quarta-feira, 15 de abril de 2015

Apresentando um catador da Amazônia ao restaurador de São Cristóvão e morando em cima de um antiquário e brechó no Maracanã

"O lixo de um homem é o tesouro de outro", provérbio popular norte-americano

Eu conheci o Virgílio Moura há alguns anos no escritório da Fibra, que produz o skate de bambu e faz um trabalho sério em ecodesign. Identifiquei-me com ele imediatamente, português de nascimento e morador do Pará, o Virgílio faz um lindo trabalho em madeira a partir de madeiras que encontra na rua e em projetos de manejo, não se define como marceneiro, xilólogo ou artesão e designer, mas como catador:

"Sou um catador, não derrubo árvores, nem serro madeira, todas as peças de minha autoria são realizadas a partir de sobras de processos de transformação da árvore em peças de madeira. Das sementes, cipós, raízes e galhos recolhidos dos processos de manejos florestais e das madeiras alternativas que são retiradas das podas das árvores urbanas nos quintais, praças e ruas da Cidade."

E não pense que Virgílio trabalha com galhinhos, já vi fotos dele cercado de toras imensas, do tamanho de um campo de futebol, árvores comprometidas que virariam entulho não fosse seu olhar. Pelo meu Facebook, Virgílio descobriu outro amigo, o Eraldo, proprietário de um Antiquário em São Cristóvão, bairro daqui do Rio, vizinho ao que moro, o Maracanã. Por sua vez, conheci o Eraldo por ter sido vizinha da namorada dele, Patrícia, proprietária de um antiquário e brechó em sociedade com sua irmã também aqui no Maracanã.

São Cristóvão, como a toda a Tijuca é um bairro antigo e centenário e por isso, sobraram muitas casas do início do século XX e algumas até do século XIX. São todas lindas e é de partir o coração ver quando alguma é posta abaixo para dar lugar a um edifício. Eu morei nos últimos 2 anos numa casa de rua, na verdade numa casa de rua desmembrada. Casa de rua é perigoso, casa de vila pode ter pouca privacidade - especialmente em vilas de casinhas contíguas. As vilas de casas grandes e de meio de terreno com quintal estão cada vez mais raras... Então, quando a veterinária dos meus cães disse que estava saindo de uma espécie de vila alternativa, que queria passar o imóvel adiante, eu fui ver e o tempo mostraria que vale a pena. Na hora, tive preconceito e pensei "É um puxado". Não era e a privacidade é indescritível, além de uma forma inteligente de manter essas casas imensas, geralmente encaradas como um elefante branco, de pé. Hoje, encaro como um sobrado, onde aluguei o andar de cima.
Foi nessa casa em que passei 2 anos sem gás por ter medo de botijão e então, tive que me virar com panela elétrica, grill, sanduicheira e até um forno solar - cozinhando tudo sem forno e fogão numa boa.

E por ter um brechó-antiquário no andar debaixo, ainda comprei tantas coisas lindas sem culpa nenhuma, bem baratinho e de segunda mão. Todos os copos antigos e bandejas de prata, que normalmente são dados em listas de casamento, comprei por uma merreca bem no andar de baixo, 100% reciclados.
E assim, conheci o Eraldo, que compraria todos os meus móveis para revender no Antiquário dele, quando saí desse sobrado e vim para um apartamento na mesma rua, dessa vez próprio. Graças a Deus.

O Antiquário-brechó da Patrícia e Isa aparece aqui em duas postagens, no guia de compras da Tijuca e cedendo generosamente o manequim que vestiu os crochês que Mafê me deu de presente e, na época eu obviamente não mencionei que morava no andar de cima.

Então, quando o Virgílio veio ao Rio, juntamos tudo isso na loja do Eraldo em São Cristóvão, que fica num ponto ótimo, ao lado do Pavilhão e do Adegão Português, bem pertinho do Museu de Astronomia, lugares que amo.



  
 




Os telefones brasileiros já tiveram apenas 6 algarismos!



O aparelho de televisão Panasonic é laranja e funciona perfeitamente.



O único piano de fórmica marmorizada azul que já vi.




Eraldo e Virgílio, sentado numa cadeira de barbeiro, tratando da vida.






O Antiquário e brechó das 2 irmãs, Patrícia e Isa, na mesma casa onde morei. Por 2 anos, subi essa escadinha lateral  de acesso ao segundo andar todos os dias. Essa imensa bola de ferro embaixo da escada servia para transportar escravos e aparecem várias iguaizinhas no filme "Gangues de Nova Iorque", expondo escravas brancas na festa do Teatro Chinês!




A mesinha das tentações armada pela Patrícia quase na calçada onde liquida peças menores e eu fiz a feira, é claro.





O prêmio desenvolvido pelo Virgílio para a Bienal de Marketing:




Outros trabalhos do Virgílio:






Site com trabalho do Virgílio: Blog do Virgílio Moura

Site do Antiquário do Eraldo: Brechó Antigo

Página no Facebook do Brechó e Antiquário da Patrícia e Isa: Novidades & Antiguidades, que também organiza maravilhosos leilões online, para você comprar tudo de pijama sem culpa e onde podem ser encontradas coisas incríveis como esse poster emoldurado do Festival de Woodstock por apenas R$20,00 - repare que, à época, o ingresso promocional para os três dias custou US$18,00!







Mais informação:
2 anos sem forno e fogão
Shopping dos Antiquários
A Sociedade das Agulhas
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Comprando orgânico, justo e local na Tijuca
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Um comentário:

Virgílio Moura disse...

Carol Daemon..amei..feliz por ter conhecido o Eraldo..almoçado com você em um botequim do século XXI ter sentado numa cadeira de barbeiro em São Cristovão e quase morrer de caminhar....Gratidão por ter me publicado no seu blog!