experiências em outros países, prendem e matam peixes, tartarugas, golfinhos e outros tubarões que nada tem a ver com os incidentes provocados pelos tubarões das espécies cabeça-chata ou tubarão-tigre.

Fora o enorme custo ambiental, as redes ou telas de proteção exigirão altos custos de vistoria e manutenção que, se não forem bem feitos, poderão provocar a inusitada situação de ter um tubarão entrando na área protegida, através de prováveis buracos, e ali permanecer provocando incidentes.

Captura de tubarões com fins de monitoramento e pesquisa – A captura de tubarões com objetivo real e efetivo de monitoramento e pesquisa sempre foi e continua sendo realizada no mundo todo.

Essa prática é necessária e útil para os cientistas estudarem o comportamento e a movimentação das populações de tubarões. E obviamente, no caso de Recife, isso pode contribuir sobremaneira para prevenir e minimizar os riscos de incidentes.

No entanto, pescar tubarões com o simples objetivo de eliminar as espécies mais agressivas do litoral pernambucano, para com isso diminuir a frequência de incidentes, é um procedimento bastante controverso e vai contra todos os conceitos de sustentabilidade e preservação do meio ambiente.

É mais uma demonstração prepotente do ser humano em acreditar que pode desequilibrar a natureza e depois, com a pretensa tentativa de consertar o dano colateral provocado, sacrificar espécies “problemáticas” que apenas se comportam de acordo com seus instintos. Seria como admitir a eliminação de tigres e leões motivada simplesmente por eventuais ataques e mortes de invasores de seu ambiente natural.

Isto posto, e se me fosse possível definir ações para minimizar incidentes e mortes no litoral de Recife, em resposta à pergunta do título, definiria que o melhor caminho seria investir recursos consideráveis em duas áreas: 1 - Equipamentos e treinamento para os órgãos responsáveis atuarem de forma mais eficiente nos primeiro-socorros e na remoção; 2 - Pesquisas de longo prazo com o propósito de obter dados científicos seguros que permitam estabelecer intervenções mitigadoras sem grandes impactos no ambiente marinho local.


Para complementar as informações sobre as causas dos incidentes com tubarões, sugiro a visualização do recente programa “Encontro com Fátima Bernardes”, onde o assunto foi abordado:







Mais informação:
Finning - Até quando teremos esse absurdo?
Símbolo do RJ, boto sumirá das praias até 2050
Tubalhau, um contrassenso em Fernando de Noronha
Carta aberta dos bombeiros do Rio de Janeiro à população
Alerta de Tubarão em Cabo Frio: Necessário ou Excesso de Zelo?
DO QUE A PESCA DE ARRASTO É CAPAZ: AS TONINHAS DE PERUÍBE PRECISAM DE NOSSA AJUDA


domingo, 28 de julho de 2013

3 dias bioconstruindo em Santa Teresa






Está fazendo 6 meses. Em Dezembro do ano passado, fui a um mutirão de bioconstrução em Santa Teresa, bairro carioca muito peculiar, boêmio e com clima de cidade de interior, com suas muitas casas e até alguns sítios. Santa Teresa parece que parou no tempo em função de sua geografia igualmente peculiar, toda em morros, que a preservaram da especulação imobiliária.







Foram 3 dias de alegria, troca e muito trabalho. Não pude ficar tanto quanto gostaria, mas as fotos matam minhas saudades desses dias autogeridos e produtivos






Não guardei os emails trocados, perdi os contatos, mas contactando o responsável, o permacultor Marcos Ninguém, tampouco tive resposta se a edificação ficou pronta, está de pé e atendeu seus propósitos. Então, se alguém souber que fim tanta energia levou, me diga. Aguardo ansiosa.











