quarta-feira, 28 de maio de 2014

Para assistir de graça no youtube: "O veneno está na mesa 1 e 2" e "Nuvens de Veneno"





Após impactar o Brasil mostrando as perversas consequências do uso de agrotóxicos em "O Veneno está na Mesa", o diretor Sílvio Tendler apresenta no segundo filme uma nova perspectiva. "O Veneno Está Na Mesa 2" atualiza e avança na abordagem do modelo agrícola nacional atual e de suas consequências para a saúde pública. O filme apresenta experiências agroecológicas empreendidas em todo o Brasil, mostrando a existência de alternativas viáveis de produção de alimentos saudáveis, que respeitam a natureza, os trabalhadores rurais e os consumidores.













Para quem não assistiu ao primeiro filme:

Documentário da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, realizado pelo cineasta brasileiro Silvio Tendler.

A primeira frase do documetário: "Desde 2008, o Brasil já é o maior consumidor mundial de agrotóxicos".
E a coisa continua animada: Cada brasileiro consome, em média, 5,2 litros de agrotóxicos por ano. Desde 2008, nenhum outro povo, no mundo, consome tanto veneno.





Por Leandro Uchoas, no jornal Brasil de Fato:

O cenário era perfeito. Como palco, o Teatro Casa Grande, no Leblon, onde se deram alguns dos momentos mais importantes da resistência à ditadura. O filme, “O Veneno Está na Mesa”, uma bela síntese do trágico efeito à agricultura brasileira do uso de agrotóxicos. Como diretor, ninguém menos do que Sílvio Tendler, autor de clássicos como “Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá”. Para completar, o auditório de 500 lugares completamente tomado por um público ávido por fazer soar, em todo o país, as denúncias acachapantes do longa.

O lançamento do aguardado filme na segunda-feira (25) teve a pompa que merecia. As imagens começam com a denúncia mais terrível. Cada brasileiro consome, em média, 5,2 litros de agrotóxicos por ano. Desde 2008, nenhum outro povo, no mundo, consome tanto veneno. Logo nos primeiros 10 minutos, de um total de 50, sucedem-se denúncias assombrosas. Duas das empresas que produzem os agrotóxicos, Monsanto e Dow, produziram o agente laranja que os Estados Unidos lançaram sobre o Vietnã, exterminando milhões de vidas. Outras duas, Basf e Bayer, foram parceiras dos nazistas na produção dos químicos para exterminar povos considerados inferiores, como os judeus. Na voz de André Trigueiro, da Rede Globo, denúncias num tom de indignação incomum ao usualmente cordial jornalista: o metamidofós, princípio ativo proibido nos Estados Unidos, na Europa, na China e em boa parte da África é utilizado livremente no Brasil, que ainda decide se vai proibi-lo. Parte da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o filme foi produzido com dificuldade, com a ajuda de movimentos sociais, ongs e instituições de saúde. Para alguns intelectuais, pesquisadores e lideranças, funcionou como uma denúncia desesperada, a ser propagada aos quatro ventos. A distribuição do material será feita a baixo custo. Segundo o diretor, a ideia inicial surgiu durante conversa pessoal com o escritor uruguaio Eduardo Galeano, e ganhou força em um encontro posterior com João Pedro Stedile, do MST. Bastou, em seguida, o contato com a Campanha.O filme também traz um depoimento da senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação Nacional de Agricultura (CNA). A parlamentar é a figura mais importante do agronegócio no Congresso Nacional.

Todos os movimentos políticos da CNA, seja de estímulo ao avanço degradante e criminoso do agronegócio, ou de criminalização dos movimentos sociais, passam por ela. Apesar de desnecessariamente longa, a exibição da fala serviu de síntese dos argumentos utilizados pela direita. Ela defende que o Brasil não se sustentaria sem o uso de agrotóxicos.

Não explica, portanto, como os outros países do mundo consomem menos agrotóxico, mesmo sem contar com nossos incomparáveis recursos naturais. Nem dá pistas de como a humanidade se sustentou nos dez mil anos em que plantou e colheu sem uso de veneno. O filme termina apontando saídas. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, estaria tomando medidas muito mais ousadas no sentido de impedir o avanço do agronegócio em seu país. E o jovem agricultor Adonai dá exemplo de luta contra as dificuldades para plantar e vender alimentos orgânicos (sem uso de agrotóxicos).

