domingo, 19 de abril de 2015

Impactos ambientais do maior incêndio de SP, no terminal da Ultracargo no Porto de Santos, podem durar 5 anos



O incêndio, o rescaldo e os resíduos, artigo de Beatriz Carvalho Diniz para Portal Ecodebate

Durou 9 dias o incêndio na Ultracargo [na área industrial da Alemoa, em Santos]. Os impactos ambientais e sociais começaram a ser noticiados quando completou 1 semana. Peixes morrendo, combustível vazado, fumaça, fumaça, fumaça, chuva ácida se chover. A empresa foi multada em 22 milhões de reais e terá de cumprir 5 exigências, entre elas a revisão de seu Plano de Ação de Emergência e de seu Plano de Gerenciamento de Riscos. As dificuldades para apagar o fogaréu indicam como a empresa deveria lidar com riscos para evitar a ocorrência, para não alastrar, para conter e para se relacionar com moradores, órgãos e imprensa. E a conduta protagonista seria o adequado pela gravidade da situação e pela grandeza dos impactos negativos, com prejuízos econômicos, ambientais e sociais que, no final das contas, são compartilhados com a sociedade.

O Brasil tem uma bela e avançada legislação ambiental. Quando ouvimos ôtoridades ou empresários reclamando de licenciamento, estudos de impactos, planos de gestão de riscos e programas de ações preventivas, e vemos um desastre como o incêndio nos tanques de combustíveis da Ultracargo, fica fácil entender que estão errados. O plano para gerenciamento de riscos, com análises quantitativa e qualitativa, com classificação de riscos aceitáveis e não aceitáveis, e um programa de prevenção e controle de acidentes são instrumentos que dariam à empresa as condições de seus gestores terem conduta protagonista antes, durante e depois de um desastre ambiental.

Mas, não basta ter um instrumento de gestão ambiental robusto na teoria, tem que manter atualizado e tem que pôr para funcionar no cotidiano da empresa e na precisão. E estando atualizado e sendo executado, moradores do entorno sabem o que fazer em diferentes situações, pois são treinados previamente. Possíveis impactos são anunciados para a imprensa, junto com orientações básicas de segurança, com a transparência que, pela confiança, anula crises e dispersa alarmes falsos ou sensacionalismos.

Consultamos no site da Ultracargo a seção sobre seus programas, normas e certificações. Entre os programas está o EPA [Examine, Planeja e Aja], que “tem o objetivo de eliminar as situações de risco, estimulando o planejamento adequado à tarefa, garantindo que as atividades de rotina sejam efetuadas com fundamentos de segurança.”, e ponto final. Informações sobre ações executadas ou previstas no programa? Orientações? Tem não… Considerando a periculosidade do negócio, o site deveria ser um canal dinâmico de comunicação com stakeholders, porém, não é aproveitado pela empresa para gerar valor.

A comunicação reflete a gestão de uma empresa, e a gestão determina sua reputação. Apagado o incêndio, o rescaldo cabe aos moradores. É importante que conheçam o plano de gerenciamento de riscos, as ações dos programas, que peçam diálogos efetivos. E se a Ultracargo não apresentou ainda, então, taí a oportunidade. Aliás, essa recomendação serve para qualquer pessoa que more perto de uma indústria, de um complexo industrial, e as associações de moradores e os vereadores podem, e devem, ajudar para que a sociedade tenha acesso e compreensão sobre riscos, responsabilidades e a importância de dialogar.

E é bom ficar de olho no que restou. Outra exigência, importantíssima, é relativa aos de resíduos gerados no incêndio, a empresa vai ter que apresentar um plano específico antes da remoção deles. O local de disposição tem que ser aprovado. Essa operação requer um Certificado de Movimentação de Resíduos de Interesse Ambiental. Sabe por que? Para evitar mais problemas, para proteger o ambiente em que vivemos e do qual tiramos tudo que precisamos, ou seja, para o seu bem estar.