O planejamento e o que foi feito primeiro, a ecotinta em barro:












O tratamento do bambu no fogo:






















A estrutura das paredes sendo montada:






Bambu tratado e chumbado nas paredes:
























Trabalhar com barro não é moleza:

























Muitas mãos levantam uma parede de bambu à pique:






2 técnicas, bambu à pique com adobe e alvenaria de garrafas fazendo o vitral para entrada da luz natural:








Mais informação:
Bioconstruções com Bambu
O El Nagual em Santo Aleixo, RJ
A Eco-ilha, ilha-lixão ou eco-barco
A horta urbana da Pedro Américo no Catete, RJ
1 semana com a Solarize e 2 dias com a Permario
Minha Casa Minha Vida financia casa bioconstruída
A casa sustentável é mais barata - parte 04 (ecotintas)
Biblioteca online básica sobre Permacultura, bioconstrução e agroecologia

terça-feira, 23 de julho de 2013

Nos 20 anos da Chacina da Candelária: Procura-se Aparecida e Dalila Ribeiro da Silva



O Thiago é um amigo muito querido, foi meu vizinho de rua nas 2 vezes anteriores em que morei no Maracanã. O conheci quando fui voluntária na Basílica de Santa Terezinha junto ao grupo que distribuía sanduíches à moradores de rua.
O grupo acabou logo depois da minha mudança para o Flamengo, mas eu adorava aquela atividade, um bando de jovens andando de madrugada pelas ruas do bairro ou indo de carro ao Cais do Porto. Depois, saíamos em grupo para uma pizza.
Eu comecei essa atividade no Natal de 2006, na noite do dia 24, quando quis passar uma Noite de Natal um pouco diferente e conto a experiência na postagem do Natal Sustentável linkada abaixo. Recomendo, melhor do que ficar se empanturrando de comida na frente da tv com parentes e agregados que só se encontram uma vez por ano.

Enfim, o Thiago era do grupo e ficamos amigos, de todos do grupo, ele era o meu xodó. Voltei a morar no bairro e cruzei com a mãe dele na rua. Peguei o celular, que havia perdido e marcamos de nos encontrar no dia das eleições, ele ia ser mesário numa escola pública do bairro.

Vinha com ele pela rua e pedi "Vamos roubar uma porta antiga que está abandonada na calçada?"
Topou, até porque não é um "roubo" exatamente, nem um "furto". Fizemos antecipadamente o serviço da Companhia de Limpeza Pública, a Comlurb.

Aqui na Tijuca tem muita casa antiga, algumas com mais de 100 anos e, de vez em quando, encontram-se raridades largadas na calçada. Portas, janelas, até móveis antigos de casas que estão sendo reformadas. Quando reformaram uma casa na minha rua, vi essa porta largada na calçada e morri de pena.
Esse blog adora material de demolição, há uma postagem específica e vou deixar o link abaixo também.

Mas a porta era pesadíssima e eu nem consegui arrastar. Com o Thiago meus problemas acabaram!
Ele carregou a porta como quem carrega uma prancha de surf, foi uma humilhação.



Sentamos para conversar num bar do bairro e, já sabendo que ele era adotado, ouvi uma história de arrepiar.
Como disse, sabia que ele havia sido adotado, conhecia a mãe adotiva da Paróquia e também sabia em quais circunstâncias a adoção havia ocorrido: Thiago é um dos sobreviventes da chacina da Candelária, que hoje faz 20 anos - com todos os condenados pelo crime em liberdade.
Mas nem tudo isso se compara ao que ele ainda me contaria no nosso reencontro.

Thiago e seu irmão, Paulo, foram sequestrados pelo pai biológico. Pela história que ouvi, o pai já tinha problemas de adaptação social e um possível histórico de alcoolismo, havia saído de casa e sumido diversas vezes. Em uma das aparições, levou os filhos com ele, deixando para trás a filha mulher, Dalila.
Conta Thiago que cresceu numa casa na beira de um lago no interior de Minas e que, quando o sol se punha, o lago ficava vermelho. Não lembra em qual cidade nasceu, nem quando. Só lembra de ter sido levado aos 5 anos por esse pai que os deixou na casa de um irmão em Belo Horizonte. Para sumir no mundo de novo.
Do pai, Thiago não teve mais notícias, mas lembra de ter fugido com o irmão da casa desse tio e, como o irmão de 7 anos, terem vindo não se sabe como para o Rio de Janeiro.
Dormiam na rua com outros meninos e uma noite, na porta de uma igreja, um padre abriu e chamou apenas os dois, Thiago e Paulo, para dormirem na sacristia naquela noite. Fazia frio e aparentemente ambos eram os mais novos do grupo.
Foi a noite da chacina que entraria para a história do país. Thiago e Paulo se salvaram "como que por milagre".
Meses ou semanas depois, ambos não lembram ao certo, uma moça cruzou com eles na rua e, simpatizando com aquelas duas crianças, fez o que todos nós já pensamos um dia, mas nunca tivemos coragem: levou ambos para um abrigo onde tinha contatos e sabia que seriam bem tratados.