Ele recusa os créditos bancários que lhe possibilitariam maior conforto, porque os bancos praticamente exigem uso de agrotóxicos. O filme mostra como, ao longo de três anos, Adonai recuperou um tipo de milho tradicional, através de experiências com as sementes, que lhe permitiram seguir apostando no orgânico. A mensagem do agricultor Fernando Ataliba, de Indaiatuba (SP), sintetiza, em parte, o que representa a aposta do Brasil no agronegócio, que tem persistido mesmo com diferentes grupos políticos à frente do governo federal. “O que a Revolução Verde fez foi destruir e apagar todo o acúmulo de conhecimento da agricultura tradicional ao longo de seus dez mil anos, criando um negócio totalmente novo. E essa ‘novidade’, depois de tantos anos, está demonstrando que ela não dá certo. Ela está produzindo perda da produtividade do solo, perda dos mananciais, perda da biodiversidade, contaminação do solo, das águas, das pessoas, do ar, e mudanças climáticas. O que mais nós vamos esperar acontecer para a gente perceber que esse modelo ‘novo’ não é bom?”, pergunta.

O debate que sucedeu a exibição do filme funcionou como complemento as informações divulgadas. Os debatedores estavam tomados por uma emoção pouco comum. A razão é simples. As denúncias que o trabalho de Tendler trazem, apesar da notória gravidade, não encontram o espaço que merecem no debate social. Os motivos, o próprio filme mostra.

As megacorporações por trás do agronegócio, com seu lucro astronômico – US$ 7 bilhões apenas em 2010 –, compram institutos de pesquisa, “seduzem” parlamentares através de financiamento de campanha, e calam setores da mídia. O resultado é que boa parte da população brasileira simplesmente desconhece que, todos os dias, tem venenos terríveis dentro de seu prato. A emoção de debatedores e parte do público era a de ver esses absurdos divulgados. Logo no início das falas, Tendler chorou.“Esse mercado é concentrado, mundialmente, nas mãos de apenas 13 empresas. E seis delas controlam mais de 60% dele. A soma do patrimônio das três maiores supera o PIB da maioria dos países do mundo – apenas 70 deles não têm PIB menor” acusa Letícia Rodrigues da Silva, coordenadora do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos da Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

A pesquisadora também denunciou a estratégia de judicialização utilizada pelas principais multinacionais da agroindústria. Utilizando recursos na Justiça, as empresas vão protelando as decisões, e permanecem com seu mecanismo nefasto de monopólio do setor. O pesquisador Alexandre Pessoa, da Fiocruz, fez um paralelo das ideias apresentadas pelo filme com a realização, no Rio de Janeiro, em 2012, da Rio+20. Ele considera que, na conferência, as megacorporações vão apresentar falsas soluções à crise ambiental, preservando o mesmo modelo de exploração massiva de recursos. Para Nívia Regina, do MST, “o filme é a maturidade de um longo processo de luta, porque critica a hegemonia do paradigma produtivista. Temos que construir uma outra hegemonia, com base na agroecologia”. Nívia terminou sua intervenção conclamando a todos para que divulguem, amplamente, o filme de Tendler.



Mais uma opção maravilhosa: Nuvens de Veneno







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segunda-feira, 26 de maio de 2014

“Se foto bonita divulga, por que os parques dificultam?”

Bandeira levantada por um amigo fotógrafo, Eduardo Abraços Bluhm. Não deixe de clicar no link, as fotos do Dudu são maravilhosas

Sabia que em vários Parques Nacionais você precisa de autorização por escrito para fotografar? Os parques não divulgam em seus sites as fotos feitas pelos visitantes, você não pode publicar um livro que tenha fotos dos parques públicos sem aprovação e pagamento de taxas, você não pode produzir uma camiseta com o nome do parque, você não pode publicar no seu blog uma foto feita dentro do parque sem assinar dois formulários. Essa postura inibe a divulgação dos parques, e impede o aumento da percepção da riqueza e importância dessas áreas. Pior, nos últimos 30 anos, o país perdeu uma área equivalente à Costa Rica em Unidades de Conservação justamente porque não havia interesse em arcar com os custos de manutenção das mesmas.

Hoje o número de visitantes em áreas protegidas no Brasil gira em torno de 6 milhões ao ano – muito pouco, se pensarmos nos cerca de 280 milhões ao ano dos parques dos EUA. É mais fácil para a gente no Brasil lembrar do parque americano do Zé Colmeia (Yellowstone) e de seus gêiseres do que das pinturas rupestres sensacionais da Serra da Capivara, no parque nacional aqui do Piauí.


E nunca é demais: o Brasil é considerado o país com a maior biodiversidade do planeta.




