domingo, 12 de abril de 2015

Eucalipto transgênico, o que você precisa saber

EUCALIPTO TRANSGÊNICO – O QUE VOCÊ PRECISA SABER





“Eucalipto transgênico vai sugar água até que ela acabe”
Para Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e ex-membro da CTNBio, aprovação de nova modalidade irá resultar em um grande consumo de água e impactos ambientais ainda não medidos
A votação sobre a liberação do plantio do eucalipto transgênico acontece nesta quinta-feira (9) na Coordenação-Geral da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Adiada em março por conta de protestos das mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a aprovação do eucalipto preocupa especialistas, que consideram a modalidade um risco ao meio ambiente e a produtores.
Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo que já foi membro da CTNBio, afirma que “em cinco anos o eucalipto geneticamente modificado retiraria do solo o mesmo volume de água e nutrientes que o eucalipto tradicional levaria sete anos para incorporar.Uma lavoura sedenta será substituída, após cinco anos, por outra lavoura sedenta”.
Abaixo, confira a entrevista de Melgarejo à Agência Brasil de Fato, sobre o eucalipto transgênico e o papel da CTNBio na sociedade:

Uma noção muito difundida na sociedade hoje é que, se não existissem as florestas de eucaliptos das grandes empresas, não teríamos papel no Brasil. Isso é verdade?
Há um enorme exagero nesta afirmativa. E a distorção é ainda maior quando alguns formadores de opinião insistem que não existiriam livros e que o sistema educacional resultaria prejudicado, caso houvesse redução na produção de pasta de celulose.
A esmagadora maioria do produto destas indústrias não se destina a fazer papel, e sim embalagens, como caixas que jogamos fora quase imediatamente, cujo uso é mais restrito do que o do papel higiênico.
Onde não há reciclagem estas caixas servem para pouca coisa além de principiar fogo ou engrossar o lixo. O que essas empresas produzem alimenta cadeias de desperdício.

Quais são os impactos ambientais causados pelas plantações de eucalipto?
Elas geram desertos. Na forma em que são cultivadas para extração de celulose, constituem blocos enormes que são refratários a todas as formas de vida.
O sombreamento dificulta a proliferação de outras plantas e a escassez de alternativas de alimentos dificulta a sobrevivência de animais e insetos. A densidade de plantas provoca elevado volume de extração de água do subsolo.
A capa que cobre o solo retém a maior parte das águas da chuva, dificultando o reabastecimento dos lençóis freáticos.

De que forma esses impactos aumentariam com a aprovação do eucalipto transgênico? 
Segundo a empresa que detém as patentes, o eucalipto transgênico produz o mesmo volume de madeira que o não transgênico em menos tempo.
A rapidez de transformação de água, luz e nutrientes, em termos de eucalipto, seria aumentada em 30%.
Em outras palavras, em cinco anos o eucalipto GM (geneticamente modificado) retiraria do solo o mesmo volume de água e nutrientes que o eucalipto tradicional levaria sete anos para incorporar.
Evidentemente em situações de escassez de água o problema se agravaria. Os estudos mostram que na fase de crescimento as necessidades de água são maiores, estabilizando-se quando a árvore é adulta. Ora, estas florestas de eucaliptos são cortadas exatamente antes desta estabilização do consumo.
Uma lavoura sedenta será substituída, após cinco anos, por outra lavoura sedenta, que em cinco anos dará lugar a outra. As áreas com florestas de eucalipto serão bombas de sucção d’água, trabalhando em metabolismo acelerado até que acabe a água.

O cultivo de eucalipto transgênico pode comprometer a produção de alimentos no país?
Sim. A expansão de lavouras de eucalipto sobre áreas ocupadas com outras atividades, em especial nas áreas destinadas à produção de alimentos, pode reduzir a oferta de produtos ao consumo humano.
Isto ocorreu com a expansão das lavouras de cana, de soja, de algodão, e tende a se repetir em todas as monoculturas de exportação. Agricultores familiares envolvidos com a produção de alimentos são deslocados de suas atividades, o que repercutirá em redução na oferta de leite, mandioca, etc.
Ao contrário do que se afirma, o fato de se poder cultivar um eucalipto que cresce mais rápido não reduzirá a área ocupada com esta cultura. Ocorrerá o oposto. Ao se tornar uma atividade mais atraente sob o ponto de vista de retorno do capital investido, a área cultivada com ao eucalipto transgênico deverá crescer comparativamente ao que ocorreria em sua ausência.