O abrigo de Santa Isabel é uma Instituição instalada há anos aqui na Tijuca, Thiago e Paulo cresceriam lá até serem formalmente adotados por essa moça (hoje uma senhora), Dona Maria Isabel, que mudou a vida deles. Suas datas de aniversário foram definidas pelo juiz, já que ambos não tinham documentos e eram jovens demais para lembrar de suas datas de nascimento. Lembram dos tempos de orfanato com carinho, contam que deixaram muitos funcionários de cabelo branco de tanto que aprontavam, mas que todos sempre foram muito carinhosos com eles.

Thiago e Paulo cresceram, Paulo é pai, Thiago é meu amigo dos tempos de Grupo Vicentino e logo que vim para a Tijuca de volta, fomos tomar esse chope depois de roubar uma porta abandonada. Foi então que minha ficha caiu: Mas a Candelária é uma Igreja de rua, localizada num canteiro central no meio da principal avenida do Centro, não tem infraestrutura de casa paroquial como outras igrejas maiores e mais reservadas, deve fechar à noite.
Thiago olhou para mim e como quem diz "Ah Hã!", me conta que em adulto, voltou à Candelária e procurou por esse padre que salvara a vida dele e do irmão. Foi bem recebido pelo atual pároco responsável, que avisou que nunca um padre havia dormido lá, que a igreja era trancada à noite e que o padre que ele descrevia, em traje franciscano com capuz, não era da ordem administradora. Disse que não havia ninguém na Candelária na noite do Massacre como nunca há em noite alguma. Enfim, que a história dele não fazia sentido numa visão racional. Mas sorrindo, completou que certos mistérios devem ser aceitos.

Thiago então começou sua busca pela mãe e irmã e, sabendo seus nomes, procurou por todas as Aparecidas e Dalilas Ribeiro da Silva em redes sociais como o Facebook, sites de entidades que apoiam parentes de desaparecidos, etc.
Todas as mulheres responderam educadamente, mas nenhuma era a que procurava.

Então, eu uso esse blog para tentar ajudar alguém com problemas maiores do que os meus: Se você conhece alguma Aparecida ou Dalila Ribeiro da Silva, avise que seus filhos e irmãos respectivamente, Thiago e Paulo, as procuram há muitos anos sem sucesso.

Paulo eu não conheço, sei que já é pai, mas Thiago é velho amigo, tem boa índole. Prestativo, quebrou mil galhos quando me mudei sozinha para uma casa com escadas na companhia de 3 cães.
Vai fazer 7 anos que nos conhecemos, era um garoto das ruas do bairro. Hoje, mora sozinho dividindo apartamento com amigos, namorador e orgulhoso de suas conquistas.

Pendurando as persianas da sala daqui de casa logo nos primeiros meses (e me salvando de um sol da tarde inclemente), as paredes ainda sem a pintura branca.




Na parede desse boteco do bairro onde ouvi essa história inacreditável, é claro que a gente batucou e cantarolou na mesma hora em que descobri esse cartaz pavoroso. Mas não fomos expulsos, o bar estava vazio e os garçons não deram a mínima.



Sobre a Chacina da Candelária:
Página Oficial no Wikipedia 

A lista dos mortos:
  • Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos
  • Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos
  • Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos
  • Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos
  • "Gambazinho", 17 anos
  • Leandro Santos da Conceição, 17 anos
  • Paulo José da Silva, 18 anos
  • Marcos Antônio Alves da Silva, 20 anos

A história de outro sobrevivente:



Os links:
Natal sustentável
A casa sustentável é mais barata - parte 03 (material de demolição)

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível


 

"Quem gosta de miséria (alheia) é intelectual, pobre gosta é de luxo", Joãozinho Trinta


Eu não gosto do artesanato urbano de reciclagem, são improvisos que não fazem a minha cabeça e pior, que acabam não cumprindo sua função, porque não substituem as "versões oficiais".
Por favor, não me entenda mal, quando digo isso, não incluo de forma alguma o artesanato regional, cujas peças inclusive decoram minha casa. Por reciclagem artesanal entenda a perda da tradição, nunca o artesanato típico de um povo, que propositalmente deixo ilustrando o começo dessa postagem. Espero que as pessoas entendam a diferença entre ambos e passem a valorizar mais as nossas tradições culturais. O artesanato típico brasileiro é lindo, sofisticado e valorizado no exterior. Uma pena notar que o brasileiro não dá o mesmo valor e o artesão geralmente é mal remunerado. 



