quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A saga da construção do maior mineroduto do mundo que desperdiça 2,5 milhões de litros de água por hora



Um rastro de destruição em Minas Gerais, para levar adiante o projeto megalomaníaco do maior mineroduto do mundo, com 525 km de extensão, que desperdiça 2,5 milhões de litros de água por hora, apenas para transportar minérios de Minas até o porto no Rio de Janeiro, para provavelmente exportar nosso minério para a China.




Uma mina, um mineroduto, um porto e muitos problemas. Por 525 Km, o projeto Minas-Rio, da Anglo American, vai unir, por meio de um mineroduto, a extração de minério de ferro, em Minas Gerais, ao porto, no Rio de Janeiro. O mineroduto é o maior do mundo e o complexo só espera a concessão das licenças de operação para começar a funcionar, o que deve acontecer até o fim do ano. Enquanto os tubos do projeto vão sendo enterrados, um rastro de insatisfação vai se abrindo entre os atingidos, que se sentem abandonados pela empresa.





Prêmio Reportagem sobre Mata Atlântica 2015

Obras deixam rastro de destruição de 525 Km

Se Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas Gerais, tivesse saído da imaginação do colombiano Gabriel García Márquez, talvez a cidade se chamasse Macondo e sua riqueza fosse banana em vez de minério. Tal como o povoado fictício descrito pelo autor na obra “Cem Anos de Solidão”, a cidade mineira também viu sua vida alterada repentinamente pela chegada de uma empresa estrangeira. No livro, é a Companhia Bananeira quem faz “uma invasão tão tumultuada e intempestiva que nos primeiros tempos era impossível andar na rua”.

Em Conceição, é a instalação do projeto Minas-Rio, pela Anglo American, que está virando a vida dos moradores de cabeça para baixo. A cidade é apenas a ponta do projeto e dos problemas causados por ele. O empreendimento começa coma mina e a barragem de rejeitos em Conceição do Mato Dentro e termina no porto do Açu, em São João da Barra, no Norte do Rio de Janeiro. Um mineroduto com 525 km, que será o maior do mundo, vai unir as duas pontas. O projeto corta 32 municípios, sendo 25 em Minas Gerais e sete no Rio de Janeiro. Outras quatro cidades são afetadas indiretamente, totalizando 36.

Assim como a Companhia Bananeira criada pelo escritor que venceu o Nobel de Literatura, a atuação da Anglo American vai deixando um rastro de histórias quase invisíveis, escondidas em pequenos povoados e comunidades rurais onde os moradores relatam uma coleção de problemas que vão desde a invasão de terrenos até o soterramento de nascentes e falta de água, passando pela destruição de sítios arqueológicos e prejuízos a aldeias indígenas.

O Minas-Rio está em fase de Licença de Operação, a última antes de iniciar seu funcionamento. A expectativa é que a autorização para funcionar saia ainda neste ano. A obra, que a empresa considera praticamente acabada, deixou cicatrizes profundas em gente simples que habita seu caminho.

Durante duas semanas, O TEMPO rodou 3.400 km de uma ponta a outra do empreendimento para descobrir essas histórias, que serão apresentadas na série de reportagens “Um Mineroduto que Passou em Minha Vida”, que começa hoje.


Desolamento no lugar da casa

Em agosto do ano passado, o lavrador João Batista da Silva, 32, saiu de sua casa, no povoado de Cabeceira do Turco, em Conceição do Mato Dentro, a contragosto para dar passagem ao mineroduto do projeto Minas-Rio. A promessa era que ele e a mulher, Rosely Maria da Silva, 20, morariam provisoriamente em outro local, com o aluguel pago pela Anglo American, por seis meses. A desocupação do imóvel foi pedida depois que o pai de Batista assinou um documento permitindo o uso do terreno pela mineradora.

O que era para ser temporário virou um problema permanente: poucas semanas depois da mudança, a casa foi ao chão. “Saí debaixo de chuva. Demoliram a minha casa e, agora, eu não sei o que vou fazer. Vou morar onde, debaixo das nuvens?”, questiona ele.

O caso de Batista é extremo, mas não é isolado. As repetidas denúncias de desrespeito à propriedade, invasão e destruição do patrimônio individual levaram o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público Estadual de Minas Gerais (MPMG) e a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais a expedir, em 2012, uma recomendação conjunta à Anglo com advertências como “não entrar ou permanecer em áreas sem a autorização do proprietário, não causar danos a cercas, porteiras e mata-burros e não ameaçar ou constranger moradores e comunidades”.

O promotor de Justiça de Conceição do Mato Dentro, Marcelo Mata Machado, um dos cinco que assinam o documento, explica que a recomendação foi motivada pelo grande número de reclamações que chegou aos órgãos públicos. “A cidade se modificou completamente, isso é muito claro. Tem reclamações de todo tipo”, diz Machado.

Na época, a Anglo respondeu que recebeu “com estranheza” as recomendações dos ministérios públicos e da Defensoria Pública e listou uma série de programas que desenvolve para garantir bom relacionamento com as comunidades e reduzir os impactos da obra. A empresa afirmou também que respeita os direitos humanos e as normas ambientais.

A resposta não convenceu o MP de Conceição do Mato Dentro, que encomendou um estudo a uma consultoria para dimensionar os impactos do empreendimento no município. “Queremos saber se os programas que a empresa se propôs a implantar estão trazendo alguma qualidade de vida a essas pessoas”, diz o promotor da cidade. O levantamento deve ser concluído em abril.

Prejuízo vai muito além dos R$ 100 mil pagos

Enquanto procura um novo local para morar, João Batista da Silva busca, na Justiça, uma indenização. O terreno de 1,8 hectare onde ele morava, criava galinhas e plantava uma horta, pertencia ao pai, Joaquim Sanches da Silva, 59, que é alcoólatra e tem uma grave psicose atestada por um psiquiatra, cujo laudo faz parte do processo que a família move contra a Anglo. “Foi uma negociação errada. Praticamente pegaram na mão do meu pai para ele assinar o documento. E não explicaram que iam derrubar a minha casa”, diz.

Na negociação, o pai dele recebeu cerca de R$ 100 mil. A promessa de pagar o aluguel a Batista por seis meses não está documentada. A Anglo American afirma que já negociou e quitou a indenização judicial a que a família tem direito. “A empresa entende que não existem pendências com o sr. João Batista ou com os seus pais em relação ao assunto”, diz, em nota.

