domingo, 12 de janeiro de 2014

Salário e Prosperidade



Audiolivro de autoria de um leitor muito atento desse blog, Alexandre Neto.
Ganhei de presente e compartilho, porque adoro o assunto e acho que é do interesse de todos.
Como fiz Faculdade de Economia, sempre gostei de livros e revistas sobre finanças pessoais e gestão de carreira. Ao contrário do que se imagina, sustentabilidade e finanças são indissociáveis. Não existe negócio verde concordatário, empresa amiga do meio ambiente que terceiriza mão de obra infantil e qualquer iniciativa pública, para ser sustentável, tem que ser economicamente viável. Uma das maiores defasagens no meio é justamente fazer com que os gestores se entendam com os especialistas técnicos.

Assim que entrei para a Faculdade de Economia, tive boas oportunidades profissionais, mas, por imaturidade, nunca soube aproveitar os bons rendimentos que tinha. Era jovem, morava com meus pais e achava muito natural torrar o muito que ganhava.
Morro de remorso, se tivesse agido com serenidade e orientação, hoje teria um bom patrimônio. Os imóveis cariocas eram mais baratos do que os carros populares de hoje naqueles tempos pré-bolha imobiliária.
Anos depois, morando sozinha e trabalhando como Técnica em plataforma de petróleo (também fiz escola técnica de nível médio), onde obviamente ganhava muito menos do que nos anos corporativos (mas adorava o que fazia), consegui me organizar e comprar meu primeiro apartamento - o que me mostrou na prática aquilo que todos os analistas não cansam de afirmar: Não é uma questão de valor, mas de organização.
Os anos áridos e as lições duras que eu tive que assimilar, fizeram de mim alguém mais consciente desse poder e autonomia que todo ser humano deveria ter. Finanças pessoais deveriam ser ensinadas aos brasileiros desde a escola, quem sabe assim teríamos menos gente endividada e se endividando cada vez mais em chiqueiros urbanos como a 25 de março e a Saara.

Nascida em berço de ouro, nunca precisei me preocupar com dinheiro. Não se falava em planejamento financeiro de longo prazo, afinal era uma família de funcionários públicos de padrão alto. Para quê se preocupar?
Eu já era ecologista de carteirinha, como se dizia nos anos 80 e 90, já tinha uma ligação forte com o ambientalismo e não sabia exatamente como conseguiria com que essa paixão fizesse parte da minha vida, afinal eu vivia num mundo rico e nada sustentável, muito pelo contrário, quanto mais consumista melhor.
Confesso que eu não dava muita bola para aquele mundo, achava um certo sacrifício fazer parte dele, mas como sair da minha zona de conforto?
Até o dia em que me vi sozinha, tendo que me virar e sem o megasalário e as regalias dos anos corporativos...
Não foi fácil, é claro. Mas talhou o meu caráter, como trabalhar embarcada anos depois também mudaria ainda mais minha personalidade - como se uma mão invisível (não a do Estado de Adam Smith) me conduzisse para a pessoa que eu queria ser desde pequena.