O artesanato de verdade que vale a pena - acima: "Mãe amamentando" em barro do Vale do Jequitinhonha (MG), carrancas do Vale do São Francisco (MG, BA e PE), bordados de Natividade (RJ) e nordestino. Abaixo, "Divinos Espírito Santo" da Oficina de Agosto de Tiradentes (MG), tapetes arraiolo de Diamantina (MG), 




Hoje, acompanhando a mudança de pensamento na sociedade, vejo que alguns mitos continuam. Em muitos sites de "Faça você mesmo" (DIY "do it yourself"), há um excesso de xingling, ou os produtos baratos chineses das lojas de R$1,99. É como se houvesse uma compensação "não estou comprando um móvel na Tok&Stock nem nas Casas Bahia, mas minha estante descolada em caixote de feira é toda decorada com brinquedinhos multicoloridos baratinhos". Nem toda customização é sustentável e nem toda reciclagem artesanal pode ser sequer considerada sustentável. O fato de ser improvisado não significa que não tenha deixado sua pegada ambiental. E é de se observar que se você pagou barato, é porque alguém foi mal pago, a matéria prima foi extraída de qualquer maneira, não há a menor preocupação com o transporte e provavelmente nem com o impacto socioambiental.

Eu comecei a falar a sobre reciclagem artesanal e seus horrores na postagem Reciclagem de pneus e cintos de segurançaonde dou uma ideia dos equívocos atuais:

Particularmente nada em reúso de pneus me agrada. Quem for leitor mais atento do blog vai notar que a reciclagem artesanal não é muito bem vinda por aqui. Minhas razões muitas:

1. Geralmente o resultado é horroroso, salvo nobres e raras exceções. Não existe um designer dentro de todos e ecodesign é ainda mais desafiador, justamente porque impõe limitações.

2. Um pote de margarina, batata pringles, vidro de maionese ou seja lá o que for é uma embalagem inútil. Se o produto industrializado-processado é uma porcaria e só faz mal à saúde, além de financiar o cartel da agroindústria que leva os produtores rurais à falência, porque eu haveria de comprar nescafé e ainda me dar por satisfeita de colocar uma capinha de croché, se posso tomar meu café orgânico produzido pela agricultura familiar e embalado num saco simples? Por que manter uma coleção de vidros de maionese reutilizados e grosseiramente decorados com coisas como cola colorida e paetês, se a maionese caseira feita em ovos orgânicos com limão galego e até azeite extra virgem de procedência controlada e cultivo biológico é muito mais saudável, deliciosa e barata?

Mesmo que algumas embalagens sejam indispensáveis, é mais honesto deixar numa cooperativa de reciclagem para beneficiar mais pessoas. Se há muitas embalagens na sua casa é porque você compra errado, compre a granel e veja que o volume vai reduzir em uns 90%. Se sobram vasilhames de produtos de limpeza, reveja as opções da permacultura para faxina e limpeza da casa.

Não, não dá. O pior é que eu sempre recebo emails e links no Facebook de pessoas bem intencionadas com seu brinquedinho em pet. Não me levem a mal, mas o pet é uma embalagem derivada de petróleo que embala um refrigerante e, se todo refrigerante ainda consome em média 30 litros de água para cada litro da bebida, onde está exatamente a sustentabilidade nisso tudo?
E o brinquedinho é sempre tosco. Além de cafoninha, ainda estimula as crianças que recebem essa (des)educação ambiental a comprar mais pet para fazer mais brinquedinhos que nunca vão chegar aos pés do game que eles realmente querem.