Plantações de milho e feijão foram “pelo cano”

Em maio do ano passado, o agricultor Odilon Luiz de Assis, 48, encontrou sua propriedade, no povoado de Cabeceira do Turco, partida ao meio de uma hora para outra. “Para passar o ‘cano’, entraram sem ordem de ninguém e derrubaram meus pés de feijão e de milho”, diz ele, referindo-se ao mineroduto que foi instalado na propriedade.

Assis disse que esperava que a empresa fizesse “uma negociação bonita”, mas não recebeu sequer um contato por parte da mineradora. No mesmo povoado, Débora Sanches da Silva, 30, conta os prejuízos com a perda de sua horta. Quando a obra do mineroduto começou, ela pediu para que a empresa cercasse o local, impedindo que animais de uma propriedade chegassem até as terras de outra pessoa.

“Não colocaram a cerca e os bois invadiram a minha casa. Eu plantei milho, cebola, couve, banana e acabaram com tudo. Comeram até as minhas flores”, reclama.

Liminares duvidosas garantem explosões e desapropriações

No meio do caminho tinha uma pedra. Uma não, várias. E, para construir parte do mineroduto Minas-Rio, em Alvorada, distrito de Carangola, na Zona da Mata mineira, a Anglo American precisava destruí-las. Uma das detonações estava marcada para 11 de fevereiro deste ano, às 17h, na fazenda Santa Cruz. Mas as donas da terra tentaram impedir a explosão porque viram água saindo da rocha e pediram à empresa e aos órgãos ambientais que verificassem se ali havia uma mina.

No dia marcado, a professora Vânia Musse, a irmã Margareth com o marido e a filha adolescente tentaram, em vão, impedir a entrada das máquinas. Os representantes da Camargo Corrêa, que executa a obra, da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) e da Anglo American chamaram a polícia e cercaram o pequeno grupo de manifestantes com carros.

O advogado da Anglo, Felipe Mendes de Morais Vasconcelos, afirmou que tinha uma liminar que garantia o direito de fazer as intervenções na área. A reportagem estava lá e pediu para ver o documento. Ele mostrou, mas a liminar estava em nome de Dirceu Pereira Nolasco, um vizinho das irmãs Musse. Vasconcelos justificou que imprimiu o documento trocado por engano, mas garantiu que a fundamentação jurídica era a mesma tanto no caso das irmãs, quanto no caso do vizinho. Em nota, a Anglo American reforçou a explicação.

O gerente geral de desenvolvimento social da Unidade de Negócio de Minério de Ferro Brasil da Anglo American, Maurício Martins, diz que a empresa mantém diálogo permanente com os atingidos. Ele diz que eventuais problemas devem ser relatados à mineradora, que avalia cada caso. Em relação à situação da família Musse, ele diz que alguma providência, provavelmente, foi tomada. “A gente deve ter atuado nisso
em algum momento. Quem errou, se fomos nós, a proprietária, a Codemig ou o advogado, alguma providência sempre tem que ser tomada”, diz.

Ele destaca a importância de as partes do processo estarem alinhadas e explica que a Anglo acompanha todas as ações de empresas parceiras. “Não se vai a um proprietário, a um prefeito ou vereador sem antes sentar com a gente e pedir orientação”, esclarece.

Segundo o advogado que representa a família Musse, Élcio Pacheco, a apresentação de liminar equivocada é comum. “Fizeram o mesmo com outro cliente meu em Conceição do Mato Dentro. A Anglo comprou uma terra e levou a liminar com o nome deste proprietário para retirar também quem morava ao lado”, diz.

CONFLITOS ANTIGOS. As turbulências nas relações entre as comunidades atingidas pelo projeto Minas-Rio e os funcionários da Anglo não são novidade para quem acompanha a obra desde o início. Professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desde 2010, Ana Flávia Moreira Santos integrava a equipe do Ministério Público Federal (MPF) que fez os primeiros relatórios sobre os impactos do empreendimento em Conceição do Mato Dentro, em 2009. “Naquela época, já se percebiam esses conflitos. Já havia muitos problemas com a água e os conflitos territoriais eram prementes”, lembra.

Hoje, ela integra o Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta), que estuda os efeitos do projeto em Conceição do Mato Dentro. Para ela, a cidade é um espelho do que acontece nas outras. “A truculência não é um fato isolado. É o modus operandi da empresa que se repetem em todo o trajeto (do mineroduto)”, diz. Ela completa que truculência não significa violência física. “Há relatos de intimidação, pressão e isolamento das pessoas”, diz.

Aviso fora do prazo

As irmãs Musse reclamam que não foram avisadas a tempo da detonação. “A Anglo teria que nos avisar com no mínimo 24 horas de antecedência. Eles distribuíram um aviso para a vizinhança, avisando que a detonação seria às 16h do dia 11 de fevereiro.
Mas, para nós, avisaram fora do prazo legal”, conta Vânia.

No dia 10 de fevereiro, exatamente na hora do aviso, a reportagem estava na casa das irmãs. Por volta das 17h – uma hora depois do prazo –, o analista de relações com comunidades da Anglo, Evandro Zanoli, chegou à sede da fazenda Santa Cruz para conversar com a família. Foi embora e três horas depois, às 20h18, retornou com um comunicado oficial. No entanto, o horário da detonação, que seria às 16h conforme informado aos vizinhos, estava alterado para 17h.

Briga com funcionários da Anglo para na delegacia

“A senhora não tem que querer, tem que assinar”. Assim foi o primeiro contato da professora Maria das Graças Drumond de Andrade, conhecida como Dadá, com os funcionários da Anglo que chegaram, em agosto de 2011, com uma liminar a tiracolo, para começar a obra do mineroduto em sua propriedade, em São Domingos do Prata. Eram cinco caminhonetes com treze funcionários. “A liminar não estava no meu nome, nem do meu marido”, lembra Dadá, que é uma das líderes do movimento dos atingidos pela obra.

A briga entre ela e os funcionários da empresa foi parar na delegacia e, depois, na Justiça e se arrastou até maio do ano passado, quando ela conseguiu uma liminar para parar a obra até que a mineradora apresentasse a documentação em nome do casal que é proprietário da terra. A empresa regularizou a papelada, mas não resolveu a dor de cabeça dos proprietários. O sítio deles tem 12 hectares, sendo dois ocupados pelo mineroduto.