Segue o link para você conferir os motivos da multa e as ações que a Ultracargo deve cumprir, anunciados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) na quarta 15/04 [matéria do G1 – Cetesb multa Ultracargo em R$ 22,5 milhões após incêndio em Santos]:

Cetesb multa Ultracargo em R$ 22,5 milhões após incêndio em Santos

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) anunciou no começo da tarde desta quarta-feira (15) que a Ultracargo será multada em R$ 22,5 milhões pelo incêndio que atingiu o Terminal da Alemoa, em Santos, no litoral de São Paulo, entre os dias 2 e 9 de abril. A empresa confirma que recebeu a autuação e vai analisar o documento.

De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, a multa foi dada pois a empresa provocou danos ambientais e colocou a população em risco com o incêndio na zona industrial de Santos. A penalidade se baseou nos artigos 61 e 62 do decreto federal 6514/08, que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98).

Em nota, a Cetesb diz que a Ultracargo foi multada por lançar efluentes líquidos no estuário de Santos, em manguezais e na lagoa ao lado do terminal, além de emitir efluentes gasosos na atmosfera, colocar em risco a segurança das comunidades próximas, dos funcionários e de outras instalações localizadas na mesma zona industrial. A Cetesb diz também que a Ultracargo ocasionou incômodos significativos no bem-estar da população e provocou a mortandade de milhares de peixes, de várias espécies, no estuário e no rio
Casqueiro, em Cubatão (SP), prejudicando a pesca na região.

Ainda segundo a Companhia, outros agravantes também foram levados em consideração, como a interrupção das atividades de outros terminais da região e do tráfego de caminhões no Porto de Santos, além dos transtornos causados ao tráfego urbano e operações portuárias.

Peixes apareceram mortos durante o incêndio que atingiu a Alemoa (Foto: Robynson Señoraes / G1)

Segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Estado, além da multa, a Ultracargo terá de cumprir cinco exigências, que são:

1. Condicionar qualquer remoção de resíduos ou de produtos gerados no incêndio à apresentação de plano específico para esse fim pela Cetesb, que também terá de aprovar o local de disposição desse material, ao emitir o Certificado de Movimentação de Resíduos de Interesse Ambiental.

2. Adotar medidas adequadas na operação de rescaldo do incêndio, para que não haja poluição atmosférica e emissão de substâncias odoríferas fora dos limites do terminal.

3. Realizar novo licenciamento ambiental, nos termos da legislação vigente, para a substituição, adequação ou reforma das instalações e equipamentos colapsados (tanques) ou não.

4. Revisar, no prazo de 30 dias, contados a partir de 14 de abril, o Plano de Ação de Emergência e o Plano de Gerenciamento de Riscos, apontando as falhas que resultaram no incêndio ocorrido no terminal, bem como as medidas preventivas a serem implementadas;

5. Efetuar, no prazo de 30 dias, o monitoramento das águas superficiais do estuário de Santos e lagoa contígua ao terminal, bem como da vegetação do entorno, inclusive de manguezais eventualmente impactados, adotando medidas necessárias para sua recuperação.

Além disso, a Ultracargo terá que contratar uma empresa especializada para fazer o resgate e atendimento emergencial da fauna silvestre aquática e terrestre, bem como o monitoramento de todos os grupos de fauna da área de interesse direto e indireto do local do incêndio, com apresentação de cronograma de atividades, projeto de translocação e eutanásia, e anuência do Departamento de Fauna da Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais, órgão da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, e da Polícia Ambiental, para a translocação das espécies que ainda poderão sofrer impacto após o incêndio.

Resposta
Em nota, a Ultracargo confirma que recebeu a autuação da Cetesb referente ao incidente ocorrido em parte do terminal que opera em Santos. A empresa irá avaliar o documento, suas exigências e responderá à autoridade no prazo determinado. A Companhia segue prestando todos os esclarecimentos necessários e continuará em cooperação com as autoridades

Segundo a Companhia Ambiental do Estado, avaliação dos danos começa depois do rescaldo

Os impactos ambientais do incêndio que atingiu seis tanques de uma empresa de Santos, na semana passada, poderão durar pelo menos cinco anos, contaminando plantas e animais. Além disso, com a emissão de poluentes na atmosfera, existe a possibilidade de ocorrência de chuvas ácidas, o que comprometeria a vegetação da Serra do Mar. O alerta é do zoólogo Marcelo Pinheiro, do Campus Litoral Paulista da Unesp.