Se está ou conhece alguém que esteja nessa fase de deslumbramento chinês, mostre as fotos abaixo e explique que não existe produto sustentável que não tenha sido produzido em condições dignas, fair trade, o comércio justo que trata de produção e não exploração.

Operários chineses revelam a história verdadeira dos brinquedos

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Há um blog muito popular "É sustentável, mas é horrível!" que divulga esses horrores. Aqui em casa, eu fiz 3 mesas em bobina de cabo,1 estante em caixote de feira e até uma caminha de cachorro em pallet (que estavam abandonados nas calçadas), mas me contive no resto e, quando precisei de outros móveis, comprei móveis antigos de madeira de lei, louças, porcelanas e objetos de arte em antiquariato, feiras de rua e até em bazares beneficentes. Naturalmente reciclado por ser de segunda mão, de qualidade e com o design que eu quiser, do século XVII aos anos 80 por preço justo sem explorar ninguém, sempre mais barato do que o convencional das lojas .


O que eu sinto é que as pessoas não entendem bem a sustentabilidade, ainda não compreenderam que a única solução é consumir menos de tudo, incluindo lembrancinhas inúteis. Aliás, principalmente do que for inútil. Reciclagem é um tripé apoiado em pelo menos 3 conceitos: recusar, reutilizar e só então reciclar. A primeira coisa que um consumidor consciente faz é não consumir, em segundo reutilizar o que já existe. Transformar em algo novo é a última etapa, quando as duas primeiras já se esgotaram.





Todos os hippies que conheci, trabalhavam com esse artesanato equivocado. A maneira daquelas pessoas sair do sistema era fazer inutilidades em materiais produzidos justamente pelo sistema rechaçado. Não existe nada de ecológico em materiais sintéticos e industriais como cola, paetês, miçangas, penas de animais silvestres traficados, parafina de velas, celofane, durepóxi e afins. 

Se indígenas em aldeias usam penas é porque convivem com animais que as deixam cair, ou aproveitam de animais já mortos. Não criam animais em cativeiro apenas para extrair à força penas que serão vendidas como artesanato engajado. Pessoas em cidades, usando penas de animais não são hippies nem sustentáveis, é só perversidade e ignorância.





O exemplo abaixo em pet exemplifica bem. A pessoa quer montar uma hortinha caseira, segue bem intencionada reaproveitando garrafas e resolve decorar. O problema exatamente não é a decoração, que é sim de gosto duvidoso, mas o próprio uso do pet, uma embalagem derivada de petróleo que embala originalmente um refrigerante que deve ter consumido 37 litros de água para produzir um único litro de refrigerante. Se há alguma fábrica de bebidas em sua cidade, é para refletir que a água utilizada venha dos mananciais da região e, quando acabar, a empresa não assume a responsabilidade e instala nova fábrica em outro lugar - com isenção fiscal, já que gera empregos. À população local sobram fontes desertificadas, solos erodidos, instalações fabris abandonadas, economia local sucateada e o desemprego.
Quem paga a conta são os que ficam: a população local com solos erodidos e poços artesianos secos. 

Se essa pessoa é tão sustentável a ponto de reciclar embalagens e fazer hortas caseiras, não deveria estar comprando refrigerante. Caso tenha acesso à garrafas alheias, o ideal é enviar à cooperativa de reciclagem para ser transformado em outro subproduto ou pelo menos doado à permacultores que vão usar essas garrafas para fazer construções populares revestidas de adobe escondendo o pet.
Refrigerante, além de insustentável, só faz mal. O manjericão abaixo ficaria mais bonito num vaso de barro ou até numa grande jardineira em base de madeira de pallet.

Aproveite que as crianças estão de férias, sem fazer nada em casa e corre pro quintal pra fazer essa BELEZURA ENCANTADORA!

Dica da amada Juliana Larocca <3


Até Marcelo Rosenbaum, que admiro profundamente, fez sua horta de pet  - uma parede verde, que não usa um grama de plástico, além de ser realmente sustentável, é mais simples, rápido, barato e ainda vai providenciar mais alimento do que essas mudinhas apertadas.

