sábado, 18 de janeiro de 2014

Como funciona a mineração no Brasil

Já foi dito por aqui algumas milhares de vezes que não existe mineração sustentável, que um celular consome metade dos elementos de uma tabela periódica e que 80% do ouro e 99% dos diamantes extraídos são demandas do mercado de jóias supérfluas. Mas talvez as imagens em fotos e filmes abaixo, crédito total da Mídia Ninja, finalmente te convençam. 


Especial Mineração no Brasil • Mídia NINJA - Quem paga o preço da Mineração?

O Brasil é o segundo maior exportador de minério do planeta. 
Em 2012, 52 bilhões de litros de água foram consumidos pela mineração. Essa quantidade daria para abastecer a cidade de Niterói por 2 anos. 
Um novo marco regulatório da mineração está para ser lançado. O futuro sustentável do Brasil está em jogo.





Tanto bate até que sangra


Agora o nó da vez é o Novo Código de Mineração Brasileiro, que está para ser votado e é outro assunto complexo que coloca movimentos sociais de um lado e poderosos interesses financeiros do outro.
Em termos gerais o que está prestes a ser aprovado é um código que mantém as coisas como antes (as mineradoras fazem o que bem entendem e passam por cima de todos), mas com o governo federal ganhando mais dinheiro com isso.
Bem, se existe muita grana em jogo, a batalha é obviamente desigual. Ainda mais quando parte do Congresso tem ligações íntimas com mineradoras. Por exemplo, o relator do Novo Código de Mineração é o deputado federal Leonardo Quintão (PMDB-MG) e 20% de sua campanha partiu das mineradoras. Quintão é próximo a Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que teve 70% de sua campanha financiada por empresas ligadas ao setor e, por outro lado, é o principal amigo das teles na questão do Marco Civil. Tutti buona gente, sacumé?
Já o senador Edison Lobão Filho (PMDB-MA), membro não-oficial da Frente Parlamentar da Mineração Brasileira, é dono de uma empresa de mineração (Vale do Sol) e filho, como o próprio nome sugere, de Edison Lobão, simplesmente o ministro das Minas e Energia. Outro senador, Romero Jucá (PMDB-RR), é autor de um projeto de lei que autoriza mineração em terras indígenas e é acusado pela Procuradoria Geral da República de beneficiar a Vale S/A, a maior mineradora do Brasil e a segunda do mundo. Seu caso está no STF. Esses e outros parlamentares são citados na excelente reportagem “Teia de interesses liga políticos a mineradoras em debate sobre novo código”, de Alceu Luís Castilho para a Agência Pública.
A Vale S/A, aliás, é a principal protagonista e vilã de Enquanto o Trem Não Passa, impressionante curta documental feito pela Mídia Ninja que dá voz aos atingidos pela devastação causada pela predadora indústria mineradora nos estados do Maranhão, Pará e Minas Gerais. Saca só.
É impressionante a estupidez dessa turma que destrói a vida de milhares de pessoas e nossos próprios recursos hídrico-minerais em troca do, perdoem o trocadilho, vil metal. Em entrevista ao Blog do Planeta, o advogado Márcio Pereira, especialista em legislação ambiental, toca justamente na perigosa lacuna do Novo Código de Mineração que manterá esse faroeste: “Em termos ambientais, o governo não avançou nada. Não estabeleceu nenhuma regra específica para a área de mineração, sendo que hoje um dos principais gargalos da área de mineração é a questão ambiental. O minério pode estar em áreas remotas, em áreas sensíveis do ponto de vista ecológico ou social”.
Tenho certeza que nenhum ativista e nem as muitas populações afetadas por essas obras gigantescas (e potencialmente nocivas em termos sócio-ambientais), muito menos este que vos escreve, sejam contra o tal “progresso”. Mas que ele seja para as pessoas e não para alguns políticos e empresas (e quando digo “empresas” quero dizer “donos e acionistas de empresas” porque trabalhadores nunca levam nenhuma fatia desse bolo). E que essa importante fonte de riqueza nacional seja extraída de forma responsável. Não é difícil fazer a coisa certa, basta querer e pressionar para que isso aconteça. O que não dá mais é para deixar lobões, lobos e lobinhos cuidando desse nosso belo e confuso galinheiro.
p.s.: Para saber quem mais está de rabo preso com as mineradoras – que só perdem para as construtoras entre as empresas que mais doam dinheiro para campanhas – é bom dar uma olhada no estudo “Quem é quem nas discussões do Novo Código de Mineração”, de Clarissa Reis Oliveira, pesquisadora do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas).



Enquanto o trem não passa

Prestes a ser votado o Novo Código de Mineração Brasileiro, a Mídia Ninja une-se aos movimentos sociais para dar voz aos atingidos pelos impactos e devastação da mineração, atividade econômica que cresceu 550% nos últimos 10 anos no país. O documentário foi gravado em três estados impactados pela atividade, ao longo dos últimos 2 meses: Maranhão, Pará e Minas Gerais.

"Enquanto o trem não passa" mostra um pouco da realidade de comunidades que têm seus direitos usurpados por grandes mineradoras e governo. Municípios cortados pela Ferrovia Carajás, Minerodutos, populações afetadas - não apenas pela tormenta de explosões constantes na extração do minério, mas também por toda a logística que muda o modo de viver e conviver nos territórios.

