sexta-feira, 1 de maio de 2015

Quando a sustentabilidade me deixou na mão 03: composteira doméstica




Há alguns meses, li uma notícia acerca da distribuição gratuita em São Paulo de composteiras domésticas para reduzir o lixo orgânico em circulação:
Hypeness: composteiras gratuitas são a aposta de São Paulo para reduzir lixo orgânico em aterros sanitários.

Longe desse blog amador criticar uma iniciativa tão bem intencionada, mas eu tive uma composteira e não me atendeu. Vendi a mesma no Mercado Livre e com isso, amortizei meu prejuízo.

Vou descrever o que aconteceu na base do passo a passo e que cada um tire suas próprias conclusões:

Faz alguns anos e na época, havia um principal fornecedor, seu site era muito respeitado, com vídeos no Youtube e até um ciclista simpatizante com uma mini composteira na garupa de sua bicicleta, o que passava a impressão de que com as pedaladas, o processo se aceleraria, como uma ventoinha.
Assisti aos vídeos e vi universitários calmos e sorridentes misturando à terrinha tenra, folhas de alface, pedaços de tomate e folhinhas de agrião e rúcula.

Empolguei-me, encomendei uma (que não foi barata) e, por estar de viagem agendada ao Solo Sagrado de Guarapiranga, administrado pela Fundação Mokiti Okada, aproveitei ainda para trazer um acelerador de compostagem produzido pela Korin, que aceleraria a compostagem de toneladas em fazendas da própria Korin.

A composteira chegou em uma semana e com ela um manual explicando que nem todo o lixo orgânico produzido na casa poderia ser compostado, como carnes, ossos, frituras, lácteos, derivados de trigo como artigos de padaria, nozes, frutas cítricas e suas cascas, plantas doentes como aquele buquê que morreu, alho e cebola e comida industrializada por exemplo. Fezes de animais e o óleo residual da fritura nem pensar.
O que poderia ser colocado: talos e folhas de vegetais, serragem sem verniz, poda de grama e comida cozida desde que em pequena quantidade.
Enfim, as folhinhas de alface e rúcula dos vídeos promocionais, que eu já enterrava nos meus vasos normalmente, fosse o caso dos meus cães não estarem no clima.

Comecei a compostar ignorando algumas dessas exigências, como cascas de ovos, e nada acontecia, só as mesmas folhinhas e restos de arroz integral, feijão e tubérculos cozidos realmente compostavam e se biodegradavam. Observei que a biodegradação era ainda mais lenta do que seria num vaso simples da varanda, sem idas e vindas de minhocas e devidamente exposto ao ar livre.
Apelei ao acelerador de compostagem da Korin segundo a recomendação do fabricante, que exigia uma pré-fermentação com mascavo, e a mágica realmente aconteceu: no período de uma noite, o que era uma terra seca com meia dúzia de minhocas, virou um humus muito úmido de colocar qualquer esterco no chinelo.

E com esse humus hiper úmido, meus problemas começaram. A composteira, que era do tamanho maior, produz chorume e com ele, uma revoada de moscas foi atraída. Por ser grande e pesada, a mesma ficava apoiada no chão da minha então área de serviço. Dias depois, quando levantei a composteira para lavar a área, havia uma colônia de larvas que levei meses para me ver livre. As larvas inclusive vinham da primeira camada de terra, a que recebe os alimentos. Era possível ver as larvas escalando as paredes da composteira e empurrando a tampa para tentar sair. Enquanto a composteira esteve em minha casa, eu tive larvas prolíficas e dispostas e explorar o meio.

Pior, o lixo que eu produzia não era devidamente compostado em velocidade diretamente proporcional. Para fazer um simples bolo integral com meia dúzia de bananas, a composteira (que era do tamanho maior, sugerida para famílias de 4 a 6 pessoas), ficava entupida com as cascas e nada mais poderia ser adicionado por dias. E lembre que estamos falando apenas do lixo aprovado, fossem as fezes dos meus cães e o quadro seria um pesadelo.

Foi uma experiência que não deu certo em milhares de aspectos, mas principalmente porque eu nem teria como dar vazão à terra adubada em um apartamento de dois quartos, mesmo mantendo uma hortinha caseira em vasos na varanda.

Meses depois, conheci uma família de fazendeiras mulheres, muito animadas e fortes, entusiastas da compostagem. Fui conhecer a composteira delas e era o equivalente a uma piscina em meio a vasto matagal, bem atrás da horta. Detalhe importante: a terra era permanentemente exposta ao sol e à chuva. Uma vez por dia, um dos encarregados revirava aquela terra com o ancinho, cobria tudo com folhas secas e só. Não havia construção em alvenaria, manta de impermeabilização, escape com torneirinha para o chorume, etc. Não passava de um buraco no solo onde o bioextrato era processado naturalmente e os itens proibidos (fezes de animais, ossos, cascas de limão) faziam parte do processo normalmente, como papelão e até uns grampos metálicos. Aquela terra gerava o melhor adubo que já vi.
Explicaram-me que o sol era parte importante do processo, que acelerava tudo e eliminava os fungos e bactérias indesejáveis, porque terra sem sol e ar livre apodrece. Daí as moscas e larvas no meu apartamento.

Como eu tenho 3 cães, meu lixo orgânico doméstico é quase inexistente, quase todos os restos são comidos por elas como forma de complementar a alimentação, eu precisava da composteira justamente para o que ela não faz, dar um destino rápido às cascas de laranja, banana, demais itens complicados e, se possível, as fezes de animais, que entopem o vaso por serem mais secas.