Aprenda a fazer a horta de garrafas PET de Marcelo Rosenbaum




O pet é sempre um campeão nesse artesanato insustentável que por hora nos assola. O pior dos castiçais abaixo não é nem o visual, que é terrível, mas a periculosidade. Não se apoiam velas acesas em plástico, o plástico derrete quando a vela diminuir e vai transformar a mesa (provavelmente em madeira, fórmica ou plástico) numa fogueira. Isso não é um castiçal, é o manual para um incêndio doméstico!

OBRIGADO UOL, PELA ILUMINAÇÃO NAS PAUTAS DO DIA A DIA (http://mulher.uol.com.br/casa-e-decoracao/album/2012/12/05/faca-casticais-criativos-e-ecologicos-usando-garrafas-pet.htm#fotoNav=1)
DI-CO-NA da leitora Flavia Ribas


O "mimo" abaixo segue o mesmo princípio, parte do refrigerante e da mineração para extração do alumínio da latinha. Fosse um fuxico de reaproveitamento de retalhos, feito em cooperativa de mulheres sem capacitação e seria um produto sustentável e justo, mas o exemplo abaixo é só desperdício de matéria-prima, a começar pela linha, já que não pode nem ser lavado.






Meias são um problema, sempre perde-se um pé na máquina de lavar, mas existe uma alternativa mais digna do que forrar vasos: doe à moradores de rua, que não ligam se o par não estiver combinando. O Projeto meias do bem recolhe meias velhas e as transforma em cobertores para pessoas carentes. 
E o tutorial abaixo não sugere meias velhas e puídas, mas justamente o contrário, meias tinindo de novas para sua "obra prima". O vasinho branco original, além de mais bonito, teve um custo e respectivamente impacto ambiental menor no final das contas.

MEIA BOCA né?

Dica do William Welbert



Se é para reutilizar um croc, que seja calçando pessoas que precisam de sapato! 
Pior, nenhuma das espécies plantadas é comestível. Esse jardim, além de horroroso, não é sustentável em nada, é só um desperdício de borracha do calçado e água para rega de algo que não alimenta ninguém nem enfeita o mundo. E repare que os crocs são novos, não foi nem um caso de reuso na falta de um mendigo para doar.

"Aproveitei que a onda dos crocs passou e reaproveitei no meu jardim, amiga" NÃO.



Sinceramente, alguém acreditou que esse escorredor é velho e está sendo reaproveitado? 
Se o seu enferrujou, leve para reciclar, pinte em outra cor e use como fruteira ou porta ovos, mas não pendure nem saia correndo para comprar um novo e fazer seu "lustre sustentável a partir de metal novo e subaproveitado". Porque nada é mais sustentável do que a mineração, é claro...
Uma luminária japonesa de papel de arroz é biodegradável, clássica e mais barata do que a "instalação" abaixo (a 5 pratas na Liberdade e Chinatowns da vida). Não gosta do clean e do zen? Ótimo, compre um lindo lustre de cristal ou opalina do art deco num antiquário, feira de rua, brechó da igreja... É capaz de ainda sair mais em conta (geralmente por R$50,00) e nem vai ferver a cada lâmpada acesa.






Exemplos bonitos e bem intencionados, mas que não são sustentáveis na essência:

O quadro abaixo do artista Alfredo Borret é de bom gosto e exigiu técnica do artista. Alfredo Borret está fazendo sua parte, produzindo muito dignamente sua arte usando material reciclado como matéria prima. Mas a pergunta que não quer calar: tampinhas de plástico e metal, que embalam bebidas prontas, que cometem hidropirataria, são sustentáveis?





vaso de jornal reciclado é indiscutivelmente bonito e sofisticado, mas sabia que os abrigos de vira-latas pedem jornais velhos diariamente nas redes de relacionamento? Essa semana mesmo, a Sozed (abrigo do meu bairro) deixou um apelo desesperado no Facebook, pois seu estoque acabaria no dia seguinte. O Consulado Alemão doou um caminhão e resolveu o problema. Na postagem da minha mesinha de cabeceira em bobina de cabo, conto que encontrei uma das bobinas justamente quando voltava à pé da minha doação mensal de jornais na Sozed - marquei 2 gols com um chute só. Mas se você quer realmente dar vazão ao artesão que existe em você, sabia que presentes podem ser artisticamente embalados com jornais defasados, retalhos de tecidos manchados-rasgados e até papelão cartonado velho? Então dê uma olhada nas sugestões da postagem Embalado para presente



Mesas de revista hyparam, são impactantes, mas por que comprar tantas revistas (e consumir tanto papel) se praticamente todo o conteúdo está na internet e muitas vezes gratuito? E a base de madeira não é de reúso nem demolição, deve ter sido encomendada em função do custo, as próprias rodinhas são novas e em plástico.



