terça-feira, 31 de maio de 2016

Ressacas marinhas são um fenômeno natural, previsível e contornável



Como não dá para viver só do salário de professora, comecei a dar umas auditorias e consultorias pelo interior. É interessante, estou gostando e, por uma dessas alegrias da vida, a primeira cidade onde aportei foi Navegantes, em Santa Catarina.
Eu sempre quis conhecer Navegantes, nos meus tempos de plataforma, trabalhei com muita gente boa de lá e ouvia maravilhas daquela "praia reta com uma faixa fina de areia que chega a 12km".
Então, fui conhecer essa praia, que realmente redefine o significado de comprido. Mas o que mais chamou minha atenção não foi a praia com sua vasta extensão, nem a delícia que é uma cidade pequena e pesqueira, mas a restinga totalmente preservada que acabou com problemas de ressacas.

Recentemente, uma ciclovia elevada desabou no Rio de Janeiro, matando pelo menos 3 pessoas. As autoridades locais culparam o mar e até uma onda de grande porte tradicionalmente associada às famosas ressacas da nossa orla. Eu não quero me estender no ocorrido, já que havia construções de mais de 100 anos fazendo a contenção de base do viaduto elevado contíguo em perfeitas condições até hoje. Não precisa ser engenheiro calculista nem especialista em cálculo estrutural para notar que o que levou a ciclovia Tim Maia da Av. Niemeyer abaixo foram falhas de execução no projeto, má qualidade no material usado e até a ausência de previsão ao efeito das ondas que arrebentam naquela pedreira desde que o mundo é mundo. As páginas de fotos antigas do Rio no Facebook foram pródigas à época mostrando fotos em preto e branco de ressacas da orla carioca desde o século XIX.
Na ciclovia da Niemeyer, a culpa não foi da onda, caso contrário o viaduto elevado com movimento muito maior de carros e caminhões já teria vindo abaixo há décadas. E não é possível preservar qualquer restinga naquela área, uma pedreira em mar aberto de onde eu mesma já avistei uma baleia. O que está realmente faltando é uma posição formal das autoridades e a apuração das causas para solucionar um problema que deveria ter sido banal. Assunto encerrado.


Há quatro anos, durante a Rio+20, na Cúpula dos Povos, assisti a uma palestra da Ong EcoSurf sobre a importância da preservação da restinga nas costas brasileiras, do trabalho sério de conscientização que os surfistas cariocas realizaram nas praias do Recreio dos Bandeirantes e de como nenhuma edificação e obra de contenção desenvolvida pelo homem foi capaz de segurar o avanço do mar, além da vegetação rasteira das restingas que, justamente por ser rasteira, é enraizada e cria uma teia que mantém a areia mais densa, formando assim uma barreira natural de contenção.
Esses surfistas e ativistas mostraram muitas fotos de diques, muros e casas inteiras que vieram abaixo em horas numa maré alta. Depois, mostraram fotos das mesmas regiões completamente recuperadas, com calçamento preservado e casas seguras em suas orlas apenas com a manutenção da vegetação rasteira da restinga.
Outra briga boa deles é contra o despejo de esgoto in natura na Barra da Tijuca e em São Conrado.
Para nós, humanos que devastamos a costa brasileira, já que para estabelecer 80% da população do país na orla, precisamos asfaltar e pavimentar tudo, pode ser estranho compreender como um matinho de nada, consegue ter mais força do que o concreto armado. Mas a natureza estava certa mais uma vez, nada segura a força das ondas em cidades litorâneas, além da vegetação rasteira e despretensiosa das restingas.



Como estava em Navegantes a trabalho, fui atrás e toda a população local com quem conversei confirmou o mesmo do pessoal da EcoSurf, antes da reimplementação da restinga então devastada, a via pública, o calçamento adjacente e todas as casas da orla viviam ameaçados de virem abaixo com as ondas mais fortes. Contam que "agora, a praia ficou mais mansa."

Eu gostei muito de tudo, do bom gosto dos caminhos e deques de madeira que viraram pontos de visitação, da vegetação rasteira que na primavera floresce com flores brancas, amarelas e roxas (ipoemas e açucenas), algumas bromélias, poucas árvores que estão ficando um pouco altas e garantem mais privacidade à praia. A possibilidade de caminhar nesses deques para assistir ao por do sol ou mesmo continuar frequentando a praia em dias nublados, fez do próprio local um ponto turístico cercado de verde.

Repare na ciclofaixa adjacente à via pública e como a vegetação varia, mais alta em alguns pontos e rasteira em outros.














Uma obra rápida e barata (para padrões brasileiros), do jeito que a população gosta.








Praia da Barra e Recreio até os anos 50, hoje e a restinga preservada em área de reserva ambiental, graças à mobilização dos moradores.






Para quem ainda não acreditou na nossa impotência diante da força do mar, veja melhor nas fotos abaixo:

Praia de Copacabana, início do Século XX, Hotel Copacabana Palace ao fundo




Ressaca na Av Beira Mar em 1919



Ressaca no antigo Mercado Municipal em 1921



A famosa ressaca de 1963, também em Copa




Praia de Piratininga, Niterói



Ciclovia Tim Maia com as obras de mais cem anos intactas







Atualização de 20/06/2016:
Mar invade duas obras olímpicas em Copacabana
Ressaca destrói obra de ciclovia que custou R$ 2,1 milhões em Caraguá




Fotos de Navegantes, Florianópolis e São Francisco do Sul: Abramar Incorporadora, BandSC, Prefeitura de Navegantes, Notícias do Dia, O Sol Diário
Fotos antigas do Rio de Janeiro: Rio que passou e Rio que mora no mar.
Piratininga, Niterói: Misterfreitas
Ciclovia Tim Maia: ArchDaily.com.br
Barra e Recreio: Nova Barra Bonita, História da Barra, Conhecendo o Rio de Janeiro






Por uma dessas tristezas da vida, perdi todas as fotos que fiz nessa viagem, tive que baixar as fotos de Navegantes, Florianópolis e São Francisco do Sul de sites avulsos buscando pelo Google Images.
Abaixo, a única foto minha que se salvou, feita na barca para Itajaí, atravessando o rio Itajaiaçu, que vem do Paraguai e atravessa mais de mil quilômetros.





Mais informação:

                                                 




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