O incêndio no terminal da Ultracargo — o maior já registrado no Estado de São Paulo — só foi declarado extinto pelo Corpo de Bombeiros na sexta-feira (10), nove dias após ter começado.
Segundo a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado), até agora todos os esforços haviam sido concentrados no controle do incêndio e a avaliação dos danos ambientais terá início só após o rescaldo. 

Mas, segundo Pinheiro, é provável que a situação da área de estuário e dos manguezais, que já era crítica, fique ainda pior: bilhões de litros de água que foram usados no resfriamento dos tanques voltaram para o ecossistema aquático com resíduos do combustível e dos produtos químicos que compõem a espuma usada para debelar o fogo.
"Não podemos ainda prever com precisão quanto vai durar o impacto. Mas, dependendo da composição química da espuma e da quantidade utilizada, vai levar de cinco a dez anos para que a natureza se recupere e volte à situação original. Na água, esse produto poderá reagir com outros resíduos químicos, formando compostos mais tóxicos. A contaminação pode repercutir por toda a cadeia alimentar", disse Pinheiro.
— Além disso, os poluentes lançados na atmosfera podem formar a chuva ácida, que queima o tecido das folhas e impede a fotossíntese, matando a vegetação.

Segundo o gerente da Agência Ambiental de Santos na Cetesb, Carlos Eduardo Padovan Valente, ainda não foram detectadas alterações consideráveis na qualidade do ar. Mas a quantidade de oxigênio disponível na água foi reduzida dramaticamente e a temperatura subiu 7°C acima do tolerável para os peixes, o que causou a morte de oito toneladas deles.
— Desde domingo passado não temos mortes de peixes.

As consequências imediatas, porém, são visíveis na região do incêndio. Na Favela Chico de Paula, no mangue ao lado do Porto de Santos, o cheiro lembra o de posto de combustível. Nos carros, moradores apontam marcas de pingos pretos e a fuligem vinda do pátio da Ultracargo, a menos de 500 metros de palafitas e barracos, onde moram cerca de 30 mil pessoas.

A fumaça preta que cobriu a comunidade também agravou a situação de moradores que sofrem de doenças respiratórias. "Estou com uma dor de cabeça que não passa. Quando bate um vento e a fumaça vem com mais força, a gente tem até de fechar a janela", disse a dona de casa Ana Paula Palhas, de 38 anos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



As consequências imediatas são visíveis na região do incêndio

Pesquisador critica a maneira como as autoridades ambientais estão tratando o assunto

Mais de 8,5 toneladas de peixes morreram por contaminação, e chuva ácida também é esperada. Pesquisadores classificam impacto como “devastador”.

O Corpo de Bombeiros mantém o combate a pequenos focos de incêndio que persistem nas bacias de contenção, que ficam no entorno dos cilindros atingidos pelo incêndio no pátio da Ultracargo, no complexo industrial da Alemoa, em Santos. O incêndio atingiu cinco dos 175 tanques de combustíveis.
Os moradores do bairro Alemoa, o mais próximo da unidade santista da empresa, puderam permanecer em suas casas, mas estão com medo. Além da fumaça escura, eles relatam o aparecimento de peixes mortos no rio Casqueiro, que corta a Alemoa e deságua na baía na Santos.
“Estão recolhendo tudo, mas a cada dia aumenta o número de peixes mortos que aparecem boiando”, conta Maria Lúcia Cristina Jesus Silva, presidente da Associação de Moradores do Alemoa. “O cheiro de peixe podre é muito forte.”

Um laudo da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) confirma o impacto ambiental do incêndio. Análises feitas em vários pontos de saída de água para o combate ao fogo indicam que peixes morreram devido à baixa oxigenação e temperatura elevada.
“A esses dois fatores soma-se a presença de combustível, constituindo as causas mais prováveis da mortandade de peixes ocorrida no estuário”, comunicou em nota nesta quarta-feira (08/04) Cetesb. A companhia informou à DW Brasil que recolheu 8,5 toneladas de peixes mortos.