Em vez de formulários e controles, vamos incentivar a divulgação da natureza

Os órgãos responsáveis pelas áreas naturais no Brasil (ICMBio, Fundação Florestal, secretarias municipais) têm seguido uma postura antiquada, de controle ao invés de parceria. Em vários parques você precisa de autorização por escrito para fotografar, os parques não divulgam em seus sites as fotos feitas pelos visitantes, você não pode publicar um livro que tenha fotos dos parques públicos sem aprovação e pagamento de taxas, você não pode produzir uma camiseta com o nome do parque, você não pode publicar no seu blog (!) uma foto feita dentro do parque sem assinar dois formulários.
Essa postura inibe a divulgação dos parques, e impede o aumento da percepção da riqueza e importância dessas áreas.
Sabemos que não é fácil sair do controle e passar para a liberdade e incentivo à criatividade, mas os sucessivos golpes que as áreas naturais sofrem porque nosso governo tem compromisso com mineradoras, empreiteiras, grandes produtores, mas não com o futuro do país, exigem uma mudança de peso. 

Senhores gestores e responsáveis pelas instruções normativas que atualmente amarram com correntes de ferro a divulgação das áreas naturais: sabemos que vocês querem tanto quanto nós a valorização da natureza brasileira. Estamos do mesmo lado e somos aliados na divulgação. As unidades de conservação precisam em caráter de urgência de aumento de visibilidade, de promoção, de mais visitações, de patrocinadores. E os fotógrafos amadores e profissionais podem e querem ajudar.

Desamarrem a fotografia, a produção de livros e de produtos. Sejam racionais. Reescrevam a lei de forma que a maioria das atividades seja permitida (em vez de proibida), deixem a cobrança de taxas reservada a eventuais projetos com grandes patrocinadores, nas situações em que há muito dinheiro envolvido faz sentido combinar uma taxa que leve em consideração os ganhos de ambas as partes. Em todas as outras se há lucro é muito pequeno, ao exigir controle e taxa vocês impedem as iniciativas. 


É errado buscar controle total. O povo brasileiro é criativo, divertido, talentoso, e há muitas pessoas que conheceram a natureza, se apaixonaram por ela e querem divulgar e defender. Mas precisamos que vocês nos libertem.


Não basta que a fotografia seja tolerada. Queremos uma mudança da postura da gestão, queremos ajudar a divulgar. Reconheçam a existência da internet, das redes sociais, do Blurb usem isso a favor dos parques. 
Incentivem a fotografia. Divulguem as fotos bonitas dos visitantes nos seus sites. Permitam que as pessoas façam livros divulgando o nome do parque. Hoje existe Blurb, e agora Blurb + Amazon. Imaginem quantos pequenos projetos de divulgação da natureza, pagos do próprio bolso do fotógrafo amador, podem surgir graças a essa tecnologia – se vocês desburocratizarem. Deixem que as pessoas criem pequenos produtos com o nome do parque – toda divulgação é válida, e se o projeto resultar em algo bonito, façam uma parceria com o criativo para vender na lojinha ou no site do parque. Mas sem burocracia, e sim de uma forma que incentive. E entendam: não existe nenhum fotógrafo no Brasil que ficou rico vendendo fotos de natureza. O ganho é pequeno e cada vez menor, devido à concorrência por parte dos amadores – que cobram bem mais barato ou até dão a foto, e bancos de imagem, cada vez mais baratos ou até gratuitos. A cobrança da taxa pelo uso comercial da imagem só impede que a natureza seja divulgada de forma profissional e ampla.