Do ponto de vista do mercado, como falar que o eucalipto transgênico aumentará a produtividade, se apenas uma empresa detém as suas patentes?
Não haverá ganhos globais de produtividade. O clone mais produtivo, tendo um dono, só será utilizado por concessão desta empresa. A produtividade média não será alterada, a não ser que a empresa resolva permitir que seus concorrentes utilizem o mesmo material genético.
O dossiê da empresa afirma que a introdução de dois transgenes, um destinado a alterar a estrutura da celulose, alongando células, e outro que serve como marcador de seleção, teriam tornado o eucalipto mais produtivo.
É difícil aceitar esta afirmativa, porque os mesmos transgenes já haviam sido apresentados como modificadores da estrutura da madeira, sem impacto sobre a produtividade.
Aparentemente a empresa provocou a modificação inserindo aqueles transgenes sobre um clone mais produtivo, que por suas características próprias não dependeria da modificação para produzir maior volume de madeira em menor tempo.
Assim, a empresa poderia estar usando este fato (uma base mais produtiva) para forjar um discurso de que a transgenia aumenta a produtividade.
Um clone mais produtivo não dá direito de patente. Mas um eucalipto com um transgene patenteado por uma empresa confere a esta empresa direitos exclusivos sobre aquela planta.
Ganhos de produtividade são difíceis de obter, pois a produtividade é construída ao longo das relações que a planta estabelece com o ambiente, e depende de tantos fatores que não é possível aceitar o discurso desta empresa.

A preocupação com a produção e exportação de mel orgânico é grande. De que forma os produtores serão afetados, caso o eucalipto transgênico seja aprovado?
O pólen transgênico estará presente no mel, no própolis, na geleia real e em todos os seus derivados. No mercado de orgânicos isto é considerado inaceitável. Simples traços de material GM implicam rejeição, exclusão de qualquer produto.
O Brasil perderá acesso aos mercados de produtos orgânicos. Uma pena, pois hoje somos o principal produtor mundial de própolis verde e temos possibilidades enormes de crescimento em outras linhas de produtos.
A apicultura se mostra uma excelente alternativa de renda para a agricultura familiar e este mercado está em franco crescimento. Tudo isso será perdido.

Foram apresentados estudos que comprovam que o eucalipto transgênico é melhor economicamente e não causa danos ambientais à CTNBio? Se sim, que estudos foram esses?
Não. Os estudos são falhos, incompletos e insuficientes. Uma curiosidade ilustra a gravidade do tema. A CTNBio avalia os pedidos de liberação comercial com base em dossiês preparado pelas empresas.
O dossiê deve incluir laudos, pesquisas de laboratório, pareceres diversos e, principalmente, pesquisas de campo aprovadas pela CTNBio, onde serão levantados dados que garantirão a inexistência de danos para o ambiente, entre outras informações.
Não é surpreendente que a empresa tenha encaminhado seu pedido de liberação comercial antes de apresentar os resultados de boa parte dos estudos aprovados pela CTNBio para avaliação a campo do eucalipto transgênico? Alguns destes estudos ainda estão em andamento e seus resultados deixaram de ser necessários? Como isso é possível?
Faltam estudos sobre o consumo de água, os impactos em polinizadores, os danos ambientais e socioeconômicos a populações afetadas indiretamente pela expansão das lavouras de eucalipto.
Também é surpreendente a constatação de Paulo Kageyama [integrante da CTNBio e professor da Universidade de São Paulo contrário à liberação do eucalipto transgênico]: na avaliação de alguns membros da CTNBio, favoráveis ao pedido de liberação comercial do eucalipto GM, não foram incorporados nem considerados estudos adicionais aos apresentados pela própria empresa.