Segundo a Cetesb, a medição feita na terça-feira no bairro Bom Retiro, a 3 km do local do incêndio, registrou qualidade boa, “indicando que a fumaça não está afetando a comunidade no entorno”. Questionada pela reportagem, a companhia negou que a poluição causada pelo fogo nos tanques de combustíveis possa estar sendo carregada para outro lugar.
“Na atmosfera, os poluentes estão presentes, mas ficam restritos à área do evento. No entorno, ou seja, num raio acima de 3 km (onde existem residências), o monitoramento da qualidade do ar feito pela Cetesb não acusa concentrações acima dos padrões legais, ou seja, não oferece risco à população”, respondeu a companhia por e-mail.

Poluição e chuva ácida
Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São Vicente, Baixada Santista, discordam. “A direção dessas partículas depende da dinâmica atmosférica, em alguns momentos elas seguem na direção do mar, pairam sobre a Serra do Mar, ou sobre a cidade, por exemplo”, analisa Davis Gruber Sansolo, coordenador do laboratório de planejamento ambiental e gerenciamento costeiro.

O pesquisador critica a maneira como as autoridades ambientais estão tratando o assunto. “É de uma irresponsabilidade absurda. Eles preferem ter uma postura política de diminuir o problema sem mesmo ter consciência da dimensão. Deviam ter um diálogo sincero com a população e deixar claro que a dimensão do problema ainda não é conhecida.”

Além da mortandade dos peixes, outro efeito de curto prazo esperado por pesquisadores é a chuva ácida. “Como há queima de hidrocarbonetos, a reação que dá com a água na atmosfera precipita chuva ácida. A gente não sabe exatamente qual é a intensidade do impacto que a precipitação desses poluentes pode causar tanto na saúde humana como nos CORPOS d´água”, analisa Sansolo.
Parte dessas partículas já pode ter atingido o solo durante uma chuva que caiu na região no último sábado. 

Caso essa chuva caia sobre a Serra do Mar, muito próxima ao local, haverá impacto sobre a floresta, preveem os pesquisadores. “Mas tudo terá que ser monitorado ao longo do tempo. Os efeitos na água, no ecossistema e na recomposição dele”, pondera o pesquisador. “Mas os efeitos são devastadores.”

Região estratégica
A Baixada Santista tem um histórico de problemas ambientais. As principais fontes de poluição são as indústrias, o despejo de esgoto sem tratamento e as atividades no porto. Ao mesmo tempo, é um ponto estratégico para o país: liga todas as regiões produtivas do planalto paulista ao mundo.
O estuário, local de transição entre rio e mar, é um ambiente de reprodução de espécies marinhas. Em Santos, várias se multiplicam, principalmente nas áreas de mangue, para depois habitar a área marinha. O local também é um receptor da poluição provocada pelo incêndio.
Especialistas ainda não conseguem dizer o que pode acontecer no ecossistema a longo prazo. Segundo o Núcleo de Estudos sobre Poluição e Ecotoxicologia da Unesp, a poluição já iniciou um processo de mortandade total sobre vários organismos no estuário.

Ainda não se sabe o que provocou o incêndio no terminal da Ultracargo. O Ministério Público Estadual instaurou inquérito para apurar as responsabilidades e investigar os impactos ambientais causados.
Para a promotoria, a culpa da empresa é clara, mesmo que o fogo não tenha sido intencional. Por meio de nota, a Ultracargo informou que “assim que as circunstâncias permitirem, a empresa avançará na investigação para apurar as causas do incêndio”.


Seis tanques de combustíveis foram atingidos pelas chamas e, nesta segunda-feira, bombeiros ainda tentavam combater o incêndio em dois delesFoto: Fernando Nascimento / Sigmapress / Estadão Conteúdo

A cortina de fumaça preta que cobre parte do céu de Santos (SP) deixa apreensivo quem a testemunha. Moradores de bairros vizinhos ao depósito da empresa Ultracargo, cujos tanques com 6 milhões de litros de combustíveis cada estão em chamas desde quinta-feira, temem os efeitos do incêndio na saúde e no meio ambiente. Enquanto isso, a fuligem mancha paredes, e a qualidade do ar se deteriora.