Em consequência das obras, o terreno começou a sofrer erosão, e, em época de chuva, a lama chega a impedir o acesso de carros à propriedade. “Já tivemos que subir muitas vezes a pé, debaixo de chuva”, conta o veterinário Augusto Bellini Andrade Filho, marido de Dadá. Ela afirma que já entrou em contato com os órgãos ambientais, mas o máximo que conseguiu foi uma obra para conter o deslizamento de terra em tempos de chuva.

“Não adianta brigar com empresa grande”

Desde que as obras do projeto Minas-Rio iniciaram nas imediações da comunidade de Água Quente, na zona rural de Conceição do Mato Dentro, região Central, a água sumiu. As 46 famílias que vivem no local habitam casinhas muito simples e, quando as nascentes começaram a secar, aprenderam que a vida podia ser ainda mais dura do que era antes. Acostumados a acordar com o sol e se dedicar ao trabalho na roça, após as obras do complexo que está sendo construído pela Anglo American entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, os moradores tiveram que incluir na rotina uma caminhada de 3 km até o córrego Teodoro para tomar banho e buscar água para as atividades cotidianas.

O problema durou 12 dias seguidos e foi apenas amenizado com a instalação, pela Anglo, de uma caixa d’água para abastecer o povoado. “Ainda falta água, mas é só uns dois dias. Aí a gente liga pro pessoal da firma, e eles enchem de novo”, diz, resignado, José Lúcio Reis dos Santos. Morador do lugarejo desde que nasceu, há 45 anos, ele não tem esperança de que as coisas melhorem. “Não adianta brigar com empresa grande. Já ouvi muita promessa”, diz.

Problemas com água são comuns em todo o trajeto da obra e são graves, já que, segundo estudo da consultoria Diversus, encomendado pelo Ministério Público de Conceição do Mato Dentro e realizado em 2011, entre as comunidades afetadas pelo empreendimento em Conceição, Dom Joaquim e Alvorada de Minas, só 6,5% das casas usam rede pública de água. A maioria (93,5%) se abastece em nascentes, rios, brejos, poços e similares.

Também morador do local, Renato dos Santos Reis, 34, teme que a situação piore. “Será que eles vão continuar colocando água quando a obra acabar?”, pergunta. A resposta é não. O gerente geral de desenvolvimento social da Unidade de Minério de Ferro da Anglo American, Maurício Martins, explica que a empresa vai implantar um sistema de captação “profissional”, com base em especificações técnicas da Copasa, e que será gerido pela prefeitura. “Esses problemas vão acabar, e a qualidade da água deles vai melhorar”, garante.

A água encanada, no entanto, não vai resolver o problema de João Generoso Filho, 65, que conta os prejuízos da extinção do córrego Passa Sete no povoado. O leito em que antes corria o rio agora parece uma estrada de terra, onde o mato cresce à vontade e, em alguns trechos, alcança 1 m de altura. Sem água, o moinho e o engenho deixaram de funcionar e os bebedouros dos animais secaram. Ele diz que, desde o início da obra, as águas não eram mais as mesmas, até que secaram de vez.

“A água vinha vermelha. A gente cozinhava e lavava roupa com água suja. Não dava nem para os animais beberem. “O que Generoso conta de memória, pesquisadores Da UFMG atestaram em um relatório feito em 2010. Segundo o Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta), já naquela época a água do córrego Passa Sete era “muito suja, com aspecto muito barrento”.


Nem reserva indígena foi poupada

Em novembro do ano passado, os índios das aldeias Pataxó da reserva Terra Indígena Guarani, localizadas em Carmésia, no Vale do Rio Doce, fecharam a rodovia MG–232, que corta as três aldeias, em protesto contra a redução no volume do rio do Peixe, que passa pelo local. Não foi a primeira vez que eles impediram a circulação de veículos na estrada, numa tentativa de negociar com a mineradora, responsável pela obra. Os índios reclamam também da circulação de veículos dentro da reserva.

“Até hoje não explicaram nada porque a gente não faz parte do projeto deles”, reclama o cacique da aldeia Imbiruçu, Romildo Alves de Conceição, Txonãg, na língua nativa. Ele teme que a redução do volume do rio prejudique a pesca, base da alimentação dos 350 moradores das aldeias.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) diz que não foi comunicada oficialmente sobre os impactos do empreendimento nas aldeias. O órgão diz que, a partir dos relatos dos índios, pode “presumir” que há reflexos nas comunidades, mas não há estudo específico para medir esses impactos. A Funai argumenta ainda que solicitou informações ao Ibama, responsável pelo licenciamento do mineroduto, mas não obteve resposta. A Funai ressalta que o rio tem extrema importância para comunidades  indígenas, sendo “um local para obtenção de alimentos, água e lazer, possuindo também um valor simbólico tão importante quanto o peixe que fornece”.

Água ficou mais longe para o senhor Aristides

Acostumado com água farta e limpa em sua casa desde que nasceu, em 1925, o lavrador Aristides José dos Santos não esperava que aos 88 anos tivesse dificuldade para conseguir até mesmo o que beber. O líquido, que antes corria pela propriedade situada em João Antônio, pequeno povoado de São Domingos do Prata, na região Central de Minas Gerais, secou depois que a obra do mineroduto Minas-Rio começou no terreno vizinho. Foram 41 dias sem água nenhuma, em meados do ano passado, até que uma intervenção de órgãos ambientais fez com que a empresa responsável pela obra instalasse uma caixa d’água no quintal da pequena casa.

Nos dias de seca, Aristides e a mulher, Maria Elisa dos Santos, 78, caminhavam cerca de meia hora até conseguir água na comunidade vizinha. O casal cuidava ainda de uma irmã de Aristides, de 94 anos, que faleceu pouco depois. “Ela tinha que tomar dois banhos por dia”, lembra Maria. Mesmo com a caixa d’água, o problema não foi solucionado. “A água da caixa é quente e não é muito limpa, encarde as roupas”, conta Maria.

A solução seria usar água mineral para beber, mas a Anglo mandou sete galões, também em meados do ano passado, com 20 litros cada, e não voltou mais. As embalagens vazias estão amontoadas na cozinha, e o casal de idosos continua encarando a jornada a pé e contando com a boa vontade de quem mora perto para ter água limpa e fresca para beber. Sem forças para brigar com a multinacional, Aristides está conformado em passar os seus dias sem água potável em sua terra e espera apenas a justiça divina. “Desde criança, no tempo do meu pai e da minha mãe, eu estou acostumado com água limpa. Se essa firma soubesse que o poder de Deus é grande, não faria isso”, diz.