Por que a comissão aprova patentes transgênicas de forma rápida e sem estudos aprofundados? Que impactos os transgênicos causam para produtores e consumidores?
A discussão sobre transgênicos, em geral, é bem mais ampla do que sugere o caso do eucalipto. As lavouras de milho transgênico, que carregam proteínas inseticidas e são veículos para transporte de resíduos de herbicidas mereceriam avaliação detalhada.
Estas lavouras estão ampliando o volume de venenos aplicados no meio rural, com impacto sobre o solo, a água e as populações ali residentes. Mas não apenas isso. Os produtos destas lavouras são veículos que unem a aplicação de venenos à mesa dos brasileiros.
O cuscuz, o milho verde, a polenta, o pão estão levando resíduos de venenos até o prato de cada um de nós. O veneno na comida já é um impacto, e podemos esperar que haja impactos maiores.
Não sabemos o tamanho do problema. Sabemos apenas que não é possível afirmar, com seriedade, que os transgênicos e seus pacotes tecnológicos não fazem mal para a saúde. E podemos suspeitar que façam.
Não existem estudos epidemiológicos comparando populações que comem transgênicos com populações livres de transgênicos. Se houvesse empenho, seria fácil avaliar populações de ratos, porcos, galinhas, comendo rações com e sem transgênicos. 
Mas há um bloqueio que dificulta a realização destas análises. O único estudo de longo prazo realizado com este tipo de protocolo mostrou que ratos alimentados com o milho NK603, da Monsanto, começam a apresentar alterações cancerígenas após os 100-120 dias de consumo.
Vários estudos independentes, publicados em revistas cientificas especializadas, associam os pacotes tecnológicos das lavouras transgênicas e seus herbicidas ao aumento de câncer, a problemas neurológicos, a alterações na taxa de fertilidade e a alterações hormonais de diversos tipos.
E os impactos vão além disso. Não se trata apenas de uma questão de saúde pública. As implicações alcançam o tema da soberania nacional. Precisamos de sementes para plantar as safras de soja e milho, sementes que pertencem a meia dúzia de empresas. Se elas assim decidirem, podem ameaçar o país com desabastecimento.

Ao aprovar transgênicos dessa forma, os representantes da CTNBio seguem uma lógica do mercado ao invés do interesse da sociedade. Por que isso ocorre?
É difícil interpretar as razões que levam os membros da maioria, na CTNBio, a atribuir tamanha confiança aos escassos argumentos apresentados pelas empresas e, ao mesmo tempo, negar atenção a estudos reunidos na literatura independente, que contrariam as campanhas de marketing.
Existem membros ativos da comissão incondicionalmente a favor dos transgênicos, e uma maioria silenciosa que acompanha esses “líderes”, por confiança em suas posições e, em função disso, negando argumentos opostos.
Assim, quando membros que examinam um processo e argumentam que os estudos ali contidos são insuficientes, incompletos, falhos ou mesmo errados, a maioria – que não leu o processo – ignora aquelas afirmativas, dando preferência à fala de outro parecerista que, tendo lido o processo, se diz satisfeito com os argumentos ali contidos.
Não há confronto de argumentos. Não há choque de opiniões com prevalência de documentos e emergência de conscientização coletiva. Há um movimento de bloco, com resultados previsíveis, condicionado pela seleção dos membros da CTNBio.

Por que não há maior participação da sociedade nas reuniões da comissão?
As reuniões são realizadas em Brasilia, em salas pequenas. As plenárias, embora abertas ao público, implicam em custos de deslocamento e estadia que se fazem proibitivos para representações da sociedade civil.
Assim, apenas representantes das empresas monitoram o que se passa naquele ambiente, estimulando movimentos no interesse de seus objetivos.
Isto poderia ser mais equilibrado, utilizando mecanismo simples. Bastaria veicular ao vivo os debates da CTNBio, utilizando um canal aberto como a TV Senado, ou mesmo o Youtube. Não existem impedimentos técnicos para isso.
E, com transmissão ao vivo, os membros seriam mais cautelosos em relação aos argumentos que apresentam e aos desdobramentos de suas decisões.