A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) classificou, nesta segunda-feira, a qualidade do ar na região do incêndio como N3-Ruim, em uma escala que vai de N1-Boa a N5-Péssima. A liberação de gases poluentes, resultado da queima de combustíveis como gasolina e etanol, pode causar efeitos imediatos no sistema respiratório. São substâncias que estão diariamente na atmosfera em função do próprio uso de veículos, por exemplo, mas que apresentam riscos maiores quando a exposição é em quantidades expressivas e por longos períodos.
— Um acidente deste tipo tem consequências imprevisíveis. Não sabemos, por exemplo, quanto tempo essa fumaça ficará no ar. Provavelmente, a longo prazo, haverá consequência principalmente para quem já tem alguma doença respiratória — aponta a diretora do Instituto de Toxicologia e Farmacologia da PUCRS, Maria Martha Campos.

O contato com o dióxido de enxofre — substância resultante da queima de gasolina — pode causar, de imediato, tosse seca, irritação e ardência nos olhos, nariz e boca em quem está mais próximo ao foco do incêndio. Conforme a pneumologista do Hospital de Clínicas Marli Maria Knorsd, o efeito seguinte seria a inflamação das vias aéreas e até mesmo falta de ar. Porém, ela alerta que as consequências dependem diretamente da intensidade da exposição aos gases poluentes. Marli diz, ainda, que estudos mostram o agravamento de problemas cardiovasculares em momentos de picos de poluição.
— Se a concentração (de gases poluentes, como dióxido de enxofre) é alta, pode tanto causar doenças em quem não tem, quanto novos sintomas em quem já sofre de alguma, como asma ou bronquite. Se a pessoa já tem uma doença respiratória ou cardíaca, ela faz parte de um grupo mais suscetível — diz Marli.
Em casos de alta exposição, a inalação dos poluentes pode evoluir para um edema pulmonar e, em quem sofre de doença cardiovascular, causar até um infarto.

Incêndio causa também danos ambientais
Conforme a Cetesb, as condições meteorológicas de Santos favorecem a dispersão de partículas — ou seja, as correntes também podem prejudicar o ar de localidades vizinhas. Especialistas alertam que, caso a qualidade piore, moradores mais próximos devem ser orientados a deixarem as suas casas.

Outro risco diz respeito ao dano ambiental. Um relatório preliminar da Ultracargo aponta que o incêndio provocou a contaminação da água do canal do estuário de Santos e pode ser a causa da morte de milhares peixes. "A água usada para conter as chamas foi despejada no estuário pelo sistema de escoamento da Ultracargo contaminada com combustível, provocando alteração da temperatura e saturação do oxigênio, provavelmente causando a morte dos peixes", divulgou a Cetesb. Para o coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Unisinos, Carlos Alberto Moraes, esse é o primeiro de uma série de possíveis efeitos decorrentes do acidente.
— O hidrocarboneto (combustível com base no petróleo) atinge a água, dificulta a luminosidade do céu e a transferência de oxigênio, o que leva rapidamente à mortandade de peixes por sufocamento e, também, por ficar com o óleo impregnado na pele — explica. — Já a questão da fuligem, que com o vento é disseminada, pode gerar um aceleramento de corrosão das espécies nativas, queima das folhas das árvores e a própria geração de chuva ácida decorrente do contato desses gases com a umidade.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) afirmou, por meio de nota, que analistas da equipe de emergências ambientais de São Paulo vêm acompanhando diariamente o acidente, mas que ainda é muito cedo para fazer qualquer avaliação sobre impactos ambientais.



Incêndio em tanques de combustível provocou enorme desastre ambiental na Serra do Mar e manguezais. 

Por que “Folha”, “Estado” e “Globo” continua a ocultá-lo?

O incêndio que eclodiu às 10 horas da manhã de quinta-feira (2/4), nos tanques da distribuidora Ultracargo, em Santos, pode resultar em grave desastre ambiental, mas pouca gente vai ficar sabendo sua real dimensão.
Três dias depois, os principais jornais do País pareciam não haver se dado conta da intensidade e das consequências do fogo que consumia milhões de litros de combustíveis na ilha da Alemoa.

