domingo, 15 de novembro de 2015

Guatemala mostra como viver de floresta

Não sou fã de replicar artigos, mas como estamos precisando muito de um pouco de esperança, quem sabe, assim, um bom exemplo nos inspire e exorte a algo maior.




O carro está parado no acostamento, todos os passageiros desceram e olham para cima. Na copa das árvores altas há duas sombras e algum movimento. A dupla de macacos-aranha logo some na floresta, e os carros avançam pela estrada, com mato denso pelas beiradas. Trata-se da Reserva Maia da Biosfera (RMB), o maior corredor de biodiversidade da América Central, que envolve as pirâmides de Tikal, o coração da civilização maia, no norte da Guatemala. Na floresta, ruínas maias espalhadas por todas as partes lembram o passado, enquanto comunidades rurais há mais de 20 anos provam que é possível viver da floresta.

Criada em 1990, pela Unesco, a reserva tem um objetivo duplo: preservar a floresta e promover o desenvolvimento social.

Florestas representam hoje cerca de 15% da superfície da Terra e contêm perto de 25% de todo o carbono que existe na biosfera. Conservar florestas é uma maneira de combater o aquecimento global, de preservar a biodiversidade e de garantir recursos hídricos. A experiência guatemalteca, de assegurar a posse da terra às comunidades locais é uma tentativa de reduzir a pobreza, dar emprego e produzir renda explorando recursos naturais de modo sustentável.




Nesse pedaço de floresta tropical, que também alcança o México e Belize, estão os mais de dois milhões de hectares da Reserva Maia, 1.400 espécies de plantas e 450 de pássaros e mamíferos. Tem onça, anta e quati, mognos e cedros em abundância, além de cerca de 180 mil pessoas. As concessões florestais gerenciadas por comunidades rurais guatemaltecas cobrem quase 400 mil hectares, perto de 20% da área total da reserva.

As florestas se concentram no Petén, um dos 22 Departamentos da Guatemala, ao norte do país. Por aqui, de 350 mil a 500 mil turistas chegam todos os anos, para conhecer as pirâmides de Tikal, um dos centros arqueológicos maias mais famosos do mundo. O guia explica aos turistas americanos e europeus por que o número nove era especial para os maias, o tanto que conheciam de astronomia, a importância que davam a solstícios e equinócios, como guardavam a água da chuva.

“Na Guatemala há 23 grupos indígenas diferentes”, diz Ivan Arnoldo Arredondo Crasborn, gerente-geral da comunidade Carmelita, da etnia keckhí. Não longe de Tikal, às vezes no meio do caminho de outras ruínas maias famosas, vivem comunidades rurais que fazem manejo florestal e tiram da mata produtos madeireiros e não madeireiros.

Cerca de 30 comunidades se beneficiam de concessões florestais na Guatemala. Há atualmente 11 concessões florestais, sendo nove comunitárias e duas empresariais. Estima-se que o número total de pessoas beneficiadas diretamente nesse processo esteja ao redor de 14 mil e, indiretamente, 70 mil. No Departamento de Petén calcula-se que vivam 640 mil pessoas. 



No passado, e até recentemente, os extrativistas se especializaram na exploração de chicle, uma resina que escorre da árvore que eles chamam de “sapota” ou “zapota” (que no Brasil é conhecida como sapoti) e que deu origem à goma de mascar. Atualmente o chicle não é tão popular, o mercado está em baixa e é difícil competir com o equivalente sintético. “Além disso, a lei do chicle é injusta”, diz Freddy Molina, da Associação das Comunidades Florestais do Petén (Acofop), entidade que reúne 24 organizações comunitárias. “O lucro da exploração do chicle tem que ser dividido com as prefeituras e sobra pouco para os extrativistas.”

O chicle não é mais o principal produto explorado nas concessões. Há muito mogno, cedro e outras madeiras nobres, que eles exploram de maneira sustentável. Nos produtos não madeireiros, a estrela é o xate, uma folhagem ornamental que exportam aos EUA. Outros preferem colher “pimientas gordas” ou fazer biscoitos e farinhas a partir da semente da árvore que chamam “ramon”.

Mas viver da floresta não foi um processo fácil na Guatemala, a maior economia da América Central, que vive basicamente de commodities e tem os Estados Unidos e alguns países asiáticos como principais mercados.

Foi para essas matas que muitos migraram durante a guerra civil que abalou o país por 36 anos, matando 150 mil pessoas e deixando 40 mil desaparecidas. O Exército mandava desmatar para atacar a guerrilha que ali se escondia. “O desmatamento se intensificou significativamente, convertendo vastas áreas de florestas em fazendas de gado”, diz estudo publicado em 2013 por pesquisadores da Rainforest Alliance e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A taxa de desmatamento chegou a 75 mil hectares anuais — o que é um número assombroso considerando-se que no Brasil, nos piores momentos desde que o monitoramento foi iniciado, a taxa de desmatamento na Amazônia chegou a 27 mil hectares em um ano. 