Tapete (e aparador de panela) em rolha é bonito, clássico e rústico. Ainda por cima reciclado e remete à boemia, vinhos e sofisticação. Mas todo mundo quando vê essa foto, só pensa em comprar caixas e mais caixas do vinho mais vagabundo do mercado para fazer um tapetinho para si, preferencialmente uma passadeira de mais de 1,0m ou um imenso painel para servir de cabeceira de cama...
O vinho não vai ser de cultivo biodinâmico, mas cultivado com agrotóxico, e o vidro da garrafa dificilmente será reciclado. O que começa bem intencionado numa onda de simplicidade voluntária se desvirtua por causa do consumismo "verde". Eu imagino a pessoa num hipermercado com o carrinho cheio de vinho suspeito, daqueles de R$7,99 que já vêm com uma neosaldina, enchendo a mala do carro com as caixas e voltando para casa, dirigindo e pensando "Mandei bem! É hoje que eu faço algo ecológico!"
E o pior é que a rolha em cortiça é biodegradável. Caso haja um excesso que não dê vazão, basta compostar ou até enterrar no primeiro terreno baldio.




Espelhos de talher em plástico e metal também hyparam. Os espelhos em talher de metal fazem mais a minha cabeça, mas ambos são basicamente um equívoco.
Primeiro: não se compra copo e talher de plástico descartável, usa-se os de metal e vidro que já existem e, em caso da necessidade de produtos descartáveis, usam-se os de papelão ou bioplástico em amidos vegetais. Mas se você quer andar com um copo na bolsa e deixar na gaveta do trabalho, então a solução é o copo plástico não descartável, reutilizável por décadas, até uma caneca de alumínio serve. E talher de metal em bom estado como os da foto, devem servir ao seu fim: fazer parte de um faqueiro doméstico para que não seja necessário comprar mais talheres, que demandam mais siderurgia e extração mineral, mais gente trabalhando muito e ganhando mal, mais frete em combustível de CO2...
Se está cheio de talheres diferentes que não combinam entre si porque herdou faqueiros capengas de muitos parentes? Doe para asilos e orfanatos, essas pessoas não ligam se não estiver combinando.
Não é implicância, é uma questão de priorizar. Gosto muito de espelhos inclusive, na postagem sobre as bobinas de cabo linkada mais abaixo, encontra-se a foto de um imenso que comprei num mercado das pulgas aqui do Rio, uma feira ao ar livre onde tudo é de segunda mão e os preços regateáveis. Custou módicos R$80,00 e não me tomou 1 segundo de trabalho colando e pintando com químicos não biodegradáveis, cujas embalagens não reciclam.








Existem milhares de sugestões de artesanato a partir de lâmpadas queimadas, mas o que me intriga é porque as pessoas continuam comprando lâmpadas convencionais (incandescentes), que duram menos e consomem mais energia. O filamento da lâmpada incandescente é em molibdênio e tungstênio, metais que serão extintos nessa velocidade e o tungstênio é tóxico. Pior, sendo fluorescente, não descartam adequadamente o lixo tóxico em mercúrio, que vai de qualquer maneira para o aterro sanitário contaminar lençóis freáticos e poços artesianos do entorno.
Some a tudo isso a mania de encalacrar plantas inocentes que preferem um bom vaso de boca larga e vão durar menos nesse espaço sem terra.
Sabia que existem lâmpadas capazes de durar 25 anos (ou mais) e que seu criador foi ameaçado de morte? Não? Então, leia Sem obsolescência programada e com garantia de 25 anos, mas não se encontra em lugar nenhum







Os exemplos são infinitos e gosto é uma questão muito pessoal, o que escrevi não tem a menor intenção de agredir ninguém. À exceção da foto do artesanato hippie, que é minha e já estava na postagem sobre a Cúpula dos Povos, as demais foram retiradas de dezenas de sites aleatórios.
A ideia aqui é mostrar que cabe a cada um dizer não ao xingling, ao vinho baratinho, às revistas gringas que trazem artigos incríveis sobre greenbuilding, ao refrigerante em pet e a todos os produtos insustentáveis que acabam servindo de matéria-prima à reciclagem artesanal.


