quinta-feira, 9 de julho de 2015

Voltar para dar aula na Instituição por onde me formei



Eu sempre vi a docência como uma opção de longo prazo, mas não esperava nunca voltar à Instituição por onde me formei para lecionar com apenas 39 anos.

Em 2009, aos 33 anos, eu me formei como Técnica em Segurança do Trabalho pelo Senac. Com uma faculdade de Economia eternamente trancada, para não dizer abandonada, eu vi na Escola Técnica a opção de ter o emprego dos meus sonhos: embarcada em plataforma desenvolvendo função de campo, longe de planilha. Ex economista de multinacional que vivia no cheque especial (e atrás de um computador), foi com esse diploma de nível médio que eu trabalhei para a maior empresa de perfuração do mundo, embarquei em unidades com pessoas de 25 nacionalidades distintas à bordo, fiz amigos, aprendi a viver com pouco e até comprei meu primeiro apartamento, apesar de ganhar menos do que a maioria dos economistas.

Esse blog mesmo só surgiu porque eu me sentia muito sozinha em alto mar, apesar de adorar tudo, e então, comecei a escrever como hobby sobre um assunto da qual sempre gostei, sustentabilidade, mas que até então, não tinha prática alguma. Deu certo, conheci um monte de malucos que pensavam como eu, formei parcerias com pessoas que sempre admirei à distância, fui voluntária em Parques Nacionais, participei de um monte de oficinas na área, pude ajudar os outros e, por outro lado, pude contar com a ajuda de muita gente também. Hoje, fico admirada quando alguém manda uma mensagem na linha "Aquilo que você escreveu, mudou a minha vida, nunca tinha pensado nisso".
Mas a verdade, é que diploma nenhum substitui a prática, o pouco que eu sei sobre sustentabilidade, foi na base da tentativa e erro, mais erros do que acertos por sinal.

Um técnico em segurança no trabalho, além de trabalhar mais em campo do que um engenheiro, tem um registro junto ao CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) de nível médio, que o capacita a desenvolver determinadas competências em um patamar abaixo do engenheiro. O foco é multidisciplinar, mas o TST geralmente subordina-se ao Engenheiro-Gerente de SMS (Segurança, Meio Ambiente e Saúde), sendo responsável pelas análises de risco laboral e ambiental, elaboração de rotas de fuga, programas de prevenção, controle dos equipamentos de segurança coletivos e individuais, treinamentos e, em muitos casos, reciclagem de todos os resíduos. Tem que ser detalhista e observador, não pode deixar fio solto nem fazer corpo mole. Apesar de ter focado na área de off-shore desde o início do curso, por uma mera questão de praticidade, defendi minha monografia de conclusão sobre construção civil com fotos do canteiro de obras e acho que foi bom, porque me deu outra visão e me obrigou a estudar o que eu não pegaria para ler nem como curiosidade.

Eu acredito que poucas coisas na vida sejam mais louváveis do que ser aceito para dar aulas na Instituição por onde uma pessoa se formou, fico honrada em ver que os muitos sacrifícios que eu fiz ao longo de todos esses anos, não passaram em branco. Hoje, sou grande entusiasta do ensino técnico de nível médio, acredito que seria a base da revolução educacional nesse país de analfabetos funcionais, uma plataforma viável de erradicação do desemprego sistêmico e da redução do exército reserva de mão de obra no setor de serviços.
Um técnico de nível médio é alguém que sabe um ofício, o meio de campo entre os graduados e quem não tem nenhuma formação, ou apenas o capacitante.
Mesmo entre os bem nascidos, o que era o meu caso, a formação técnica abrevia muitas decepções. Aos 18 anos, sem nenhum conhecimento do mundo e de si mesmo, fazer um curso técnico e poder trabalhar um pouco na área, permite que alguém muito inexperiente, tenha pelo menos uma ideia do que o espera pelos próximos 50 anos. A pessoa tem tempo de viver e entender a dinâmica da profissão e, se for o caso, partir para algo completamente diferente de forma muito menos traumática. Ainda há tempo até de fazer outra formação técnica antes de arriscar uma graduação cara com 5 anos de formação, que vai rotular (e restringir) aquele profissional para o resto da vida dele.
Enfim, ter sido técnica de plataforma ajudou-me até a voltar para a faculdade.

Como técnica, tive acesso a um mundo que a maioria dos graduados nem sabe que existe. Fiz formações em paralelo que me abriram um leque de opções, formações capacitantes para pessoas que nem o ensino técnico de 1 ano após o segundo grau seria possível. Estudei e convivi com radioperadores, eletricistas, operadores de óleo, brigadistas de incêndio, socorristas da Cruz Vermelha, instaladores-projetistas de painéis solares e até soldadores. Embarcada, só ia e voltava do trabalho de helicóptero. Enfim, uma diversão! Pelo menos dentro do que eu considero divertido.
E no final das contas, é basicamente isso que importa.



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3 comentários:

Paulinha disse...

Te admiro demais, seus posts são inspiradores, Em algumas coisas já consegui mudar na minha vida, mas ainda tem muitas para serem modificadas.
Temos o mesmo crachá, só que o meu é de sp!
=)

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Oi. Vc é maquiadora? Professora Americana?

Ana. disse...

Concordo plenamente! Precisamos de mais técnicos, colocar a mão na massa, só a prática para adquirir excelência. Você tem uma visão inteligente.