Antes de começar essa postagem, voltei a pesquisar o assunto e encontrei muitos modelos de composteira na internet. Vou falar um pouco sobre cada um deles baseada estritamente na minha experiência pessoal.

As duas fotos abaixo deveriam ser proibidas pelo CONAR, associar a funcionalidade da composteira ao filtro de barro, assim como a de um triturador, não passa de propaganda enganosa.







A composteira padrão em foto retirada do site da Tramontina, foi acreditando nisso que comprei uma composteira de outro fabricante, a mágica automática que transforma lixo úmido em terra tratada num ambiente quase esterilizado.









O que eu vi realmente funcionar, além da composteira rústica rural: a composteira elétrica e a solar em larga escala:







Para brincar e estimular crianças sem acesso à áreas rurais, composteiras a partir de materiais reaproveitados, como galões de água, baldes plásticos de tinta-cola, pallets, etc. As versões em pallets são replicadas em hortas urbanas com muito sucesso em tamanhos ainda maiores, observe que no fundo essa versão em pallet não tem nada a ver com a composteira de 3 andares plásticas e sim com a composteira rural das minhas queridas fazendeiras: recipiente único, ventilado e parcialmente iluminado naturalmente.









O que pode ser o futuro da compostagem doméstica urbana, a composteira portátil elétrica substituindo os antigos incineradores, ideal para prédios com horta urbana em telhado verde:





Mais uma vez, nada contra a compostagem, uma técnica milenar e muito eficaz em áreas rurais. Mas, dentro de apartamento, a coisa não é tão simples e uma caixa plástica não vai simular um ecossistema inteiro.
Se você tem uma composteira portátil  na sua varanda e não quer outra vida, peço inclusive que deixe aqui seu comentário relatando a experiência.








Mais informação:
Como funciona um aterro sanitário
"Eu queria trabalhar com sustentabilidade"
Aterro sanitário para cogeração de energia limpa
A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível
O mito da embalagem sustentável: manual básico de reciclagem
Quando a sustentabilidade me deixou na mão 02: filtro de barro
33% do que você compra no mercado, vai para o aterro sanitário
Você compra demais ou "De onde vem o lixo produzido no mundo?"
Quando a sustentabilidade me deixou na mão 01: abiossorventes em alto mar e no meio do mato
Lâmpadas, termômetros e baterias: onde descartar itens com mercúrio e o que fazer em caso de intoxicação


5 comentários:

priscilla disse...

Eu tenho uma composteira no apartamento. Foi feita de baldes de açaí de 10l, que me foram doados de uma restaurante. Consegui umas minhocas também doadas. Custo zero.
Realmente a composteira não dá conta de uma família de 4 pessoas, mas já reduziu muito do meu lixo orgânico e está funcionando muito bem. Essa é a segunda que tenho, a primeira não soube manejar direito e as minhocas morreram. Mas essa está indo perfeitamente bem: sem cheiro, sem moscas, sem larvas...

alexandre e alana disse...

Tenho 3 composteiras em casa, sendo duas no sistema de caixas e uma no chão. Meu problema é que falta resíduos, assim além do lixo de casa, recolho o lixo minha tia e agora dos meus pais.
A compostagem acontece e funciona, mas temos que entender o sistema. Basicamente: vermicompostagem com caixas e baldes, com altura de no máximo 40 cm. Neste sistema as minhocas são fundamentais.
O outro tipo de compostagem (acredito que seja o sistema da figura no início do artigo)precisa de uma altura de 70 a 200 cm, com mistura de resíduos ricos em nitrogenio e carbono.Se faltar um dos dois ou faltar ar na pilha, não funciona. A pilha gera calor pois fermenta e isso acelera o processo.
A vermicompostagem ou compostagem com minhocas é recomendada para área urbana e tem muito mais chances de sucesso.
Visite nosso blog que tem muitas dicas de compostagem.

abç

http://estagiositiodosherdeiros.blogspot.com.br/p/blog-page.html

marcia disse...

Eu uso vaso plástico(40 cm de altura por 38 de diâmetro). Deixo o chorume em contato com a terra e se possível nos pés de amora ou jabuticaba. Antes, colocava prato de va

Taís Tozatti disse...

Olá Carol, seu post foi muito útil para minha decisão de ter composteira no meu apto. Pesquisando encontrei uma interessante na Amazon:https://www.amazon.com/dp/B0121B5474/ref=twister_B017L2TMQW?_encoding=UTF8&psc=1 e um video amador sobre como usá-la: https://www.youtube.com/watch?v=Pwu21uR1oBQ.
Grande abraço e gratidão pela sua coragem e generosidade em compartilhar.

Anônimo disse...

Acho que o mais importante é não adotar uma prática, tão eficiente e vantajosa, apenas por modismo, primeiro deve-se buscar bastante opções, a falta de informação sobre o que vai na conposteira só confirma que a compra da autora foi feita sem conhecimento da técnica de compostagem, valeu a matéria. Só acho que a introdução, onde passa sua experiência, não traduz as verdadeiras facilidades e dificuldades da compostagem, o que pode levar outros interessados a terem ideias equivocadas. Tenho 2 conposteira com capacidade total de aprox. 100 litros, feitas artesanalmente, com minhocas compradas pela internet, e que ja me dão um excelente adubo.