Na maior parte da Europa e dos Estados Unidos as taxas são pra as grandes produções de filmes ou comerciais de TV. Não se cobra taxa de um fotógrafo que queira fazer um livro ou vender uma foto se ele não está usando o parque de forma diferente de um visitante comum praticando seu hobby de fotografia.
Onde se cobram taxas? Na África do Sul há taxas para filmagem e fotografia. Qual a diferença com o Brasil? Eles recebem muitos pedidos de uso dos parques para filmagens e produção dos livros. O governo apoia o ecoturismo, as unidades de conservação lá são bem mais conhecidas e visitadas por pessoas do mundo todo. A biodiversidade é muito menor, não existem lugares desconhecidos. Provavelmente o ganho com as taxas, inclusive de livros, é significativo, mas há revezes. Os profissionais não fotografam mais nos parques públicos, e assim cresceu a fama de que nos parques públicos da África do Sul não há situações interessantes, e sim nas reservas particulares x e y, ou em países como a Tanzânia e Quênia – amplamente divulgados com fotos espetaculares. A gestão também enfrenta problemas de divulgação de alguns parques, a ponto de, por exemplo, promover um concurso de fotos feitas nos parques áridos, que depois resultou em um livro, para aumentar a visitação nesses lugares. Um parque como o Kruger ainda mantém muita visitação, mas perdeu bastante status ao optar por taxar os profissionais e assim impedir a circulação das imagens que encantam as pessoas.
Em New Orleans, neste ano, a prefeitura decidiu taxar fotografias em parques públicos municipais, pensando principalmente em fotógrafos de casamento. A medida foi recebida com muitas críticas, mas comparando com o Brasil, nem é preciso explicar as diferenças entre um parque municipal com noivas e as unidades de conservação no Brasil, ou a diferença entre foto de book e foto que divulga a natureza do local.
Hoje há uma disputa acirrada pelo tempo e dinheiro das pessoas, e a concorrência é a nível global. Ser escolhido como destino é cada vez mais um privilégio. Ser autoritário e burocrático é a escolha errada, só isola as unidades de conservação. Façam a escolha certa: reconheçam que esse modelo de controle é antiquado, e criem mecanismos para atrair talentosos e criativos, criar entusiasmo – em vez de repelir e frustrar quem poderia ajudar.
O momento é de mudança. A situação das unidades é crítica, e as redes sociais ajudam a propagar as novidades. Vocês podem mudar de postura e criar um novo tipo de relacionamento com o público e com quem pode ajudar na divulgação. Basta querer.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Manifesto em defesa das Unidades de Conservação

  


Eu morei e trabalhei como voluntária em uma Unidade de Conservação administrada pela Fundação Florestal do Governo de SP. Foi uma experiência incrível e antes de tudo, uma aula de Brasil e subdesenvolvimento.
Nossas Unidades de Conservação conseguem ser ainda mais abandonadas do que nossas fronteiras, os Guarda Parques não andam armados mas são obrigados a dar voz de prisão à invasores que geralmente estão e, em muitos casos, não há sequer rancho para alimentação ou veículos para deslocamento por áreas extensas. Some a tudo isso, a visão brasileira de que um Parque ou Reserva é uma atração turística, que lixo orgânico não polui e que o bar mais próximo é um fornecedor não fiscalizado de álcool e mulheres nativas.
E acredite, o quadro pode piorar. Afinal, em muitos casos, a posse da terra é de comunidades nativas que vivem da extração das riquezas naturais, mas isso nem sempre é feito de forma sustentável - o que leva à conflitos rurais e indígenas.
Na minha opinião, a maneira mais inteligente de manter nossas Unidades de Conservação preservadas, seja do turismo de massa, seja de falsos nativos, madeireiros, especulação imobiliária, ou seja lá o que for, é justamente o caminho sugerido pela SOS Mata Atlântica e endossado pelo Planeta Sustentável, tornar as mesmas fonte de renda pelo turismo sustentável e consciente, o que pode ser ainda mais interessante do que a visão atual do país no exterior: uma paraíso tropical subdesenvolvido, corrupto e permissivo ao turismo sexual.

Após a carta e reportagens, seguem os links acerca desse voluntariado na Jureia Itatins, o link sobre o SNUC (o Sistema Nacional de Unidades de Conservação) esclarece as diferenças entre as muitas Unidades de Conservação e os devidos porquês sobre algumas serem abertas e outras não, vale uma lida, até porque é possível ser proprietário de uma, em RPPN.




A carta traz alguns dados fortes: nos últimos 30 anos, o Brasil perdeu uma Costa Rica inteira (5,2 milhões de hectares) em proteção total ou parcial de territórios naturais. E essa realidade triste fica mais invisível à sociedade se nós temos pouca chance de passar as nossas férias nestes patrimônios naturais e, portanto, compreender o seu valor.
Hoje o número de visitantes em áreas protegidas no Brasil gira em torno de 6 milhões ao ano – muito pouco, se pensarmos nos cerca de 280 milhões ao ano dos parques dos EUA. É mais fácil pra gente no Brasil às vezes lembrar do parque americano do Zé Colmeia (Yellowstone) e de seus gêiseres do que das pinturas rupestres sensacionais da Serra da Capivara, no parque nacional aqui do Piauí.
Há ainda toda uma discussão sobre como anda a infraestrutura dessas áreas: das 313 Unidades de Conservação brasileiras, os signatários da carta consideram que pelo menos 70 têm potencial para ser visitadas – mas dados oficiais dão conta de que apenas 26 estão abertas, e só 18 têm alguma estrutura para visitantes (ainda assim estes dados estão sendo questionados; o quadro pode ser pior).