O objetivo da produção é alertar quem vive fora das áreas de atuação das mineradoras sobre o enorme impacto dessa atividade e o quanto o novo código proposto pelo Governo não traz salvaguardas sócio-ambientais, garantias ao meio ambiente e nem segurança aos quilombolas e povos indígenas. Os brasileiros sofrerão, ao longo das próximas décadas, com a escassez de água, pois rios e nascentes estão sendo drenados pelas mineradoras. Só em 2012 a mineração consumiu 52 bilhões de litros de água, o suficiente para abastecer por dois anos a cidade de Niterói (RJ).







Ensaio fotográfico de Rudi Böhm, realizado em 1981

No final dos anos setenta, na pequena cidade de Curionópolis, interior do Pará, um vaqueiro encontra uma pepita de ouro. A notícia, rápida e ferozmente, se espalha por toda a região. Começa aí a caçada ao El Dorado. Mais de 80 mil homens com altíssimas expectativas e vindos das mais diversas partes do país chegam à Serra Pelada. Inicia-se assim a história da maior mineração de ouro do planeta.

Morros se tornam desfiladeiros prontos para terem suas pepitas exploradas. Imagens do formigueiro humano, subindo e descendo por aqueles morros - incessantemente, com pesados sacos nas costas, chocam o mundo. Poucos tiveram a sorte de encontrar quantidades significativas do vil metal, e os que conseguiram alguma pepita com maior valor, ficaram com um percentual mínimo do que encontraram. A maior parte ficava para os donos de fazenda. Serra Pelada é uma ferida ainda aberta. O rastro de destruição e ganância impactam até hoje a pequena cidade onde a serra fica cada dia mais nua; mais envergonhada. 

Embora tenha sido extraído de suas entranhas mais de 40 toneladas de Ouro, isso não tornou-se pão para os 6,5 mil moradores de Curionópolis. Toda essa riqueza deixou uma trilha de catástrofe ambiental e social. A cidade tem um dos menores IDHs do país, que pode ser observado em alguns dados: 70% de seus moradores são analfabetos. Em recente campanha de saúde, foi constatado que de 96 pessoas examinadas, 45 eram portadoras do vírus HIV.

A ambição vampiresca de grandes mineradoras e do próprio Governo - sedento por royalties - autoriza, à partir desse ano, a reabertura de Serra Pelada para a exploração. Uma empresa Canadense, a Colossus Minerals, está na linha de frente da empreitada. 

A reabertura é um símbolo claro do boom minerador que vive nosso país. O Brasil pretente triplicar a atividade da mineração até 2030, não importando-se em salvaguardar meio ambiente, trabalhadores, populações, águas ou territórios. São três vezes mais crimes contra a terra. Mortes elevadas ao cubo.

Dessa vez o formigueiro será substituído por grandes e modernas máquinas, que, para extrair as 33 toneladas de Ouro que ainda restam, dissecarão quase 5 milhões de toneladas de outros materiais. Para isso será necessária abertura de uma nova cratera de 450 metros de profundidade numa área de mil hectares. Toda essa operação gerará menos de 500 empregos em um período de dez anos. 

Quando a mineração acabar novamente, teremos rios e lagos contaminados por mercúrio e cianeto - substâncias altamente tóxicas utilizadas na mineração do Ouro. A história de pobreza e sofrimento da população será contada novamente. Não é conto de fadas. É o roteiro do caos, real.

Fica a questão: Estamos curados, mas arriados em sequelas. Vamos realmente reabrir essa ferida? Que os moradores da região sejam bons de oração, ou de guerra. O céu e o inferno estão voltando para Serra Pelada.















A Mineração para quem vê de perto

Da terra do Açaí à terra dos profetas de Alejadinho. Percorremos o Brasil nos trilhos que escoam o minério e conhecemos as histórias de quem vive o dia a dia dos milhões que correm nos bancos e bolsos dos empresários. 

Foram 21 dias, mais de 4 mil kilômetros, 3 estados, mais de 100 horas de gravação e muitas histórias. Descobrir os miúdos da mineração vai além do que se pode imaginar. Não são só as gigantescas cavas e explorações em grande escala, é a vida de cada um que convive diariamente com os resquícios dessa atividade que afeta milhares de pessoas. Do seu Zé Pepino que não tem mais água em seu terreno devido à contaminação do rio com dejetos da mineração, à Gilmar, militante da área rural que durante dois anos percorreu a casa de mais de 2 mil famílias para convencê-los a não permitir a entrada da Ferrous na região onde mora. As experiências no Brasil profundo nos levaram a conhecer personagens, cidades e realidades nos âmagos do país. 

Veja um pouco do que foi a produção do documentário e a equipe que rodou para conhecer e mostrar essas histórias:











No cinema (agora, nas locadoras e no horário nobre da Globo), Serra Pelada, a maior força de trabalho humana desde as pirâmides do Egito. Mas no Egito, deixaram construções que seriam os monumentos da Antiguidade, aqui abriu-se um buraco a céu aberto sem qualquer critério.








Para o famoso ensaio de Sebastião Salgado sobre Serra Pelada, algumas fotos estão na postagem: Jóias são insustentáveis: Serra Pelada e os Diamantes de sangue




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