INQUÉRITO. Os danos ambientais causados pelo empreendimento Minas-Rio na região de São Domingos do Prata podem ser alvo de inquérito civil movido pelo Ministério Público na cidade. O promotor Thiago Fernandes de Carvalho já se reuniu com os moradores e com o Conselho Municipal de Defesa e Conservação do Meio Ambiente (Codema). “Solicitei o envio da documentação e estou aguardando para instaurar o inquérito civil”, diz ele, que chegou à cidade em dezembro do ano passado.

Segundo Carvalho, há poucas reclamações formais contra a obra, mas muitos indícios dos danos causados. No Codema, há duas pastas com relatórios técnicos de vistorias e relatos dos moradores, fruto de audiências públicas realizadas na cidade.

Anglo alega ter resolvido o problema

O problema de abastecimento de água na propriedade de Aristides dos Santos é considerado resolvido pela Anglo American. A empresa informa que o casal pode utilizar o sistema de abastecimento de água, por meio de um poço artesiano instalado na comunidade de João Antônio, onde reside. A mineradora informa ainda que instalou uma caixa d’água de 5.000 litros dentro da propriedade, com água considerada própria para consumo.

Maria Elisa dos Santos diz que ela e o marido não conseguem beber a água que sai muito quente da caixa – o reservatório fica exposto ao sol – e contesta a qualidade do líquido, que, segundo ela, encarde até as roupas. A Anglo afirma que realizou testes a água que comprovam sua qualidade e, por isso, interrompeu o fornecimento de água mineral.

Mangueira furada no lugar de encanamentos

Dona Elzi de Morais, 52, só queria seu cano de volta. Era ele quem garantia o abastecimento de água na sua casa, ligando a mina até a residência, em Ponte Alta, distrito de Carangola, na Zona da Mata. Em 2011, a Anglo começou a obra na propriedade da agricultora. Para instalar o mineroduto, a empresa teve que remover 900 m de cano.

“Mas prometeram colocar tudo bonitinho de volta no lugar. Só que, quando acabou (a obra), ao invés do meu cano, eles colocaram uma mangueira e não enterraram de volta. Então, qualquer coisa, até uma vaca que pisa, fura a mangueira, e aí a água não chega. E eu tenho que ficar remendando. Já faz uns quatro anos que está assim”, mostra ela, indignada.

Elzi já está cansa da e praticamente desistindo. “O que eu posso fazer? Eles são uma empresa! Eu já cansei de ligar para lá e não adianta. Então resolvi parar de gastar dinheiro pra colocar crédito no celular. Em vez disso, vai ser melhor eu comprar logo esse cano”, conta. 
A Anglo afirma que foi realizada uma vistoria na propriedade e o abastecimento se encontra em perfeito funcionamento. Em nota, a mineradora diz que “a mangueira foi instalada para permitir o trânsito de equipamentos sobre a faixa do mineroduto” sem comprometer o abastecimento do proprietário. “Com a finalização das atividades de recomposição de pista nessa propriedade, o cano será novamente instalado”, diz a empresa.

Anglo American subestima número de atingidos

O borracheiro Ary Jorge Teixeira, 50, morador do povoado de São Sebastião do Bom Sucesso (conhecido como Sapo), em Conceição do Mato Dentro, e a lavradora Maria Auxiliadora de Souza, 56, moradora do povoado de Santa Rita, em São Domingos do Prata, estão separados por cerca de 160 km, não se conhecem, mas têm muito em comum: de uma hora para outra, sem aviso ou autorização, suas casas foram cercadas pelas obras do mineroduto Minas-Rio, da Anglo American. Em ambos os casos, os tubos passam nos quintais das casas, mas as famílias não foram reconhecidas como atingidas e, por isso, não receberam indenização nem foram reassentadas.

Os dois são exemplos de como o Estudo de Impactos Ambientais (EIA), apresentado pela empresa, pode ter subdimensionado o número de atingidos pelo projeto. O EIA aponta dois grupos, os da Área Diretamente Afetada (ADA) e os da Área de Influência Direta (AID), mas, segundo relatório da consultoria Diversus, feito a pedido do Ministério Público de Conceição do Mato Dentro, os impactos não foram mensurados corretamente. O relatório se refere apenas à mina, considerando as cidades de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Dom Joaquim, onde a mineradora reconhece oficialmente duas comunidades – Ferrugem e Mumbuca – como atingidas. O estudo apontou 22 comunidades afetadas, entre elas, o Sapo, onde mora Ary Teixeira.

“A gente ficou ‘circulado’ no meio de um canteiro de obras, e ninguém explica nada”, resume o borracheiro, que há quase um ano convive com as máquinas e os operários dentro de sua propriedade. A maioria dos moradores dos arredores foi removida pela empresa, mas a família de Ary não foi considerada atingida. Somente com a ajuda de um advogado, a família conseguiu pequenos reparos, como a instalação de uma caixa d’água de 10 mil litros, que se fez necessária depois que a nascente que passava pela propriedade secou. A Anglo American também fez uma pequena obra de contenção para evitar deslizamentos em época de chuva.

Os transtornos e preocupações, porém, permanecem. “Antes, eu ficava até tarde da noite conversando com os vizinhos. Agora, nem tem mais vizinho”, compara. Ele completa que suas filhas adolescentes não saem sozinhas nem para ir à escola, com medo do grande número de estranhos circulando no local. Ary não sabe quanto vale sua propriedade e conta que poderia passar o resto da vida ali se não fossem as mudanças recentes. Agora, ele gostaria de vender a área para a mineradora e se mudar. “Aqui não tem mais paz”, diz.

DIVERGÊNCIA. De acordo com a Anglo, a área onde a família de Ary Teixeira vive “não se encontra dentro do canteiro de obra, mas sim no entorno deste”. A empresa afirma ainda que a terra faz parte do espólio de Francisco de Souza Ferreira, e que há decisões judiciais que garantem a posse da área. “É certo que as obras do mineroduto vêm sendo executadas rigorosamente de acordo com as normas legais, nos exatos termos das decisões judiciais que garantiram a posse da área” diz a empresa, em nota.