Diversas ONGs ambientais e instituições ligadas ao turismo sustentável – como a SOS Mata Atlântica, WWF-Brasil, Semeia e Abeta – elaboraram um Manifesto em defesa das unidades de conservação brasileiras. O documento foi lido na 8a edição da Conferência de Ecoturismo e Turismo Sustentável, em Bonito, na semana passada.
A carta está aberta para assinaturas e contribuições de organizações interessadas. As instituições que desejarem assinar o documento ou tiverem sugestões devem entrar em contato no email: sosparques@sosma.org.br .



Manifesto pela valorização das Unidades de Conservação do Brasil e pelo turismo sustentável

As organizações da sociedade civil alertam para a desvalorização dos parques brasileiros, que podem ser muito melhor explorados do ponto de vista turístico, promovendo a conservação aliada à geração de emprego e renda.

Estudo recente na publicação científica Conservation Biology indica que, nas últimas três décadas, 93 parques nacionais e outras Unidades de Conservação no Brasil tiveram suas fronteiras reduzidas ou seus status alterados. Retirou-se ou se reduziu a proteção de um total de 5,2 milhões de hectares de florestas nativas, que antes eram preservados em parques, reservas e estações ecológicas. Isso equivale ao território do Rio Grande do Norte e é superior ao da Costa Rica.

Unidades de Conservação na Amazônia foram as que mais sofreram, principalmente entre 2008 e 2012. Os principais motivos foram o avanço desregrado da geração e transmissão de energia hidrelétrica, do agronegócio e da urbanização.

Além das perdas já concretizadas, o Brasil convive com novas e constantes ameaças – um caso emblemático é o do Parque Nacional do Iguaçu, onde fica uma das sete maravilhas naturais do mundo: as Cataratas. Existe um projeto para construir uma estrada que cortará o parque, causando prejuízos aos animais e impactando a paisagem.

O Brasil ficou em 1º lugar no ranking do Fórum Econômico Mundial no quesito Belezas Cênicas, entretanto, vem perdendo posições no ranking mundial de competitividade de turismo.
Atualmente, dos quase 70 parques nacionais existentes no país, apenas 26 estão abertos à visitação e só 18 possuem infraestrutura satisfatória. Em 2012, esses parques tiveram 5,3 milhões de visitantes e arrecadaram menos de R$ 27 milhões com a venda de ingressos, sendo que pouco mais de 3 milhões de visitantes ocorrem somente nos Parques Nacionais da Tijuca e Iguaçu.

Os parques nacionais dos Estados Unidos, em 2008, receberam 275 milhões de visitas e geraram US$ 11,5 bilhões nas suas áreas de influência. Os cinco maiores parques da África do Sul recebem ao ano 4,3 milhões de turistas. Lá, 75% do sistema de parques nacionais é mantido pelos recursos advindos da visitação (incluindo concessões). Na Austrália, em 2007, turistas que visitaram parques nacionais foram responsáveis pela injeção de R$ 30 bilhões na economia do país. E, na Nova Zelândia, o turismo representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e 15% dos empregos da costa oeste. O turismo promovido no Parque Nacional de Fiordland, ao sul daquele país, promove a geração de mais de 50% dos empregos do território, assim como o Parque Nacional de Banff, no Canadá.

O estudo Contribuição das Unidades de Conservação Brasileiras para a Economia Nacional aponta que a visitação nos parques existentes no país tem potencial para gerar até R$ 1,8 bilhão por ano, considerando as estimativas de fluxo de turistas projetadas – cerca de 13,7 milhões de pessoas, entre brasileiros e estrangeiros – até 2016, ano das Olimpíadas. O material foi desenvolvido pelo Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente e pelo Ministério do Meio Ambiente em 2011.

O Brasil precisa aproveitar essa oportunidade e reconhecer as Unidades de Conservação como o maior ativo deste país, conciliando desenvolvimento com a conservação dos recursos naturais. Ao valorizar e investir em seus patrimônios naturais, também se fortalecerá como destino turístico. Infelizmente, hoje nem os brasileiros nem os turistas estrangeiros podem usufruir adequadamente dessas riquezas. E, se o governo não agir para alterar a realidade atual, sobrarão poucas áreas protegidas para serem apreciadas no futuro.




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