Por que a decisão de aprovar transgênicos só cabe à CTNBio?
O caráter das decisões ali tomadas não deveria ser definitivo. A CTNBio deveria ser uma instância consultiva, subordinada à avaliação final de profissionais da área de riscos para a saúde, como o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para o meio-ambiente, com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e o Ministério do Meio Ambiente. Considerando ainda questões agronômicas, com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e os riscos socioeconômicos, com o Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Não é aceitável que as decisões resultem de votos de membros que, na maioria das vezes, sequer leram os processos em avaliação e que não terão responsabilidades sobre as consequências de suas decisões.
O Brasil tem instâncias profissionais que devem estar acima dos pareceres da CTNBio, e não submetidas a eles.

A votação do eucalipto foi adiada em março por conta de mobilizações das mulheres do MST. Para que a CTNBio considere os interesses da sociedade, será preciso sempre pressionar e fiscalizar seu trabalho?
A sociedade tem o dever de pressionar e fiscalizar o trabalho de todas as agências do governo e a democracia só crescerá com isso.
Sem isso, os membros da CTNBio podem se sentir à vontade para decidir sobre a autorização de plantio de uma variedade transgênica sem levar em conta a planta modificada e suas conexões com o ambiente, avaliando apenas algum gene que tenha sido inserido e alguma proteína a ele associada.
A CTNBio, com certeza, se inclui entre as áreas críticas no que diz respeito a questões de biorrisco. As decisões ali tomadas têm implicações importantes para a saúde, o ambiente e não podem passar despercebidas, criando, no interesse de poucos, fatos consumados que afetarão a todos.
Felizmente, as mulheres camponesas, principais responsáveis pela Politica Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, chamaram atenção para esta questão do eucalipto, que também se estende ao milho, a soja, ao feijão, ao sorgo, à laranja, alface e a tantos outros produtos em fase de modificação transgênica.
Espero que seu exemplo seja seguido pelo Ministério Público Federal e por comissões de ética das categorias profissionais representadas dentro da CTNBio. Espero que a sociedade aproveite o momento para debater a forma de atuação da CTNBio e suas implicações para o Brasil


Inca se posiciona contra transgênicos e agrotóxicos
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) divulgou, no dia 8 de abril, documento com o posicionamento da entidade acerca dos agrotóxicos e ressalta os riscos da utilização de venenos agrícolas para a saúde animal e para o meio ambiente. Como solução, o Inca aponta a observação do Princípio da Precaução e o incentivo à agroecologia.
O Inca destaca o impacto da utilização de sementes transgênicas [que iniciou de forma criminosa, através do contrabando de material genético] nas lavouras.
“É importante destacar que a liberação do uso de sementes transgênicas no Brasil foi uma das responsáveis por colocar o país no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos, uma vez que o cultivo dessas sementes geneticamente modificadas exigem o uso de grandes quantidades destes produtos.”
O documento cita, também, os últimos resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos da Anvisa, que “revelaram amostras com resíduos de agrotóxicos em quantidades acima do limite máximo permitido e com a presença de substâncias químicas não autorizadas para o alimento pesquisado”.
“Os agrotóxicos são produtos químicos sintéticos usados para matar insetos ou plantas no ambiente rural e urbano. No Brasil, a venda de agrotóxicos saltou de US$ 2 bilhões para mais de US$7 bilhões entre 2001 e 2008, alcançando valores recordes de US$ 8,5 bilhões em 2011 maior consumidor mundial de agrotóxicos, ultrapassando a marca de 1 milhão de toneladas, o que equivale a um consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por habitante 2″.


Considerações sobre o Eucalipto Transgênico H421 da FuturaGene/Suzano Papel e Celulose
por Paulo Yoshio Kageyama, professor titular da USP, agrônomo e doutor em genética