Comecei a comprar minhas roupas em brechó, afinal não tinha mais dinheiro para as butiques. Meus livros em sebos e bancas de rua. E o mais importante, a comprar menos.
Como dividia apartamento com amigos, notei que uma casa não precisa de tanta tralha... Anos depois, montei minha primeira casa sozinha! Como viria a montar todas as outras onde morei, comprando os móveis de segunda mão em madeira de lei nos mercados de antiquariato e claro, evitando os supérfluos. Não fazia mais supermercado, apenas feiras livres e empórios a granel.
No meu emprego anterior, eu conhecera dois ex-Ministros da Fazenda e um Presidente do Banco Central na ativa, mas agora eu era secretária terceirizada em empresa pública e via minhas colegas gastarem o pouco que ganhávamos em roupas e cosméticos baratos, muitas blusinhas e prendedores de cabelo... Reclamavam do mercado de trabalho, mas ninguém aplicava seus recursos em cursos de aprimoramento ou mesmo em outra formação. Ficavam anos a fio penduradas no telefone de fofoca, mostrando novos aparelhos celulares e fotos de filhos, mas não tomavam uma atitude em relação a si mesmas. O salto qualitativo só dependia delas. Eu era ex aluna do melhor colégio e da melhor faculdade particular do Rio de Janeiro e nunca me conformei com aquela situação, não almoçava mas não deixei de alavancar meu currículo até ter a formação que eu queria para me levar ao emprego que sonhei, em alto mar numa função técnica que envolvesse sustentabilidade.
Em todos esses anos, cortei e pintei meu cabelo em casa, fiz minhas próprias unhas e quando passei a ter condição de frequentar os shoppings e cabeleireiros de antes, não gostava mais de nada daquilo. Era um mundo que não me dizia mais nada, eu olhava seus frequentadores e ficava me perguntando em silêncio "Será que eu também já fui assim?"
As limitações financeiras haviam feito de mim alguém sustentável em todos os aspectos, inclusive financeiros, afinal eu me sustentava e impactava o mínimo possível.
Se não tivesse passado por tudo que passei, não veria o mundo como vejo. Estaria presa a um emprego que não me trazia prazer algum, frequentando lugares e comprando coisas para impressionar pessoas que não fizeram a menor diferença na minha vida.

Quem for leitor mais atento daqui, já deve ter notado que sempre houve uma preocupação (ok, uma obsessão) em mostrar que a sustentabilidade compensa financeiramente, que sai mais barato do que o convencional sempre. A curto, médio e longo prazo.
Não é uma questão politicamente correta de deixar um mundo melhor para as futuras gerações, mas de viver melhor agora.
Os que perderam um tempinho e leram as postagens sobre greenwashing, notaram o viés econômico e como as leis do mercado ditam as nossas vidas pessoais à nossa revelia. E o mais importante, observaram que existem muitos meios de sair dessa matriz, como eu tive que sair da minha zona de conforto um dia há muitos anos.
E como já foi dito milhares de vezes: É a demanda quem determina a oferta, nunca o contrário.

A minha própria relação com o autor, Alexandre Neto, também é curiosa nesse sentido. Alexandre é pai, pastor evangélico e, contrariando todas as expectativas, seguidor fiel desse blog tão crítico - inclusive curte no Facebook algumas postagens de perfil feminista, principalmente no que tange aos direitos das mulheres pobres e negras - o que comprova o que aprendi em alto mar: estamos todos no mesmo barco.
O respeito mútuo e a inteireza de caráter permitiram nossa amizade a despeito de discordamos abertamente sobre temas como legalização do aborto e casamento gay, por exemplo. Mas ambos somos extremamente radicais em um ponto em comum: A corrupção e seus desdobramentos (clientelismo, nepotismo, burocracia, aparelhamento da máquina pública, etc) são o grande entrave ao desenvolvimento do nosso país.
Noto em seus comentários aqui pelo blog e no próprio Face, que Alexandre enxerga a sustentabilidade exatamente como eu, como um meio extremamente econômico e próspero de beneficiar o maior número possível de pessoas. Nada que é caríssimo, é sustentável em sua essência, nada que explore um grande número de empregados pode ser considerado ecologicamente correto e claro que o consumismo verde e biochic (hoje um pouco em baixa, Graças a Deus) são apenas greenwashing praticado pelas mesmas empresas que sempre poluíram indiscriminadamente, o que nos obriga a farejar a rastreabilidade dos processos de produção e gestão, ler rótulos, conhecer os fornecedores, identificar o descarte dos resíduos, etc.
Quando vejo, estou com Alexandre no maior papo trocando receitas de picolés caseiros com as frutas da época e de quintal, mais saudáveis e baratos, sem embalagens e atravessadores - exatamente por isso mais sustentáveis.

Recomendo fortemente o audiolivro desse leitor que partiu para uma Faculdade de Administração já adulto, quando a escola da vida já o havia dado muitos diplomas. Você vai encontrar também a sugestão de livros na área e assim, ter acesso à planilhas de controle pessoal para ajudar na organização das finanças da casa. E com isso, comprar menos e melhor, sendo obviamente mais sustentável.