A mineradora também garante que solicitou à área técnica uma avaliação em relação ao problema de água na propriedade e que “independente da conclusão dos trabalhos vem disponibilizando água durante todo o período da obra e, ainda, disponibilizou a construção de um poço que não foi aceito pela família, optando por discutir a questão em juízo”.

Dôra diz que indenização foi pouca e que ficou ilhada em casa

Em São Domingos do Prata, a mais de duas horas de viagem do Sapo, Maria Auxiliadora de Souza, conhecida como Dôra, é outra que está ilhada pelo empreendimento. Em meados do ano passado, o mineroduto bateu à sua porta. Ela conta que, na época, os funcionários da empresa informaram que ia “passar um cano” em seu quintal. Ela recebeu R$ 7.000 para permitir o que seria um pequeno corte no terreno, mas que resultou em uma série de problemas, como a remoção de 32 árvores do pomar que ela mesma havia plantado, a mudança do curso do córrego que atravessava sua propriedade, danos à rede de esgoto e rachaduras na parede da casa.

“Nunca pensei que ia ser assim. Quando a jabuticabeira ia começar a dar fruto, foi cortada”, reclama. Além do prejuízo financeiro – pelo qual a mineradora ofereceu mais R$ 6.600 de compensação –, Dôra desenvolveu uma infecção na bexiga, que ela credita à poluição da água, e passou vergonha com a família que saiu de Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, para visitá-la e encontrou a casa cheirando a esgoto porque a rede tinha estourado. “Esse ‘trem’ já me fez chorar demais”, diz ela, que está cercada de obras por todos os lados.

Orçamento da obra cresce 76%

O mesmo empreendimento que abala a vida das famílias que estão no seu caminho, também é motivo de muita dor de cabeça para a Anglo American. Os questionamentos de todo tipo e situações não previstas nos estudos iniciais já atrasaram o início da operação em pelo menos um ano – a previsão era fazer o primeiro embarque no segundo semestre de 2013 – e elevaram o orçamento de US$ 5 bilhões para US$ 8,8 bilhões, alta de 76%.

Em setembro do ano passado, em evento realizado em Belo Horizonte, o presidente-executivo global da mineradora, Mark Cutifani, disse que a empresa buscava, sem pressa, um parceiro para o empreendimento. Além de ser o maior mineroduto do mundo, o projeto é o maior investimento da Anglo no planeta. O Minas-Rio começou em 2007, em uma parceria entre a MMX, de Eike Batista, e a Anglo American. Em 2008, a Anglo comprou a participação do sócio por US$ 5 bilhões. A negociação derrubou as ações da companhia e custou o emprego da CEO da empresa, Cynthia Carol. Hoje, 84% das obras estão concluídas.

Mineroduto separou propriedades ao meio

Os atingidos pela obra do projeto Minas-Rio, da Anglo American, querem que os órgãos ambientais não concedam as licenças de operação para o empreendimento enquanto os problemas sociais, ambientais e conflitos territoriais não forem solucionados. No fim de fevereiro, os moradores das comunidades afetadas
em Conceição do Mato Dentro divulgaram a “Carta Aberta das Comunidades Socialmente Atingidas à Sociedade”, na qual enumeram os problemas causados pelo empreendimento e pedem solução antes do início das operações.

Há dez dias, a mobilização veio de São Domingos do Prata, onde uma comissão de atingidos, os 11 vereadores da Câmara Municipal e o prefeito Fernando Rolla assinaram documentos que foram protocolados no Ibama e no Ministério Público Federal (MPF), em Belo Horizonte, pedindo o adiamento da concessão da licença de operação. “É a
nossa última chance para conseguir que eles reparem os danos que causaram”, diz a vereadora Maria Paula Moraes, que coordenou o movimento político na cidade. Agora, ela pretende percorrer outros municípios pedindo que os vereadores também se manifestem de maneira contrária à concessão da licença.

Entre os problemas causados pela obra, está o da família de Dalva Linhares Lage Rolla. O mineroduto partiu ao meio a fazenda de 166 hectares, em São Domingos do Prata. A  divisão acabou com a estrada que dava acesso à parte mais alta da propriedade, onde agora só é possível chegar a pé, e afetou o rebanho bovino. “O gado ficou de um lado e o pasto do outro”, reclama. Sem pasto, o rebanho foi reduzido em 30%. Segundo ela, três bezerros já morreram depois de cair do barranco tentando alcançar o pasto.

Os animais que ficaram na parte mais baixa da propriedade têm dificuldade até para beber água, porque a represa que serve de bebedouro para os bezerros está sofrendo com o assoreamento provocado pela obra. “Na última vez que choveu, tirei sete caminhões de terra lá de dentro”, conta Flávio Rolla, marido de Dalva. O corte no terreno tem dois quilômetros de extensão, quase 50 metros de altura e partiu ao
meio também uma montanha. O casal recebeu uma indenização de R$ 120 mil, depositada em juízo. “Não paga um décimo do nosso transtorno”, diz Flávio.

Na indenização, 80 cm; na prática, um buraco de 30 metros

Dos 50 alqueires de terra que o agricultor Odilon Machado, 74, e os nove irmãos herdaram dos pais, em São Domingos do Prata, sobrou só o valor sentimental. Desgostosos com as mudanças provocadas pela obra do mineroduto Minas-Rio, eles tentam, há meses, vender a propriedade, mas não encontraram comprador. “É terra que meu pai derramou muitas gotas de suor para comprar. Agora, quem vai querer comprar? Falaram que ia passar um cano de 80 centímetros aqui e, depois, tudo ia voltar ao normal, mas cortaram mais de 30 metros”, conta. Como indenização pelo que seria a passagem de um cano, ele recebeu R$ 4.000.

O rio que cortava a fazenda secou. Para abastecer o local, a Anglo American instalou um poço, cujo funcionamento elevou a conta de luz de R$ 80 para R$ 200, e não resolveu o problema. A água que sai da torneira é tão barrenta que o agricultor acoplou uma meia para servir de coador. Em pouco tempo, a peça que era cinza claro ficou completamente marrom. “Eu estava acostumado com água limpa. Ninguém quer colocar a família para beber essa lama que eu estou bebendo. Não serve nem para boi beber”, reclama.

