segunda-feira, 12 de maio de 2014

Manifesto em defesa das Unidades de Conservação

  


Eu morei e trabalhei como voluntária em uma Unidade de Conservação administrada pela Fundação Florestal do Governo de SP. Foi uma experiência incrível e antes de tudo, uma aula de Brasil e subdesenvolvimento.
Nossas Unidades de Conservação conseguem ser ainda mais abandonadas do que nossas fronteiras, os Guarda Parques não andam armados mas são obrigados a dar voz de prisão à invasores que geralmente estão e, em muitos casos, não há sequer rancho para alimentação ou veículos para deslocamento por áreas extensas. Some a tudo isso, a visão brasileira de que um Parque ou Reserva é uma atração turística, que lixo orgânico não polui e que o bar mais próximo é um fornecedor não fiscalizado de álcool e mulheres nativas.
E acredite, o quadro pode piorar. Afinal, em muitos casos, a posse da terra é de comunidades nativas que vivem da extração das riquezas naturais, mas isso nem sempre é feito de forma sustentável - o que leva à conflitos rurais e indígenas.
Na minha opinião, a maneira mais inteligente de manter nossas Unidades de Conservação preservadas, seja do turismo de massa, seja de falsos nativos, madeireiros, especulação imobiliária, ou seja lá o que for, é justamente o caminho sugerido pela SOS Mata Atlântica e endossado pelo Planeta Sustentável, tornar as mesmas fonte de renda pelo turismo sustentável e consciente, o que pode ser ainda mais interessante do que a visão atual do país no exterior: uma paraíso tropical subdesenvolvido, corrupto e permissivo ao turismo sexual.

Após a carta e reportagens, seguem os links acerca desse voluntariado na Jureia Itatins, o link sobre o SNUC (o Sistema Nacional de Unidades de Conservação) esclarece as diferenças entre as muitas Unidades de Conservação e os devidos porquês sobre algumas serem abertas e outras não, vale uma lida, até porque é possível ser proprietário de uma, em RPPN.




A carta traz alguns dados fortes: nos últimos 30 anos, o Brasil perdeu uma Costa Rica inteira (5,2 milhões de hectares) em proteção total ou parcial de territórios naturais. E essa realidade triste fica mais invisível à sociedade se nós temos pouca chance de passar as nossas férias nestes patrimônios naturais e, portanto, compreender o seu valor.
Hoje o número de visitantes em áreas protegidas no Brasil gira em torno de 6 milhões ao ano – muito pouco, se pensarmos nos cerca de 280 milhões ao ano dos parques dos EUA. É mais fácil pra gente no Brasil às vezes lembrar do parque americano do Zé Colmeia (Yellowstone) e de seus gêiseres do que das pinturas rupestres sensacionais da Serra da Capivara, no parque nacional aqui do Piauí.
Há ainda toda uma discussão sobre como anda a infraestrutura dessas áreas: das 313 Unidades de Conservação brasileiras, os signatários da carta consideram que pelo menos 70 têm potencial para ser visitadas – mas dados oficiais dão conta de que apenas 26 estão abertas, e só 18 têm alguma estrutura para visitantes (ainda assim estes dados estão sendo questionados; o quadro pode ser pior).

Diversas ONGs ambientais e instituições ligadas ao turismo sustentável – como a SOS Mata Atlântica, WWF-Brasil, Semeia e Abeta – elaboraram um Manifesto em defesa das unidades de conservação brasileiras. O documento foi lido na 8a edição da Conferência de Ecoturismo e Turismo Sustentável, em Bonito, na semana passada.
A carta está aberta para assinaturas e contribuições de organizações interessadas. As instituições que desejarem assinar o documento ou tiverem sugestões devem entrar em contato no email: sosparques@sosma.org.br .



Manifesto pela valorização das Unidades de Conservação do Brasil e pelo turismo sustentável

As organizações da sociedade civil alertam para a desvalorização dos parques brasileiros, que podem ser muito melhor explorados do ponto de vista turístico, promovendo a conservação aliada à geração de emprego e renda.

Estudo recente na publicação científica Conservation Biology indica que, nas últimas três décadas, 93 parques nacionais e outras Unidades de Conservação no Brasil tiveram suas fronteiras reduzidas ou seus status alterados. Retirou-se ou se reduziu a proteção de um total de 5,2 milhões de hectares de florestas nativas, que antes eram preservados em parques, reservas e estações ecológicas. Isso equivale ao território do Rio Grande do Norte e é superior ao da Costa Rica.

Unidades de Conservação na Amazônia foram as que mais sofreram, principalmente entre 2008 e 2012. Os principais motivos foram o avanço desregrado da geração e transmissão de energia hidrelétrica, do agronegócio e da urbanização.

Além das perdas já concretizadas, o Brasil convive com novas e constantes ameaças – um caso emblemático é o do Parque Nacional do Iguaçu, onde fica uma das sete maravilhas naturais do mundo: as Cataratas. Existe um projeto para construir uma estrada que cortará o parque, causando prejuízos aos animais e impactando a paisagem.

O Brasil ficou em 1º lugar no ranking do Fórum Econômico Mundial no quesito Belezas Cênicas, entretanto, vem perdendo posições no ranking mundial de competitividade de turismo.
Atualmente, dos quase 70 parques nacionais existentes no país, apenas 26 estão abertos à visitação e só 18 possuem infraestrutura satisfatória. Em 2012, esses parques tiveram 5,3 milhões de visitantes e arrecadaram menos de R$ 27 milhões com a venda de ingressos, sendo que pouco mais de 3 milhões de visitantes ocorrem somente nos Parques Nacionais da Tijuca e Iguaçu.

Os parques nacionais dos Estados Unidos, em 2008, receberam 275 milhões de visitas e geraram US$ 11,5 bilhões nas suas áreas de influência. Os cinco maiores parques da África do Sul recebem ao ano 4,3 milhões de turistas. Lá, 75% do sistema de parques nacionais é mantido pelos recursos advindos da visitação (incluindo concessões). Na Austrália, em 2007, turistas que visitaram parques nacionais foram responsáveis pela injeção de R$ 30 bilhões na economia do país. E, na Nova Zelândia, o turismo representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e 15% dos empregos da costa oeste. O turismo promovido no Parque Nacional de Fiordland, ao sul daquele país, promove a geração de mais de 50% dos empregos do território, assim como o Parque Nacional de Banff, no Canadá.

O estudo Contribuição das Unidades de Conservação Brasileiras para a Economia Nacional aponta que a visitação nos parques existentes no país tem potencial para gerar até R$ 1,8 bilhão por ano, considerando as estimativas de fluxo de turistas projetadas – cerca de 13,7 milhões de pessoas, entre brasileiros e estrangeiros – até 2016, ano das Olimpíadas. O material foi desenvolvido pelo Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente e pelo Ministério do Meio Ambiente em 2011.

O Brasil precisa aproveitar essa oportunidade e reconhecer as Unidades de Conservação como o maior ativo deste país, conciliando desenvolvimento com a conservação dos recursos naturais. Ao valorizar e investir em seus patrimônios naturais, também se fortalecerá como destino turístico. Infelizmente, hoje nem os brasileiros nem os turistas estrangeiros podem usufruir adequadamente dessas riquezas. E, se o governo não agir para alterar a realidade atual, sobrarão poucas áreas protegidas para serem apreciadas no futuro.




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