Os esforços de proteção das florestas da Guatemala começaram no final dos anos 80, impulsionados por organizações internacionais que queriam que o governo preservasse as florestas do Petén. Em 1990, a Reserva Maia da Biosfera foi criada. O problema é que ali já existiam várias comunidades vivendo na mata havia décadas. “Os grupos conservacionistas não deixavam fazer nada. As pessoas começaram a viver em estado de alarme”, conta Manuel Martinez Gonzalez, da Cooperativa Técnica Agropecuaria.

A criação da reserva trouxe conflitos. Quem vivia desde sempre em Carmelita, Cruce a Dos Aguadas, La Pasadita, San Miguel la Plotada e Uaxactún, com seus sistemas próprios de manejo da floresta, se sentia ameaçado pela criação da unidade de conservação e pela falta de informação do governo. Queriam acesso aos recursos florestais e se sentir seguros em relação a permanecer na terra.

O governo abriu o processo de concessões, mas apenas para empresas. Em 1995, movimentos de descontentes com a situação criaram a Acofop, que se beneficiou do apoio de ONGs e doadores internacionais e começou a negociar concessões para seus membros.

“Vivemos uma política de desenvolvimento comum à América Latina”, conta Teresita Chinchilla, diretora-técnica de Acofop. “A meta do governo era colonizar o Petén. Os colonos tinham que desmatar para demonstrar que estavam ocupando a terra.”



É um processo idêntico ao que ocorreu no Brasil, no processo de colonização da Amazônia. O desmatamento nas florestas do Petén foi mais forte nas franjas do sul. A grande ameaça, ainda hoje, continua sendo o fogo. Muitos focos de incêndio se iniciam na prática agrícola de limpeza da terra.

Para pedir uma concessão, a comunidade tem que mapear suas áreas de uso tradicional e acertar os limites fronteiriços com a vizinhança. Se aprovada, o passo seguinte é fazer um inventário florestal que sirva de base ao plano de manejo da floresta. O contrato de concessão é assinado por 25 anos, dando direitos exclusivos a todos os recursos florestais que tiverem sido previstos. O acordo pode ser cancelado se o plano de manejo não for seguido. A primeira concessão foi dada em 1994.

As florestas do Petén são muito ricas em mogno, madeira nobre que no Brasil sofreu forte exploração clandestina e quase foi extinta. Os planos de manejo nas concessões guatemaltecas são cuidadosos, com ciclos de corte em determinada área acontecendo de 30 a 40 anos. Apenas 1,5 a 3 árvores são retiradas por hectare e 30% das árvores permanecem em pé, para fornecer sementes.

“O mogno é a árvore de maior valor econômico da região”, diz o engenheiro florestal Wilson Martinez, que assessora a comunidade El Esfuerzo. Ele explica como são escolhidas as “sementeiras”: “São árvores retas, saudáveis e com copa mais alta que as vizinhas para garantir a melhor dispersão de sementes.”

As ameaças à floresta na Guatemala são as mesmas que as da Amazônia — invasões, fronteira agrícola, falta de alternativa de renda, mineração. A guerra teve um efeito devastador no passado, e no presente há o tráfico, que eles chamam de “narco ganaderos”. O dinheiro das drogas é “lavado” com pecuária e imóveis.

Um estudo de 2014 do World Resources Institute, centro de estudos de clima, desenvolvimento e florestas baseado em Washington, comparava as taxas de desmatamento dentro de terras indígenas e onde há comunidades locais, e fora dessas áreas. Em algumas regiões da Guatemala o desmatamento é 20 vezes menor dentro de áreas de comunidade do que no resto. 

Entre os benefícios sociais das concessões florestais estão os salários, que ficam acima do salário mínimo, pontua Teresita Chinchilla, da Acofop. “Geram-se impostos pagos ao Estado, empregam-se mulheres, a migração aos grandes centros é reduzida”, continua. Mesmo com o êxito, as concessões florestais comunitárias podem estar sob ameaça.

O país acaba de eleger presidente o humorista conservador Jimmy Morales, 46 anos. “A Guatemala se decidiu pela antipolítica”, cravou o “El País” em 26 de outubro, dia seguinte ao segundo turno das eleições. O antecessor, o general Otto Pérez Molina, renunciou em setembro junto com sua vice e ministros, sob acusação de corrupção.

A preocupação das comunidades locais que vivem da floresta é que o novo mandatário queira rever o projeto de concessões. Está quase expirando o prazo das mais antigas. Outra ameaça à floresta é a exploração de petróleo. Até agora só houve pesquisa, não ocorreu extração. As florestas do Petén estão sobre a mesma bacia de petróleo que Belize e o México.


Fonte: Valor Econômico




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