Uma espécie de sonolência atingiu as redações, que em outras ocasiões investigaram e deram grande destaque a acidentes desse tipo.
A exceção tem nome: já no dia seguinte à primeira explosão, o Expresso Popular, que pertence ao grupo A Tribuna, de Santos, estampava na capa apenas dois títulos. Na manchete, sobre uma foto de página inteira, resumia a gravidade do incêndio: “Sem controle”.

No pé da página, informava: “Filho caçula do governador Alckmin morre em queda de helicóptero”.
Entre os aspectos mais importantes, destacavam-se em subtítulos dois fatos que os principais jornais do País deixaram de lado: “Combate ao fogo não tem dia nem hora para acabar”; e “Há risco de dano ambiental na Serra do Mar”.

Nesta segunda-feira (6/4), quatro dias depois que o jornal popular da Baixada Santista havia alertado para a grande dimensão do desastre, o Estado de S. Paulo admite, em nota de duas linhas na primeira página, que “Incêndio em Santos ameaça meio ambiente” e a Folha de S. Paulo posta uma foto com legenda informando que, 80 horas após a primeira explosão, observa-se a morte de peixes e moradores são obrigados a deixar suas casas.

Ou seja: os grandes jornais levaram três dias para admitir a gravidade da situação, detectada no primeiro momento pelo Expresso Popular.

Ainda no domingo, o site Globo.com informava, erradamente, que um laudo preliminar da Cetesb apontava a ocorrência de poluição grave na água da região; mais tarde, a informação foi corrigida: o laudo era da Ultracargo, não da Cetesb.

Dois dias antes, a empresa estatal de controle ambiental havia divulgado nota, sem contraponto dos jornais, afirmando que a fumaça que alcançava 50 metros de altura e espalhava cinzas e partículas incandescentes pela região, não representava perigo.
Movidos a press-release


Ainda no domingo, os dois principais jornais paulistas haviam noticiado que o governo do Estado decidira criar um gabinete de crise para acompanhar a situação.
A maior parte das iniciativas era tomada pela Prefeitura de Santos, que desde o primeiro momento havia mobilizado a Petrobras e órgãos federais.

O governo paulista parecia paralisado pela morte do piloto Thomaz Alckmin, filho do governador de São Paulo, ocorrida na tarde da mesma quinta-feira, em um acidente de helicóptero.
Compreende-se que o governador estivesse fora de combate, e a ninguém ocorreria ir perguntar a ele, em meio ao luto, o que estava sendo feito para controlar a situação na Baixada Santista e manter a população informada sobre o desenrolar do incêndio.
Mesmo porque, com o feriado da Páscoa, era previsto grande movimento de turistas em direção ao litoral. Mas o Estado tem um vice-governador, secretários, técnicos, e a empresa de controle ambiental.

Os jornais simplesmente compraram a primeira versão oficial, segundo a qual não era preciso tomar providências especiais nem nos bairros mais próximos ao terminal da Alemoa, e não estranharam o fato de que um gabinete de crise só foi montado no terceiro dia após a primeira explosão.
Ressalte-se que o grupo de acompanhamento não inclui um representante da Secretaria da Saúde, mas tem entre seus participantes o sub-secretário de Comunicação.

O perfil é muito parecido com o do gabinete de crise que foi instituído mais de um ano após o esgotamento das principais reservas de água na região metropolitana de São Paulo.
Em condições normais de bom jornalismo, não teria escapado às redações o fato de que, não apenas em São Paulo, mas na administração pública em geral, a gestão de crises quase sempre se limita ao potencial de estrago que as emergências podem provocar na imagem dos governantes.

No caso do incêndio em Santos, as informações mais importantes para que o cidadão tomasse suas precauções foram dadas no primeiro momento pelo Expresso Popular.
Os grandes jornais mandaram repórteres e fotógrafos para registrar o fogo espetacular, mas rechearam suas reportagens com os press-releases do governo.
Quase dá para ver as cinzas do bom jornalismo sob as chamas da Alemoa.


Na Folha: Sindicato indicou falhas na ultracargo 7 meses antes de incêndio



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Um comentário:

Meilin Campana disse...

Adorei e otimo ajudou bastante no meu trabalho #Perfeito