Eu indicaria poucas opções comerciáveis de reciclagem artesanal, na postagem da Reciclagem de pneus e cintos de segurança seguem algumas opções, todas premiadas.
Também há uma postagem exclusiva sobre a Tem quem queira, uma cooperativa carioca que, a partir de banners de propaganda (como outdoors) faz bolsas de todos os tipos usando mão de obra carcerária qualificada por eles - eu tenho uma mochila de lá, são sérios, reciclam de verdade e os produtos têm design.



Para ver as peças do comércio justo da Cúpula dos Povos da RIO+20, leia a postagem As compras da RIO+20Para os móveis das Feiras de Sábado cariocas: Comendo a ração que vende - parte 11: dos móveis que eu catei, restaurei e pintei. Para as coisas daqui de casa, reciclando o que iria para o lixo, a série Comendo a ração que vende diz a que veio com dezenas de exemplos, até ímã de geladeira.




O ideal seria que não existissem tantos resíduos mas, se existem, que pelo menos sejam reciclados para gerar novas embalagens e subprodutos. Lembrando sempre que não se recicla nada, se subcicla, porque o produto reciclado produzido a partir do derivado original é sempre inferior em qualidade e função e seu processo de produção consumiu água, energia e emitiu CO2 pelo menos na logística de transporte. Da mesma forma que uma calçada limpa não é a que mais se lava mas a que menos se suja, gestão de resíduos sólidos correta não é a que revende mais pet para pessoas pobres, sem qualificação e à margem do processo de produção "viverem" de fazer bonequinhos baratinhos e descartáveis feitos com matéria prima que não recicla, mas a que conscientiza a população a consumir cada vez menos pet e ter um programa sério de logística reversa aos pets que já existem - o que é responsabilidade de quem produz e não de quem consome.




Para lembrar sempre: Reciclagem é um tripé apoiado em pelo menos 3 conceitos: recusar, reutilizar e só então reciclar. A primeira coisa que um consumidor consciente faz é não consumir, em segundo reutilizar o que já existe. Transformar em algo novo é a última etapa, quando as duas primeiras já se esgotaram.





Os filmes que se aprofundam na questão:
Lixo Extraordinário
A Ilha de lixo no Pacífico
Ilha das Flores e Estamira
The Story of Stuff Project: A História das coisas
The Story of Stuff Project: A História dos Eletrônicos



Aqui em casa:
Lenços
Tricô e crochê
Delícias geladas
Compras a granel
Refrigerante caseiro
As compras da RIO+20
Embalado para presente
A casa sustentável é mais barata - parte 09 (lavanderia)
A casa sustentável é mais barata - parte 12 (faxina e controle de pragas)
Comendo a ração que vende - parte 01: mesinha de cabeceira em caixote de feira
Comendo a ração que vende - parte 02: as bobinas do Camarão
Comendo a ração que vende - parte 07: mesinha de cabeceira em bobina
Comendo a ração que vende - parte 09: caminha de cachorro em pallet
Comendo a ração que vende - parte 10: ímãs de geladeira
Comendo a ração que vende - parte 11: dos móveis que eu catei, restaurei e pintei
Apresentando um catador da Amazônia ao restaurador de São Cristóvão e morando em cima de um antiquário e brechó no Maracanã




Mais informação:
Tetrapack não recicla
O mundo é o que você compra
A Eco-ilha, ilha-lixão ou eco-barco
O banimento das lâmpadas incandescentes
Reciclagem de pneus e cintos de segurança
7 coisas tóxicas que você não deveria jogar no lixo
A vila colombiana construída em garrafas com adobe
"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"
O mito da embalagem sustentável: manual básico de reciclagem
Você compra demais ou "De onde vem o lixo produzido no mundo?"
O mito da venda de água: não existe água mineral engarrafada sustentável
Sem obsolescência programada e com garantia de 25 anos, mas não se encontra em lugar nenhum