Trata-se de mais um pedido de aprovação comercial de transgênico, agora do eucalipto, requerido pela FuturaGene/Suzano Papel e Celulose, visando ao aumento da produtividade de celulose e diminuindo o ciclo de corte de 7 para 4 ou 5 anos.
Esse pedido, segundo avaliação na audiência pública realizada e manifestações de diversos pesquisadores e instituições idôneas, não apresenta condições mínimas exigidas na análise de biossegurança para sua aprovação.
Sendo o eucalipto uma espécie perene, isso faz com que os problemas de impactos sobre o meio ambiente (água, biodiversidade e solos) e saúde humana (mel e pólen) sejam mais agravados ou desconhecidos quando comparados às culturas agrícolas já aprovadas.
Com relação aos impactos na água, a redução da rotação para 4 ou 5 anos, mantido o atual manejo silvicultural, segundo os maiores especialistas na área, geraria um impacto drástico nas microbacias que recebem essas plantações, agravando drasticamente a atual crise hídrica. A empresa não realizou esses estudos essenciais.
O potencial impacto na fauna de polinizadores (nativos e exóticos) também não foi devidamente estudado, levando em conta que o próprio estudo da empresa demonstra que o pólen do transgênico possui uma concentração muito maior do efeito da transgenia do que outros tecidos da planta, o que pode levar ao colapso das colmeias.
A produção e a exportação de mel no Brasil hoje são diretamente relacionadas ao cultivo do eucalipto, praticada principalmente por milhares de pequenos produtores que têm nessa atividade sua principal fonte de renda. São hoje cerca de 350 mil produtores de mel, sendo 80% deles orgânicos. Com a eventual liberação do eucalipto transgênico, e inevitável contaminação do mel, a exportação de mel orgânico será prejudicada pela não aceitação pelo mercado internacional.
Merece destaque o fato de que a empresa proponente já vem realizando a aplicação aérea de inseticidas no eucalipto, o que no caso dessa cultura arbórea, com cerca de 20 metros de copa, toma outra dimensão ambiental, que já vem afetando pequenos produtores vizinhos às áreas de monocultivo, principalmente na Bahia.
Também merece atenção o fato de que os estudos de campo, que deveriam dar base ao pedido de liberação comercial, em sua maior parte ainda não foram concluídos.
Mais estranho ainda seria o fato de que, em sendo importantes, tais estudos não precisem ser concluídos e isso seja aceito como normal, por membros da CTNBio.
Por último, cabe lembrar que o Brasil assumiu compromisso internacional de não liberar o plantio de arvores transgênicas antes de concluídos os estudos necessários, sobre sua segurança. Chama atenção que, além de não estudar organismos não-alvo, a Empresa não apresentou acompanhamento do ciclo completo destas árvores.
Na prática foram adotados protocolos válidos para o estudo de plantas anuais, como soja e milho, para examinar riscos associados a plantas perenes, que podem permanecer ativas no ambiente por meio século ou mais.


A posição do Greenpeace: Brasil avalia liberar eucalipto transgênico

Variedade desenvolvida pela FuturaGene / Suzano pode ser a primeira árvore transgênica plantada em todo mundo; estudos apresentados são insuficientes para garantir a segurança