“Fale Conosco” recebe, por dia, 16 acessos

Todo mês, a Anglo American recebe cerca de 500 manifestações sobre o projeto Minas-Rio em seu canal “Fale Conosco”. Em média, são 16 pessoas que todos os dias procuram a empresa para relatar fatos relacionados ao empreendimento e todas, de acordo com o gerente geral de Desenvolvimento Social da Unidade de Negócios de Minério de Ferro da empresa, Maurício Martins, são respondidas em até sete dias.
O alto volume de manifestações não significa, na visão da mineradora, um número exagerado de problemas. De acordo com Martins, há relatos positivos, negativos e os que são considerados neutros.

Nos 525 km do mineroduto e nas duas cidades que abrigam mina e porto, o empreendimento da Anglo American passa por 1.700 propriedades. Nesse universo, apenas 30, ou 1,76% do total, têm problemas considerados críticos pela mineradora. A empresa garante que todos serão resolvidos antes do início das operações. “Não se obtém uma licença sem responder a todas as questões”, diz Martins. Ele completa
que o bom relacionamento com os atingidos é uma preocupação constante da mineradora. “Nossa premissa básica é respeitar essas comunidades. Conversar olho no olho, abrir canais de comunicação e respeitar a diversidade”, garante.

Licenças vêm de três órgãos

Apesar de ser um projeto interligado, o Minas-Rio, que a Anglo American implanta em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, foi licenciado com processos independentes para mina, mineroduto e porto. A mina ficou sob a responsabilidade do Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema) de Minas Gerais, o mineroduto está sendo licenciado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), e o porto pelo Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (Inea). Esse fatiamento, feito a pedido da Anglo American, preocupa pesquisadores e representantes do Ministério Público. “Se eu fatio, eu reduzo a percepção do impacto que está sendo causado. Se o projeto fosse analisado como um todo, esses danos seriam vistos de maneira mais clara”, diz o procurador da República do Ministério Público Federal em Minas Gerais (MPF-MG), José Adércio Leite Sampaio.

O órgão ajuizou, em 2009, uma ação pedindo a unificação do licenciamento. Os processos, porém, continuaram correndo de forma independente. O procurador da República do Ministério Público Federal (MPF) de Campos dos Goytacazes (RJ), Eduardo Santos de Oliveira, tem o mesmo entendimento. Para ele, a forma como o licenciamento foi feito é errada. “Todo o licenciamento deveria ter sido feito pelo
Ibama, mas esfacelaram e dividiram em três coisas diferentes. Só o fato de passar por dois Estados dá um caráter transregional ao empreendimento”, critica Oliveira.

Ele diz que a análise por um único órgão não seria garantia de impactos menores, mas facilitaria a avaliação. “Quando pensamos num projeto que tira minério de um Estado, considerando as nascentes, e transporta até um porto em outro Estado, não parece crível que ninguém tenha percebido que os impactos não são só regionais. Se o investimento fosse tratado como um todo, a visão dos impactos seria bem diferente. Se não tem um órgão federal, fica difícil cobrar”, destaca o procurador.

A Anglo afirmou, em nota, que os licenciamentos “seguem as determinações legais”. A empresa disse ainda que o fato de existirem vários órgãos no licenciamento “não quer dizer que não houve e não há uma interação entre eles quando da analise e deferimento de suas licenças.”

VISTORIAS. Questionado se o licenciamento fragmentado compromete a avaliação do todo, o Ibama disse, em nota, que “os procedimentos do licenciamento atendem os requisitos legais”. “O Ibama tem avaliado a gestão do empreendimento e requerido ajustes, como em qualquer empreendimento desse  porte”, diz a nota.

De acordo com o Ibama, a fiscalização é feita por meio de vistorias periódicas. Em 2013, segundo o órgão, foram feitas quatro vistorias técnicas para acompanhamento da execução das obras e recuperação das áreas.

OPERAÇÃO. A Anglo já pediu aos órgãos ambientais as licenças de operação para as três partes do empreendimento. A expectativa da empresa é conseguir o sinal verde até o fim deste ano.

Divisão limita a ação dos atingidos
                                 
Para a pesquisadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta) da UFMG, Ana Flávia Moreira Santos, a divisão do licenciamento dificulta a articulação dos atingidos e cria uma situação favorável à empresa. “Essa definição restrita de atingidos encobre o processo de expulsão das pessoas que não são consideradas atingidas”, afirma. Ela explica que a intervenção em um ponto pode não causar danos imediatos, mas impactar comunidades distantes.

“A comunidade pode estar a quilômetros de distância da obra e ter seu modo de vida inviabilizado”, diz a pesquisadora da UFMG. Para ela, os impactos da obra não podem ser medidos apenas pelo dano visível. “Tem que considerar o modo de vida e organização daquelas pessoas para entender o que vai ser impactado”, completa.

Ibama alega que água que mina de rocha é de chuva

 “Eu pedi para alguém do Ibama vir até aqui, mas não veio ninguém”. A reclamação é da professora Vânia Musse, 56. Em fevereiro de 2014, ela solicitou que o órgão ambiental fosse até a sua propriedade, em Alvorada, distrito de Carangola, para verificar se a água que saía de uma rocha – que seria detonada para instalação do mineroduto – era indício de uma mina ou nascente.

Por meio da assessoria de imprensa, o Ibama, que é o responsável pelo licenciamento do mineroduto, explica que a água mina porque a rocha é menos permeável que o solo.
“Assim, a rocha acaba sendo uma barreira à passagem da água proveniente da infiltração das chuvas nas redondezas. Não se pode falar em nascente, simplesmente a água começou a minar porque escavou-se a área e havia um gradiente para saída dessa água”, justifica o Ibama. Ainda por meio de nota, o órgão ambiental informa “que a proprietária entrou em contato com o Ibama para tratar do assunto, e foi explicado o contexto hidrogeológico da água no local”.

“Por telefone, o Ibama me explicou que aquela água era normal, que podia ser acúmulo de água da chuva. Para mim, ‘leigamente’ falando, poderia ser de uma possível mina ou ter ligação com a mina já existente, ou seja, um lençol freático desprotegido. Por isso, pedi à Anglo American um laudo técnico completo sobre a água aflorada próxima ao curral. Não tive retorno e novas detonações continuaram a ser feitas. Se o Ibama fala que é água de chuva, gostaria que me enviasse um documento para comprovar”, questiona Vânia.

