sexta-feira, 7 de março de 2014

Em Viseu, curtem-se azeitonas e serve-se medronhada

Leitora muito simpática, Catarina, portuguesa de Viseu.
Fui em seu blog e vi uma linda receita de como curtir azeitonas, luxo reservado aos que, como ela, têm 3 oliveiras no jardim.

Trago então o processo descrito no passo a passo com os sotaques e gírias locais numa língua mãe, que nos lembra que somos um dialeto. Quem for leitor mais atento daqui, vai querer trocar o açúcar por rapadura, usar potes de vidro-cerâmica, etc. Mas nada é maior do que essa tradição oral de quem tem oliveiras no jardim e segue as receitas dos vizinhos quando os frutos estão na época.

Porque achei um charme, porque é slow food na veia, porque tenho Oliveira como um dos meus sobrenomes e, confesso, porque sou louca por azeitona.
De sobremesa? Medronhada!



Como "curtir" azeitonas


Este ano a azeitona abundou, pelo menos aqui pela zona. Até as minhas 3 oliveiras, que nos outros anos pouco produziram, deram bastantes azeitonas! Não era o suficiente para fazer azeite, então decidi curti-las, pela primeira vez.
Apesar de ter visto várias receitas pela internet, decidi-me ir pela receita tradicional aqui da zona. Fiz também uma recolha de informação pelas pessoas mais velhas. No final, decidi confiar no método que o meu pai usou há 2 anos (o que resultou numas belas e saborosas azeitonas), juntando-lhe mais alguma sabedoria popular e experimentação pessoal. 




1º - Apanhou-se a azeitona directamente da árvore, madura (preta) e verde.
2º - Colocou-se misturada em 2 caixas de conservação de alimentos grandes, com tampa. Há quem separe por madura e verde, mas eu não o fiz, não me pareceu necessário.

3º - Cobriram-se as azeitonas com água, ficando a mesma 5/6 centímetros acima das azeitonas. Assim ficou espaço suficiente para juntar os "temperos" e mexer. Em relação à água, eu usei água normal, da torneira. Há uma facção de peritos em curtição de azeitonas, que dizem que só se deve usar água sem cloro: de poço, chuva ou fonte. Mas entre usar a água do poço, que nunca foi analisada, quanto mais tratada, e o cloro da torneira, preferi o cloro.

4º - Para fazer a salmoura, que é o que vai fazer com que o sabor amargo das azeitonas desapareça, juntou-se à água 2 punhados grandes de sal, por caixa. A quantidade correcta é de 10% de sal por cada litro de água, mas eu juntei a olho.

5º - Há quem ponha os temperos (alho e ervas aromáticas) só quando as azeitonas estão curtidas, mas experimentei pôr tudo desde o início. Quanto mais tempo estiverem a fermentar com outros temperos, mais absorvem os seus sabores, certo? Os temperos que usei foram: alhos esmagados (resto da colheita) e louro.

6º - Mudou-se a água 3 vezes em 6 semanas. Por o que vi nas receitas a internet, aconselham mudar a água diariamente, mas para isso teria que temperar todos dias e sinceramente, achei mais que desnecessário, tanto desperdício de água.

7º - Na terceira mudança de água, as azeitonas já se comiam, mas não perdem por estar mais algum tempo a curtir. Juntou-se murta, que é uma erva que já não se utiliza muito na culinária, mas que, segundo a tradição, era usada normalmente neste processo.

8º - Depois das azeitonas estarem curtidas, irei separá-las em frascos e vou colocar ervas diferentes em cada frasco, para dar um sabor diferente a cada "fornada". Pelos meus cálculos, para o Natal já devo conseguir comer azeitonas caseiras.

Pode-se usar outras ervas para temperar, tais como alecrim, oregãos, tomilho... O sal, esse é obrigatório para o processo, e o alho é uma constante em todas as receitas que vi e ouvi.

Agora, é só esperar...

Bom fim-de-semana!




Doce de Medronhos ou Medronhada
Por o que me apercebi, neste outono/inverno, redescobriram-se os medronhos - aquele frutinho silvestre avermelhado, que os mais velhos diziam que não se podia comer muitos ou ficava-se bêbeda :)
Passando por vários blogs que visito regularmente, muitos tinham a sua receita de "medronhada" ou doce de medronhos. Eu, que não gosto de ficar atrás, e tive a sorte de me trazerem uma caixinha do dito (doce), partilho aqui a receita, tal e qual me foi relatada:

Para 750 grs de medronhos lavados, juntar 400 grs de açúcar, levar ao lume num tacho largo e deixar ferver até fazer ponto estrada*. Colocar em recipientes, como se fosse marmelada. Pode-se colocar papel vegetal umedecido com aguardente, para tapar o doce.

E este foi o resultado final, já a faltar um bocado. É tão bom e por pouco não ficava nenhum para a fotografia!




No próximo outono, fica garantido, não fico à espera de ninguém, vou fazer o meu doce de medronhos!

Sugestão ecológica: guardem as embalagens de manteiga e margarina e usem-nas para guardar a medronhada. Como já tem tampa, é bastante prático. Só tem que se tomar atenção e deixar arrefecer o doce primeiro no tacho, para não derreter as caixas.

Bom fim de semana!



Bom fim de semana para você também, Catarina.



Mais informação:

Um comentário:

Catarina disse...

Oi Carol :)
Obrigada pelo carinho! Confesso que fiquei surpreendida quando fez o post sobre mim, divulgando meus textos. Lhe agradeço do fundo do coração a homenagem e a divulgação de minhas acções e receitas (e o facto de me ter avisado e respeitado a fonte). Eu tento viver sob as regras ecológicas e respeitando o Meio Ambiente o mais que posso, o que por vezes não é fácil, neste nosso tempo "moderno". Espero conseguir inspirar alguém por esse mundo fora, como você faz com seu blog.
Gosto de vir dar uma olhada aqui, porque aprendo sempre alguma coisa.
Beijos e boa semana para você :)