Do audiolivro desse amigo que nunca vi, mas estimo e respeito imensamente:

Parábola do homem feliz:
Um Rei adoece de um mal misterioso e é desenganado por centenas de médicos, uma velha empregada do castelo sugere uma cura: vestir a camisa de um homem feliz. A tropa sai em busca desse súdito, mas ninguém em todo reino está satisfeito. Mesmo entre os mais ricos, jovens e bem sucedidos há sempre uma longa lista de reclamações...
Uma noite, enquanto o príncipe cavalgava pela floresta, passa por uma casinha simples e ouve uma oração de gratidão em tom feliz de um homem que trabalhou na terra o dia todo, comeu do seu pão e vai poder dormir debaixo do seu teto recompensado.
O príncipe volta ao castelo, conta a novidade e a tropa corre à casa desse homem simples, oferecendo o que for pela sua camisa suada.
Só que esse homem é tão pobre que nem uma camisa tem.

O que você vai encontrar:

Um livro voltado até para quem ganha salário mínimo, afinal 6 milhões de brasileiros vivem do salário mínimo.

Preceitos básicos como valor nominal, poder de compra, lei da oferta e da procura. A questão primordial do consumo é sempre diferenciar o que é essencial e realmente importante do que é supérfluo.

Projetos de longo prazo para autônomos com renda variável e que tudo é uma questão de postura diante do seu estilo de vida, como traçar metas e objetivos (sem contar com a megasena).

Desenvolvendo a lista de supermercado realista: necessidades x supérfluos.

O uso realista do celular, se todos os aplicativos são realmente necessários, a estratégia do desperdício e da obsolescência programada.

Enxergando a família como uma empresa capaz de gerar capital com mão de obra produtiva. O que uma família produz é conforto com fatores culturais e filosóficos, uma unidade produtiva que visa o lucro e que, quando não atinge o mesmo, tem que reduzir custos. Daí a importância de se pensar no todo e não individualmente.

Ser honesto consigo mesmo, se está satisfeito com o que ganha, com seu estilo de vida, salário, a casa onde mora e o próprio trabalho realizado. Uma pessoa pode ser feliz e próspera realizando seu sonho de infância, sendo piloto de avião, pianista, etc.

A importância de não abandonar seus sonhos e não deixar que mais ninguém faça a gestão da sua carreira.


Para curtir o blog do Alexandre no Facebook: Família&Cia - Treinamentos em Economia Doméstica



Case de sucesso: 
Mr. Mustache Money, o engenheiro norte-americano que se aposentou aos 30 anos, fazendo concessões simples e óbvias, e só anda de bicicleta!













Mais informação:
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5 comentários:

Érica disse...

Olá Carol, sou leitora do blog a mais de dois anos e é a primeira vez que comento. Esse post me encantou (como vários) porque como você também acreditava que consumismo exagerado estava ligado a felicidade. Tenho 38 anos e se eu tivesse as ideias que tenho hoje aos 18 anos teria um belo patrimônio, mas era outro momento, precisei amadurecer para chegar aonde estou. Gratidão pela partilha.

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Tb tenho 38, sou de 75. Apareça mais, nossa geração deve ter sido a primeira a ser praticamente impelida ao consumo, é muito bom ver a mudança das próprias pessoas :-)

Soraia disse...

Uma delícia de texto! Tenho 39 e também desperdicei uma fase abastada. Hoje amadureci e procuro ter uma atitude responsável com o planeta, com os animais e com meus semelhantes - estava faltando a responsabilidade com o dinheiro! Kkkk
postagem muito oportuna!
Obrigada.

Alessandra disse...

Achei esse blog ontem e tenho lido compulsivamente seus textos. Até por respeito (não sei o que você acharia de comentar artigos de 2010, rs) não tenho comentado todos (justo né?). Mas minha vontade é puxar uma conversa em cada um deles. Adoro a forma como escreve, e acho que é um dos melhores blog's que tive a oportunidade de conhecer. Obrigada!

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Eu é que agradeço, Alessandra. Seu comentário foi muito gentil. Vc pode escrever e perguntar em qualquer postagem sempre. Os assuntos continuam aí. Feliz ano novo :-)