Segundo ela, mesmo havendo estudos prévios, houve mudança no traçado original do mineroduto, o que aumenta a chance de algo não ter sido contemplado nesses levantamentos. A mudança foi feita a pedido da família para preservar um córrego. “Mesmo existindo um estudo para liberar o licenciamento, eles deveriam ter vindo aqui, porque, como houve essa mudança no traçado, algo novo pode ter aparecido”, afirma
Vânia. O Ibama informa que fez vistoria na área no final de outubro de 2013 e já havia feito outras, em momentos anteriores.

EXPLOSÃO. A rocha em questão foi detonada no último dia 11 de fevereiro Desde então, segundo Vânia Musse, cerca de outras dez detonações aconteceram. A proprietária da fazenda Santa Cruz também solicitou a presença de um técnico da Anglo. “No dia da primeira detonação, não veio ninguém. No sábado de Carnaval, um técnico veio e disse que aquilo era normal. Eu pedi para ele assinar um documento afirmando que não havia possibilidade de aquela água ser uma nascente, mas ele disse que isso ele não poderia fazer”, conta Vânia.

A Anglo, afirma que “sempre realiza análises técnicas e não foi verificada existência de nascentes no local das detonações”, diz, em nota. “Além disso, a empresa ressalta que a execução de todas as atividades realizadas ao longo do mineroduto do Projeto Minas-Rio está de acordo com as condicionantes ambientais da licença de instalação do empreendimento”, completa a mineradora, por meio de nota.

Sítio arqueológico achado durante a obra não impede mineroduto

Além da pedra, no meio do caminho a Anglo American também encontrou três sítios arqueológicos em Carangola, sendo um deles na fazenda Santa Cruz, no distrito de Alvorada. Reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em18 de junho de 2013, ele motivou o Ministério Público Federal(MPF) a instaurar um inquérito civil para Garantir a preservação do patrimônio cultural.

No processo, o procurador da República do MPF de Manhuaçu, Lucas Gualtieri, recomenda acompanhamento e adoção de providências diante da “potencialidade de danos irreversíveis” provocados pelas obras do mineroduto. Ele usou como referência o fato de outro sítio arqueológico, o Córrego do Maranhão, ter sido destruído porque a empresa instalou sobre ele um bota-fora. Para compensar os danos, a Anglo assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e pagou R$ 1,2 milhão. O dinheiro foi destinado à construção de um Centro de Referência em Arqueologia (CRA) para Minas Gerais. O terceiro é o Toca dos Puris. Todos possuem peças indígenas Tupi-Guarani, do fim do século XIX.

Da descoberta do sítio arqueológico Fazenda Santa Cruz até 2013, as obras não foram realizadas na propriedade, porque o Iphan exigiu que A Anglo apresentasse um relatório de preservação do sítio. O estudo foi feito pela Brandt, que atestou que o mineroduto deveria ficar a uma distância de 50 metros. Posteriormente, o mesmo estudo reduziu a distância para 25 metros. A explicação é que as peças indígenas encontradas haviam rolado e, portanto, não estariam originalmente no local onde foram encontradas. O mapa que consta no estudo mostra que mesmo com a distância menor, o traçado do mineroduto esbarra com o do sítio. “Era a nossa esperança para paralisar a obra, mas o Iphan aprovou este relatório”, conta a proprietária da fazenda, Vânia Musse.

Procurado pela reportagem, o Iphan não retornou para esclarecer a mudança na distância. A Anglo, por meio de nota, afirma que “o sítio arqueológico não foi afetado pela obra, muito pelo contrário, as contenções em concreto foram soluções de engenharia utilizadas para estabilidade do maciço, devidamente aprovadas e Supervisionadas pelo Iphan. “Eles fizeram um paredão de cimento para proteger o sítio arqueológico .Só que essa solução não foi ideal, pois alonga muito o acesso ao cafezal e ao sítio e ainda dificulta a passagem do gado”, reclama Vânia.

Segundo a Anglo American, existe acesso para o gado e para o cafezal. Mesmo assim, a empresa afirma que está estudando, em conjunto coma família Musse, outra opção. A reunião para tratar dessa solução aconteceu no dia 12 de fevereiro e a empresa prometeu apresentar um projetoem30 dias úteis.

Morto recebeu, vivo ainda não

“Minha casa foi derrubada, cortaram meu pé de jambo, e eu não recebi nenhum centavo. Não sobrou mais esperança. Agora, sobrou só a lembrança num retrato”, conta Sebastião Gomes de Souza, 69, mostrando a foto da casa onde morou e criou os filhos, em Ponte Alta, distrito de Carangola, na Zona da Mata. Segundo ele, para que o mineroduto da Anglo American passasse em sua terra, foram depositados R$ 31 mil em
juízo. Dinheiro que ainda não conseguiu retirar. Se tem gente como seu Sebastião, que reclama que nunca recebeu a indenização, tem morto que já.

Em Tombos, na Zona da Mata, a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), responsável pelas indenizações por servidão da terra, fez um depósito no valor de R$ 18.750 para Aloysio Quintão Rocha e para Lucas Antônio Monteiro de Bastos, referente à servidão da propriedade deles. O processo é de agosto de 2013. O detalhe é que Lucas tinha morrido dois anos antes. E, mesmo quando ainda era vivo, já não era mais o dono dessa terra. “Falta cuidado na hora de verificar os registros, eles usam documentos velhos, e isso é brincar com o dinheiro público”, afirma o advogado Latuffe Nagib Sacre.

Quando o depósito foi feito para Lucas, a terra afetada pelo mineroduto Minas-Rio já tinha outro dono: José Geraldo Ferreira. “O Lucas morreu no dia 24 de julho de 2011, mas já tinha vendido a fazenda Cascata havia mais tempo”, conta a viúva de Lucas, Yeda Rocha Bastos. Ferreira, que comprou a propriedade cerca de cinco anos antes, também foi contemplado com indenização pela servidão da terra. No dia 11 de março de 2013, foi feito um depósito de R$ 15.673,68 em nome dele.

Por meio da assessoria de imprensa, a Codemig respondeu que “o depósito é realizado em nome daqueles que constam como proprietários do imóvel no registro de imóveis, conforme determina a lei. Portanto, se o registro de imóveis não está atualizado, casos como esse podem ocorrer”.

