segunda-feira, 26 de maio de 2014

“Se foto bonita divulga, por que os parques dificultam?”

Bandeira levantada por um amigo fotógrafo, Eduardo Abraços Bluhm. Não deixe de clicar no link, as fotos do Dudu são maravilhosas

Sabia que em vários Parques Nacionais você precisa de autorização por escrito para fotografar? Os parques não divulgam em seus sites as fotos feitas pelos visitantes, você não pode publicar um livro que tenha fotos dos parques públicos sem aprovação e pagamento de taxas, você não pode produzir uma camiseta com o nome do parque, você não pode publicar no seu blog uma foto feita dentro do parque sem assinar dois formulários. Essa postura inibe a divulgação dos parques, e impede o aumento da percepção da riqueza e importância dessas áreas. Pior, nos últimos 30 anos, o país perdeu uma área equivalente à Costa Rica em Unidades de Conservação justamente porque não havia interesse em arcar com os custos de manutenção das mesmas.

Hoje o número de visitantes em áreas protegidas no Brasil gira em torno de 6 milhões ao ano – muito pouco, se pensarmos nos cerca de 280 milhões ao ano dos parques dos EUA. É mais fácil para a gente no Brasil lembrar do parque americano do Zé Colmeia (Yellowstone) e de seus gêiseres do que das pinturas rupestres sensacionais da Serra da Capivara, no parque nacional aqui do Piauí.


E nunca é demais: o Brasil é considerado o país com a maior biodiversidade do planeta.




Em vez de formulários e controles, vamos incentivar a divulgação da natureza

Os órgãos responsáveis pelas áreas naturais no Brasil (ICMBio, Fundação Florestal, secretarias municipais) têm seguido uma postura antiquada, de controle ao invés de parceria. Em vários parques você precisa de autorização por escrito para fotografar, os parques não divulgam em seus sites as fotos feitas pelos visitantes, você não pode publicar um livro que tenha fotos dos parques públicos sem aprovação e pagamento de taxas, você não pode produzir uma camiseta com o nome do parque, você não pode publicar no seu blog (!) uma foto feita dentro do parque sem assinar dois formulários.
Essa postura inibe a divulgação dos parques, e impede o aumento da percepção da riqueza e importância dessas áreas.
Sabemos que não é fácil sair do controle e passar para a liberdade e incentivo à criatividade, mas os sucessivos golpes que as áreas naturais sofrem porque nosso governo tem compromisso com mineradoras, empreiteiras, grandes produtores, mas não com o futuro do país, exigem uma mudança de peso. 

Senhores gestores e responsáveis pelas instruções normativas que atualmente amarram com correntes de ferro a divulgação das áreas naturais: sabemos que vocês querem tanto quanto nós a valorização da natureza brasileira. Estamos do mesmo lado e somos aliados na divulgação. As unidades de conservação precisam em caráter de urgência de aumento de visibilidade, de promoção, de mais visitações, de patrocinadores. E os fotógrafos amadores e profissionais podem e querem ajudar.

Desamarrem a fotografia, a produção de livros e de produtos. Sejam racionais. Reescrevam a lei de forma que a maioria das atividades seja permitida (em vez de proibida), deixem a cobrança de taxas reservada a eventuais projetos com grandes patrocinadores, nas situações em que há muito dinheiro envolvido faz sentido combinar uma taxa que leve em consideração os ganhos de ambas as partes. Em todas as outras se há lucro é muito pequeno, ao exigir controle e taxa vocês impedem as iniciativas. 


É errado buscar controle total. O povo brasileiro é criativo, divertido, talentoso, e há muitas pessoas que conheceram a natureza, se apaixonaram por ela e querem divulgar e defender. Mas precisamos que vocês nos libertem.


Não basta que a fotografia seja tolerada. Queremos uma mudança da postura da gestão, queremos ajudar a divulgar. Reconheçam a existência da internet, das redes sociais, do Blurb usem isso a favor dos parques. 
Incentivem a fotografia. Divulguem as fotos bonitas dos visitantes nos seus sites. Permitam que as pessoas façam livros divulgando o nome do parque. Hoje existe Blurb, e agora Blurb + Amazon. Imaginem quantos pequenos projetos de divulgação da natureza, pagos do próprio bolso do fotógrafo amador, podem surgir graças a essa tecnologia – se vocês desburocratizarem. Deixem que as pessoas criem pequenos produtos com o nome do parque – toda divulgação é válida, e se o projeto resultar em algo bonito, façam uma parceria com o criativo para vender na lojinha ou no site do parque. Mas sem burocracia, e sim de uma forma que incentive. E entendam: não existe nenhum fotógrafo no Brasil que ficou rico vendendo fotos de natureza. O ganho é pequeno e cada vez menor, devido à concorrência por parte dos amadores – que cobram bem mais barato ou até dão a foto, e bancos de imagem, cada vez mais baratos ou até gratuitos. A cobrança da taxa pelo uso comercial da imagem só impede que a natureza seja divulgada de forma profissional e ampla.


Na maior parte da Europa e dos Estados Unidos as taxas são pra as grandes produções de filmes ou comerciais de TV. Não se cobra taxa de um fotógrafo que queira fazer um livro ou vender uma foto se ele não está usando o parque de forma diferente de um visitante comum praticando seu hobby de fotografia.
Onde se cobram taxas? Na África do Sul há taxas para filmagem e fotografia. Qual a diferença com o Brasil? Eles recebem muitos pedidos de uso dos parques para filmagens e produção dos livros. O governo apoia o ecoturismo, as unidades de conservação lá são bem mais conhecidas e visitadas por pessoas do mundo todo. A biodiversidade é muito menor, não existem lugares desconhecidos. Provavelmente o ganho com as taxas, inclusive de livros, é significativo, mas há revezes. Os profissionais não fotografam mais nos parques públicos, e assim cresceu a fama de que nos parques públicos da África do Sul não há situações interessantes, e sim nas reservas particulares x e y, ou em países como a Tanzânia e Quênia – amplamente divulgados com fotos espetaculares. A gestão também enfrenta problemas de divulgação de alguns parques, a ponto de, por exemplo, promover um concurso de fotos feitas nos parques áridos, que depois resultou em um livro, para aumentar a visitação nesses lugares. Um parque como o Kruger ainda mantém muita visitação, mas perdeu bastante status ao optar por taxar os profissionais e assim impedir a circulação das imagens que encantam as pessoas.
Em New Orleans, neste ano, a prefeitura decidiu taxar fotografias em parques públicos municipais, pensando principalmente em fotógrafos de casamento. A medida foi recebida com muitas críticas, mas comparando com o Brasil, nem é preciso explicar as diferenças entre um parque municipal com noivas e as unidades de conservação no Brasil, ou a diferença entre foto de book e foto que divulga a natureza do local.
Hoje há uma disputa acirrada pelo tempo e dinheiro das pessoas, e a concorrência é a nível global. Ser escolhido como destino é cada vez mais um privilégio. Ser autoritário e burocrático é a escolha errada, só isola as unidades de conservação. Façam a escolha certa: reconheçam que esse modelo de controle é antiquado, e criem mecanismos para atrair talentosos e criativos, criar entusiasmo – em vez de repelir e frustrar quem poderia ajudar.
O momento é de mudança. A situação das unidades é crítica, e as redes sociais ajudam a propagar as novidades. Vocês podem mudar de postura e criar um novo tipo de relacionamento com o público e com quem pode ajudar na divulgação. Basta querer.


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