O Greenpeace participou hoje da audiência pública sobre o eucalipto transgênico, realizada pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança). O encontro é parte do processo de liberação comercial da variedade de eucalipto geneticamente modificada da FuturaGene / Suzano Papel e Celulose, desenvolvida com o objetivo de produzir mais celulose em menos tempo.
A audiência contou com a participação de representantes das empresas envolvidas, membros da CTNBio, cientistas autônomos, representantes de Ministérios, apicultores e representantes de ONGs e movimentos sociais. Caso o pedido seja aprovado pela CTNBio, o Brasil será o primeiro país do mundo a plantar árvores transgênicas em escala comercial.
Se o uso indiscriminado de soja, milho e algodão transgênicos já é preocupante, o pedido de liberação comercial feito pela FuturaGene / Suzano polemiza a questão ainda mais. Árvores vivem por muito mais tempo e fazem parte de cadeias alimentares naturais e de ecossistemas complexos, e portanto representam ameaças ambientais de longo prazo para ecossistemas ricos em biodiversidade - ameaças que podem ser difíceis (se não impossíveis) de prever e avaliar. O escape de pólen ou semente de árvores de eucalipto geneticamente modificadas pode colocar em risco a vida natural.
    “Não é à toa que nenhum país do mundo tenha autorizado o plantio comercial de árvores transgênicas até hoje”, lembra Gabriela Vuolo, coordenadora da campanha de agricultura e alimentação do Greenpeace Brasil. “É importante que a CTNBio tenha realizado esta audiência pública, porque ficou ainda mais claro que a liberação desta variedade transgênica de eucalipto poderá trazer danos seríssimos para o meio ambiente, para a população e para a economia”, acrescenta ela.
    Durante a audiência, diversas intervenções pontuaram a insuficiência ou inadequação dos estudos apresentados pela FuturaGene / Suzano. Perguntada, a empresa declarou que não realizou, por exemplo, estudos específicos para comparar o consumo de água da variedade transgênica com a variedade convencional. Representante do Ministério do Meio Ambiente afirmou que não foram apresentados estudos de longa duração, e lembrou que os efeitos da soja e do milho transgênicos no médio e longo prazo não foram positivos. Destacou-se também que a Convenção de Biodiversidade, da qual o Brasil é signatário, recomenda cautela com relação a árvores geneticamente modificadas.
    O representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário alertou que os estudos realizados para avaliar os efeitos do eucalipto nas abelhas e na produção de mel são insatisfatórios, pois levaram em conta apenas cinco colmeias de uma única localidade. Cerca de 25% do mel produzido no Brasil vem do eucalipto, e a pesquisa apresentada pela FuturaGene / Suzano não avalia os aspectos nutricionais do mel produzido a partir de pólen trangênico, tampouco sua toxicidade ou alergenicidade.
    A Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (ABEMEL) se mostrou preocupada com a possível liberação: como não há aprovação desta variedade em nenhum outro lugar do mundo, as exportações brasileiras de mel e própolis poderão ser afetadas, numa situação semelhante à ocorrida no México em 2011.
    “Com base nos estudos apresentados, não dá pra dizer que o mel produzido a partir destes eucaliptos é seguro para consumo”, alerta Gabriela. E questiona: “O que vai acontecer com os 350 mil apicultores brasileiros que dependem da produção de mel para sobreviver? E a produção orgânica de mel, própolis, pólen e geleia real? Liberar o eucalipto transgênico sem estas respostas é uma temeridade, uma irresponsabilidade”.
    Selo FSC
    Outra preocupação levantada foi a de que os critérios do FSC (Forest Stewardship Council) não aceitam variedades transgênicas para certificação florestal. A Assembleia Geral do FSC se reúne na Espanha, na próxima semana, e a Campanha Internacional para Parar Árvores Geneticamente Modificadas (CSGET, na sigla em inglês) irá apresentar uma carta, pedindo que o FSC se desvincule da Suzano caso a liberação do eucalipto transgênico seja aprovada no Brasil.

    Preste a ser aprovado, eucalipto transgênico trará mais danos ambientais
    Segundo Paulo Kageyama, integrante da CTNBio, medida é apressada e visa apenas interesses empresariais.

    O Brasil é um dos maiores produtores de celulose do mundo: estima-se que mais de 5 milhões de hectares sejam destinados à plantação de florestas de eucaliptos, que em 2014 fez com que seus produtores lucrassem 600 dólares por tonelada, atividade das mais rentáveis do setor.

    Diversos especialistas chamam a atenção para os danos ambientais que o plantio dessa commoditie causa. A começar pela destruição de toda uma biodiversidade e a substituição por uma única espécie.
    Outro ponto são as enormes quantidades de agrotóxicos utilizados no plantio, responsáveis pela extinção de insetos e animais benéficos como borboletas, besouros, joaninhas, abelhas, anfíbios, tatus, etc. Um destes agrotóxicos mais utilizados nas plantações de eucaliptos é o sulfluramida, fortemente cancerígenos e proibido pela Convenção de Estocolmo, subscrita pelo Brasil e por mais de 152 países.
    Mesmo assim, no próximo dia 5 de março, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) colocará em pauta a votação que libera o cultivo de eucalipto transgênicos no Brasil.
    Para Paulo Kageyama, integrante da CTNBio e professor da Universidade de São Paulo, “esse projeto não traz benefícios à comunidade como um todo, nem a própria eucaliptocultura e aos produtores de mel. Muitas empresas do setor já reconheceram que essa é uma liberação prematura. A única grande interessada e justamente a única empresa beneficiada por esse processo é a FuturaGene/Suzano”, afirma.
    Confira abaixo a entrevista:
    Mesmo sem as certificações necessárias, o H421 (sigla científica do eucalipto transgênico) foi aprovado para comercialização. Sendo assim, quais os riscos que ele representa para a saúde humana e para o meio ambiente?
    O eucalipto transgênico tem várias falhas, mas a principal dela é a contaminação do mel. O Brasil é um grande produtor de mel de eucalipto.
    Alguns setores tentam minimizar essa contaminação, mas não sabemos qual o real impacto disso. Isso sem contar com o uso de agrotóxicos em larga escala nos monocultivos. De tão nocivos ao ambiente e fortemente cancerígenos são de uso proibido por organismos internacionais.
    Sem falar na destruição do solo, do bioma nativo, desvio de nascentes, abertura de estradas clandestinas para manuseio das árvores; todos esses fatores afetam diretamente a saúde humana.