Por meio de nota, a Anglo afirma que o critério para checar quem tem direito a indenização é previsto na lei, por meio da obtenção da certidão de inteiro teor fornecida pelo Cartório de Registro de Imóveis competente. “Existe a possibilidade de um proprietário ter falecido e não ter sido aberto inventário ou que o proprietário venda seu imóvel e o comprador não registre na matrícula do imóvel a operação. Tais situações podemser corrigidas a qualquer tempo durante o curso do processo pelo interessado”, diz nota.

A Anglo informa também que a indenização de Francisco foi depositada em juízo, mas ela não tem ingerência sobre a liberação, cabendo ao indenizado procurar o cartório do fórum onde tramita o processo.

Outro caso estranho é o de Lira Avante Marinho, de Pedra Dourada, cidade vizinha de Tombos. Em julho de 2011, ela recebeu uma intimação informando que tinha um depósito em seu nome no valor de R$ 2.970,08. No entanto, a obra da Anglo não passou pela propriedade dela. “Honesta, ela me procurou como advogado, e informamos à Justiça, mas a juíza respondeu que ela deveria provar que o mineroduto não passou mesmo lá”, explicou Latuffe.

Casa queimada e mal paga

A boneca preferida de Alice, na época com 11 anos. Os retratos daquele tempo antigo, que não volta mais. Uma vida de lembranças apagada num incêndio provocado por um curto-circuito, provavelmente devido à alta-tensão das máquinas usadas na construção da estação de bombeamento da Anglo American em Vinhático, distrito de Tombos, na Zona da Mata. “Minha história se queimou”, conta o agricultor Adilson Lazzaroni, 51.

Em 2011, ele, a esposa, Josenilda, os filhos Alice e Arilson viram a casa construída pelo próprio agricultor ser consumida em chamas. “Não foi por falta de aviso, três dias antes eu chamei os funcionários pra mostrar que tudo balançava quando as máquinas  passavam e meu teto estava até soltando telhas, mas não adiantou”, lamenta Adilson. 
A Anglo fez um acordo e pagou R$ 90 mil para a família, dois anos depois do acontecido.

Com o valor, ele comprou uma casa na cidade, em Tombos. “Não gosto daquilo lá de jeito nenhum”, conta Adilson, que todos os dias caminha cerca de 5kmda cidade até Vinhático, onde trabalha na roça. “Dinheiro nenhum paga minhas lembranças”, conta o agricultor, que pretende construir outra casa na roça. “Quando vimos a casa se queimando, acabou-se o mundo. Minha mulher tem depressão, e eu ganho pouco e gasto quase tudo com remédios”, conta.

Buraco maior do que o combinado

O mineroduto também afetou a vida do irmão de Adilson, Antônio Braz de Lazzaroni, 48. Ele vendeu uma área das suas terras para a Anglo construir uma estação de bombeamento em Vinhático. Também recebeu uma indenização para permitir que a empresa instalasse o tubo por baixo da sua terra. “Mas eles invadiram o espaço delimitado e ainda construíram um bloco de cimento que vai ficar aqui debaixo. O combinado era eles passarem o tubo e devolverem o terreno como antes, mas eles cavaram muito mais. Ali eu não posso mais plantar”, lamenta Antônio.

No mesmo vilarejo, outros parentes foram afetados. “A gente aceitava tudo porque eles falavam que, senão autorizássemos e recebêssemos aquele valor, iriam passar de todo o jeito”, conta.

A Anglo afirma que as áreas de Antônio Lazzaronni impactadas pelo projeto foram negociadas de forma amigável. “Apesar de ainda não termos sido notificados formalmente, já é de nosso conhecimento o ajuizamento de ação, por parte do Sr. Antônio, para apurar se houve ou não a utilização de área diversa da que foi negociada”, destaca, por meio de nota.

Explosão, poeira e medo

Entre estrondos, poeira e medo. Por um bom tempo,em 2011, era assim que a cuidadora de idosos Maria da Penha Barbosa vivia em Natividade, no Noroeste do Rio de Janeiro. Da janela de casa, ela acompanhava a evolução das obras e via o verde diminuir e os barrancos aumentarem. “Sempre tinha explosões para quebrar as rochas e passar o mineroduto. Tremia tudo, tinha medo de o teto cair. A casa ficou toda rachada”, conta. E não foi só com dona Penha. Várias outras casas do bairro Parque Lajinha sofreram as consequências das detonações. A Anglo American fez indenizações, mas nem todos já receberam, e alguns, como o lavrador Claunício Lourenço Dias, 59, não ganharam o suficiente. “A casa ficou cheia de rachaduras. Eles me pagaram R$ 2.500, mas não dá para consertar tudo, porque foi muito pouco. Até hoje ainda estou arrumando”, afirma Dias. Ele conta que, sempre que tinha uma detonação, os moradores eram avisados e levados para uma creche. “Mas, até de lá, a gente ouvia o barulho e sentia os tremores.”

A detonação de explosivos e a emissão de ruídos ganharam um capítulo no estudo encomendado em 2011 à consultoria Diversus pelo Ministério Público Federal de Conceição do Mato Dentro, para mensurar os impactos da obra do mineroduto. Embora o levantamento tenha se baseado em casos somente nas cidades mineiras de Conceição, Dom Joaquim e Alvorada de Minas, pesquisadores confirmam que é um reflexo do que acontece ao longo dos 525 km do mineroduto.

“A detonação de explosivos gera incômodos, como a emissão de ruídos, e há suspeita de que residências e prédios históricos, principalmente na sede do distrito de Córregos, estão sofrendo rachaduras como decorrência desse tipo de procedimento”, atesta a pesquisa. O estudo, que cita o Parecer Único do Sistema Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais (Sisema) de 2008, reconhece os danos e a precariedade das soluções. “O EIA RIMA (estudos de impactos) desconsiderou que os efeitos para a saúde humana podem ser mais prejudiciais ainda”, comprometendo até mesmo a acuidade auditiva das pessoas”, diz o estudo.

Maria da Penha viu sua saúde ser abalada após a obra. “Eu ficava muito nervosa, e minha pressão subia demais. Na minha opinião, em vez de indenizar a gente, o melhor era comprar as nossas casas para não termos que passar por isso. Eu até tentei vender para mudar daqui, mas ninguém quis comprar”, desabafa.

Penha recebeu R$ 7.000.O vizinho dela, Anderson Manuel da Silva, 37, não recebeu nada. No caso dele, o problema foi maior do que as rachaduras. “Estava construindo, e o alicerce já estava todo pronto, e eu tinha investido uns R$ 13 mil. 



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