    Então o que está por trás do debate que envolve a liberação do plantio dos eucaliptos transgênicos no Brasil?
    É a primeira vez que se aprova o eucalipto transgênico. Essa busca pela primazia do domínio é o que faz essa aprovação sair a qualquer custo, mesmo com todas as falhas apresentadas. A valorização da biotecnologia para domínio comercial de um produto transgênico que é único no mundo.
    Temos muitas criticas a esse processo tecnológico, que não traz benefícios à comunidade como um todo, à própria eucaliptocultura, aos produtores de mel e etc. Muitas empresas do setor já reconheceram que essa é uma liberação prematura. A única grande interessada e justamente a única empresa beneficiada por esse processo é a FuturaGene/Suzano.

    Hoje, 80% do mel brasileiro é certificado como orgânico. A liberação do eucalipto transgênico tende a interromper essa lógica. Qual o prejuízo que isso representa para o setor apicultores brasileiros?
    Os critérios do Forest Stewardship Council (FSC) não aceitam variedades transgênicas para certificação florestal. Só no ano passado, o Brasil produziu 16 mil toneladas de mel de eucalipto. A produção será contaminada após a liberação do transgênico.
    Alguns setores tentam minimizar essa contaminação, mas ainda não sabemos qual o real impacto disso. Mas já sabemos que isso representará um desastre para a apicultura brasileira.

    O Brasil é o principal consumidor de agrotóxicos do mundo. Há alguma relação entre os eucaliptos transgênicos e os agrotóxicos? De que maneira eles podem contribuir com o aumento do uso de venenos agrícolas?
    Em uma plantação de eucaliptos quase não se encontra biodiversidade. Não há sobrevida de insetos, animais.
    São usados em grande escala agrotóxicos à base de glifosato e de sulfluramida. Com o aumento em grande escala do monocultivo, mais o decréscimo no tempo de produção, o aumento na utilização de agrotóxicos é evidente.

    Ao plantar eucaliptos que utilizam esses agrotóxicos, o Brasil passa por cima da Convenção de Estocolmo. Vale lembrar que o texto foi aprovado pelo país em 2004. Isso não é um contrassenso?
    Sim, sem dúvida. O Brasil referendou o documento em 2004 e em 2006, na 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (Cop-8), que foi sediada Curitiba. O documento apresentado na época exigia análise de risco, regulamentação, entre outros pontos para comercialização.
    Caso essas exigências não fossem cumpridas, o projeto de aprovação do H421 ficaria como moratório. Não é o que estamos vendo acontecer. É uma posição, no mínimo, ambígua do Brasil.  
     
    Estima-se que, em média, cada árvore de eucalipto absorva cerca de 30 litros de água potável ao dia. Com a atual crise da água enfrentada pelo país, o que essa aprovação representa para o nosso sistema hídrico defasado?
    O principal especialista da Esalq afirmou pessoalmente que o maior consumo de água acontece nos primeiros quatro anos de plantio.
    O eucalipto transgênico tem o seu processo de crescimento encurtado. Ou seja, entre o plantio e a colheita é quando ocorre o maior consumo de água pela árvore.
    Com a crise hídrica que enfrentamos não só no Brasil, mas no mundo, é um erro, um contrassenso a liberação da comercialização do eucalipto transgênico.



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